PERGUNTE e RESPONDEREMOS 038 - fevereiro 1961

 

O HÁBITO CLERICAL

MORAL
UM LEITOR (Curitiba): «Diante das circunstâncias características da vida moderna, manterá a Igreja as suas leis referentes ao hábito talar dos clérigos? Que pensar das apregoadas vantagens e desvantagens desse traje?»

 

Nesta resposta não temos o propósito de fazer prognósticos sobre a futura legislação eclesiástica referente ao hábito talar; seriam hipotéticos e, até certo ponto, vãos. Mais útil será apresentar ao estudioso o sentido que tem o hábito próprio dos eclesiásticos; quem compreende a genuína razão de ser de um objeto controvertido, sem grande dificuldade forma o seu juízo na controvérsia.

 

Nos parágrafos seguintes, portanto, consideraremos algo sobre a origem e o histórico da veste clerical; a seguir, proporemos brevemente o seu significado.

 

1. Origem do hábito clerical

 

Até o início do séc. IV (313), enquanto os cristãos sofriam perseguição no Império Romano, não se podia pensar em veste característica dos clérigos; a prudência recomendava que estes não chamassem a atenção sobre si. Por conseguinte, clérigos e leigos não se distinguiam entre si nem pela forma nem pela cor dos trajes. As autoridades eclesiásticas recomendavam apenas que as vestes a ser trajadas pelos ministros do altar na celebração da S. Eucaristia e dos ofícios litúrgicos em geral fossem sempre limpas e bem conservadas. É o que ainda no séc. V atesta, por exemplo, São Jerônimo (+421), ao comentar o texto do Profeta Ezequiel 44,17:

 

«Quando os sacerdotes passarem as portas do adro interior, deverão estar vestidos de linho; não terão lã sobre si, quando oficiarem... (Ez 44,17). Por estes dizeres ficamos sabendo que não é com nossas vestes cotidianas, manchadas pelo uso da vida comum que devemos entrar no santuário, mas é com uma consciência pura e com vestes limpas, a fim de observar os mistérios do Senhor» (In Ez 44,17).

«Per quae discímus non quotidianis et quibuslibet pro usu vitae communis poliu tis vestibus nos ingredi debere in saneta sanetorum, sed munda conscientia et mundis vestibus tenere Domini sacramenta».

 

O mesmo S. Jerônimo assim respondia a Pelágio, que afirmava ser o cuidado das vestes uma espécie de injúria a Deus:

«Que injúria se comete contra Deus, se trajo uma túnica mais asseada, se um bispo, um presbítero, um diácono ou outro membro da hierarquia, ao realizarem suas funções, se revestem de veste alva (= limpa)?» (Dial. I contra Pelagium).

«Quae sunt, rogo, inimicitiae contra Deum, si tunicam habeo mundiorem, si episcopus, presbyter et diaconus et rellquus ordo eccle- siasticus in administratione cum candida veste processerint?»

 

Em consequência desse modo de ver, introduziu-se o costume de reservar certas peças do vestiário comum unicamente para as funções da Liturgia. Assim começou a haver vestes próprias dos clérigos nos ofícios litúrgicos, vestes, porém, que só se distinguiam das demais por serem mais conservadas e limpas do que as de uso cotidiano. Com o passar dos tempos, tal espírito conservador em relação às vestes sacerdotais contribuiria para fazer que estas mais e mais se distanciassem dos trajes do comum dos cidadãos.

 

Na primeira metade do séc. V, novo elemento entrou em cena:- os varões, em vez das longas túnicas habituais entre os romanos, começaram a trajar vestes curtas, semelhantes às que os povos bárbaros trajavam. À vista da nova moda, os concílios eclesiásticos resolveram proibi-la aos clérigos, prescrevendo-lhes vestes longas, fechadas, de cor escura e destituídas de ornamentos supérfluos; tal hábito deveria estimular e exprimir modéstia e humildade. Vê-se que assim mais um passo foi dado no sentido de diversificar do traje dos leigos o hábito dos clérigos.

 

Outro fator exerceu sua influência nessa evolução. Os monges, que viviam longe do mundo num regime de pobreza e renúncia, usavam de vestiário simplicíssimo: muitas vezes, túnica e cinto apenas... Ora os clérigos (principalmente os bispos e os presbíteros) eram não raro recrutados dentre os monges; vivendo então no estado clerical, conservavam o hábito do mosteiro, naturalmente refratário às modas e às inovações que, como se compreende, se iam multiplicando no decorrer dos tempos.

 

Foi assim que, sem intenção preconcebida por parte das autoridades eclesiásticas, no início da Idade Média monges e clérigos começaram a se distinguir por suas vestes. Note-se, porém, que tais vestes não eram senão os trajes comumente usados na antiguidade!

 

Aliás, coisa semelhante se deu com o latim na Liturgia: outrora língua viva, conservou-se no santuário, enquanto os idiomas falados se foram diversificando; também neste setor não houve, da parte da Igreja, plano premeditado.

 

Embora diferisse do vestiário dos leigos, o traje clerical durante muitos séculos não era uniforme: os concílios medievais geralmente se limitavam a dar normas negativas, visando apenas remover luxo ou espalhafato. A cor negra, por exemplo, foi adotada pelos mosteiros da Congregação de Cluny (França) no séc. X, tornando-se daí por diante assaz comum entre os clérigos; contudo só veio a ser obrigatória após o Concilio de Trento (1545-1563).

 

Este sínodo, com efeito, determinou que todos os eclesiásticos deveriam para o futuro trajar vestes características, deixando, porém, aos bispos o encargo de estipular para os respectivos clérigos o tipo de hábito a ser usado na diocese, de acordo com as circunstâncias e as tradições particulares de cada região (sess. XIV cap. 6). Por efeito desta disposição, os bispos foram prescrevendo a veste talar (= longa até os talões dos pés) de cor negra, sendo que para isto muito contribuíram o Papa Sixto V (constituição «Cum Sacrosanctam» de 9 de janeiro de 1589) e o arcebispo São Carlos Borromeu de Milão (+1584). Contudo acontece que costumes antigos e leis peculiares de algumas dioceses determinam até hoje modalidades próprias do hábito eclesiástico, permitindo-se até mesmo o traje civil munido de colarinho especial ou de discreto distintivo religioso.

 

2. A legislação ora vigente

 

O atual Código de Direito Canônico, promulgado em 1918, impõe aos clérigos o uso de hábito eclesiástico conforme às leis e aos costumes de cada diocese (cf. cân. 136). Para celebrar a Santa Missa, porém, o sacerdote deve sempre trajar hábito talar (cf. cân. 811 § 1).

 

Quanto aos Religiosos (monges, frades, clérigos regulares, irmãos, etc.), têm obrigação de usar a veste característica de sua família religiosa, a não ser que o Superior excepcionalmente os dispense (cf. cân. 596).

 

De outro lado, fica estritamente proibido a estranhos o uso de hábito clerical ou religioso (cf. cân. 492 8 3 e 683). Também não o podem usar clérigos reduzidos ao estado laical (cf. cân. 213 § l), nem Religiosos enclaustrados ou secularizados (cf. cân. 639-640).

 

Severas penas são previstas para quem não observe a lei do hábito próprio (cf. cân. 136 § 3; 188 n. 7; 2379); donde se depreende haver grave obrigação moral neste setor. Não resta dúvida, porém, de que motivos sérios e variados podem provocar dispensas (assim, situações de perseguição, viagens a regiões de costumes diversos, exigências do apostolado, etc.).

 

3. O significado do hábito clerical

 

A veste eclesiástica é um sacramental, ou seja, objeto que, especialmente bento pela Santa Igreja, se deve tornar meio de santificação para aqueles que o usem com fé e amor a Deus (cf. «P. R.» 11/1958, qu. 3). Foi por esta sua qualidade que o hábito próprio clerical sempre mereceu a estima dos homens de Deus. O clérigo deve ver na sua veste um penhor de que a oração da Santa Igreja, sempre agradável a Deus, o acompanha no «vai-e-vem» ou nas vicissitudes da vida presente; o hábito clerical, consequentemente, vem a ser o testemunho de que a Santa Igreja assiste ao seu ministro fiel nos embates da vida presente, impetrando-lhe de Deus as graças necessárias para se santificar e para santificar o mundo.

 

Além disto, a veste eclesiástica constitui uma espécie de «clausura» para quem a traja. Ela por si exige sobriedade de conduta tanto da parte do seu portador como da parte daqueles que o abordam; de certo modo um esteio do comportamento puro e nobre que os eclesiásticos devem levar.

 

Um historiador moderno, F. W. Jahn, observa com razão que a veste própria de uma sociedade ou de uma corporação sempre foi apoio de sua subsistência, impedindo-a de se diluir e desvirtuar:

 

«Todos os povos que tiveram existência duradoura, salvaram-se aos renovados assaltos das modas por efeito de sua veste popular característica...; enquanto uma populaçãozinha, por muito oprimida que seja, ainda traja seu vestiário tradicional, está protegida contra o perigo de dissolução. Desde, porém, que abandone tal preservativo, vem a ser absorvida e dilui-se na massa» (Deutsches Volkstum 1810).

 

Estes dizeres podem, dentro das devidas proporções, ilustrar o papel que compete ao hábito característico dos clérigos.

 

Está claro que nem sempre será possível ou oportuno que os clérigos tragam o hábito talar. A vida moderna, a mais de um título, pode exigir que deixem de usar túnica para trajar veste mais semelhante à dos civis, munida apenas de discreto sinal distintivo. — É à autoridade eclesiástica que toca dizer a palavra autêntica neste setor; à Santa Igreja, guiada pelo Espírito Santo, saberá discernir quais as adaptações que possam ser empreendidas; evitem-se comentários e prognósticos sobre o assunto, pois este é um dos campos em que mais se verifica a veracidade dó adágio: «Quot capita, tot sensus. — Tantas opiniões há quantas cabeças!».

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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