PERGUNTE E RESPONDEREMOS 386/julho 1994

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In Memoriam:

DOM ALVARO DEL PORTILLO

Apresentamos o artigo da Profa Maria Helena Nery Garcez, Livre Docente de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), sobre D. Alvaro del Portillo, recém-falecido Prelado (ou Superior Geral) do Opus Dei.

O Opus Dei é uma sociedade católica que reúne fiéis de ambos os sexos, entregando-lhes um programa de vida espiritual e recordando-lhes que são todos chamados à santidade; desta maneira forma cristãos de todos os meios sociais na prática da oração e no cumprimento de seus deveres de família e de profissão, ao mesmo tempo que lhes confia o interesse apostólico em prol da santificação do mundo. Ver a propósito uma longa explanação do que seja o Opus Dei em PR 264/1982, pp. 345-361 e PR 267/ 1983, pp. 167-171. Sobre Mons. Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei, ver PR 359/1992, pp. 156-165.

Agradecemos à Profa Maria Helena Nery Garcez a sua valiosa colaboração e fazemos votos para que o Opus Dei continue a desenvolver a nobre missão que o Senhor Deus lhe outorgou na sua S. Igreja para a santificação do mundo.

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Aos 23 de março de 1994, ocorreu o falecimento de D. Álvaro dei Portillo, Prelado do Opus Dei. Faleceu repentinamente, no dia seguinte ao de sua chegada de uma peregrinação e viagem apostólica à Terra Santa. Era sua primeira visita a Jerusalém e aos lugares onde decorreu a vida de Jesus e posso imaginar o quanto tal experiência deve ter comovido "o Padre" (era assim que o chamávamos, nós os fiéis da Prelazia). Os fiéis da Prelazia e todos quantos dele se aproximavam sentiam o influxo de seu grande coração. O Padre deixou-nos; sua última Missa foi celebrada no Cenáculo de Jerusalém, precisamente no local em que Jesus instituiu a Eucaristia e, com seus discípulos, comeu a úitima Páscoa. No local onde diz o Evangelho de São João que, "antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus, que estavam no mundo, até o fim os amou" (Jo 13,1). Algo de muito parecido aconteceu ao Padre, é o que me ponho a pensar. Também ele amava a seus filhos do Opus Dei que estão no mundo, amava os Cooperadores da Obra, amava os que, de algum modo, nos amavam e, como seu coração era muito grande, amava também os que não nos amavam. Penso que ali, no Cenáculo, sua identificação com Cristo chegou a um ponto culminante; também ele teve presentes e amou até o fim a todos que estavam no mundo, pois é a todos que a Obra está dirigida, e lá, também, foi até o fim nesse amor. Ponho-me a pensar, sem triunfalismo, mas apoiada na extrema benignidade que irradiava de toda sua figura, que, dos lugares santos onde Jesus Cristo viveu, passou ao "lugar santo" onde Jesus agora está e já não olha apenas para os lugares onde Ele esteve, mas olha-O diretamente, face a face.

O Padre foi-se, e bem poderíamos atribuir-lhe outra palavra de Jesus: "Consummatum est", "Tudo está consumado" (Jo 19,30). Sim, porque o Padre poderia dizer isso de toda sua vida. Desde o dia 7 de julho de 1935, quando aos vinte e um anos recebeu a vocação ao Opus Dei, até o dia 23 de março de 1994, sua vida resumiu-se em fazer a Obra, cumprira missão que Deus lhe tinha encomendado. E sempre com serenidade, sempre com um sorriso.

Penso no encontro do jovem Álvaro del Portillo com o Fundador do Opus Dei, o Bem-aventurado Josemaria Escrivá, no sétimo ano da fundação da Obra. O Bem-aventurado recebera uma iluminação especial de Deus no dia 2 de outubro de 1928, festa dos Santos Anjos da Guarda, e vira o que o Senhor esperava dele: levasse a mensagem da chamada universal à santificação a este mundo, e movesse as almas dos fiéis à descoberta de que deviam ser "santos de altar". Tratava-se de revolver o mundo, de chamar a todos, homens e mulheres, jovens e menos jovens, casados e solteiros, cultos e menos cultos, ricos e pobres, a que descobrissem que Deus os esperava bem no meio de suas vidas, nas suas circunstâncias existenciais, no seu trabalho profissional, na sua vida de todo dia, para que O amassem e servissem naquilo mesmo que faziam, e aí se santificassem. Tratava-se de mover o homem comum a que saísse de sua vida aburguesada e empreendesse uma aventura espiritual, a aventura do heroísmo da santidade. Não era tarefa fácil num século XX, que já conhecera a primeira Guerra Mundial e que estava prestes a começar uma segunda na Espanha às vésperas da explosão de ódio fratricida que foi sua guerra civil. Não era tarefa fácil num século herdeiro das filosofias da "morte de Deus", em que as ideologias totalitárias provocavam revoluções nacionais atéias, tanto à esquerda quanto à direita. Não era tarefa fácil; por isto o fundador do Opus Dei, sozinho, animado por esse querer divino, pôs-se a rezar, a fazer penitência e a procurar outros que o entendessem bem, pois sua fé lhe dizia que, se Deus lhe tinha confiado tal missão, teria também disposto almas capazes para tanto.

No inicio as almas fugiam-lhe por entre os dedos das mãos, como enguias, contou-nos muitas vezes o Bem-aventurado Josemaria Escrivá, que, contudo, começava e recomeçava com teimosia sobrenatural. Depois, pouco a pouco, foram-se reunindo ao seu redor alguns rapazes universitários, a quem ensinava os caminhos da vida interior no mundo, estimulando-os a que fossem bons estudantes e bons cristãos. Entre esses, havia alguns a quem o Senhor chamara com vocação de entrega total ao trabalho de fazer o Opus Dei, arrimando o ombro junto ao fundador. Simultaneamente à chegada dessas vocações, chegavam também dificuldades de toda ordem e incompreensões, que o Fundador encarava com garbo e espírito sobrenatural, mas numa certa solidão, já que os primeiros membros eram muito novos na Obra para que pudesse com eles dividir o seu peso. Mons. Escrivá, certamente, dedicava-se com intensidade a formá-los e devia ter suas expectativas a respeito de alguns deles que tivessem a maturidade espiritual necessária para secundá-lo mais de perto. Teve, contudo, de esperar sete anos por isso, já que o encontro providencial com Álvaro del Portillo, formado em Engenharia de Estradas e de Obras Públicas, só ocorreu em 1935.

 

Foi no dia seguinte ao seu encontro com o fundador que o jovem de vinte e um anos decidiu a sua vida, pedindo admissão no Opus Dei. A partir daí desvendou-se para ele um panorama novo de atuação, cujas dimensões abarcavam todo o mundo. Não era apenas para projetar e fazer rodovias, estradas de ferro ou outras que o Senhor o criara. Era para santificar-se projetando e fazendo rodovias e estradas de ferro e para chamar outros a que santificassem o seu trabalho, qualquer que ele fosse, e não apenas na Espanha, mas em qualquer lugar do mundo. A partir daí o jovem dedicou-se de corpo e alma a essa missão e foi o fiel companheiro de todos os dias, de todas as alegrias e de todas as dores da vida do Fundador. Em 1995, Dom Álvaro del Portillo completaria 60 anos de vocação, entrega e serviço ao Opus Dei. Neste ano de 1994, no dia 25 de junho, celebraria o Jubileu de Ouro de sua ordenação sacerdotal. Efetivamente, foi em 14 de fevereiro de 1943 que o Bem-aventurado Josemaria Escrivá viu a solução jurídica para haver sacerdotes no Opus Dei, provindos das vocações dos leigos, e que se devotassem, em full time, ao serviço de seus irmãos. Álvaro del Portillo foi um dos três primeiros membros da Obra a receber a ordenação sacerdotal em 1944, nove anos após sua admissão no Opus Dei. Já então obtivera um doutoramento em História na Faculdade de Filosofia e Letras de Madrid e, mais tarde, obteria também um doutorado em Direito Canônico depois de haver realizado com brilhantismo os estudos de Teologia. Espanta ver quão dotado intelectual e humanamente era, e o quanto passou despercebido! Partilhou com o Fundador o grande trabalho que constituiu a definição da figura jurídica da Obra no Direito da Igreja e, após o falecimento de Mons. Escrivá, em 1975, passou a encabeçar essa tarefa, que, a 28 de novembro de 1982, chegou a seu termo. Tinha razão o Fundador quando, muitas vezes, chamava a este seu filho saxum, rochedo. Foi ele a rocha sobre a qual se pôde apoiar e isso ficou patente não apenas quando o Opus Dei conseguiu sua figura jurídica adequada como Prelazia pessoal, mas também no grande impulso apostólico que lhe imprimiu.

Em setembro de 1975, D. Álvaro del Portillo foi eleito para substituir o Fundador no governo da Obra, Com grande vibração, foi impulsionando o trabalho apostólico que, nestes dezenove anos de seu governo, conheceu a expansão para múltiplos países da Europa, África e Ásia. Assim, começou-se nos países do norte da Europa, em vários países do Leste europeu e nos países Bálticos; na Costa do Marfim, no Zaire, nos Camarões; em Cingapura, Macau, Hong-Kong, Formosa, Israel e índia. Não é pouco. E, nas reuniões que freqüentemente tinha, em suas inumeráveis viagens apostólicas pelas diversas regiões onde o trabalho do Opus Dei se desenvolvia, nestas reuniões com seus filhos, os amigos de seus filhos, os Cooperadores, e todos os que o quisessem ouvir, comunicava a vibração de seu jovem coração pedindo-nos mais. Esta palavra, que o Fundador costumava dizer ao pedir mais entrega, mais apostolado e mais santidade, ultimamente não saía dos lábios de D. Álvaro del Portillo. Mas o melhor é que ia ele, à frente de seus filhos, dando sempre mais, apesar de que, muitas vezes, confesso que me parecia impossível que ainda desse mais.

O Padre foi-se, deixando a Obra muito crescida e vibrante. O Padre foi-se depois de ver o Fundador beatificado e a figura jurídica da Obra definida e reconhecida como o Bem-aventurado Josemaria Escrivá a delineara. O Padre foi-se depois de ter levado a mensagem da Obra a milhares de pessoas em todo o mundo. Sua vida foi impressionantemente fecunda. Realmente, ao terminar sua Missa no Cenáculo, no dia 22 de março, o Padre podia dizer: "Consummatum est" e partir tão discretamente quanto vivera. A nós só nos resta viver o que tanto nos repetiu: mais! , meus filhos, mais!


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