BíBLIA (4021)'
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Artigo

INTRODUÇÃO A TOBIAS


Semelhante ao livro de Rute pela suavidade de cenas domésticas, Tobias supera-o pela variedade e entrelaçamento de acontecimentos e pela riqueza de ensinamentos morais.

O livro de Tobias foi escrito em hebraico ou aramaico. Encontraram-se fragmentos em ambas as línguas (1952) nas grutas próximas do mar Morto. S. Jerônimo verteu-o para o latim, servindo--se de uma redação aramaica, e assim foi inserido na Vulgata. A versão grega dos LXX deriva do texto original, seguindo outra via; dessas duas fontes, a grega e a latina, surgiram todas as outras versões chegadas até nós.

A primeira e mais palpável diferença entre essas duas versões é que na Vulgata toda a narração, desde o princípio, desenvolve-se em terceira pessoa, ao passo que no grego o preâmbulo (1,1-2,6) ê narrado por Tobias na primeira pessoa. Na Vulgata é mais abundante o elemento parenético, no grego prevalece o biográfico. Na Vulgata, pai e filho têm o mesmo nome: Tobias; no grego, ao invés, o pai chama-se Tobit, ou mais corretamente, Tobi, e somente o filho, Tobias.

A própria versão grega, porém, chegou-nos em três formas ou redações, duas principais e completas e uma secundária e incompleta. As duas principais têm os seus representantes mais antigos e autorizados, respectivamente, nos dois re-putadíssimos códices (aqui rivais, de resto, irmãos) Sinaítico (atualmente no Museu Britânico) e Vaticano (grego 1209, conhecido com a sigla B) do séc. IV. A redação do Sinaítico difunde-se mais na narração, valendo-se de uma expressão mais vulgar, de colorido mais semítico; a do Vaticano é mais sucinta e de grecidade mais pura. Existe grande discordância entre os doutos em determinar qual das duas esteja mais próxima do original semítico; mas atualmente vai prevalecendo a opinião em favor da redação sinaítica, a qual tem por seguidora fiel a antiga versão latina e por aliados os fragmentos semíticos encontrados às margens do mar Morto.

Discutiu-se também se o livro de Tobias seria uma história verdadeira ou uma novela com finalidade moral. Não obstaria ao ensinamento da Igreja católica considerá-lo, em abstrato, uma narração de livre invenção (Encíclica Divino afilante Spiritu). Mas, se por um lado, parece manifesta a intenção do autor, em vista do cuidado que emprega em referir nomes de pessoas e lugares, e circunstâncias pormenorizadas, de narrar fatos realmente ocorridos, doutro lado, porém, às razões aduzidas contra a historicidade dos fatos narrados, como anacronismos de pessoas e alguma pseudoqualificação, responde-se facilmente que, faltando-nos o texto original, os erros podem provir de traduções incorretas ou de falhas de copistas. O maravilhoso que ressalta no livro pode criar dificuldades somente para quem, por princípio, nega-se a admitir o sobrenatural. Isto posto, nada nos veda que retenhamos a estrita historicidade de Tobias, ou pelo menos com alguns escritores católicos, admitamos um amplo fundo histórico com acessórios embele-zadores.

A primeira documentação dos fatos narrados neste livro deve ter sido, indubitavelmente, o testemunho dos dois protagonistas, Tobi e Tobias, e nada obsta que tenha sido escrita por eles; contudo, tampouco está provado, nem mesmo pelo emprego da primeira pessoa em 1-3, que eles sejam os autores do nosso livro; um escritor posterior pode muito bem ter-se servido daquilo que eles deixaram dito ou escrito.

Judeus e protestantes não reconhecem o livro de Tobias como canónico, isto é, inspirado, relegando-o entre os "Apócrifos". Mas a Igreja católica, tanto latina como oriental, recebeu-o desde o princípio no cânone das divinas Escrituras, não obstante a opinião contrária de alguns Padres da antiguidade. Com isso a Igreja oferece-nos para instrução um delicioso modelo de prosa narrativa, "pleno de ensinamentos religiosos e morais" (S. Beda). Nele, virtudes domésticas e sociais, sobretudo o exercício de uma generosa beneficiência, e a paternal providência de Deus para com os seus servos fiéis fulgem numa luz tão viva quão suave.


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