BíBLIA (5003)'
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Artigo

INTRODUÇÃO AOS ATOS DOS APÓSTOLOS

O título que este livro de Atos (sem artigo) dos Apóstolos (de todos os apóstolos, em geral) tem nos manuscritos do texto original exprime, se bem examinado, exatamente o seu conteúdo. Seus protagonistas são os dois príncipes dos apóstolos: Pedro, nos primeiros doze capítulos, e Paulo, nos dezesseis restantes. Contudo, quer nos primeiros, quer nos segundos, entrelaçam-se também ações de outros apóstolos e tanto Pedro como Paulo (embora este menos visivelmente) agem, mais do que à primeira vista pode parecer, em função do colégio apostólico, um como cabeça, outro, como pioneiro.

Para melhor esclarecimento, será de muita utilidade o sumário seguinte, que apresenta a unidade orgânica compacta do livro e o concatenamento das partes entre si, convergindo para o objeto indicado no título, e que correspondem às fases da propagação do Evangelho.

Introdução (1,1-26). Proêmio em que o autor se reporta ao seu Evangelho como para continuá-lo (1-3). Jesus dá às últimas instruções aos apóstolos e sobe ao céu (4-11); estes retiram-se com os outros fiéis para o cenáculo à espera do Espírito Santo (12-14); elegem Matias em substituição a Judas (15-26).

1a parte (2,1-8,3). A mensagem evangélica em Jerusalém.

1. Descida do Espírito Santo e inícios da Igreja (2,1-47).

2. Cura do paralítico, lutas de Pedro e dos apóstolos contra o Sinédrio e primeira perseguição (3,1-4,31).

3.    Progresso e vida interna da Igreja, como efeito da obra e dos prodígios dos apóstolos. Ananias e Safira. Segunda perseguição (4,32-5,42).

4.    Eleição dos diáconos helenistas; missão de Estêvão e seu martírio; terceira perseguição com a conseqüente dispersão dos fiéis (6,1-8,3).

II parte (8,4-12,25). A mensagem evangélica na Judéia e na Galiléia, na Samaria e entre os -gentios, até Antioquia.

1. Missão de Filipe (confirmada por Pedro) entre os samaritanos e com o eunuco etíope (8,4-40).

3.     Missão de Pedro na Judéia e entre os gentios, em Cesaréia (9,31-11,18).

4.     A Igreja entre os gentios na Fenícia, Síria e Antioquia (11,19-30).

5. Quarta perseguição, morte de Tiago, prisão e libertação de Pedro, morte do perseguidor (12,1-25).

III parte (13,1-28,31). A mensagem evangélica no mundo greco-romano.

1.    Primeira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Menor (13,1-14,27).

2.    Concílio de Jerusalém, que sanciona a independência em face da lei para os gentios (15,1-34).

3.    Segunda viagem apostólica de Paulo: na Macedônia e na Grécia (15, 35-18,22).

4.    Terceira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Proconsular, na Grécia e na Macedônia, até ao Epiro (18,23--21,16).

5.    Prisão de Paulo em Jerusalém e mensagem ao Sinédrio (21,17-23,11).

6.    Prisão em Cesaréia e mensagem para Félix, Festo e Agripa (23,12-26,32).

7.    Viagem até Roma, prisão e mensagem aos judeus e aos gentios (27,1-28,31).

Importância histórica e apologética

Grande é, sem dúvida, a importância do livro dos Atos na história primitiva das origens cristãs, como transparece já do sumário acima. Traça Lucas um esboço compendioso, é certo, mas completo no seu gênero, da Igreja primordial na sua hierarquia e na vida do dogma, da disciplina e do culto, como se desenrolava na primeira geração cristã, ainda repleta da recordação imediata dos ensinamentos, das obras e dos preceitos do Mestre divino. Temos assim, na vida e no pensamento dos primeiros seguidores de Jesus, o mais precioso reflexo e como que a contraprova da vida e do pensamento dele e de sua mensagem de salvação, qual foi ouvida de sua boca e vivida pelos seus discípulos imediatos. Ê, portanto, decisivo o valor apologético dessas resultantes históricas, confrontando-se as duas interpretações contrárias, a católica e a racionalista, sobre a vida e o ensino de Jesus. Se o retrato que S. Lucas nos apresenta da primeira geração cristã na vida da Igreja é autêntico, então são insustentáveis as posições negativas da crítica racionalista contra o sobrenatural que se manifesta nos Evangelhos e nos Atos, e as suas pretensas afirmações sobre uma longa evolução da primeira tradição cristã, em sucessivas fases e formas. Não resta outra solução senão afirmar que essa tradição continua viva e imutável na duas vezes milenar tradição católica. Ê daí que surgem os acirrados ataques lançados pela corrente adversária contra a autenticidade e a veracidade histórica do livro dos Atos.

 

Autor, valor histórico, finalidade e data do livro

As questões atinentes ao autor e ao valor histórico do presente livro acham-se interligadas de modo especial.

Quanto ao autor, por ser, evidentemente, o mesmo que o do terceiro Evangelho (cf. Lc 1,1-4 e At 1,1), valem as mesmas razões já aduzidas na introdução àquele Evangelho, para identificá-lo com S. Lucas. Acrescentamos, porém, aqui uma ainda mais direta e de autoridade maior. A certa altura (15,10), o próprio autor entra em cena, narrando os fatos com um "nós", que o caracteriza como testemunha ocular e participante dos acontecimentos. E, deste modo, com verbos ou pronomes na primeira pessoa se nos apresenta, de vez em quando, até ao fim. São as chamadas "seções do nós" (16,10-17;20,5-15;21,1--18;27,1;28,16), tão discutidas entre os críticos, seções nas quais, como o restante do livro, apresentam idênticas particularidades de vocabulário, de estilo, de composição, de expressões características, muitas vezes únicas no Novo Testamento. O autor da obra deve ser procurado entre os companheiros de S. Paulo, mencionados como tais nos Atos (por exemplo: 20,4) ou nas Epístolas do Apóstolo, entre os quais está Lucas (Col 4,14; 2Tim 4,11; Fim 24). Excluem-se, no entanto, todos os outros por se acharem ausentes dos acontecimentos narrados em algumas dessas "seções do nós", e porque de nenhum outro se sabe que tenha escrito a narração da vida inteira de Jesus como fez o autor dos Atos (1,1), dedicando-a, além disso, a um mesmo "Teófilo".

Lucas busca, portanto, os fatos que narra nos Atos, na própria experiência pessoal ou segundo o seu programa traçado (Lc 1,2), nos atores e espectadores dos fatos, fontes de primeira ordem e de credibilidade insuperável. Do mesmo valor são também alguns documentos que ele insere textualmente na narração, como o "decreto apostólico" (15, 23-29) e a carta de Lísias (23-26-30) que são uma confirmação do seu escrupuloso cuidado com a exatidão. Essa rigorosa exatidão é confirmada pelas inscrições recentemente trazidas à luz, até nos mínimos particulares, como quanto à nomenclatura das autoridades municipais (asiarcas, em Éfeso, 19,31; politarcas, em Tessalônica, 17,6; estrategistas, em Filipos, 16,20; o "primeiro", em Malta, 28,7).

A finalidade que Lucas se propõe aparece já, como foi indicado anteriormente no título da obra, mas ainda mais nas palavras de Jesus: "E me sereis testemunhas... até as extremidades da terra" (1,8). Narra Lucas, nos limites consentidos por um livro destinado ao uso da época, a propagação da Igreja e suas fases sucessivas até sua extensão à capital do império romano, através da obra daqueles que foram em todas as fases os seus principais artífices: os apóstolos Pedro e Paulo e seus colaboradores. Em nada revela-se Lucas tendencioso em seu modo de falar. Simples, ágil e compreensivo, deixa aos próprios fatos a incumbência de indicarem as conseqüências deles resultantes. De cada uma das páginas de sua narração transparece que a finalidade é simplesmente a de relatar os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja e informar sobre a realização das disposições de Jesus a respeito da mesma Igreja, tudo a título de edificação e de instrução religiosa, conforme o que o próprio Lucas afirma ao se dirigir ao Teófilo do seu outro livro, o terceiro Evangelho. Finalidade idêntica para destinatário idêntico. Fixa-se como data da composição dos Atos antes do fim da prisão de dois anos que S. Paulo sofreu em Roma, como se evidencia pela conclusão mesma do livro (28,30-31), isto é, nos anos 61-63.


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