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Artigo

POR QUE CONVINHA A DEUS TORNAR-SE HOMEM?

Nando Gomes

 

Existe na química, a regra basilar de que os seres ou objetos distintos não podem se unir em perfeição, por pura ausência de afinidades entre os seus elementos.  

 

Assim como há distinção natural que impede a união entre água e óleo, essa mesma distinção existe em relação a Deus e sua criatura humana. Ora, os essencialmente dispares e heterogêneos jamais poderiam se unir, senão mediante uma imperfeição incorrigível, sendo certo que entre Deus que é puro Espírito Divino eterno e incriado, e o ser humano que é pura matéria criada e finita, há um abismo intransponível diante das leis naturais.

 

Como o corpóreo é dispare com o incorpóreo, também o instinto corporal diverge naturalmente das Virtudes Espirituais, e neste contexto, não seria ilógico afirmar um certo constrangimento no fato de Deus, o qual existira desde sempre (ab eterno) sem necessitar de matéria, corpo ou composição, num certo período da história ter tomado um corpo humano, uma carne, e assim, convivido ainda que por curto tempo, dentro das limitações sensíveis e fisiológicas que decorrem da natureza desse corpo assumido.1  

 

Sendo honroso ao menor tornar-se maior, não seria desonroso ao Infinitamente Maior volver-se ao menor?

 

De certo que numa ótica comum tal assertiva estaria correta.  

 

No entanto, estamos nos referindo sobre Aquele que é Infinitamente Maior, e não apenas em tamanho, mas em Virtudes.

 

Deus se fez homem pelo FILHO para promover o encontro definitivo entre a DIVINDADE e a humanidade, separada Dele em razão do pecado desta última.

 

Esse pecado é o veneno da antiga serpente, o qual nos atingiu na carne, porquanto sendo o ser humano composto da parte animal (carne) e espiritual (alma), aquilo que lhe torna imagem e semelhança de Deus é intocável, sendo a parte vulnerável a que o tornava semelhante aos animais.  

 

Não por outra razão, o pecado que nos atingiu na carne desordenou nosso intelecto, nossa sensibilidade e instintos, daquilo que seria nosso fim último que é a Perfeição Divina, lançando-nos de CORPO E ALMA 2 ao jugo do Tribunal Celestial, cujo veredicto não poderia ser outro, senão a morte eterna:

 

Está escrito:  

 

"Eu sei que em mim, isto é, NA MINHA CARNE, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. (Rm 7, 18)” — “Assim, pois, de um lado, pelo meu espírito, sou submisso à lei de Deus; de outro lado, POR MINHA CARNE, sou escravo da lei do pecado. (Rm 7, 26)” — “O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, CONDENOU O PECADO NA CARNE (Rm 8, 3)"

 

Por onde nasce a violação, há de se extrair a Justiça, assim como do veneno haverá de se tirar o soro antiofídico que nos salva.  

 

Ora, se pela CARNE HUMANA adveio pecado e transgressão, pela MESMA CARNE deveria advir a oferta para redenção e a obediência.

 

Pela Encarnação do Verbo é que se estabeleceu a Comunicação Eterna e Indissolúvel entre criatura e Criador, para que da imperfeição após a queda, alcançasse o ser humano a Comunhão MAIS QUE PERFEITA em um Estado Elevado de Dignidade Extranatural, o qual garantirá que jamais voltaremos a pecar e degenerar.

 

Sobre isso, ensinou o Papa Leão I: — “Reconhece, ó Cristo, a tua Dignidade, e feito consorte da natureza humana, não possamos querer uma volta degenerada a antiga vileza. 3” (ano 461+)

 

“Ele vos reconciliou pela MORTE DE SEU CORPO HUMANO, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. (Colossenses 1, 22)

 

Em sua obra “Adversus Heareses” ensinou Santo Irineu de Lyon (anos 120 à 220 DC):

“Este é o motivo que o Verbo de Deus se fez Homem; e o Filho de Deus, se fez filho de homem, para que o homem, unindo-se ao Verbo de Deus, recebendo a adoção se tornasse Filho de Deus. NUNCA PODERÍAMOS OBTER A INCORRUPÇÃO E A IMORTALIDADE, A NÃO SER NOS UNINDO A IMORTALIDADE E A INCORRUPÇÃO;

 

E prossegue:

 

“Como poderíamos realizar essa União, sem que antes a Incorrupção e a Imortalidade se tornassem o que somos, a fim de que O CORRUPTÍVEL FOSSE ABSORVIDO PELA INCORRUPÇÃO, E O MORTAL PELA IMORTALIDADE, e desse modo pudéssemos receber a adoção de filhos? (Livro III, p. 317)” – “Ele lhe dará o trono de Davi de forma tal que este Filho de Deus se tornaria homem, para que por sua vez, o homem se tornasse Filho de Deus. (p. 269)”— “Através da Encarnação do Verbo, DEUS RECAPITULA (reconstrói, reescreve) toda a descendência de Adão. A Igreja, porém, espalhada por toda terra, iniciada pelos Apóstolos, persevera firmemente numa única e idêntica fé em Deus e no seu Filho. (p. 292)”

 

Assim, a Infinita Misericórdia e a Bondade de Deus ecoaram na Humanidade Encarnada do Filho Divino.

 

Está na Essência de Deus a Caridade; e a Caridade implica permitir que a criação participe de sua imortalidade e perfeição, razão pela qual da encarnação do Verbo ordenou-se a remissão dos pecados da nossa carne, para nos livrar de corpo e alma (vez que somos indivisíveis) dos efeitos da Cólera Divina.

 

Deus assumiu nova velha humanidade adâmica, frágil, vulnerável e mortificada, para matá-la de uma vez por todas, e depois ofertá-la como oferenda PURÍSSIMA e SANTÍSSIMA ao próprio Deus, como satisfação de Justiça por nossos pecados, em troca de uma humanidade nova e ressurreta.

 

Liberados do débito, poderemos agora nessa nova humanidade reflorescer, nascer, ressurgir eterna e perfeita através da Ressurreição do Corpo Sacrificado do Cristo.

 

Ensinou Santo Atanásio (anos 296 a 363):

 

“O Verbo de Deus, incorpóreo, incorruptível e imaterial[...] Por amor de nós, veio a este mundo, compadecido da fraqueza do gênero humano, comovido pelo nosso estado de corrupção, não suportando ver-nos dominados pela morte, tomou um corpo semelhante ao nosso. Assim fez para que não perecesse o que fora criado, nem se tornasse inútil a obra de seu Pai e sua ao criar o homem. Ele não quis apenas habitar num corpo ou somente tornar-se visível. Se quisesse apenas tornar-se visível, teria certamente assumido um corpo mais excelente. CONSTRUIU NO SEIO DA VIRGEM UM TEMPLO PARA SI, isto é, um corpo; habitando nele, fê-lo instrumento mediante o qual se daria a conhecer. Assim, pois, assumindo um corpo semelhante ao nosso, e porque toda a humanidade estava sujeita à corrupção da morte, ele, no seu imenso amor por nós, ofereceu-o ao Pai, aceitando morrer por todos os homens. Deste modo, a lei da morte, promulgada contra a humanidade inteira, ficou anulada para aqueles que morrem em comunhão com ele. RECONDUZIU O GÊNERO HUMANO DA CORRUPÇÃO PARA A INCORRUPTIBILIDADE, DA MORTE PARA A VIDA, FAZENDO DESAPARECER A MORTE – como a palha é consumida pelo fogo – por meio do corpo que assumira e pelo poder da ressurreição. Assumiu, portanto, um corpo mortal, para que esse corpo, unido ao Verbo que está acima de tudo, pudesse morrer por todos. E porque era habitação do Verbo, o corpo assumido, pelo poder da ressurreição, tornou-se remédio de imortalidade para toda a humanidade. Entregando à morte o corpo que tinha assumido, ele o ofereceu como sacrifício e vítima puríssima, libertando assim da morte todos os seus semelhantes; pois o ofereceu em sacrifício por todos. O Verbo de Deus, que é superior a todas as coisas, entregando e oferecendo em sacrifício o seu corpo, templo e instrumento da divindade, PAGOU COM A SUA MORTE A DÍVIDA QUE TODOS TÍNHAMOS CONTRAÍDO. Deste modo, o Filho incorruptível de Deus, tornando-se solidário com todos os homens por um corpo semelhante ao seu, tornou a todos participantes da sua imortalidade, a título de justiça com a promessa da imortalidade. Por conseguinte, a corrupção da morte já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo que por meio do seu corpo habita neles. (Dos Sermões de Santo Atanásio, in Oratio de Incarnatione Verbi, 8.9 p. 25, trechos 110 à111)

 

O Amor e a Misericórdia de Deus não se hospedam nas leis naturais, por ser-lhes infinitamente superiores, e ao unir-se ao ser humano por absoluta Compaixão, Justiça e Caridade, a Divindade nada diminuiu ou indignou, assim como assumir de modo unitivo e irreversível nossa natureza, ainda que acidentalmente, nada lhe acrescentou, pois Cristo é o Alfa e o Ômega,4aquele que Era, que É e será Para Sempre.

 

Esta é a Fé Legitimamente Cristã, outorgada apenas à Verdadeira e Única Igreja CATOLICA APOSTÓLICA ROMANA para ser pregada ao mundo todo.

 

 

1. “Sendo Ele de condição Divina, não prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo; ASSEMELHANDO-SE AO HOMEM; (Filipenses 2, 6, 7 e 8)”

“[...] *POR POUCO TEMPO* o colocaste inferior aos anjos; de glória e de honra o coroaste; (Hebreus 2,17)”

2. O ser humano é indivisivelmente corpo e alma, e o que faz o corpo, reflete na alma: “SE HÁ UM CORPO ANIMAL, também há um ESPIRITUAL. (I Cor 15,44) — “Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. (I Cor 15, 46)”

3. Encíclica Papal Mystici Corporis.

4. "Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. (Apocalipse 21, 6)"


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