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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – novembro de 1961

 

FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO?

DOGMÁTICA

LÚCIO (RJ): «Os católicos costumam dizer que fora da Igreja não há salvação. Ora esta proposição parece mesquinha e intransigente. Não existe tanta gente boa fora da Igreja? Será que Deus condenará tais pessoas?»

 

O clássico axioma «Fora da Igreja não há salvação» é geralmente mal entendido, dando lugar a problemas que não existiriam caso houvesse melhor compreensão da fórmula. Em nossa resposta, examinaremos primeiramente algo do histórico desse adágio; isto facilitará o discernimento do sentido autêntico que se lhe deve dar.

 

A sorte póstuma dos que vivem fora da Igreja já foi sob outro aspecto abordada em «P. R.» 1/1958 qu. 7.

 

1. Origem e histórico da fórmula

 

1.1. Segundo alguns autores, a fórmula «Fora da Igreja não . há salvação» tem as suas premissas em certas afirmações da Sagrada Escritura.

Quais seriam, pois, essas afirmações? Citam-se, entre outras, as seguintes:

 

Em Mc 16,16s, diz Jesus a seus Apóstolos: «Ide pelo mundo inteiro, e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer, será condenado».

 

Outrossim em Mt 10, 14s: «Se alguém não vos acolher nem ouvir as vossas palavras, sai dessa casa ou cidade, sacudindo o pó de vossos pés. Digo-vos em verdade: haverá no dia do juízo menos rigor para a região de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade».

 

À primeira vista, tais palavras podem despertar a ideia de que realmente só há salvação para quem aceite a mensagem do Evangelho. — Contudo já se tem observado, e com razão, que os dizeres do Senhor só visam aqueles que recusam positivamente a pregação e a Igreja; não consideram o caso dos homens aos quais não é dada notícia do Evangelho; estes não fazem parte da Igreja, mas também nunca tiveram a possibilidade de a conhecer.

 

A propósito, há quem lembre a solene declaração de São Pedro:

«(Jesus) é a pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou pedra angular. Em nenhum outro se encontra a salvação, pois, debaixo do céu, nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual devamos ser salvos» (At 4, 11s).

 

Estes dizeres parecem completar-se no seguinte trecho de S. Paulo:

Jesus Cristo é «a Cabeça Suprema da Igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo, a plenitude daquele que enche tudo em todos» (Ef 1,22s).

 

Consequentemente, dizem, «comunhão com Cristo» implica «comunhão com a Igreja», de modo que fora da Igreja não há salvação.

 

A conclusão parece bem consentânea com o pensamento dos Apóstolos. Em que sentido preciso, porém, deverá ser entendida?

É o que vamos examinar, percorrendo os principais testemunhos da Tradição cristã.

 

1.2. Nestes transparece desde cedo a tese de que aqueles que recusam a autoridade doutrinária e disciplinar da Igreja se excluem da salvação eterna.

 

Assim já Sto. Inácio de Antioquia (+107) ensinava:

«Todos aqueles que pertencem a Deus e a Jesus Cristo, estão com o bispo. E todos aqueles que, arrependidos, voltam à unidade da Igreja, pertencem também a Deus... Não vos enganeis, irmãos: quem quer que introduza cisma (ruptura na Igreja), não herdará o reino de Deus» (Aos Filadelfos 3, 2s).

 

No século seguinte, por volta de 249-251, é Orígenes, famoso escritor cristão de Alexandria, quem observa:

«Se alguém quer ser salvo, entre nessa casa (a Igreja)... Que ninguém se iluda...: fora dessa casa, isto é, fora da Igreja, ninguém é salvo; se alguém sair, tornar-se-á responsável da sua própria morte» (In Iosue h. 3,5).

 

Contemporaneamente, em 251, observava S. Cipriano, bispo de Cartago:

«Quem abandona a Igreja para aderir a uma (seita) adúltera, se aparta das promessas feitas à Igreja. Não obterá as recompensas de Cristo, aquele que deixa a Igreja de Cristo... Não pode ter Deus por Pai aquele que não tenha a Igreja por Mãe. Caso alguém tenha conseguido salvar-se fora da arca de Noé, também fora da Igreja conseguirá alguém salvar-se» (De catholicae Ecclesiae unitate 6).

 

Ficou célebre na literatura cristã a imagem da arca de Noé, fora da qual ninguém escapou à morte do dilúvio: a Igreja de Cristo seria a verdadeira arca da salvação...

 

Os escritores cristãos desenvolviam ainda mais claramente o seu pensamento, quando afirmavam que pertencer a Cristo e à Igreja significa outrossim, e necessàriamente, pertencer à jurisdição de Pedro: o sinal concreto e imediato da adesão a Cristo seria a adesão a Pedro e a seu sucessor visível. Eis como S. Ambrósio (+397) em Milão se exprimia:

 

«Foi a Pedro que Cristo disse: 'Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja'. Onde, pois, está Pedro, ai está a Igreja; e, onde está a Igreja, já não há morte, mas a vida eterna. É por isto que o Senhor acrescenta: 'As portas do inferno não prevalecerão contra ela, e eu te darei as chaves do reino dos céus'» (In Ps 40, 40).

 

Por volta de 374/379, São Jerônimo, escrevendo ao Papa São Dâmaso, fazia eco ao Doutor de Milão:

«Quanto a mim, não seguindo outro Chefe senão o Cristo, uno-me a Vossa Beatitude, isto é, à cátedra de Pedro. Foi sobre essa pedra, bem o sei, que a Igreja foi fundada. Todo aquele que come o Cordeiro fora dessa casa, é profano. Quem não estiver na arca de Noé, perecerá quando vier o dilúvio» (epist. 15,2).

 

1.3. Esses textos, enfáticos como são, não podem deixar de despertar no leitor a questão: Como os respectivos autores entendiam a adesão à Igreja que eles assim recomendavam?

 

Não há duvida, na maioria dos casos tinham em mente a adesão explícita, ou seja, a adesão mediante a recepção dos sacramentos e a profissão do credo cristão. Não se poderia, porém, deixar de referir que na antiguidade mesma uma concepção mais larga se fazia ouvir por meio de um ou outro autor.

 

O próprio São Cipriano, por exemplo, embora afirmasse não haver salvação fora da Igreja, admitia a validade do mero desejo de Batismo ou da simples conversão do coração, no caso de não se poder receber o sacramento; tal se teria dado com o bom ladrão, que, tocado pela graça na hora da morte, se arrependeu de seus pecados e ouviu de Cristo a palavra de salvação. S. Agostinho (+430) reafirmou a mesma proposição (cf. De baptismo contra Donatistas 1. IV, c. XXII 29).

 

Contudo um dos testemunhos mais explícitos em favor do «Batismo de desejo» ou do desejo de Batismo é o de S. Ambrósio: em 392 o Imperador Valentiniano II morrera assassinado, sem ter tido o tempo de receber o sacramento do Batismo, a que ele ardentemente aspirava; foi então que em sua oração fúnebre o bispo de Milão assim se manifestou:

 

«Quanto a mim, perdi aquele que eu ia gerar para o Evangelho. Ele, porém, não perdeu a graça que pediu... Estou consciente da vossa aflição por não ter ele recebido os mistérios do Batismo. Mas dizei-me: que temos nós em nosso poder se não apenas a vontade e o desejo? Ora em tempos passados ele manifestou o desejo de ser iniciado (no Cristianismo) antes de entrar na Itália, e declarou seu desígnio de receber logo das minhas mãos o Batismo... Deixou ele então de receber a graça que ele desejou e pediu ? Não pode haver dúvida de que, se a pediu, ele a recebeu» (De obitu Valentiniani consolatio 29. 51).

 

Este depoimento de S. Ambrósio é de importância notável, pois muito serve ao estudioso moderno para conceber o reto sentido do adágio «Fora da Igreja não há salvação».

 

1.4. Passando agora à Idade Média, notamos que os testemunhos que se possam colher sobre o assunto nessa época, inculcam geralmente a necessidade da adesão visível à Igreja de Cristo. — A esta altura, aliás, convém lembrar uma nota bem característica da mentalidade medieval que contribuirá para explicar tal posição teológica: os medievais não se preocupavam muito com os povos que habitassem fora dos confins do mundo cristão. Isto está longe de significar que não tinham caridade; apenas quer dizer que não possuíam o senso da história e da geografia em grau muito apurado. Em outros termos: não eram «curiosos» de focalizar e estudar o que se dava entre os homens fora dos confins do Cristianismo.

 

Alguns estudiosos modernos lembram que, por vezes na Idade Média o habitante de terras longínquas pagãs era dito popularmente «o Etíope» (Aethiops), figura em torno da qual havia mais rumores e boatos fantásticos do que conhecimentos seguros. Raros eram os relatos de viagem que missionários provenientes do Oriente entregavam ao público europeu (dentre tais documentos destacava-se a narrativa de Asselino e João Plancarpino, que em 1245 contavam o que haviam visto na Pérsia e no Turquestão; contudo somente os mais informados dos europeus tinham conhecimento de tal relatório).

 

Inegavelmente, essa falta de intercâmbio assíduo entre europeus e não-europeus de regiões distantes possibilitava, entre os ocidentais, a formação de conceitos lendários concernentes aos asiáticos e africanos, dificultando qualquer reflexão séria sobre a dignidade e a eterna salvação de tais indivíduos.

 

O que os autores medievais conheciam bem, era uma sociedade cristã que tendia a ser a «Civitas Dei» (a Cidade de Deus), na qual o «não pertencer» à Igreja visível se dava geralmente por motivo de heresia, apostasia ou delito contra a fé ou a moral, supondo culpa grave na consciência do indivíduo; à vista disto, compreende-se, os medievais eram facilmente levados a crer que quem se separasse da Igreja se colocava fora da arca de Noé e se entregava à ruína espiritual.

 

Para ilustrar estas afirmações, citamos aqui dois textos, nos quais ocorre o axioma «Fora da Igreja não há salvação»... Ocorre justamente visando hereges medievais (principalmente valdenses e cátaros); esses hereges eram geralmente cristãos batizados que, em determinada "época de sua vida, haviam apostatado da fé, cedendo ao orgulho e às paixões; em vista de tais casos é que a advertência severa se formulava.

 

Assim para os valdenses que desejassem voltar à Igreja, foi composta a seguinte profissão de fé, submetida a Durando de Osca, chefe da seita, e aos seus correligionários, aos 18 de dezembro de 1208:

 

«Cremos de coração, e confessamos com os lábios, uma só Igreja, não a dos hereges, mas a que é santa romana, católica e apostólica, fora da qual cremos que ninguém é salvo (extra quam neminem salvar! credimns)» (Denzinger, Enchiridion 423).

 

O IV Concilio do Latrão em 1215, tendo em vista outrossim os hereges da época, declarava: «A Igreja universal dos fiéis é única, fora da qual absolutamente ninguém se salva (extra quam nullus omnino salva tur); nela Jesus Cristo mesmo é simultaneamente sacerdote e vítima...» (Denzinger, ob. cit. 430).

 

Estas observações já elucidam de algum modo a mentalidade dos medievais referente à salvação dentro e fora da Igreja.

 

1.5. Veio o séc. XVI com as suas grandes descobertas geográficas ... Estas puseram os cristãos em contato com grande número de povos até então desconhecidos; a existência de tantas e tantas gerações de homens que até aquela época ainda não tinham sido evangelizados, levou paulatinamente os pensadores cristãos a focalizar atentamente a questão de sua salvação eterna: poder-se-ia aplicar, sem mais, a esses povos o critério antigo e, em consequência, asseverar que, pelo fato de não haverem pertencido visivelmente à Igreja, estavam para sempre rejeitados por Deus? A essa conclusão parecia opor-se, entre outros argumentos, a índole honesta e reta de muitos pagãos; ademais, alguns mestres cristãos eram propensos a julgar que o sacrifício do Filho de Deus na cruz ficaria vão, se tão grande multidão de almas, apesar de tão rica Redenção, se fosse perder eternamente.

 

As surpresas decorrentes deste novo panorama, manifestado na Ásia, na África e na América, eram acrescidas pela nova situação religiosa da Europa mesmo, que até o séc. XVI fora homogeneamente cristã. Eis que, desde a cisão introduzida pelo Protestantismo (1517), os católicos viam a seu lado famílias e populações inteiras que não pertenciam à Igreja e que, desde muito talvez, só conheciam a Reforma e suas seitas. Mais ainda : nos séc. XVIII e XIX, a face religiosa da Europa foi ulteriormente modificada pelo indiferentismo do pensamento, a ignorância religiosa e a consequente descristianização que invadiram as massas humanas. — Poder-se-ia julgar sumariamente que estavam de má fé tantos e tantos homens? Cada um daqueles que viviam fora da Igreja (protestantes ou simplesmente homens ignorantes, mal formados em questões religiosas) estaria realmente lutando contra os ditames da sua consciência, obstinando-se culpadamente contra a luz de Deus e as inspirações da graça? Não haveria muita gente que com sinceridade poderia estar julgando que não devia aderir à Santa Igreja?

 

Essas interrogações foram calando na mente dos pensadores católicos. Assim incitados, os teólogos aprofundaram o sentido da fórmula «Fora da Igreja não há salvação», de modo que hoje em dia a doutrina católica sobre o assunto se apresenta mais matizada do que antigamente; ela compreende vários itens, correspondentes à índole complexa do problema, itens que vão abaixo discriminados.

 

2. O sentido genuíno da fórmula

 

2.1. O axioma «Fora da Igreja não há salvação» há de ser entendido à luz das distinções seguintes :

1)       Há um modo visível de pertencer à Igreja e nela obter a salvação: é o que se dá pela profissão do símbolo de fé e a participação dos sacramentos, principalmente do Batismo e da Eucaristia. Tal é o modo normal de pertencer à Igreja: esta, sendo uma sociedade visível, é natural que os seus membros se denunciem por certas notas visíveis e características. Consequentemente entende-se que é pela adesão explícita e pública à Igreja de Cristo que os homens se devem, em condições ordinárias, encaminhar para a salvação eterna.

2)       Contudo pode também alguém pertencer à Igreja de modo invisível, ou seja, pelo desejo de ser membro da Igreja. Tal desejo, por sua vez, pode ser:

a)        desejo explícito. Supõe-se, no caso, que alguém tenha conhecimento direto de Cristo, da Igreja (que o prolonga no tempo) e da porta de entrada na Igreja (que é o Batismo)...; dado que tal pessoa se disponha a receber o Batismo, mas, por motivo independente de sua vontade, não chegue a ser batizada, diz-se que é membro da Igreja por ter o desejo explícito de Batismo ou o Batismo de desejo. Já S. Ambrósio professava esta doutrina na oração fúnebre de Valentiniano (citada atrás).

 

De resto, o conceito mesmo de Justiça Divina exige, seja válido para a salvação o desejo do Batismo, desde que não se torne possível receber o próprio sacramento: o Senhor não pode condenar uma alma que Lhe esteja unida pela fé e pelo amor, mas à qual não é dado cumprir tudo que ela em sua fidelidade desejaria cumprir.

 

Contudo não somente o desejo explícito é capaz de agregar alguém à Santa Igreja... Hoje em dia os teólogos reconhecem igual eficácia ao que chamam

b)       desejo meramente implícito. Como entender isto ?

 

Admita-se que alguém ignore por completo Cristo e a Igreja ou que só os conheça de maneira inadequada, de modo a não poder sequer conceber a ideia de que a Igreja seja portadora da verdade. Em consequência, vive de inteira boa fé, aderindo a um credo religioso não católico, cujas prescrições procura seguir à risca. Essa pessoa é sinceramente movida por um único desejo: o de se aproximar mais e mais de Deus. Se tivesse evidência de que o caminho para Deus é outro que não o seu, abraçaria imediatamente essa nova vereda. Diz-se então que tal indivíduo adere à Igreja de Cristo sem o saber, pois que a Igreja representa realmente o objeto de suas aspirações; se ele simplesmente a conhecesse ou se a conhecesse mais autenticamente, prestar-lhe-ia sua adesão explícita.

 

Ora uma situação dessas pode ser até mesmo a de um adversário da Igreja: com efeito, pode acontecer que um homem muito reto sinta que sua consciência se revolta contra a doutrina do primado de São Pedro, por exemplo; uma série de equívocos e preconceitos faz-lhe ver apenas um aspecto dessa doutrina, dando-lhe a crer que se trata de desvirtuamento do Evangelho. Pois bem; se tal pessoa é sincera e humilde, ressentindo-se apenas de falta de conhecimentos claros sobre o assunto (sem que tenha culpa da sua ignorância), tal pessoa é membro invisível da Igreja visível de Cristo; está assim a caminho da salvação eterna, e essa salvação lhe será dada por intermédio da Igreja (da Igreja hierárquica, chefiada por Pedro, que ela rejeita), pois a Igreja, prolongando Cristo na terra, é o canal único pelo qual Deus comunica aos homens toda e qualquer graça de salvação.

 

Destarte se vê que muitas e muitas almas que estejam de inteira boa fé fora da Igreja visível, pertencem invisivelmente à Igreja sem o saber e sem que a própria Igreja o saiba. A boa fé, no caso, não desculpa propriamente a pessoa de estar fora da Igreja, mas, antes, faz que tal pessoa não esteja fora da Igreja: pertence, sim, invisivelmente à Igreja.

 

Por conseguinte, o sentido do adágio «Fora da Igreja não há salvação» vem a ser: a salvação só é concedida dentro da Igreja ou por intermédio da Igreja.

 

Merece atenção o fato de que o Papa Clemente XI, em 1713, condenou a proposição de Quesnel, famoso jansenista : “Fora da Igreja não é concedida graça alguma”. — Extra Ecclesiam nulla conceditur pratia» (Denzinger, Enchiridion 1379).

 

A intenção do Pontífice, ao proferir a condenação, era a de inculcar a seguinte proposição: fora da Igreja não se pode dizer que não há graça sobrenatural; tenha-se por certo, porém, que toda graça aí existente é derivada da Igreja e voltada ou tendente para a Igreja.

 

2.2. A doutrina acima exposta é não raro apresentada sob a forma da distinção seguinte: os que professam a verdadeira fé e segundo ela vivem, pertencem ao corpo da Igreja. Quanto aos que professam um credo errôneo com sinceridade absoluta ou com toda a boa fé, pertencem à alma da Igreja.

 

Tal distinção, porém, não é oportuna, porque na verdade não há corpo vivo sem alma; propriamente quem pertence ao corpo, pertence à alma da Igreja. Melhor é falar de «modo visível» e «modo invisível» de pertencer à Igreja.

 

2.3. Ao passo que o desejo explícito do Batismo desde os primeiros séculos foi tido como suficiente para salvar quem não possa receber o próprio sacramento, a eficácia do desejo implícito (nos termos que acabamos de expor) só em época relativamente recente foi reconhecida pelos teólogos.

 

Pode-se dizer que foi o Papa Pio IX quem em 1854 deu autoridade a esse novo ponto de vista. Assim se exprimia Sua Santidade:

 

«É preciso considerar como verdade de fé que, fora da Igreja apostólica romana, ninguém pode ser salvo: que esta é a arca única da salvação e que os que nela não tiverem entrado, perecerão pelo dilúvio.

E é preciso igualmente ter por certo que os que estão na ignorância da verdadeira religião, disto não têm culpa aos olhos do Senhor, caso essa ignorância seja invencível. Quem, porém, seria tão presunçoso que ousasse indicar os limites de tal ignorância, dados os caracteres e as diversidades dos povos, das regiões, dos espíritos e de inumeráveis outros fatores? Não há dúvida, quando, libertados dos vínculos do corpo, virmos a Deus tal como é, compreenderemos quão estreito e maravilhoso é o liame que une a Misericórdia e a Justiça divinas. Mas, enquanto vivemos na terra, acabrunhados por este peso mortal que abate a alma, professemos firmemente que só há um Deus, uma fé, um Batismo (Ef 4,5); indagar além disto, já não é lícito. De outro lado, na medida em que a caridade o requer, formulemos preces assíduas para que todas as nações, de qualquer das partes do mundo, se convertam a Cristo; e trabalhemos com todas as nossas forças para a salvação comum de todos os homens. Com efeito, o braço do Senhor não se tornou exíguo (Is 50,2), e jamais os dons da graça celeste faltarão aos que desejam e pedem, com um coração reto, ser reconfortados por Sua luz» (Denzinger 1647s).

 

É de notar que nessa alocução o Sumo Pontífice frisa bem a dificuldade de se estabelecerem os limites da boa fé e da culpabilidade nos indivíduos; não há para isso um critério universal, aplicável aos homens de todos os tempos e todas as regiões, mas o julgamento exato das consciências é obra de Deus só. De resto, já os teólogos anteriores a Pio IX faziam a mesma advertência: Suarez (+1617) e os autores de Salamanca (séc. XVIII), por exemplo, julgavam que, mesmo num pais onde a fé católica é professada sem oposição, pode haver hereges ou infiéis que estejam fora de toda influência do Catolicismo e, por conseguinte, não concebam dúvida sobre a veracidade da sua seita.

 

É de crer que, nas seitas heréticas é cismáticas, a massa do povo, pouco instruída, segue de boa fé seus pastores religiosos e não se propõe o problema da «verdadeira religião». Entre os estudiosos é mais fácil surgirem dúvidas sobre a autenticidade de sua seita, dúvidas que naturalmente tiram a boa fé; todavia Newmann podia afirmar que vivera muitos anos como erudito teólogo anglicano, sem jamais ter concebido a mínima hesitação sobre a veracidade de sua religião. Diz-se que a quase totalidade dos hereges e cismáticos que não se ocupam com a Igreja Católica, está de boa fé.

 

Perspectivas muito consoladoras são essas... Nem se poderia conceber que a verdade fosse outra. Com efeito, se Cristo veio ao mundo para salvar e não para condenar (cf. Jo 3,17), a existência da Igreja visível de Cristo não poderia ser motivo de condenação para a maioria do gênero humano, que talvez não lhe pertença visivelmente, mas certamente lhe pertence invisivelmente.

 

2.4. A história contemporânea, de resto, contribuiu para ilustrar e corroborar as vistas largas da teologia no tocante à salvação fora da Igreja visível.

 

Com efeito, em abril de 1949, o Pe Reitor de «Boston College» (U. S. A.) despediu três professores leigos do seu educandário por ensinarem obstinadamente que, para ser salvos, todos os homens têm que se tornar membros professos da Igreja Católica. O Pe. Leonardo Feeney S. J., que então dirigia a Casa dos Estudantes Católicos junto à Universidade Harvard, de Cambridge (U. S. A.), resolveu tomar publicamente a defesa dos três citados professores, reafirmando a sentença teológica estreita dos mesmos. Frequentemente admoestado a rever tal ponto de vista errôneo, Feeney não se rendeu, pelo que foi finalmente excomungado aos 13 de fevereiro de 1953. Interessa-nos frisar aqui o fato de que o S. Ofício de Roma se aproveitou do ensejo para dirigir uma carta ao Cardeal Cushing, arcebispo de Boston, expondo o autêntico pensamento da Igreja sobre o assunto (o documento datado de 8 de agosto de 1949 só foi tornado público em 1952, poucos meses antes da excomunhão de Feeney. Eis um dos trechos mais salientes de tal carta:

 

«Entre os mandamentos de Cristo não é de pouca importância aquele que preceitua, nos incorporemos pelo Batismo ao Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, e prestemos nossa adesão a Cristo e ao seu Vigário, (Vigário) pelo qual o próprio Cristo na terra governa, de modo visível, a Igreja.

Por conseguinte, não se salvará quem, consciente de que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, não obstante se recuse a se lhe submeter e denegue obediência ao Romano Pontífice, Vigário de Cristo na terra...

Todavia, para que alguém possa obter a salvação eterna, não se requer sempre que seja atualmente incorporado à Igreja como membro, mas é necessário, ao menos, que lhe esteja unido por desejo e voto.

Este desejo, porém, não deve ser sempre explícito, como ele o é nos catecúmenos. Dado que o homem esteja envolvido em ignorância invencível, Deus aceita igualmente o desejo implícito, o qual é assim chamado por estar incluído naquelas boas disposições de alma que levam alguém a querer conformar sua vontade com a vontade de Deus.

Estas verdades são claramente ensinadas na Carta Dogmática «A respeito do Corpo Místico de Jesus Cristo», publicada pelo Sumo Pontífice o Papa Pio XII aos 29 de junho de 1943...

No fim dessa Encíclica, o Sumo Pontífice, movido de profundo afeto, convida à unidade os que não pertencem ao Corpo da Igreja Católica; menciona então «os que por certo e inconsciente desejo e almejo estão voltados para o Corpo Místico do Redentor»; estes tais, Sua Santidade de modo nenhum os exclui da salvação eterna; afirma, porém, que se acham em condições «nas quais não podem estar certos de sua salvação eterna... visto que permanecem privados dos muitos dons e auxílios celestiais dos quais somente na Igreja Católica se pode usufruir».

 

Com estas sábias palavras, tanto reprova aqueles que excluem da salvação eterna os que, por desejo implícito apenas, estão unidos à Igreja, como rejeita os que falsamente asseveram que os homens podem ser salvos tão bem numa religião como em qualquer outra...» (Carta publicada em «The American Ecclesiastical Review» 127 [1952] 307-315).

 

Como se vê, o axioma «Fora da Igreja não há salvação», devidamente entendido, está longe de significar estreiteza e mesquinhez. Ele não é mais exigente do que a Verdade é exigente!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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