HOMILIAS (417)'
     ||  Início  ->  
Artigo

Pregações: Homilias - O evangelho da transfiguração - por Padre José Ruy

2º domingo da Quaresma
Chamado – desafio – promessa



A Quaresma é tempo de especial graça de Deus para nossa vida, e coloca-nos diante de grandes desafios de nossa realidade humana. É importante não fugir da luta da quaresma, para vivermos bem este tempo. Jesus também enfrentou estas realidades com valentia e as venceu, mas nós, da nossa parte, com a ajuda de Deus, ainda precisamos vencer estas realidades na nossa carne, pela Igreja, corpo de Cristo (Cfr. Cl 1, 24).

A primeira provação são as contrariedades da vida. Aquilo que não opinamos e não pedimos, mas nos sobrevêm: perda de alguém querido, a doença prolongada, as expectativas frustradas com alguém ou alguma coisa que amamos, ou com o trabalho de uma vida. Quem nunca se sentiu desafiado pelos reveses da vida? Estas frustrações humanas precisam se levantar diante da do Mistério Pascal de Jesus Cristo para serem redimidas, para que se transformem em um tesouro precioso oferecido a Deus, como um culto espiritual. (Cfr. Rm 12, 1)

A segunda provação são as contradições internas de nossa liberdade, que procura, teimosa, o que não lhe convém. É o mistério do pecado. O mal procurado que parece grudar em nossa alma e ameaça apagar em nós a luz da graça de Deus. É o mal que clama aos céus, não por vingança, mas por reconciliação e vida, pois enquanto estamos no pecado, estamos na sombra da morte. Esta contradição Cristo não a experimentou em sua carne, mas em suas consequências no mundo: a dureza de coração, a ganância, o ódio homicida, a covardia e a tibieza, a falta de amor. Tudo isso foi um obstáculo para Cristo e o fez sofrer. Também os que se exercitam na quaresma precisam aprender a lutar no espinhoso campo de sua liberdade decaída.
Uma vez que entendemos nossa posição, que é a posição de todo discípulo, podemos pensar na Liturgia da Palavra de hoje.

Há, de fato, um elemento que se repete nas três leituras que escutamos: o chamado de Deus. Deus nos chama! No Gênesis, Deus disse a Abraão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (12, 1); na Segunda Leitura, retirada da segunda carta à Timóteo, num chamado mais direto e sem rodeios, diz são Paulo: “Sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (1, 8b) e, no Evangelho, o chamado é para ouvir Jesus Cristo: disse, da nuvem, uma voz: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”. (Mt 17, 5)
É bom ser lembrado! É bom ser chamado! Lembro-me daquela parábola dos trabalhadores da vinha que ficavam na praça só esperando que alguém os chamasse. Creio que nosso mundo é um pouco essa praça, onde muita gente boa espera um convite. Quantos tesouros nós, padres, encontramos em nossas Paróquias. Pessoas que talvez ocupam bancos de Igreja há anos, esperando ser chamadas. Deus tem um tempo para cada coisa.

O Evangelho da Transfiguração é um chamado para a glória, mas vem logo depois do anúncio da cruz, onde Jesus chama os discípulos para a cruz, mas os discípulos não entendem bem o convite. Por este motivo acontece a transfiguração. É como um complemento e dá sentido ao caminho da cruz.
A verdade é que o chamado não acontece no tempo da calmaria. Deus não para o mundo para chamar os seus servos. Deus nos chama do jeito que nós estamos, preparados ou não, e seu convite parece muitas vezes um desafio: “sai da tua terra”, “sofre comigo pelo Evangelho”, “Levantai-vos e não tenhais medo”.
A glória no Tabor mostrada por Cristo serve para que recobremos a coragem diante do chamado. Um chamado que passa necessariamente pela cruz.

Santo Tomás de Aquino explica assim o Evangelho de hoje: “O Senhor, depois de haver anunciado a Paixão aos discípulos, convidou-os a que lhe imitassem o exemplo. Ora, é necessário, para trilharmos bem um caminho, termos um conhecimento prévio do fim. (...) E isso, sobretudo é necessário quando o caminho é difícil e áspero, laboriosa a jornada, mas belo o fim”. (S.Th. III, q. 45, a. 1, resp.)
Jesus promete duas coisas para quem o segue: a cruz e a glória. Esta é a proposta de Jesus. É pegar ou largar! Ou tudo ou nada. Sem cruz não tem glória. Sem glória, a cruz não vale a pena.
É tão tentador buscar só a glória. De fato, tem gente que faz nome, fama e dinheiro prometendo só glória. Dá vontade de terminar a homilia por aqui e erguer algumas tendas, não é verdade? Mas não podemos esquecer que a transfiguração é só uma estação, uma paradinha na estrada, pois precisamos continuar!

A promessa de Jesus é a cruz e a glória! A cruz e a glória! A cruz e a glória!
Não se esqueça da glória, para não deixar a cruz. Não se esqueça da cruz, para não perder a glória. Esse é chamado cristão. Nosso chamado!
Quando as contradições da vida vierem. Quando uma nova missão for pedida para você. Quando o céu se fechar de uma hora para outra com uma tempestade de problemas que você não esperava e, alguns dizem, “você nem merecia”. Quando o pecado parecer morder a sua carne, e vier o desânimo e a impressão de que o caminho cristão não é mais para você. Não deixe passar a cruz, aproveite-a!
Se é uma contradição, segura em Deus! Prossegue! Sustente a cruz!

Se é um pecado, procure o padre, se confesse, é tempo de Quaresma e penitência. Mas não deixe a cruz! A cruz é garantia da glória.
O mundo precisa de gente que aguente a cruz. Ninguém quer a cruz. Hoje, especialmente, parece que todo mundo quer viver uma vida de adolescente. Quando aparece a primeira cruz, as pessoas querem logo desistir. Não desista! Aguente a cruz em favor da família, a favor dos jovens, da castidade, do amor, do bem, da honestidade; contra o aborto, contra a corrupção, contra a mentira deste mundo tenebroso, que quer transformar crimes em direitos.
Todo o bem que queremos conquistar já está assegurado na glória, mas aqui na terra precisamos passar pela luta da cruz. Não desista!

Este foi o caminho bendito do Senhor Jesus: caminho para a glória! Este também é o seu caminho. Que Deus dê a você a graça de nunca abandoná-Lo, e de nunca se esquecer de que com Jesus vem também a cruz.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.
Padre José Ruy


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
3 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 

:-)