PERGUNTE E RESPONDEREMOS 368 – janeiro/1993

Reflexões

A Roda do Tempo

 

Mais uma vez, janeiro!. . . A história é uma sucessão de ciclos, que se repetem regularmente. Para os pagãos, este fato suscitava náusea e o desejo de escapar dos grilhões do eterno retorno, fugindo do corpo, do mundo e da história, para conseguir melhor vida. . . Para os cristãos, os ciclos da história tomam a forma de espiral ou de linha que sobe, passando pelas mesmas eta­pas, mas sempre em plano mais elevado, até chegar ao seu cume ou Ômega. A história não é monótona, porque dinâmica, porque todos os anos o cristão, passa pelas mesmas fases, mas cada vez mais maduro, mais próximo e mais prenhe de eternidade; vê os mesmos quadros, experimenta as mesmas vivên­cias, mas contempla tudo com um olhar sempre mais iluminado pela eterni­dade.

Associando idéias, verificamos que ciclo e roda eram imagens caras aos antigos. Estes comparavam a vida a uma roda,. . . roda cheia de significado (cf. Tg3, 6). Com efeito,

a roda lembra a instabilidade e a fragilidade dos bens deste mundo. Quem hoje está em cima, desfrutando prestígio e glória, amanhã poderá es­tar em baixo, esquecido e abandonado. 0 cristão reconhece isto; mas não se assusta, porque sabe que, através de altos e baixos, a roda da vida se move na direção dos valores definitivos e se aproxima cada vez mais deles;

a roda tem ainda outro simbolismo. Consta de um aro, que se liga a um ponto central mediante raios. Ora é interessante notar que esses raios, ao se aproximar do seu centro, se aproximam também, e cada vez mais, uns dos outros; e vice-versa, ao se distanciarem do seu centro, distanciam-se uns dos outros. Esta imagem significa, para os cristãos, algo de muito importante: os raios que convergem para o eixo central, simbolizam os homens que, aproxi­mando-se de Deus, se aproximam sempre mais uns dos outros; a fraternidade entre os homens está necessariamente associada à paternidade de Deus; se não há Pai no céu, também não há irmãos na terra. A recíproca é válida: se os homens se afastam de Deus, afastam-se uns dos outros, como acontece com os raios da roda e como atesta sobejamente a história contemporânea.

Que janeiro, recordando-nos o caráter cíclico da nossa existência, contribua para nos fazer viver sempre mais a espiral da vida, tendente ao seu ponto Ômega! Possa a volúpia de descobrir sempre mais a Deus e seu plano numa síntese mais profunda, mais inspirada pela eternidade, gere novo entu­siasmo naqueles que a aparente monotonia da caminhada ameaça cansar. E que essa volúpia dinamize os passos dos caminheiros na procura do seu cen­tro, para onde convergem todos os irmãos!

Dom Estêvão Bettencourt


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