PERGUNTE E RESPONDEREMOS 020 – agosto 1959

 

A Companhia de Jesus no Século XVIII

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

AGAELIÈME (Salvador):

Por que motivos foi supressa a Companhia de Jesus no séc. XVIII?

Que crédito se há de dar aos rumores propalados em torno dos jesuítas daquela época ?

 

Proporemos a resposta em três etapas, que visarão proporcionar ao observador um juízo objetivo sobre o assunto.

 

1. Os inícios da Companhia de Jesus

 

Os jesuítas constituem uma Sociedade de Clérigos Regulares — a Companhia de Jesus —, fundada por S. Inácio de Loiola (+1556) e aprovada pela Santa Sé em 1540. Instituída em vista das necessidades da Sta. Igreja nos tempos modernos, a Companhia tomou acentuado caráter de milícia sacra, pronta a defender os interesses da Esposa de Cristo onde quer que isto seja necessário. Desde os primórdios da sua história, os Religiosos de Sto. Inácio se dedicaram ardorosamente às mais diversas e duras tarefas: magistério em colégios e Universidades, estudos teológicos, controvérsias com hereges (protestantes e jansenistas, principalmente), missões no Oriente, etc., tornando-se inegàvelmente beneméritos da fé católica; em seus institutos educacionais os jesuítas dos séc. XVII/XVIII formaram os filhos da nobreza e da burguesia, exercendo sobre gerações e gerações influência notável. Um indício de quanto a Companhia correspondia às indigências dos tempos modernos é a rápida propagação da mesma : em 1749 contava 22.600 membros distribuídos por 39 províncias, 669 colégios, cerca de 800 residências e 300 postos de missão. Pode-se citar também o fato de que nas famílias da França do séc. XVIII se tornaram assaz frequentes os nomes «Inácio» e «Xavier», nomes que até então estavam fora de uso.


Entende-se, porém, que a penetração dos jesuítas na vida religiosa e social dos séc.
XVI/XVIII lhes tenha granjeado, juntamente com muitos amigos, numerosos adversários, mormente entre os hereges (jansenistas, galicanos, protestantes) e incrédulos. Com efeito, os jansenistas e galicanos, desejosos de constituir igrejas nacionais ou independentes do Sumo Pontífice, viam nos jesuítas um baluarte da fidelidade à Sé Apostólica ou «a sentinela avançada da Cúria Romana» (no dizer do rei Frederico II da Prússia) ; consideravam-na por isto um dos mais tenazes obstáculos à realização de seus planos separatistas. Os filósofos racionalistas e ateus dos séc. XVII e XVIII, opondo-se simplesmente à Igreja, não podiam deixar de combater em primeira linha a Companhia de Jesus: «Tão logo tivermos destruído os jesuítas, escrevia Voltaire, fácil será a luta contra a Infame» ; ao que d'Alembert acrescentava : «Os outros (defensores da Igreja) são apenas cossacos e grosseiros combatentes, que não resistirão às nossas tropas disciplinadas».


Como se compreende, os conflitos em torno dos jesuítas também foram por vezes provocados pelo zelo ou pelo espírito conquistador dos filhos de S. Inácio, que tomaram não raro atitudes fortes no seu comportamento público, entrando consequentemente em choque com homens e instituições.

 

Desses choques merece especial menção o chamado «litígio das acomodações». Em suas missões na China, o Pe. Mateus Riçci S. J. «Li Mateou», na linguagem local), imitado por outros sacerdotes da Companhia, procurava adaptar-se o mais possível aos costumes aos chineses, a fim de ganhar a sua simpatia e facilitar-lhes a conversão à fé cristã: toleravam, por exemplo, o culto do sábio estadista chinês Confúcio assim como o dos antepassados, alegando que tais práticas exprimiam apenas civismo nacional ou político, e não pròpriamente alguma profissão religiosa; os jesuítas também admitiam fosse Deus invocado pelos nomes chineses «Tien» (— Céu) e «Schangti» (= Supremo Senhor, Imperador); omitiam certas cerimônias do batismo e da unção dos enfermos que pudessem chocar a mentalidade dos aborígenes; mitigavam preceitos da Igreja, como os da observância do domingo e do jejum; além disso, obtiveram do Papa Paulo V em 1615 a licença de celebrar a S. Missa e administrar os sacramentos em língua chinesa. Não há dúvida, tais métodos favoreceram consideravelmente a adesão do povo à fé cristã. — Os Padres jesuítas consentiam em tais acomodações porque, tendo estudado a literatura chinesa e a origem das práticas características da nação, haviam verificado que certos destes ritos por si não eram pagãos, ou seja, inspirados por falsas concepções religiosas, mas apenas interpretados em sentido supersticioso e pagão pelo povo; haviam mesmo averiguado a existência de um edito imperial que proibia a deferência de honras divinas e de preces a Confúcio; consequentemente os templos confucionistas deviam ser tidos como centros de reuniões dos sábios, e não como casas de culto. Também as cerimônias chinesas em honra dos defuntos por si não constituíam culto religioso, mas apenas demonstrações legitimas de piedade filial para com os antenatos.

 

Contudo desde os inícios do séc. XVII, fizeram-se ouvir dentro da Companhia mesma, assim como por parte de missionários franciscanos e dominicanos, vozes de protesto contra tal tática de acomodações; esta parecia violar a integridade da fé e pactuar com hediondas superstições. A questão foi em breve levada a Roma, onde o Papa Inocêncio X resolveu condenar a tolerância dos principais «costumes ou ritos chineses» (1645) ; Alexandre VII, porém, em 1656 permitiu explicitamente aos católicos alguns desses usos, afirmando que podiam ser tidos quais meras fórmulas de civismo nacional. Contudo a controvérsia prosseguiu, alimentada em parte, e de longe, pelos jansenistas da França, que, achando-se em fase ascensional, acusavam os jesuítas de cederem ao laxismo para com as superstições chinesas, assim como «cediam à frouxidão ao julgarem os pecados de seus penitentes no confessionário» (sabemos que o jansenismo propugnava pessimismo em relação à natureza humana e severa disciplina de costumes). De tal modo arderam os debates que entre 1657 e 1700 foram publicados, na França apenas, mais de duzentos livros e opúsculos sobre o tema das acomodações chinesas! Finalmente o Papa Clemente XI em 1702 mandou à China, como legado apostólico o Patriarca Tomaz de Tournon, a fim de examinar o caso; Tournon, após inquérito resolveu condenar os ritos chineses em 1707, decisão esta que o Sumo Pontífice confirmou sem demora. A fim de extinguir definitivamente os motivos do litígio, o Papa em 1715 obrigou os jesuítas a prestarem juramento de fidelidade às normas pontifícias; os missionários se submeteram devidamente, ainda que com o ânimo dilacerado. Mais tarde ainda, em 1742. o Papa Bento XIV, tendo recebido informações insuficientes sobre o assunto, publicou nova condenação da tática das adaptações.

 

A titulo de ilustração, acrescente-se que um juramento de obediência às decisões pontifícias de 1715 e 1742 foi exigido dos missionários na China até 1914. Somente em 1939 o Papa Pio XII reexaminou a questão: em vista das circunstâncias da época atual, resolveu permitir aos missionários reconhecessem como legítimas as cerimônias chinesas que não fossem evidentemente práticas supersticiosas. Mais ainda: em 1942 o Sto. Padre, referindo-se ao decreto de Paulo V (1615), autorizou a celebração da Sta. Missa (excetuado apenas o Cânon ou a parte central da mesma) em idioma chinês literário.


Apesar de tudo que havia de sadio na tática das acomodações jesuítas na China (as quais, anteriormente à condenação pontifícia, também eram praticadas na índia por instituição do Pe. Nobili S.J.), tal tática muito excitou os ânimos do público europeu, atraindo sobre os jesuítas, militantes tenazes como eram, as avolumadas suspeitas de seus adversários.


Antes de prosseguirmos no desenrolar dos acontecimentos, será oportuno reconstituir ainda um pouco melhor os títulos de acusações proferidas contra a Companhia nos séc. XVII/XVIII.

 

2. Os rumores propalados... e a ruína

 

2.1 A Moral dos jesuítas era fortemente incriminada; muitas vezes, porém, de forma desonesta, pois as proposições ensinadas pelos Religiosos eram retorcidas e caricaturadas, a fim de poder ser mais veemente repudiadas. Atribuíam-se-lhes, por exemplo, as teses de que «o fim justifica os meios», «é lícito a um católico não cumprir a palavra dada a um herege», «é permitido usar e abusar dos equívocos e das restrições mentais», assim como outras proposições de caráter hipócrita." Tais princípios, dizia-se, chegavam a estar sistemàticamente englobados num código secreto, normativo para o procedimento dos jesuítas na vida pública: os chamados «Monita Secreta» («Instruções Secretas»). — Mais ainda: os Religiosos da Companhia eram tidos como partidários da Moral laxista, como se quisessem, por meio de condescendência iníqua, captar os favores e as riquezas dos monarcas e poderosos deste mundo.


Entre outros, Blaise Pascal, o filósofo de Port-Royal, imbuído até certo ponto de idéias jansenistas, explorou satiricamente nas suas «Lettres provinciales» as acusações de laxismo contra a Companhia de Jesus. Em consequência desses rumores, os jesuítas passavam por idólatras na China, hereges no Japão, judeus em Gênova, Generais de exército no Paraguai (dado o sistema das «Reduções» ou das quase-repúblicas de índios administradas pelos Padres da Companhia)...


A obediência apregoada pelos jesuítas era considerada como servidão destruidora da personalidade humana e sufocadora de toda iniciativa; seria obediência de cadáver, que não raciocina sobre o rumo que toma.

 

2.2 Tão impressionantes rumores se foram abatendo sobre a Companhia, de modo a criar-lhe um ambiente hostil, dentro do qual se tornava muito difícil a subsistência do Instituto; a situação se tornou fatal quando em meados do séc. XVIII os governos civis, imbuídos do «filosofismo» da época, desencadearam violenta campanha contra os jesuítas.


A celeuma explodiu em Portugal, justamente pouco depois que o Papa Bento XIV concedera aos monarcas lusitanos o título de «Reis fidelíssimos» ! D. José Manoel I (1750-77), soberano de caráter fraco, tinha por primeiro ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, Marquês de Pombal, o qual, educado na Inglaterra (berço do Iluminismo ou racionalismo do séc. XVIII), estava impregnado de idéias «voltairianas» e anticlericais; desejoso de restaurar o poder de Portugal abalado, julgava que não o conseguiria se não sufocasse o prestigio da Igreja e avassalasse o clero. Ora a ocasião para isto lhe foi fornecida por um acordo entre Espanha e Portugal (1750), que, deslocando fronteiras nas colônias da América do Sul, fazia passar sob a jurisdição de Portugal sete das «Reduções» ou cerca de 30.000 índios do Paraguai. Tendo os aborígenes resistido aos seus novos senhores, os portugueses, Pombal lançou a culpa sobre os jesuítas (1756). Pouco depois (1758), um atentado contra o rei D. José I na metrópole deu pretexto a que os Padres da Companhia fossem acusados de conspiração revolucionária; em consequência, Pombal decretou a supressão da Sociedade em Portugal e colônias (1759). O Papa Clemente XIII tendo levantado protestos contra o ato, o governo lusitano, em represália, despediu o Núncio residente em Lisboa. Alguns dos Religiosos jesuítas foram mesmo levados ao tribunal da Inquisição, presidido pelo irmão do próprio Marquês de Pombal (donde se vê quão pouco a Inquisição era órgão do governo da Igreja naquela época; cf. «P. R.»
8/1957, qu. 9). Famosa nessas circunstâncias se tornou a figura do Pe. Gabriel Malagrida S.J., que com oitenta e um anos de idade foi condenado à morte e lançado às chamas como “traidor” e “herege” (1761).


De Portugal a tempestade se estendeu à França, onde o ministro Choiseul, livre pensador maçom, e a Marquesa de Pompadour, primeira dama da corte, premeditavam a ruína da Companhia. O caso do Pe. La Valette tornou-se o ponto de partida da desgraça. Este Religioso, como Procurador das missões jesuítas nas Antilhas, fora infeliz em negócios, pelo que a Companhia de Jesus se viu intimada pelos respectivos credores a pagar a divida de 2.400.000 libras deixada pelo Pe. Procurador. Os Superiores gerais da Sociedade, porém, responderam — segundo a verdade — que cada uma das casas dos jesuítas era juridicamente independente das demais e que, por conseguinte, a Companhia não podia ser onerada em bloco. Não obstante, o processo foi levado ao Parlamento de Paris, onde predominava a mentalidade jansenista. Nesse ínterim, os bispos da França procuraram tutelar os Religiosos; o próprio rei Luís XV tentou defendê-los, propondo ao Pe. Lourenço Ricci, Geral da Companhia, nomeasse, de comum acordo com o governo régio, um Vigário Geral para a província da França; essa espécie de autonomia outorgada aos franceses poderia apaziguar os ânimos dos jansenistas e galicanos; ao que o Pe. Ricci respondeu rejeitando toda ingerência do poder civil no governo interno da Sociedade : «Sint ut sunt, aut non sint!», exclamou ele, significando que os jesuítas ou continuariam a ser o que até então haviam sido, sem se desvirtuar, ou prefeririam deixar de existir! Em consequência, o Parlamento decretou a abolição da Companhia na França (1764). O Papa Clemente XIII protestou contra a medida ; em vão, porém. A «Filha primogênita da Igreja» rejeitara a Sociedade de Jesus!


A onda se alastrou, movida pelo pacto de família que unia os príncipes da Casa de Bourbon da França com os da Espanha, os de Nápoles e os de Parma. Embora Clemente XIII em 1765 tenha publicado nova bula de aprovação da Companhia de Jesus, exaltando os seus méritos e rejeitando as acusações contra ela propaladas, os Padres jesuítas se viram, no breve espaço de 1767 a 1769, banidos de todos os territórios dos Bourbons. Estes soberanos, não se dando por satisfeitos com a extinção parcial da Companhia, puseram-se a pleitear junto à Santa Sé a supressão total da mesma. A morte de Clemente XIII em 1769 havia de facilitar a consecução deste objetivo. Com efeito, o Cardeal Ganganelli, até tornar-se Papa, tomara atitude moderada no caso dos jesuítas; uma vez, porém, eleito Pontífice com o nome de Clemente XIV, convenceu-se de que a abolição da Sociedade seria medida de prudência; carecia da energia necessária para enfrentar a situação. Tendo-se, pois, acentuado a pressão dos governos dos Bourbons, o Papa resolveu finalmente ceder-lhes, decretando pelo breve «Dominus ac Redemptor» a extinção da Companhia de Jesus aos 21 de julho de 1773; motivando tal gesto, o Pontífice asseverava que, em vista da situação criada, os jesuítas já não podiam prestar à Igreja e ao mundo os serviços em vista dos quais haviam sido fundados; tendo-se tornado objeto de ardente controvérsia, a sua existência parecia, antes, constituir empecilho à paz duradoura entre os povos; donde a decisão pontifícia de os dissolver... O decreto de extinção, porém, ao mesmo tempo que dispersava os Religiosos, facultava-lhes entrar em outras Sociedades regulares ou exercer a cura de almas como sacerdotes diocesanos. — O gesto de Clemente XIV exprime, sem dúvida, a fraqueza de ânimo do Pontífice; dentro das circunstâncias da época, porém, torna-se até certo ponto compreensível: o Papa temia, não sem fundamento, que os monarcas contemporâneos, imbuídos como estavam de galicanismo ou nacionalismo religioso, provocassem cisma semelhante ao de Henrique VIII, caso a Companhia de Jesus continuasse a existir tutelada pela Santa Sé. Movido, pois, por tais fatores, Clemente XIV, sem proferir juízo sobre o proceder dos jesuítas, lavrou um decreto disciplinar, revogável desde que cessassem as infelizes circunstâncias de sua época... (note-se bem : tal decreto era meramente disciplinar, não dogmático; ao contrário, o caso de Henrique VIII a pleitear divórcio afetava o dogma; por isto é que a Santa Sé não pôde transigir com este monarca, apesar das previsões de cisma na Inglaterra). Clemente XIV sentiu-se profundamente acabrunhado pela responsabilidade do ato de extinção da Companhia, de sorte que, dentro de um ano, aos 22 de setembro de 1774, veio a morrer, consumido pelas preocupações mais do que por achaques físicos. — Carece de todo fundamento a tese de que o Papa haja sido envenenado pelos jesuítas ; diz-se, antes, que entre as suas últimas frases havia uma referência à supressão dos jesuítas assim concebida : «Cortei-me a mão direita!».


O golpe foi duro para a Santa Igreja. Os inimigos da Companhia eram, em última análise, e com poucas exceções, inimigos da fé, de sorte que Voltaire, informado da extinção da mesma, exclamou com o riso nos lábios : «Dentro de vinte anos, já não existirá a Igreja !». Embora a predição não se tenha cumprido, as lacunas abertas pela retirada dos jesuítas foram lamentáveis: 800 colégios e 15.000 professores vieram a faltar ao magistério católico, enquanto muitos postos de missão em terras pagãs pereceram.


Por disposição da Providência, aconteceu que dois monarcas não católicos se opuseram ao breve de extinção da Companhia, conservando-a intata em seus territórios; desejavam não perder a colaboração, tida como preciosa, dos educadores jesuítas: assim procedeu Catarina II da Rússia, nação cismática, onde os Padres continuaram a trabalhar em escolas e missões, tendo mesmo um Noviciado aberto com a aprovação do Papa Pio VI a partir de 1783; de maneira semelhante se comportou, ao menos até 1776, Frederico II da Prússia, protestante, o qual pensou em proclamar-se «Protetor» dos jesuítas e a estes confiou numerosos educandários.


Sob o Papa Pio VI (1775-99), foi-se mais e mais evidenciando a lacuna deixada pelos Padres da Companhia; já dois anos após a morte de Clemente XIV, um dos Cardeais da Cúria, Leonardo Antonelli, apresentava àquele Pontífice um memorial que pedia a anulação do breve «Dominus ac Redemptor»; qualquer modificação, porém, no estado de coisas vigente ainda era prematura. Já um pouco mais tarde Pio VII (1800-23) foi fazendo concessões parciais aos antigos membros da Sociedade dispersos, até que, finalmente, aos 7 de agosto de 1814, pela bula «Sollicitudo omnium ecclesiarum», restaurou sem restrições a Companhia de Jesus, a qual sem demora recomeçou a se difundir vigorosamente sobre o globo.

 

3. As acusações e seu fundamento

 

Seria tarefa mais ou menos vã considerar cada uma das incriminações proferidas contra os jesuítas, a fim de as refutar cada qual de per si. Muitas dessas acusações são evidentemente alheias à verdade e fantasistas (entre as fraudes da difamação, deve-se mencionar em particular o documento «Monita Secreta», cartilha de hipocrisia, que os adversários da Sociedade forjaram e falsamente atribuíram aos jesuítas). Antes mesmo de considerar o panorama dos debates, o observador reconhecerá que os jesuítas, fundados justamente para constituir a primeira linha da Igreja militante, de antemão estavam particularmente expostos a sofrer os golpes dos adversários. E, após a consideração dos fatos, talvez seja o mesmo observador tentado a dizer que, para quem odeia a Igreja, é que vale, sim, ao menos em certas fases dos debates, o incriminado princípio : «O fim justifica os meios»...


Seja contudo dita aqui uma palavra sobre o principal motivo dos ataques à Companhia, isto é, sobre a sua Moral e casuística, moral que Pascal chamava «veneno açucarado que corrompe os espíritos bajulando-os... prometendo o repouso às más consciências» (Provinciales).


Tendo em vista as teses pessimistas do Protestantismo e do Jansenismo a respeito da natureza humana e de suas possibilidades de praticar a virtude após o pecado de Adão, os jesuítas julgaram oportuno adotar na sua praxe pastoral uma posição encorajadora: inculcaram, portanto, a capacidade de todo individuo, auxiliado pela graça de Deus, para praticar o bem; e com ardor procuraram estimular os pecadores, os reincidentes e as almas débeis na via da conversão e do progresso espiritual. Em consequência, tenderam à brandura e à largueza em Moral muito mais do que ao rigor, evitando impor aos fiéis obrigações que não fossem de todo evidentes.


Dentro desta tendência, porém, não se deixará de reconhecer que alguns jesuítas, ora como escritores, ora como diretores de consciência, caíram em excesso de benignidade, excesso equivalente ao laxismo; procuraram mesmo justificar esse laxismo, desenvolvendo uma casuística sutil, que jogava com palavras vazias mais do que com conceitos. Isto lhes mereceu a censura de seus superiores e da Santa Sé. Tais desvios, porém, não caracterizam a generalidade dos moralistas jesuítas, dos quais Sto. Afonso de Ligori (+1787), o Doutor por excelência da Teologia Moral, podia dizer: «Habitualmente segui as sentenças dos jesuítas..., pois as opiniões dos jesuítas não são nem largas nem rígidas, mas estão no meio-termo. E, se sustento alguma opinião rígida contra tal ou tal escritor jesuíta, faço-o quase sempre apoiando-me na autoridade de outros escritores da Companhia. Aliás, foi deles, confesso-o, que aprendi o pouco que introduzi em meus livros ; pois, no setor da Moral, não deixarei de o repetir, eles foram e ainda são os mestres» (carta de 30 de março de 1756).


A respeito da restrição mental e de seus abusos imputados aos jesuítas, veja-se «F. R.»
18/1959, qu. 6.


Quanto à obediência apregoada pelos jesuítas, foi mal entendida, como se reduzisse a personalidade humana a algo de mecânico. Note-se que a expressão «obedecer à semelhança de cadáver, “perinde ac cadáver”, com que se costuma caracterizar a docilidade dos jesuítas, não foi criada por S. Inácio, mas já era usual a S. Francisco de Assis (+1226); trata-se de metáfora, que, como tal, só exprime um aspecto da realidade: o discípulo de S. Inácio obedece, sim, com exatidão e presteza, sem titubear, imitando nisto menos o cadáver do que o soldado sobre o campo de batalha ou o marinheiro a bordo; tal obediência, porém, não deixa de ser inteligente e consciente, ficando facultado aos súditos, segundo as Regras da Companhia, recorrer a instâncias superiores, caso julguem inadequadas as ordens que tenham recebido.


Dispensando-nos de descer a ulteriores pormenores, notaremos que, embora muitas fábulas tenham sido propaladas a respeito dos jesuítas, a história não deixa de registrar falhas na conduta religiosa e civil de membros da Companhia de Jesus ; tais males se derivaram da fraqueza moral inerente a tudo que é humano ; em última análise, não significam senão que houve na Companhia Religiosos pouco fiéis às suas Regras; estas, sem dúvida, lhes vedavam, e ainda vedam, cometer o que surpreendeu e escandalizou a opinião pública. O fato de ter havido transgressores não permitiria ao historiador objetivo concluir que a Companhia de Jesus como tal haja sido escola de tais abusos nem que ela seja censurável em suas idéias motrizes ou em seus estatutos. Evidencia-se mesmo o contrário, se se levam em conta as atividades benéficas — muito mais vultuosas do que os abusos — que os filhos de S. Inácio podem apresentar ao mundo como expressão de seu espírito ardoroso e disciplinado, «para a maior glória de Deus» !

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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