O papel público da teologia

 

SANTOS, Ivanaldo. O Papel público da teologia. In: Guia Prático de Teologia, Ano 1, n. 2, 2012, p. 27-29.

Filósofo

 

Atualmente existe um fenômeno curioso, digno de investigação por parte das ciências sociais, das ciências teológicas ou outro ramo das ciências humanas. Esse fenômeno é a rejeição ou não aceitação do papel público da teologia. Por “papel público da teologia” deve se entender a capacidade que a teologia deve ter de refletir e, se possível, interferir nos problemas e dilemas sociais, como, por exemplo, a economia, o aborto e a união civil de pessoas do mesmo sexo. Vale recordar que o cristianismo, desde sua origem, é uma religião que tem, por essência, um lugar dentro da vida pública. Trata-se, pois, de uma religião voltada para o espaço público, ou seja, o espaço não privado, não doméstico. Um exemplo disso é o mandato de Jesus Cristo, aos seus seguidores, que afirma: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16, 15) ou então a famosa pregação do Apostolo Paulo no centro de Atenas, quando anunciou publicamente o “Deus desconhecido” (Atos 17, 23) que os gregos cultuavam, mas não conheciam.

 

Nos dias atuais é comum, por exemplo, em programas da TV, em pronunciamentos de políticos ou de altos funcionários públicos se ouvir expressões que colocam o discurso teológico fora da vida pública. Por exemplo, ouvem-se frases do tipo: “religião é algo subjetivo”, “A Igreja deve se preocupar apenas com a salvação das almas” e “A teologia deve debater temas da vida privada”. Diante disso, pergunta-se: realmente a teologia deve ficar restrita a refletir sobre temas ligados a vida privada, doméstica das pessoas? Há na sociedade contemporânea espaço para a reflexão pública da teologia?

 

Inicialmente é preciso identificar, entre outros, dois fatores chaves para entender porque, nos dias atuais, a teologia está sendo rejeitada em espaço público.

 

O primeiro fator é o secularismo exagerado que chega aos limites do fundamentalismo. Um secularismo que vê com desprezo e profunda desconfiança toda e qualquer manifestação da fé. Para esse tipo de secularismo a fé cristã seria, em princípio, um elemento alienador do indivíduo. Esse tipo de postura é sintetizada na famosa máxima de Karl Marx que diz que a religião é o ópio do povo. No Brasil esse tipo de secularismo está presente nas universidades, principalmente nas universidades públicas, nos meios de comunicação, nos partidos políticos, principalmente nos partidos de esquerda, em setores do governo e, por incrível que pareça, até mesmo dentro da própria Igreja. No tocante à Igreja, setores eclesiais que se identificam com a teologia da morte de Deus ou com a teologia da libertação tendem a aceitar o princípio que a teologia deve, em tese, se militar a refletir sobre problemas particulares e domésticos.

 

O segundo fator é a consequência, um tanto quanto negativa, da participação de setores da Igreja ligados com o que se vulgarizou chamar de a “teologia do secularismo”, ou seja, um ramo da teologia que diz que, na modernidade, o papel social da Igreja está esvaziado e, por causa disso, cabe à teologia aceitar e até mesmo incentivar os seguimentos sociais secularizados a conduzirem suas reflexões e ações sociais longe e até mesmo independente da orientação teológica. No terceiro mundo e especificamente no Brasil, no período das décadas de 1960 a 1980, um ramo da teologia do secularismo fez muito sucesso dentro de alguns setores da Igreja. Trata-se da teologia da libertação, uma espécie de versão esquerdista e marxista da teologia do secularismo. Essa versão foi responsável pela entrada na vida pública de um tipo muito específico de cristão. Trata-se do cristão sem fé, aquele que entra na vida pública não para lutar pelos ideais e valores do cristianismo, mas para defender a ideologia de algum partido político, sindicato ou outra organização esquerdista. Uma das consequências, entre outras, desse tipo de postura é que os novos movimentos espirituais da Igreja (Renovação Carismática, Comunidades Novas, etc.) tiveram e até hoje têm medo de se posicionarem publicamente. São movimentos que falam para o público, mas tem dificuldade de ter uma ação pública.

 

É preciso perceber que ao longo da história da Igreja sempre existiram momentos de maior ou menor participação na vida pública. A Igreja sempre enfrentou governos autoritários, reis com delírios de serem deuses, heresias e outros graves males sociais. Os problemas que enfrentou nas últimas décadas, principalmente no final do século XX, são parte de sua rica e conturbada história. Com isso, a Igreja e, por conseguinte, a reflexão teológica, deve sim se preocupar e se ocupar da dimensão privada, doméstica da vida humana. É em casa que os indivíduos passam grande parte do seu tempo e enfrentam grande quantidade de dilemas e problemas morais, espirituais e de outras naturezas. A reflexão teológica deve se ocupar do rico universo privado das pessoas.

 

No entanto, a própria Igreja e, por conseguinte, a reflexão teológica, não podem ficar restritas à dimensão puramente doméstica da vida humana. É preciso, como o próprio Jesus Cristo recomendou, ir além dessa dimensão e, com isso, ir ao encontro da dimensão pública, política e social do ser humano. A vida humana não se resume apenas à dimensão privada, doméstica. Ela extrapola essa dimensão e chega até às ruas, aos palanques políticos, aos problemas econômicos e sociais. Por isso a reflexão teológica deve sim ir ao encontro das duas dimensões: privada e pública.

 

A teologia não pode aceitar docilmente o postulado do secularismo radical que diz que seu lugar é “em casa” e nem muito menos aceitar o postulado das correntes secularistas da própria Igreja (teologia do secularismo, teologia da libertação, etc.) que dizem que o papel da teologia é aceitar passivamente os valores e até mesmo contravalores antiéticos (cultura da morte, aborto, eutanásia, etc.) do mundo atual. Ela precisa ir à busca de sua autonomia. Essa autonomia deve ser epistemológica, de método de pesquisa e de objeto de estudo.

 

Por causa disso a teologia deve sim refletir e indicar ações práticas para a vida e o homem que se encontra dentro do espaço público, do espaço social e político. A teologia deve participar dos debates públicos, eleitorais, econômicos e políticos. Ela não pode ficar parada e passiva vendo a sociedade e as pessoas serem dominadas por um debate antiético e antievangélico. Sua missão é de denunciar o pecado e o mal reinantes no mundo. Todavia, tanto o pecado como o mal têm um lado público e social. E é justamente esse lado que a teologia deve constantemente, sem medo das consequências negativas, denunciar. Essa denúncia tem que ser feita alicerçada no Evangelho, no Magistério e na doutrina da Igreja. Não se pode ter uma postura, como se via até poucos anos atrás, de querer ser teologia, mas não ser Igreja, de fazer reflexão teológica, mas sem Magistério e sem hierarquia. É preciso rejeitar a tentação de uma teologia sem Magistério e sem hierarquia. Esse tipo de tentação levou ao fracasso da teologia da libertação e de todas as demais tentativas de criar uma teologia sem Cristo e sem Igreja.

 

Por fim, afirma-se que a reflexão teológica não pode aceitar as atuais diretrizes socais que dizem, entre outras coisas, que o único espaço possível para a teologia cristã é dentro das casas ou nos altares dos templos. A teologia tem muito a contribuir com o espaço e a vida pública. A própria denúncia da existência de formas agressivas de multiplicação da morte, como é o caso do aborto, é, por si só, um forte fator de reflexão social. A teologia tem um lugar no espaço público e, por conseguinte, deve ocupar esse espaço.


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