O Papa, o Islã e a covardia

 

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

17 de setembro de 2006.

 

Deus tem suas datas. No domingo em que o mundo islâmico, em polvorosa, se ergue em protesto contra o Papa Bento XVI, a Igreja proclama o evangelho da cruz: “Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34).

Mas a cruz não é palavra que se ouça com freqüência em muitas igrejas. Fez sucesso, nos últimos tempos, uma visão adocicada e inócua do cristianismo e de Jesus. Para alguns, Jesus seria um destes pacifistas meio hippies e nômades que vivem apregoando obviedades inofensivas. Se assim fosse, não se explicaria como o homem foi acabar pregado numa cruz. Se Jesus fosse assim, não mereceria nem sequer respeito, muito menos fé e adoração!

O cristianismo não prega a salvação desta vida a qualquer custo. A mensagem de Cristo é corajosa e destemida, e continua incomodando a muitos. O Evangelho, no mais das vezes, custa ao evangelizador sua própria vida.

É isto o que Jesus, a duras penas, ensina a Pedro no evangelho deste domingo (Mc 8,27-35). O Príncipe dos Apóstolos professa a fé da Igreja: “Tu és o Messias”. Mas, logo em seguida, o divino Mestre anuncia que esta fé tem a cruz como conseqüência. Cruz que deve ser corajosamente carregada, não somente pelo Cristo, mas também por seus discípulos.

A covardia faz com que Pedro chame Jesus à parte e tente, timidamente, repreender o Mestre. Mas o Senhor não tolera segredinhos ao pé do ouvido e, diante dos discípulos, dirige a Pedro talvez as palavras mais duras de todo o evangelho: “Vai para longe de mim, Satanás!... Quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la”!

Os cristãos apreciam a paz e a tranqüilidade, mas não a qualquer custo. O Papa Bento XVI é o sucessor de Pedro, mas não é o imitador de seus erros. O timoneiro da Igreja é um homem e não um verme.

Recapitulemos os acontecimentos dos últimos dias. Em visita a sua terra natal, o Papa teve a oportunidade de proferir, mais uma vez, uma aula magistral na mesma Universidade onde fora professor. O tema da aula: fé, razão e universidade. Durante seu discurso, o Papa demonstra de forma irrefutável que a irracionalidade não tem nada de divino. E, neste contexto, denuncia o uso da violência e do terror.

Alguns dias depois, como bomba de efeito retardado, o mundo muçulmano explode em indignação, acusando o Papa de “convocar uma nova cruzada”.

Logo em seguida, assistimos as tentativas infrutíferas da Santa Sé de dialogar com o mundo islâmico, que faz ouvidos de mercador. As declarações se deram num crescente hierárquico: o diretor da Sala de Imprensa, o Secretário de Estado e, finalmente, o próprio Sumo Pontífice. A imprensa brasileira, por ignorância ou por má fé, reportou estas declarações da pior maneira possível: “Papa lamenta o discurso que fez”. Seja maldade, seja burrice, esta gente parece não ter compromisso com a verdade.

As três declarações são claras: o Papa não lamenta o que disse. Lamenta apenas duas coisas: a) que o seu discurso tenha sido mal interpretado e b) que as sensibilidades tenham reagido assim. Mas o conteúdo do que ele disse permanece de pé. E o que disse de tão grave?

Disse o que muitos enxergam, mas poucos têm coragem de dizer: usar Deus e a religião para justificar a violência é contrário à natureza de Deus e da própria religião.

O Islamismo é uma religião que merece respeito. Mas, em alguns lugares, não se pode negar que esta religião foi raptada por uma ideologia de irracionalidade e violência. Esta ideologia política abusa do nome de Alá e da religião Islâmica para justificar uma carnificina de inocentes.

Apesar das explicações do Papa, o que se vê? Protestos de governantes islâmicos, queixumes de líderes religiosos, bombas incendiárias, ameaças de ataques terroristas ao Vaticano e passeatas, várias passeatas, aos gritos de que o Papa seja enforcado e os inimigos do Islã massacrados. Tudo isto, ironicamente, demonstra apenas uma coisa: o Papa tinha razão. A irracionalidade e a violência não podem seqüestrar uma religião desta forma!

 Os seguidores e os líderes muçulmanos devem compreender uma coisa. Eles podem ter a nossa tolerância, mas só conquistarão nosso respeito quando usarem suas passeatas, declarações e protestos para condenar, não um homem de Deus, mas a brutalidade monstruosa do terrorismo. Só esta atitude poderá redimir o Islamismo aos olhos do Ocidente.

Mas também o Ocidente precisa se redimir. Nossa sociedade, covarde, preferiria, como o Pedro do evangelho, que o Papa ficasse calado. Este mesmo Ocidente que hipocritamente recrimina os Papas de negligência diante do nazismo, agora exige prudência diante do surgimento de um regime ainda pior: o fascismo de inspiração islâmica. Na verdade a doença do Ocidente não é apenas covardia. Se fosse assim, uma simples chamada ao brio e à virilidade resolveria o problema. A doença é mais grave. Trata-se de AIDS espiritual.

O corpo com AIDS, já não sabe distinguir entre o vírus inimigo e o alimento saudável. O organismo não tem coragem de dar ao vírus o seu nome próprio, por temor de “ofender-lhe os nobres sentimentos”! Tal a doença do Ocidente: AIDS espiritual; falta-nos força moral para identificar o mal e, uma vez identificado, combatê-lo. Com isto, a violência, o fanatismo e a irracionalidade irão continuar sem seus nomes horrendos, disfarçados simpaticamente de legítima defesa, fervor e devoto arrebatamento.

Mas, a nós brasileiros, tudo isto importaria muito pouco, se a pusilanimidade fosse apanágio exclusivo do além-mar. Por aqui, enquanto os PCCs e Comandos Vermelhos reduzem nossas cidades ao estado de sítio, falta-nos um Bento XVI.

Nossos eminentes pastores, católicos e evangélicos, nos envergonham ao acorrerem pressurosos na defesa dos direitos dos... delinqüentes. E, se a mídia chique e as ONGs de esquerda se acotovelam para aplaudir os novos profetas, uma população inteira de covardes se tranca dentro de casa, como tantas velhinhas que, de mãos trêmulas, desejam assegurar suas últimas jóias.

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la!” Não nos damos conta que, querendo salvar nossas vidas, renunciamos à própria liberdade. Os cristãos desejam a paz, mas não a qualquer custo. Desejam salvar esta vida, mas não fazem dela um valor absoluto.

Não nos iludamos, quando homens de esquerda vierem com seu discurso “a favor da vida” (e invariavelmente também a favor do aborto!) e desejarem salvá-la, custe o que custar. A vida de que falam não é a vida verdadeira. A política “a favor da vida” é o novo nome do velho materialismo.

Os terroristas, aqui e além-mar, contam com isto. Contam com o materialismo que se instalou no Ocidente. Materialista, geralmente, não arrisca a vida. Ele não terá outra! Contam com nosso materialismo, mas aqui se enganam. A fé cristã ainda não está morta. Ainda há quem diga: “Vosso amor vale mais do que a vida”. Contam com o materialismo e, por isto, odeiam as palavras do velho Papa. Eles sabem que elas, e somente elas, podem acordar o grande gigante adormecido. O gigante que gerou este Ocidente, democrático e livre: o homem cristão. 


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