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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 371 – abril 1993

Apologética

Monumento da Fé:

O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

 

Em síntese: O "Catecismo da igreja Católica", promulgado em 1992 pelo Papa João Paulo II, vem a ser o referencial para se ensinar a doutrina católica no mundo inteiro; propondo em termos claros e simples a mensagem da fé, dissipa as dúvidas que ultimamente têm sido levantadas a respeito de pontos do Credo; desta forma o povo de Deus terá como se orientar frente a teorias que hoje o sacodem.

O texto foi elaborado por uma Comissão de Cardeais e Bispos no decorrer de seis anos de estudo, passando por redações diversas resultantes de consultas feitas a peritos e a todo o episcopado católico. Consta de 2863 parágrafos, distribuídos em quatro Partes: 1) A Fé Professada (Credo); 2) A Fé Celebrada (Sacramentos e Liturgia); 3) A Fé Vivenciada (Moral); 4) A Fé feita Oração (Oração em geral e Pai-Nosso).

A obra destina-se a todos os fiéis da Igreja, podendo ser lida com proveito por clérigos e leigos. Os Catecismos regionais deverão levá-la em consideração de modo a garantir a homogeneidade do ensino da fé católica no mundo inteiro. Como se vê, a obra veio preencher uma lacuna muito grave, dada uma certa desorientação em matéria catequética hoje existente. Aliás, já em outras épocas a Igreja sentiu a necessidade de publicar um Catecismo oficial: tal foi o caso do Catecismo Tridentino (1566) e o do Catecismo de Pio X (1912).

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Foi lançado pelo Papa João Paulo II, aos 7-8/12/1992, o "Catecismo da Igreja Católica", (ver online ) destinado a servir de padrão a qualquer Catecismo regional. Os fiéis têm assim um referencial seguro para dirimir dúvidas relativas a pontos de fé hoje em dia controvertidos. Não restará motivo para hesitar diante de teorias propostas por autores contemporâneos, desejosos de traduzir a fé numa linguagem moderna, mas nem sempre bem sucedidos.

 

Examinaremos as características de tal obra em geral. Após o quê, passaremos à consideração de certos temas de relevo nela abordados. ([1])

 

1. TRAÇOS GERAIS

 

Antes do mais, devemos notar que não se trata de um Catecismo no sentido de' livro didático para crianças, mas antes temos em mãos um compêndio da fé, como observa o próprio S. Padre na Constituição Apostólica Fidei Depositum (de 11/10/92), que apresenta a obra; esta é "uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica, atestada ou esclarecida pela S. Escritura, pela Tradição Apostólica e o magistério da Igreja" (ibidem no 4).

 

1.1. Dados históricos

 

Percorrendo os antecedentes de tal obra, verificamos que a catequese ou a transmissão sistemática da doutrina da fé sempre foi praticada pela Igreja desde os seus primórdios, consoante o mandamento do Senhor Jesus em Mt 28, 18-20. A transmissão se fazia, a princípio, por via meramente oral. Aos poucos, porém, foi-se sentindo a necessidade de redigir por escrito algumas sínteses da pregação, que facilitassem a memória dos ouvintes. Assim surgiram os Evangelhos canônicos, que são o eco da pregação oral dos Apóstolos.

Houve também recurso às imagens, que, representando cenas da história sagrada, se tornavam a Bíblia pauperum ou a Bíblia dos mais simples ou dos iletrados.

 

Na Idade Média, S. Antônio de Pádua (+1231) e S. Bernardino de Sena (+1444) se distinguiram pela sua obra catequética.

 

No século XVI as controvérsias religiosas suscitadas pelo protestantismo levaram a Igreja a publicar um catecismo oficial dito "Catecismo Tridentino" ou do Concílio de Trento (editado em 1566), que até nossos dias tem sido referencial para Catecismos regionais.

No início do século XX o racionalismo vigente fez que o Papa S. Pio X se interessasse pela redação de novo compêndio da fé em linguagem da época, visando aos problemas do seu tempo: em 1912 publicou o Catecismo de Pio X.

Finalmente, após a segunda guerra mundial (1939-45) a fé foi sacudida por teorias diversas, que deixaram confusas as mentes de muitos fiéis. Por isto, por ocasião do Sínodo Geral dos Bispos de 1985, vinte anos após o Concílio do Vaticano II, os Padres Sinodais pediram ao S. Padre João Paulo II que mandasse redigir um Catecismo ou Compêndio da Fé Católica que respondesse às interrogações do povo de Deus e dirimisse as dúvidas lançadas sobre os fiéis. Assim se manifestaram os Bispos Sinodais reunidos em Roma no ano de 1985:

"Deseja-se... que seja redigido um Catecismo de toda a Doutrina Católica tanto em matéria de fé como em Moral; servirá de referencial... A apresentação deve ser tal que seja bíblica e litúrgica, ofereça uma doutrina íntegra e... adaptada à vida atual dos cristãos".

Em conseqüência, o Papa nomeou uma Comissão de Cardeais, presidida pelo Cardeal Josef Ratzinger, a quem confiou a tarefa de examinar (fosse para aprovar, fosse para emendar) o texto que devia ser elaborado por outra Comissão de cinco ou oito redatores, escolhidos pelo Cardeal Ratzinger dentre os Bispos devotados à Pastoral.

Os redatores elaboraram dois esquemas; depois, um Anteprojeto, submetido a quarenta peritos, o Projeto e o Projeto Revisado. Este foi enviado a todo o episcopado em outubro de 1989 a título de consulta; em conseqüência, foram apresentadas 24.000 propostas de emenda à Comissão Redatora, propostas que foram classificadas e analisadas mediante computador; 90% do episcopado havia-se manifestado favorável ao texto, sendo que a Parte relativa à Moral era a mais sujeita a sugestões de emenda. Levadas em conta as propostas do episcopado, elaborou-se um texto pré-definitivo; a seguir, uma outra versão também pré-definitiva; por último, estava pronto o texto definitivo, que as Comissões aprovaram unanimemente aos 14/02/1992. Finalmente o texto foi entregue ao Santo Padre, que desejou ainda alguns retoques e o aprovou definitivamente aos 26/06/1992.

 

1.2. O conteúdo

 

O texto oficial, que é o francês, estende-se por 650 páginas, com 2863 parágrafos, 3.000 citações da Bíblia, dos Padres da Igreja e dos Concílios (1.000 referências ao Concílio do Vaticano II) e 68 citações de dizeres de Santos e Santas (S. Francisco de Assis, S. João Maria Vianney, S. Teresinha de Lisieux, S. Rosa de Lima...).

 

A obra compreende quatro Partes:

1)   A Profissão de Fé (o Credo): 39% do livro;

2)   A Celebração da Fé (Sacramentos e Liturgia): 23% do livro;

3)   A Vivência da Fé (Moral): 27% do livro;

4)   A Fé feita Oração (Oração em geral e Pai-Nosso): 11% do livro.

Estas quatro Partes correspondem aos passos dados na antigüidade para instruir os catecúmenos: havia a Traditio Symboli (a entrega do Símbolo de Fé ou do Credo), a Catequese do Decálogo (Moral, a transmissão do Pai-Nosso) e a mistagogia (iniciação) nos Sacramentos. Tais eram as etapas da Iniciação Crista nos séculos IV/V.

A ordem dessas quatro Partes tem seu significado ou mensagem: após o Credo vem não a Moral, mas os Sacramentos, pois a Ética cristã não é senão uma expressão da fé professada e da graça recebida nos sacramentos; é uma Moralidade sacramental.

 

Essas quatro Partes se dispõem em dois pares: Fé + Sacramentos (o que Deus fez por nós) e Moral + Oração (o que devemos fazer em resposta — viver e orar). Como dito, aproximadamente 2/3 do Catecismo ou 62% correspondem a Fé e Sacramentos, e 1/3 aproximadamente (38%) correspondem à resposta do homem. Há, pois, uma tônica sobre a obra de Deus; ao Senhor compete o começar e o levar a termo a obra da nossa salvação; afirma-se assim o primado da graça, em antítese a qualquer posição pelagiana.

 

A linguagem dessa obra é muito significativa e de fácil compreensão. Argumenta solidamente sem cair na erudição reservada a poucos. O povo de Deus pode regozijar-se profundamente por dispor atualmente deste Compêndio de Fé, referencial precioso para dirimir dúvidas. Quem deseja ir diretamente a determinado assunto, tem dois grandes índices finais: um de citações (da S. Escritura, dos Símbolos de Fé, dos Concílios Ecumênicos, dos Concílios e Sínodos regionais, dos documentos pontifícios, dos documentos da Igreja, do Direito Canônico, da Liturgia, dos escritores eclesiásticos); o outro índice é o de temas. Os dois perfazem um total de cem páginas na edição francesa.

 

Cada artigo da obra, compreendendo uma dezena de páginas aproximadamente, tem no seu final um resumo dos principais pontos explanados.

 

O Catecismo nada traz de novo (nem o podia trazer) em matéria essencial de fé e de Moral, mas expõe as clássicas verdades e normas, aplicando-as às realidades de hoje.

 

Nas páginas subseqüentes poremos em relevo a posição assumida pelo Catecismo, fiel às fontes da fé, frente a questionamentos que perturbam os fiéis. Infelizmente a imprensa deturpou o conteúdo desse Compêndio, fixando-se unicamente sobre aspectos de Moral para ridicularizá-los.

 

2. A RESPOSTA ÀS DÚVIDAS

 

Examinaremos dez assuntos de interesse candente.

 

2.1. O Ser Humano

 

De acordo com toda a Tradição, o Catecismo ensina que o homem consta de corpo (material) e alma (espiritual); são realidades distintas uma da outra, que se unem entre si para formar o ser uno que é o homem.

"A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser corporal e espiritual" (§ 362).

"Não raro o termo alma designa na Sagrada Escritura a vida humana ou toda a pessoa humana. Mas designa também o que há de mais íntimo no homem e de mais valioso, designa aquilo por que o homem é mais particularmente imagem de Deus: 'alma' significa o princípio espiritual no homem" (§ 363).

"A Igreja ensina que cada alma espiritual é imediatamente criada por Deus - não é 'produzida' pelos pais -; Ela ensina também que a alma é imortal; não perece quando se separa do corpo na morte, e se unirá de novo ao corpo por ocasião da ressurreição final" (§ 366).

 

A distinção de corpo e alma aqui professada nada tem que ver com dualismo. Este implica antagonismo ontológico entre dois elementos (um seria por si bom, o outro por si mau); isto não é cristão. Para escapar do dualismo, não há necessidade de recorrer ao monismo; entre dualismo e monismo existe a dualidade, que é a distinção de dois elementos entre si, sem implicar antagonismo; tal é o caso de corpo e alma.

 

2.2. O Pecado Original

 

O texto afirma a elevação dos primeiros pais à justiça original ou a um estado de riqueza espiritual, que devia ser confirmado pela livre aceitação do homem. Submetido a uma prova (simbolicamente expressa pela proibição de comer de uma fruta), o homem disse Não ao dom de Deus. Conseqüentemente perdeu os dons originais e os seus descendentes nascem privados de tais dons, sentindo em si as conseqüências do pecado (a desordem das paixões, o sofrimento e a morte como arranco doloroso). — Eis os textos do Catecismo:

"O homem não somente foi criado bom, mas foi constituído em amizade com o seu Criador e harmonia consigo mesmo e com as criaturas que o cercavam..." (§ 374).

 

"A Igreja, interpretando de modo autêntico o simbolismo da linguagem bíblica à luz do Novo Testamento e da Tradição, ensina que nossos primeiros pais Adão e Eva foram constituídos num estado de santidade e justiça original. Esta graça da santidade original era uma 'participação da vida divina' " (§ 375).

 

"Pela irradiação dessa graça, todas as dimensões da vida do homem foram reconfortadas. Enquanto permanecia na intimidade com Deus, o homem não devia morrer (cf. Gn 2,17; 3,19) nem sofrer (cf. Gn 3,16). A harmonia íntima da pessoa humana, a harmonia entre o homem e a mulher (cf. Gn 2,25), enfim a harmonia entre o primeiro casal e todas as criaturas constituíam o estado chamado 'justiça original' " (§ 376).

 

"O domínio do mundo que Deus concedera ao homem desde o início, realizava-se, antes do mais, no homem mesmo como autodomínio. O homem era íntegro e ordenado em todo o seu ser, porque livre da tríplice concupiscência (cf. Jo 2,16) que o sujeita aos prazeres dos sentidos, à cobiça dos bens terrestres e à autoafirmação contrária aos imperativos da razão" (§ 377).

"O sinal da familiaridade com Deus é que Deus o colocou no jardim (cf. Gn 2,8). Lá vivia o homem para cultivar o solo e guardá-lo (cf. Gn 2,15); o trabalho não é uma pena (cf. Gn 3,17-19), mas a colaboração do homem e da mulher com Deus para o aperfeiçoamento das criaturas visíveis" (§ 378).

 

"Toda essa harmonia da justiça original, prevista para o homem segundo o desígnio de Deus, foi perdida pelo pecado de nossos primeiros pais" (§ 379).

 

O texto acentua a realidade do pecado original, que vem a ser uma verdade essencial da fé:

"A doutrina do pecado original vem a ser, por assim dizer, o 'reverso' da Boa-Nova de que Jesus é o Salvador de todos os homens; todos têm necessidade de salvação, salvação que é oferecida a todos graças a Cristo. A Igreja, que tem o senso de Cristo (cf. 1ICor 2, 16), bem sabe que não se pode tocar na revelação do pecado original sem afetar o mistério de Cristo" (§ 389).

"O relato da queda (Gn 3) utiliza uma linguagem figurada, mas afirma um acontecimento primordial, um fato que ocorreu no inicio da historia do homem (cf. Constituição Gaudium et Spes 13 § 1). A Revelação nos dá a certeza, de fé, de que toda a historia humana é marcada pela culpa original livremente cometida por nossos primeiros pais" (§ 390).

Em suma, o tema "pecado original" não é da alçada da razão filosófica nem da arqueologia, mas pertence estritamente ao âmbito da fé. Por conseguinte, só pode ser elucidado a partir das fontes da fé, que o Catecismo transmite autenticamente ao Povo de Deus.

 

2.3. Os Anjos

 

A realidade dos anjos é professada com toda a Tradição cristã, assim como a queda de parte dos mesmos, que se tornaram adversários do plano salvífico de Deus e sedutores do homem para o pecado. Eis o texto respectivo:

"A existência dos seres espirituais, não corpóreos, que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão nítido quanto a unanimidade da Tradição" (§ 328).

"Como criaturas puramente espirituais, têm inteligência e vontade; são criaturas pessoais e imortais. Ultrapassam em perfeição todas as criaturas visíveis. O brilho da sua glória dá testemunho disto (cf. Dn 10,9-12)" (§ 330).

"A Escritura fala de um pecado desses anjos. Essa queda consiste na livre escolha desses espíritos criados, que, de maneira radical e irrevogável, recusaram Deus e seu reino. Encontramos um reflexo dessa rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: 'Vós vos tomareis como Deus' (cf. Gn 3,5). O diabo é 'pecador desde a origem' (1Jo 3,8), 'pai da mentira' (Jo 8, 44)" (§ 392).

"É o caráter irrevogável da escolha dos anjos, e não uma deficiência da infinita misericórdia de Deus, que faz que o seu pecado não possa ser perdoado. 'Eles não sentem arrependimento após a queda, como não há arrependimento para os homens após a morte' (São João Damasceno, Fé Ortodoxa 2,4)" (§ 393).

 

2.4. O Purgatório Póstumo

 

O purgatório póstumo é entendido como um estado onde, após a morte, as almas dos fiéis que ainda tragam resquícios do pecado, repudiam plenamente essas sombras que lhes impedem a visão de Deus face-a-face. Percebendo claramente a hediondez do pecado, ainda que leve, o cristão, na outra vida, se liberta de qualquer afeto desregrado com que tenha morrido. Para que isto ocorra, os fiéis neste mundo podem oferecer a Deus suas preces em favor das almas do purgatório:

"Aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, estão certos da sua salvação eterna, todavia sofrem uma purificação póstuma, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu" (§ 1030).

 

"A Igreja chama purgatório essa purificação final dos eleitos, purificação que é totalmente diversa da punição dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório principalmente nos Concílios de Florença e de Trento" (§ 1031).

"Este ensinamento baseia-se também sobre a prática da oração pelos defuntos de que já fala a Escritura Sagrada: 'Eis por que Judas Macabeu mandou oferecer este sacrifício expiatório em prol dos mortos, a fim de que fossem purificados de seu pecado' (2Mc 12,46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor dos mesmos, particularmente o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos" (§ 1032).

A respeito do Purgatório e dos sufrágios ver ulteriores considerações no recém-publicado Curso de Novíssimos (Escatologia) pela Escola "Mater Ecclesiae", Caixa postal 1362, 20001-970 Rio (RJ).

 

2.5. Ressurreição da carne

 

Eis outro ponto que suscita dúvidas hoje, pois quem não distingue entre corpo e alma afirma que a ressurreição ocorre logo depois da morte do indivíduo. Tal não é a doutrina da Igreja, que, professando a distinção de corpo e alma, atribui a ressurreição ao fim dos tempos, com base na Escritura e na Tradição:

 

"O Credo cristão... culmina na proclamação da ressurreição dos mortos no fim dos tempos e na vida eterna" (§ 988).

 

"Que é 'ressuscitar'? Em conseqüência da morte, separação da alma e do corpo, o corpo humano sofre a deterioração, ao passo que a sua alma vai ao encontro de Deus, permanecendo na expectativa de ser reunida ao seu corpo glorificado. Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida imortal aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas, em virtude da Ressurreição de Jesus" (§997).

"Quando? Definitivamente 'no último dia' (cf. Jo 6,39s. 44. 54; 11,24), no fim do mundo (Constituição Lúmen Gentium no 48). Com efeito, a ressurreição dos mortos está intimamente associada à segunda vinda de Cristo" (§ 1001).

 

2.6. Pecado Mortal e Pecado Venial

O texto distingue pecado mortal e pecado venial apenas, e não pecado leve, grave e mortal, como se tem lido em alguns Manuais de Teologia Moral:

"Convém classificar os pecados segundo a sua gravidade. Já perceptível na Escritura (1Jo 5,16s), a distinção entre pecado mortal e pecado venial se impôs na tradição da Igreja. A experiência dos homens a corrobora" (§ 1854).

 

"Para que um pecado seja mortal, requerem-se três condições simultâneas: 'É pecado mortal todo pecado que tenha por objeto uma matéria grave, e que seja cometido com plena consciência e com propósito deliberado' (Exortação Apostólica Reconciliação e Penitência n° 17)" 1857).

 

"Comete-se um pecado venial quando não se observa em matéria leve a medida prescrita pela lei moral, ou quando se desobedece à lei moral em matéria grave, mas sem pleno conhecimento de causa ou sem inteiro consentimento" (§ 1862).

 

Passamos agora a questões que a imprensa abordou em tom pouco respeitoso.

 

2.7. Pena de Morte. Guerra Defensiva

 

A Igreja não tem posição definida diante da questão da pena de morte. Reconhece que pode ser legítima em casos de defesa da sociedade para os quais não se veja outra solução. Julga, porém, que se devem preferir alternativas mais brandas, desde que se lhes possa prever a eficácia de salvaguardar o bem comum:

"Preservar o bem comum da sociedade exige que o agressor seja impossibilitado de a prejudicar. A este título, o ensinamento tradicional da Igreja reconheceu a validade do direito e do dever, da autoridade pública legítima, de punir com penas proporcionais à gravidade do delito, sem excluir, em casos de extrema gravidade, a pena de morte. Por razões análogas os detentores da autoridade têm o direito de rechaçar pelas armas os agressores da nação que lhes é confiada" (§ 2266).

 

"Se bastam os recursos não sangrentos para defender a vida humana contra o agressor e proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, as autoridades deverão ater-se a esses meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais conformes à dignidade da pessoa humana" (§ 2267).

 

Alias, não se pode esquecer que a pena de morte era vigente no Antigo Testamento, segundo a Lei de Moisés; cf. Lv 20,8-21.

 

2.8. A Prostituição

A prostituição é condenada como pecado grave. O Catecismo, porém, julga que nem todas as pessoas que se prostituem são igualmente culpadas; pode haver aqueles e aquelas que são, de algum modo, induzidos a isto, com responsabilidade atenuada, porque não devidamente livres ou esclarecidos. Só Deus vê as consciências. Ao observarmos o fato bruto e objetivo da prostituição, devemos condená-lo peremptoriamente; todavia mal sabemos o que possa haver de constrangimento, confusão, ignorância ou tara no íntimo das pessoas que se entregam ou que são entregues à prostituição:

"A prostituição fere a dignidade da pessoa que se prostitui, reduzida ao prazer venéreo que dela se tira. Aquele que paga, peca gravemente contra si mesmo; viola a castidade à qual o obriga o seu Batismo e polui seu corpo, templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,15-20). A prostituição vem a ser um flagelo social. Afeta habitualmente mulheres, mas também homens, crianças ou adolescentes (nestes dois últimos casos, o pecado é agravado pelo escândalo). É sempre gravemente pecaminoso entregar-se à prostituição, mas a miséria, a chantagem e a pressão social podem atenuar a imputabilidade da falta" (§ 2355).

2.9. Homossexualismo

É outra aberração moral, porque contrária à lei natural. Todavia é preciso evitar desprezo das pessoas homossexuais; mediante a ajuda sincera e desinteressada de pessoas amigas, podem gradativamente encaminhar-se para a perfeição cristã, desde que vivam castamente:

"O homossexualismo designa relações entre homens ou mulheres que experimentam atração sexual, exclusiva ou predominante, para com pessoas do mesmo sexo. Assume modalidades muito variadas através dos séculos e das culturas.

A sua origem psíquica está, em grande parte, inexplicada. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que as apresenta como depravações graves (cf. Gn 19,1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6,10; 1Tm 1,10), a Tradição sempre declarou que 'os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados'. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Não podem ser aprovados em caso algum" (§ 2357).

"Não poucos homens e mulheres apresentam tendências homossexuais básicas... Não escolhem sua condição homossexual; esta vem a ser, para a maioria deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evite-se para com eles todo sinal de discriminação injusta. Essas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus na sua vida e, se são cristãs, chamadas a unir ao sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar pelo fato de serem tais" (§ 2358).

"As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do auto-domínio, que educam a liberdade interior, algumas vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradativa e resolutamente, da perfeição cristã" (§ 2359).

Notemos que o texto do § 2358 exclui a discriminação injusta dos homossexuais. Isto quer dizer que pode haver discriminação justa: com efeito, esta ocorre sempre que o bem comum corra perigo, ou sempre que a anormalidade possa ser confundida com a normalidade ou, ainda, sempre que haja perigo de desvio para pessoas não homossexuais.

2.10. Adivinhação, Horóscopo, Quiromancia...

A imprensa em 1992 comentou amplamente tais itens, deturpando os dizeres do Catecismo, que são os seguintes:

"Deus pode revelar o futuro aos seus profetas ou a outros Santos. Todavia a atitude cristã correta consiste em entregar-se confiantemente nas mãos da Providência no que diz respeito ao futuro e em abandonar toda curiosidade mórbida a tal propósito. A imprevidência, porém, pode tornar-se uma falta de responsabilidade" (§ 2115).

"Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas erroneamente tidas como aptas para desvendar o futuro (cf. Dt 18,10; Jr 29,8). A consulta de horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e sortes, os fenômenos de vidência, o recurso aos médiuns incluem a vontade de dominar o tempo, a história e também os homens, assim como o desejo de conciliar potências ocultas. Estão em contradição com a honra e o respeito, mesclado de temor amoroso, que devemos a Deus somente" (§ 2116).

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São estes alguns espécimes do conteúdo do Catecismo da Igreja Católica. Vemos que se trata de ensinamentos coerentes com a S. Escritura e a Tradição, formulados de modo claro, visando, quando necessário, a atender a problemas e questionamentos do mundo atual.

Tal obra é tida, com base sólida, como a mais notável e significativa de todo o benemérito pontificado do Papa João Paulo II.

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Dado que estamos escrevendo antes da publicação do texto português do Catecismo, valer-nos-emos da edição francesa (que é a oficial), traduzindo-a para o português. — O francês foi escolhido por motivos um tanto aleatórios, dizem os comentaristas: todos na Comissão de Redação falavam, mais ou menos bem o francês, ainda que só houvesse nela um participante francês (Mons. Jean Honoré, Arcebispo de Tours, França).


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