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Artigo

ANTIGO TESTAMENTO

Nos relatos do Antigo Testamento presenciamos a história do povo hebreu durante quase dois mil anos, desde a vinda de Abraão à Palestina até a instalação da dinastia dos Hasmoneus (cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em conexão, ora maior ora menor, ora direta ora indiretamente, com a dos povos vizinhos, sobretudo dos grandes impérios, entre os quais a Palestina jazia como ponte: ao sul, o Egito; ao norte, sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros tantos centros de civilização, que se irradiava entre os povos submetidos ou vizinhos, formando uma vasta unidade cultural. No meio dessa civilização comum movia-se o povo de Israel, sofrendo a sua influência. Nas artes e na indústria, Israel jamais desenvolveu uma civilização própria; ficou devedor ao estrangeiro, como também a sua língua e literatura trazem o cunho da origem comum ou do prestígio de outros povos socialmente mais evoluídos. No entanto, a ausência de originalidade e independência de civilização material, põe em muito maior relevo o valor das instituições religiosas e morais, elementos básicos da civilização genuína e completa que foram glória exclusiva desse povo eleito.

 

Valor da interpretação. O Antigo Testamento é uma obra verdadeiramente divina porque inspirada por Deus e porque nos apresenta, pode-se dizer, em cada uma de suas páginas, a ação de Deus sobre os homens. Ao mesmo tempo, porém, é uma obra profundamente humana, porque destinada aos homens, fala uma linguagem humana e nos apresenta, na sua história, os homens tais quais são, com suas deficiências e rebeldias contra os desígnios divinos. Não costuma encobrir as faltas dos seus heróis; Davi, por exemplo, de quem narra os pormenores do adultério e do homicídio (2Sam 11). Mas ao lado do escândalo aparece a correção. Que há de mais edificante do que a santa ousadia de Natan em lançar à face de seu soberano o duplo delito, do que o arrependimento e a humilde confissão de Davi, o perdão da culpa, seguido da execução dum castigo da parte de Deus? (2Sam 12). Outras vezes o pecado é censurado mais abertamente (Gên 38,9-10). Só os fariseus poderiam escandalizar-se com tais narrativas, motivos de ensinamento! Além disso, quão poucos são eles em comparação com tantos exemplos de nobres virtudes! São apenas sombras humanas a dar maior realce às luzes divinas da história sagrada. As não poucas cenas de sangue que ela relata, não passam dum reflexo daqueles tempos rudes e ferozes. Também os anais de outros povos orientais estão repletos delas, distinguindo-se os dos hebreus até por um maior senso de humanitarismo; os reis de Israel gozavam de fama universal de clemência (lRs 20,31).

A relativa brandura dos hebreus derivava da legislação que Deus lhes dera por intermédio de Moisés. A pena de morte é aplicada mais raramente do que no código de Hamurabi, e quase só por meio de apedrejamento. Reconhece a lei de talião, em voga nos costumes dos povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28-32). Assim em outras asperezas (vingança do sangue) ou relaxamento de costumes (poligamia, divórcio) a lei, encontrando costumes inveterados e não podendo desarraigá-los totalmente, intervém para os refrear e regulamentar (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe os deveres de humanitarismo também para com o próprio adversário (Êx 23,4-5) e estabelece a medida da mútua benevolência, com o preceito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lev 19,18), donde a norma: "Não faças aos outros o que não te agrada" (Tob 4,16). Para com os estrangeiros, as viúvas, os órfãos, em suma, os mais necessitados, recomenda considerações especiais (êx 22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o próprio Deus, especialmente pela pregação dos profetas, faz-se seu advogado e protetor. Contra o abuso da escravidão, praga da sociedade antiga, a lei mosaica, além de múltiplas restrições (Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18), já defende o princípio de igualdade dos homens perante Deus (Lev 25,42). Nada disso se encontra em outros códigos orientais, sem falar na genuína doutrina religiosa, própria do Antigo Testamento, que também ê fator autêntico de verdadeira civilização. Por outro lado, as suas mais nobres eminências o Antigo Testamento as atinge nos seus profetas, figuras grandiosas de poetas e de heróis.

Em comparação com a sublime doutrina evangélica, a lei antiga, evidentemente, é bem imperfeita; para aqueles tempos e povos antigos, porém, era uma lei santa, que trazia em si os germes de um pleno aperfeiçoamento. Era uma instituição religiosa preparatória para um regulamento definitivo, que devia ser trazido pelo Messias, por Cristo. S. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou a lei mosaica ao pedagogo, que conduz os discípulos à escala do Mestre, de Cristo. As próprias falhas do Antigo Testamento levavam a desejar o Senhor e Salvador, cujo advento fora anunciado pelos profetas.

Observa-se, puis, um progresso vital do Antigo ao Novo Testamento, como do embrião que se desenvolve num organismo perfeito. Deste caráter do Antigo Testamento e desta sua relação com o Novo, deriva uma conseqüência importante para a sua correta interpretação, pois as suas instituições deviam ter alguma semelhança com as do Novo; eram as suas imagens antecipadas. Analogamente quanto aos fatos históricos e às pessoas desse "drama" divino, que no Novo Testamento recebem a sua conclusão. Os apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40; Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumas dessas imagens antecipadas que, a exemplo de S. Paulo, costumam chamar-se tipos ou figuras; o objeto por elas vislumbrando chama-se antítipo ou figurado. Daí se segue que no Antigo Testamento, além do sentido das palavras chamado verbal ou literal, há que reconhecer um sentido das coisas, chamado real ou típico, e às vezes menos felizmente, místico e alegórico. Entre estas duas categorias de sentido há conexão, mas ao mesmo tempo grande diferença. O sentido literal (que pode ser próprio ou impróprio, isto é, metafórico) não pode faltar em nenhum dito da Escritura e acha-se freqüentemente sem o típico, do qual é fundamento necessário. O típico, ao invés, jamais pode disjungir-se do literal e não existe em toda parte, mas tão-somente onde há verdadeira semelhança e relação com algo de análogo no Novo Testamento.

A autêntica originalidade do Antigo Testamento consiste na sua doutrina religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a idéia do monoteísmo. Na expressão artística do pensamento, porém, não difere muito dos produtos das línguas e literaturas irmãs, em particular da acádica e da fenícia (ugarítica). A língua hebraica, bastante parca de conjunções subordinativas, costuma exprimir-se em proposições breves coordenadas com a simples aditiva: e... e... Resulta daí certa dureza e monotonia, sobretudo na parte narrativa, que as versões modernas devem atenuar, ligando e construindo à nossa maneira usual.

O estilo hebraico é imaginoso e concreto; exprime-se com metáforas ousadas e imagens exuberantes, apresentando as coisas abstratas e espirituais com termos realistas capazes de chocar nossos costumes e gostos mais refinados. Em particular fala de Deus e de suas ações em termos de atividade humana: mãos, olhos, ouvidos (antropomorfismo), ficar sentido, comover-se, arrepender-se (antropopatismos), e semelhantes. Que o leitor não se admire disso, nem se deixe levar a erro. Sob a aparência muitas vezes áspera, oculta-se sempre um pensamento nobre e puro.


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