A Liturgia Celeste

 

A descrição da liturgia celeste está nos capítulos IV e V do livro do Apocalipse. A correspondência entre essa descrição e a liturgia primitiva é assinalada por todos os historiadores da liturgia que se ocuparam do assunto. Eles se dividem entre os que acreditam que o autor do Apocalipse baseou-se na liturgia cristã primitiva para descrever a liturgia celeste e entre aqueles que defendem que, em seu desenvolvimento, a liturgia cristã primitiva tomou por modelo a descrição da liturgia celeste constante do Apocalipse.

 

A correspondência entre uma e outra, porém, está fora de controvérsia. Como assinala Bento XVI em sua Introdução ao Espirito da Liturgia, o Apocalipse é "o livro da liturgia celeste, que seria apresentado pela Igreja como modelo e critério para a sua liturgia" (p. 154). Fontes interessantes:

 

http://restlesspilgrim.net/blog/2013/06/21/the-liturgical-apocalypse/
http://books.google.com.br/books/about/Apocalypse_et_liturgie.html?id=30ljQgAACAAJ&redir_esc=y
http://www.jstor.org/discover/10.2307/3162045?uid=3737664&uid=2129&uid=2&uid=70&uid=4&sid=21102716550501

Assim, a descrição da liturgia celeste no Apocalipse corresponderia à forma primitiva da missa pontifical, isto é, aquela que é solenemente celebrada pelo bispo, com o auxílio de outros ministros, presbíteros e diáconos.

 

Conforme o livro, João viu «um trono que estava colocado no céu, sobre o qual trono estava alguém sentado» (v. 2). Este é Deus Pai, que corresponde ao bispo na liturgia cristã; o trono corresponde à cátedra episcopal. «Aquele que estava sentado no trono era no aspecto semelhante a uma pedra de jaspe e de sardônica» (v. 3) -- semelhante a uma pedra porque Deus não muda e porque o bispo deve possuir em si mesmo a solidez da fé, para ser o fundamento firme e estável da igreja particular que ele preside. «E em volta do trono estava um arco-íris que se assemelhava à cor de esmeralda» -- o arco-íris representa a aliança de Deus com a humanidade e do bispo com sua igreja particular: «Porei o meu arco nas nuvens e ele será o sinal da aliança entre mim e a terra» (Gn 9,13). «Em volta do trono estavam outros vinte e quatro tronos; e sobre estes tronos estavam sentados vinte e quatro anciãos, vestidos, vestidos de roupas brancas tendo em suas cabeças coroas de ouro» (v. 4). Estes vinte e quatro anciãos (no original grego, "presbyterous") são os sacerdotes que, em volta do bispo, auxiliam-no na celebração da missa pontifical, é o bispo rodeado de seu presbitério.

São vinte e quatro porque representam a soma do Antigo (os doze filhos de Jacó, que deram origem às doze tribos de Israel) e do Novo Testamento (os doze Apóstolos). «Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões» -- é a pregação do bispo: os relâmpagos iluminam, as vozes são as advertências moderadas aos bons, os trovões as reprimendas endereçadas aos maus. «E diante do trono estavam sete lâmpadas ardentes, que são os sete espíritos de Deus» (v. 5) -- ou o Espírito Santo em seus sete dons. Veja nessa figura as sete lâmpadas diante do trono do Pontífice:

 

«Em frente do trono havia um como mar de vidro semelhante ao cristal»  -- é o batistério, donde os fiéis saem puros e transparentes como o vidro e o cristal.

 

«E no meio do trono, e em volta do trono, quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás» (v. 6). É o livro dos Evangelhos, que deve estar espiritualmente no bispo ("no meio do trono") e fisicamente em volta dele.

 

«O primeiro animal era semelhante a um leão» -- é o Evangelho de Marcos, que inicia com «voz do que clama no deserto», como um leão e o mesmo Jesus, pela sua pregação e também por sua ressurreição, representa-se como um leão.

 

«O segundo semelhante a um novilho» -- é o Evangelho de Lucas, que começa pela referência ao sacerdote Zacarias que, como sacerdote da Lei Antiga, oferecia o sacrifício de novilhos e Jesus é representado em sua paixão como um novilho.

 

«O terceiro tinha o rosto como de homem» -- é o Evangelho de Mateus, que se inicia pela genealogia humana de Jesus e significa o mistério da humanidade do Cristo.

 

«E o quarto era semelhante a uma águia voando» -- é o Evangelho segundo João, voando por contemplar Jesus nos mistérios de sua divindade.

 

«Os quatro animais tinham cada um seis asas; em volta e por dentro estavam cheios de olhos, e não cessavam dia e noite de dizer: Santo, Santo, Santo» (v. 8) -- é o triságio da liturgia.

 

«Olhei e eis que, no meio do trono e dos quatro animais, e no meio dos anciãos, estava de pé um Cordeiro, parecendo ter sido imolado» (c. 5, v. 6)  -- é Jesus Eucaristia.

 

A liturgia é obra da Santíssima Trindade: o Pai sobre o trono, o Espírito Santo representado nas sete lâmpadas e o Filho no Cordeiro imolado. Outro sinal de que se trata de uma missa solene: a Revelação é recebida em «um dia de domingo» (c. 1, v. 10).

 

 

 

Graça e paz,

Rodrigo R. Pedroso


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 

:-)