PERGUNTE E RESPONDEREMOS 345 – fevereiro 1991

Quando se dá a morte?

Coma Reversível e Irreversível

 

Em síntese: A questão do momento exato em que ocorre a morte de um ser humano, é discutida até hoje, embora sempre tenha preocupado os cientistas. Distinguem-se diversas modalidades de coma;igualmente se distinguem três degraus do processo de morte: a morte aparente, a morte clínica e a morte real.

O artigo abaixo apresenta casos de coma reversível que chamaram a atenção do público recentemente: após meses ou anos de total inconsciência e insensibilidade, há pacientes que recuperaram suas funções vitais, devidamente manifestadas. Tais casos deixam o estudioso muito circunspecto quando se trata de declarar a morte de alguém. Distingue-se hoje entre coma reversível e coma irreversível. — Quanto aos sintomas que identificam a morte real, vão elencados no final deste artigo por eminente médico do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro.

=-=-=

Até hoje é difícil dizer quando se dá a morte de um ser humano. A Medicina distingue entre:

morte aparente: é o estado de coma, que admite diversos graus.. . até o coma profundo;

morte clínica: estado que o médico verifica mediante um atestado de óbito;

morte real: termo definitivo da vida terrestre de uma pessoa, termo este que se dá horas após a morte clínica, pois as funções vitais do organismo, mesmo imperceptíveis, se vão extinguindo aos poucos. Se a morte é devida a um choque brusco sofrido por pessoa no pleno gozo de sua vitalidade, é mais longo o intervalo entre morte clínica e morte real; nos casos de enfermidade prolongada, que vai consumindo a vitalidade de um organismo, tal intervalo é mais breve.

 

O estado de coma é reconhecidamente algo que tem desfecho imprevisível; pode tanto ceder ao retorno da vida consciente quanto à morte clínica e à morte real. Nas páginas subseqüentes, registraremos alguns casos surpreendentes ocorridos recentemente na Itália e alhures.

1. Casos imprevisíveis

Em novembro de 1987, Marcello Manunza, com 23 anos de idade, foi vítima de um acidente automobilístico. Foi recolhido ao Hospital San Martino de Gênova, onde passou um ano em observação e tratamento, pois caíra em estado de coma. Quando os médicos verificaram que, apesar de todas as diligências, não obtinham resultado algum, permitiram que o paciente retornasse para casa, em Cicagna, região de Chiavari.

Giuseppina e Pasquale Manunza, os pais de Marcello, resolveram então fazer o máximo possível para recuperar seu filho, tirando-o do coma.

Graças a uma coleta de fundos promovida pela Cruz Vermelha de Chiavari e pelo Grupo de Mães de Nargagli, o casal Manunza partiu para Filadélfia nos Estados Unidos e freqüentou um curso na Clínica do Prof. Glenn Doman, que ministrava técnicas de recuperação das pessoas gravemente afetadas em seu cérebro. Havia anos que o Prof. Doman se dedicava à reabilitação dos meninos Down, mongolóides; para tanto servia-se de recursos de estimulação visual, auditiva e muscular, que pareciam ter dado bons resultados em casos semelhantes ao de Marcello.

Giuseppina e Pasquale voltaram a Cicagna cheios de esperança e entusiasmo. Marcello foi acomodado numa cama perto de um televisor, num quarto pequeno. Não somente os genitores, mas também os cinco irmãos e um grupo de vinte amigos voluntários se dispuseram a colaborar na terapia de estimulação. Esta ocorria mediante diapositivos coloridos, jogo de luzes, sons, música, palavras da mãe assiduamente presente ao filho, fisioterapia, exercícios de tração e extensão dos membros e. . . também o escorregamento: Marcello foi posto sobre um plano inclinado, sobre o qual ele deslizava. Tais exercícios eram repetidos com a cooperação de familiares e amigos, dispostos aos sacrifícios mais abnegados.

Finalmente, aos 19 de julho de 1990, Marcello começou a realizar pequenos movimentos e parecia querer dizer alguma coisa. Afirmou então sua mãe: "Marcello dá sinais de acordar do coma, reage, segue os nossos movimentos com os olhos, ouve as nossas palavras e sobre o plano inclinado movimentou-se a sós. Estou certa disto". — Tal notícia explodiu. Os jornais e a televisão interessaram-se pelo caso, propagando a história "de um coma superado pela mãe" e de "um caso extraordinário de retorno à vida". Os médicos , porém, convidaram os familiares à prudência e cautela; não deveriam enfatizar demais o significado das reações do paciente.

 

A propósito convém lembrar outros casos, que os meios de comunicação divulgaram amplamente: o de Leo David, campeão de esqui, que ficou seis anos em coma depois que levou um tombo durante a disputa da Copa do Mundo em Lake Placid nos Estados Unidos. Há também o caso de Karen Quinlan, que ficou entre a vida e a morte durante dez anos. Mais: em Wisconsin (U.S.A.) um homem permaneceu em coma durante oito anos após um acidente automobilístico e voltou a si depois de tomar uma dose de Valium, o episódio foi relatado em março de 1990 pelo médico Dr. André Kamer, que assistiu ao enfermo. Mencione-se ainda o nome de Cláudio B., homem de sessenta anos, atingido por trombose cerebral há dois anos; foi persistentemente acompanhado pela esposa e pelos irmãos no Setor de Reanimação num hospital de Brianza. Um ano após o incidente, começou a mover dois dedos de uma mão, abriu os olhos e parecia começar a compreender o que se lhe dizia.

 

Estes casos levam os observadores a aprofundar a noção de coma.

 

2. Dois tipos de coma

 

Os médicos distinguem dois tipos de coma: o reversível e o irreversível.

 

O coma irreversível implica a cessação das funções do tronco encefálico e das suas estruturas. Quando isto acontece, o indivíduo não é mais recuperável. Existem testes clínicos e experimentais que podem dizer com certeza se de fato ocorreu essa morte encefálica.

 

O coma reversível é também dito coma vegetativo ou vígil: em tal caso mantêm-se as funções vitais vegetativas, que não dependem da vontade do indivíduo: respiração, batidas cardíacas, funções gástricas e intestinais; apenas desaparecem as funções conscientes e o relacionamento com o ambiente exterior; o paciente não ouve nem fala. Pode acontecer, porém, que em tais condições ocorra algo que faça o paciente voltar à consciência. O caso de Marcello Manunza foi de coma vegetativo ou reversível; as técnicas aplicadas pela equipe do Prof. Doman despertaram funções adormecidas. Isto, porém, só foi possível porque as lesões cerebrais não eram tais que comprometessem irremediavelmente as estruturas profundas do cérebro, estruturas que garantem as operações vitais básicas: a cardíaca e a respiratória.

 

3. Transplante. . . : quando?

Estas considerações têm incidência sobre a legitimidade dos transplantes (especialmente do coração): para que estes possam efetuar-se sem lesar as normas da Ética, requer-se que o doador esteja morto. Não basta dizer: ". . . esteja em coma irreversível", pois não é lícito extinguir o resto de vida existente em alguém, mesmo que não tenha esperança de recuperação. Atualmente os critérios de morte real são estudados pelos cientistas com muito afinco, pois o assunto interessa decisivamente à técnica dos transplantes de órgãos. Transcrevemos a seguir palavras do Conselheiro Dr. Gilson Maurity Santos, do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro em palestra proferida no Fórum Nacional sobre Ética Médica (Academia Nacional de Medicina, aos 19/06/1985):

"A preocupação hoje é a identificação confiável da chamada morte cerebral. Apesar de divergências, há algum consenso em relação ao assunto, sendo o processo mais acurado para sua detecção a tomada de traçado de eletroencefalograma capaz de informar sobre lesões celulares, pela ausência de atividade elétrica das mesmas. Isto foi aceito explicitamente por quase todo o mundo. Há documentos exarados pela Associação de Neurofisiologia da Holanda, Associação de Cirurgia de França, Sociedade Alemã de Cirurgia, a World Medicai Association e muitas outras entidades. Numerosos trabalhos dão conta dos critérios para o reconhecimento da morte cerebral (Bichellem, Alessandro, Collins, Symposium Ciba, Harvard Medicai School, Comitê de Transplantes de Pittsburgh e outros). .. Basicamente exige-se para o diagnóstico de morte cerebral:

 

01. perda de resposta a todos os estímulos externos e internos;

02. ausência de movimentos respiratórios espontâneos (três minutos de apnéia);

3.     flacidez muscular generalizada e midriase ([1]) bilateral, paralítica;

4.    ausência de reflexos superficiais e profundos;

5.    queda de pressão arterial (zero);

6.    EEG isoelétrico;

07. permanência dos dados supramencionados por duas horas consecutivas;

08. certificação da morte cerebral por mais de um médico.

 

Os cuidados minuciosos objetivam evitar qualquer tipo de equívoco ou erro na identificação da morte cerebral. Na última década, surgiu o problema dos transplantes (particularmente o cardíaco), nos quais a situação ideal para o órgão a ser transplantado é sua plena função. A adoção do conceito de Morte ao ser constatada a morte cerebral permite, eticamente, a interrupção dos meios artificiais de manutenção das funções. Observem que a preocupação com o diagnóstico da morte é antiga. As leis determinavam não deixar sepultar os corpos, dados como mortos, antes de 24 horas, o que é até hoje aceitável e recomendável onde não haja disponibilidade para um diagnóstico mais acurado da morte" (texto extraído do volume publicado pela Academia Nacional de Medicina com o título "Ética Médica. Fórum Nacional 1985", pp. 295s).

Como se vê, o assunto é complexo e exige circunspecção da parte tanto dos estudiosos como dos cirurgiões. A ciência se vê diante de um certo enigma, que, em última análise, dá testemunho da insondável sabedoria do Criador.

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Midriase é o aumento do diâmetro ou a dilatação das pupilas.


GoNet - PR
Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 1
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)