A conversão e suas armadilhas

Uma história pessoal

O espiritismo e o protestantismo nunca me tentaram. Na verdade, muito pelo contrário, a existência dessas falsas religiões foi um dos maiores empecilhos para que eu conseguisse aceitar a sempre presente graça da conversão. No meio em que fui criado, na “progressista” Zona Sul do Rio, a religião era uma vaga curiosidade etnográfica, coisa dos outros. Pessoas normais não tinham religião e não levavam a sério nem mesmo a possibilidade de sua existência. Velhinhas podiam fazer alguma coisa pitoresca, como ir a um centro espírita ou igreja católica, diversões talvez comparáveis ao crochê e ao tricô, e pretos pobres podiam ir bater tambor na macumba. Algumas pessoas muito “espiritualizadas” frequentavam esta ou aquela religião oriental, meditando com swamis e lamas, mas sem, claro, levar aquilo tudo muito a sério. Era uma coisa para espairecer, pra deixar “zen”, deixar “relax”, sabe como é. Nada sério.

Para mim, contudo — e isto é coisa eminentemente pessoal, maluquice minha, mania que eu tirei sei lá de onde — sempre foi mais ou menos evidente que havia algo maior, que havia um Deus Todo-Poderoso, Criador dos Céus e da Terra, e que Ele estava, sim, profundamente interessado no que acontecia conosco. Mas onde encontrá-l’O?!

A única pessoa da minha família que tinha algum tipo de prática vagamente religiosa era, claro, a minha avó, que frequentava um centro espírita chamado “Igreja Cristã Espírita Universal”, numa rua barra-pesada na Lapa. Ela vivia tentando me arrastar para lá, para meu horror. Um dia eu reparei que havia um cartazinho informando que era proibida a entrada de pessoas com roupas vermelhas e/ou pretas; foi a minha salvação, por um bom tempo. Sempre que ia à casa da minha avó, eu me vestia de flamenguista fanático, sem uma peça de roupa que não fosse preta ou vermelha. Minha liberdade durou coisa de uns cinco ou seis meses, até que ela percebeu o truque e, quando cheguei lá, mostrou-me uma roupinha branca e azul que comprara para mim. Brigamos, naquele dia. Eu disse a ela, com todas as letras, que não iria à “sua igreja do diabo”. Eu devia ter uns nove ou dez anos de idade, não muito mais que isso, mas eu percebia que havia algo profundamente errado naquilo. E olha que não era das piores: as pessoas lá não ficavam falando com vozes estranhas, nem nada do gênero; os supostos fantasminhas se comunicavam por escrito, imagino, ou de alguma outra maneira igualmente discreta. Mas, mesmo assim, sempre tive horror daquele lugar.

Além disso, a própria doutrina espírita sempre me pareceu absolutamente repulsiva. A ideia de que Deus puniria uma pessoa por atos cometidos em “outra encarnação” de que não se tem absolutamente memória alguma sempre foi para mim uma blasfêmia evidente. Seria dizer que Deus faria cotidianamente o mal, punindo o João pelos atos do José (“encarnação” anterior do João, de quem nada sobrou que não a culpa e um vago nível numa escala de “evolução”), sem que o João tivesse sequer como descobrir o que é que o José fez para que ele sofresse assim. Melhor que o mal seja do acaso, do demônio, do que for; um deus assim seria, ele mesmo, profundamente maligno. Satanás teria razão ao dizer-lhe “non serviam!”, “não servirei”.

Outros elementos do espiritismo sempre me pareceram igualmente absurdos: um “mundo espiritual” que era evidentemente uma cópia malfeita do mundo real, com hospitais e bondes; um vocabulário pseudocientífico de “fluidos” e “vibrações” que, mais tarde, eu fui descobrir que é o triste apanágio do mais puro cientificismo do final do Século XIX; versões arrevesadas e “corrigidas” de orações católicas (que eu então percebia como “em domínio público”), substituindo “pecadores” por “fracos e falíveis” na Ave-Maria, etc. Em suma: a coisa não batia, não tinha como bater e jamais bateria.

Mas era só isso o que eu tinha ao meu alcance, e eu estava realmente procurando. Não me lembro de um momento na minha vida em que eu não tivesse estado procurando Deus, procurando a Verdade, procurando o Bem. Mesmo nos meus piores momentos, eu sempre agi de alguma forma em relação a isso tudo: eu podia lutar com Deus e tentar provar-Lhe que eu estaria certo e Ele errado (dica: não dá certo!), mas nunca conseguiria agir como se Ele não existisse.

O protestantismo, então, também nunca me tentou. Graças ao bom Deus, eu não tinha nenhum parente enfiado em seitas protestantes; no meu tempo, elas eram poucas e raras. Mas eu tinha uma Bíblia, comprada para uma aula de religião na escola (dada por um padre que largara a batina; ela consistia em procurar capítulos e versículos que ele marcava no quadro e copiar, enquanto ele andava de um lado para outro na sala, fumando um cigarro e escarrando pelos cantos. Não era exatamente um ambiente propício à conversão). Com todo aquele papo de que a Bíblia é a Palavra de Deus, e coisa e tal — que, evidentemente, eu não tinha como entender lá muito bem, dado o meu ambiente; para mim isso significava pelo menos que ela era muito importante, e que haveria coisas sábias escritas nela –, eu fiz o óbvio: peguei a Bíblia e a li, de cabo a rabo, algumas vezes. Adorei as Epístolas aos Coríntios, achei Jonas muito divertido, Números e Levítico chatíssimos, Êxodo empolgante, Isaías um chato, os Provérbios e o Eclesiástico o maior barato, e coisa e tal. Mas só. A experiência me mostrou que aquilo era evidentemente parte de um todo, era uma peça complexa que se encaixaria num todo muito maior, como o carburador se encaixa num automóvel, nunca algo que se sustentasse por si mesmo. Estava absoluta e completamente na cara que seria possível criar milhões de crenças diferentes usando os mesmos textos, porque aquilo simplesmente não fora concebido como servir de manual de instruções — ou mesmo de instrução — religioso. Um deus que fosse incompetente ao ponto de ditar aquilo e dizer “está tudo aí, virem-se” seria, claro, um falso deus. Não tão diretamente maligno quanto o dos espíritas, mas pelo menos imbecil o suficiente para que ninguém pudesse achar que se trata do Deus que criou os Céus e a Terra. Quem consegue fazer um passarinho que voa faz um bom manual de instrução, se quiser; evidentemente, isso não era o que Ele queria com a Bíblia.

Havia nela, até para alguém burro (ou, antes, “ignorante e indouto” — 2Pd 3,16) como eu, evidentes pérolas de sabedoria. Descobrir que a Sabedoria de Deus é loucura para os homens e a sabedoria dos homens é loucura para Deus, por exemplo, foi uma coisa que me marcou profundamente, foi a descoberta de uma Verdade tão antiga e tão bela que passei meses a repetir aquelas palavras para mim mesmo. Do mesmo modo com várias sacadas geniais dos livros sapienciais. Mas como tirar daí uma relação com este Deus, Cuja sabedoria parece loucura para os homens? Como usar como degrau para alcançar o próprio Deus estas descobertas soltas de coisas que até eu conseguia entender e perceber que eram profundamente verdadeiras? A resposta, evidentemente, não estava ali na Bíblia. Ela era, sim, uma peça necessária, mas ela precisaria ser encaixada em outro lugar.

Quando a isso se somou o surgimento das seitas protestantes em portinhas de garagem, com uns sujeitos evidentemente burros e semianalfabetos berrando em microfones, ficou ainda mais perfeitamente claro para mim que aquilo era mera “sabedoria do mundo”, ou seja, loucura diante de Deus.

Eu percebia claramente a presença de Deus na floresta, nas nuvens de tempestade, na chuva que caía, nas ondas do mar e — curiosamente — nas igrejas antigas do Centro do Rio de Janeiro, fora da hora de Missa, quando elas estavam em silêncio e na penumbra. Deus Se fazia ouvir mais facilmente no silêncio e na penumbra, e isso sempre me foi evidente. Nada mais antitético ao Divino que um sujeito todo suado, de paletó e gravata (roupa que sempre me deu horror), berrando num microfone coisas que evidentemente ele mesmo não entendia. Aquilo era evidentemente pura oralidade humana, pura vontade de expressar não a Deus, mas a si mesmo.

Esta percepção dos reflexos do Divino na ordem da Criação me fizeram capaz de entender os macumbeiros, tanto de candomblé quanto de umbanda (ainda que mais aqueles que estes, devido à proximidade destes com o espiritismo): eu sempre entendi que havia algo do Divino na cachoeira, ou mesmo na encruzilhada, e aquele pessoal estava simplesmente reconhecendo isso e adorando o que percebiam. O problema para mim estava, sempre esteve, neste salto. Não sei se é por ter lido a Bíblia, e mais ainda por a ter lido do começo ao fim, logo partindo da Revelação monoteísta aos judeus, mas a minha impressão diante do candomblé sempre foi de que eles estavam parando no meio do caminho. Deus estava na cachoeira, mas a cachoeira não é Deus. E o deus da cachoeira não é o Deus que está na cachoeira; é alguém querendo tomar para si o que não lhe pertence.

Mas, mesmo assim, eu entendia e entendo ainda que alguém vá sacrificar uma vida — que pode ser a de uma galinha preta — para o Divino. Hoje, depois de muitos anos e de muito estudo, eu posso apontar com muito mais precisão o erro de quem o faz, mas a minha percepção de rapazinho já estava certa: não é isso que Deus quer que se faça, e por isso esse sacrifício não vai ser para Ele. Quem mata a galinha preta está sendo vítima de um estelionato espiritual, por assim dizer. Mas ainda dá para entender que alguém o faça, exatamente como não dá para entender que alguém adore o deus maligno dos espíritas ou ache que berrar num microfone seja de alguma forma uma atividade religiosa.

Aliás, essa coisa do barulho foi outro grande obstáculo no meu caminho de conversão. Provavelmente, se não fosse a reforma litúrgica paulina e o que fizeram dela eu teria me convertido muitíssimo antes. Mas quando eu trabalhava no Centro do Rio eu sempre entrava nas igrejas antigas vazias para rezar, e nada me espantava mais rapidamente que uma Missa. A minha impressão era de que a igreja havia sido invadida por inimigos, um pouco como hoje em dia o MST faz com as fazendas. Ligavam microfones, tocavam (mal) violão, falavam pelos cotovelos amplificados; parecia-me que o que queriam era expulsar Deus dali. A Ele, claro, não teriam como, mas a mim expulsavam sem a menor dificuldade.

Se naquele tempo eu tivesse um dia entrado e achado um padre celebrando a Missa antiga, em silêncio, voltado para o altar (não para mim!, que sou absoluta e completamente desimportante), imagino que teria sido conversão instantânea. Mas nunca tive esta graça.

Ao contrário, fui aos poucos percebendo intelectualmente que a Igreja — que por definição, de acordo com a unanimidade do meio em que eu fui criado, está sempre errada — está certa nisso, e naquilo, e naquiloutro. Fui brigando, lendo livros para refutá-los (e perdendo cada disputa, claro), tentando provar por meus atos que a Igreja estava errada (pelo que imagino que meu Purgatório não vá ser nada fácil) enquanto ouvia a voz de Deus a me chamar das igrejas vazias…

Até que finalmente me rendi, e me converti, como alguém que perdeu uma guerra e se entrega. Fui aos poucos aprendendo a aguentar o “MST” eclesial para achar a missa eterna escondida debaixo daquele horror, e aprendi que eles agem contra o que manda a Igreja; aprendi a ler e a amar a Escritura que havia lido na minha ignorância; achei, finalmente, a Deus, que tanto busquei. E Ele é bom.

Carlos Ramalhete

Fonte: Medium


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