BíBLIA (5936)'
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Artigo

INTRODUÇÃO AO  APOCALIPSE


Ficou explicado anteriormente que este vocábulo grego, com que o próprio autor intitulou o seu livro, o último da Bíblia (segundo a ordem do cânon), significa "revelação", forma particular de "profecia" ou escrito profético. No lugar citado acima foram expostas as características principais deste gênero literário em grau eminente no livro ora apresentado.


A natureza mesma das duas primeiras características — 1º o tema do "fim dos tempos" ou escatologia, com a sua subdivisão em duas espécies, messiânica e cósmica, nem sempre claramente distintas entre si, e 2o a linguagem simbólica, que dá azo a diversas interpretações, — criou dificuldades aos exegetas, dando origem a grande número de opiniões diversas e, por conseguinte, à falsa reputação de que o Apocalipse é o livro mais obscuro e mais difícil da Bíblia. Para não nos perdermos neste emaranhado, fixemos alguns pontos que são mais ou menos certos, graças ao próprio tema ou à estrutura literária do livro.


O intento do autor é animar os cristãos à constância na fé, malgrado os assaltos e as insídias de satanás e do mundo, pondo-lhes ante os olhos a certeza da vitória e do prêmio.


2° Dirige ele a sua mensagem (como os profetas, seus predecessores) sobretudo à geração contemporânea e às imediatamente sucessivas, e descreve o mundo de então, o paganismo dominante, com a abjeção ignominável das honras divinas prestadas aos imperadores romanos. Sem deixar de constituir alimento vital para todas as gerações vindouras, contudo, é principalmente contra tal politeísmo que arremete a veemência de suas palavras.


3º A linguagem é simbólica, pelo que não se deve atribuir a cada pormenor uma correspondência na realidade. Isto é próprio da alegoria. No símbolo, o que importa é a substância, a generalidade.


4º O predomínio do número 7 é evidente em todo o livro. É um número consagrado desde a primeira página da Bíblia, com a criação: 7 Igrejas e 7 espíritos (14), 7 candelabros (1,12), 7 estrelas (1,16), 7 lâmpadas (4,5), 7 selos (5,1), 7 chifres e 1 olhos (5,6), 7 anjos e 1 trombetas (8,6), 7 trovões (10, 3), 7 taças e 1 pragas (15,5-7) etc.


Cumpre, porém, evitar dois exageros: o de atribuir a esse número, todas as vezes que ele ocorre, um valor particular, presente na realidade e o de, pela análise, ver números setenários que não vêm expressos.


5o Três desses setenários encadeiam-se, na segunda parte do livro — que é também a mais extensa — e inserem-se uns nos outros: à ruptura dos 7 selos, aparecem sete trombetas (8,1-2) e o toque da sétima trombeta encerra um ciclo de visões e abre outro semelhante (11,19-12,1), que culmina com o derramamento das sete taças da ira de Deus (16,1). É muito provável que todos os três ciclos se refiram ao mesmo período da história da Igreja. Mas não é igualmente justificável concluir, apenas pela semelhança de cenas e expressões, que duas visões distanciadas anunciem os mesmos acontecimentos.


Com essas premissas, parece impor-se aqui, como a mais coerente e a menos espinhosa, a divisão do Apocalipse em cinco partes, desiguais em extensão, mas de igual importância substancial, precedidas de uma breve introdução e seguidas de longo epílogo. Para se chegar a uma compreensão mais perfeita, consultem-se também as notas do texto.


Sumário


Exórdio: título e convite à leitura (1,1-3).


I parte: mensagens às sete Igrejas da Ásia (1,413,22).


Prólogo comum a todas (1,4-20), mensagem à Igreja de Éfeso (2,1-7), à de Esmirna (2,8-11), à de Pérgamo (2,12-17), à de Tiatira (2,18-19), à de Sardes (3,1-6), à de Filadélfia (3,7-13), à de Laodicéia (3,14-22). Seguem todas o mesmo esquema: Jesus Cristo ê apresentado cada vez sob um título diferente (esses títulos reaparecerão depois na segunda parte); descreve as condições morais da Igreja ou do seu chefe: repreende e encoraja. Promete o prêmio eterno aos que permanecerem constantes na fé, aos vencedores na batalha, e promete-o sob símbolos diversos, que reaparecerão também na última parte.


II parte: vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão (cc. 4-19) ou, mais concretamente, da Igreja sobre o império romano perseguidor.


Esta vitória é apresentada numa série de visões que, na sua maior parte, mostram as graves calamidades que deverão abater-se sobre a terra, para provação dos cristãos fiéis e punição dos inimigos do nome de Cristo. O restante manifesta as atividades nefastas das forças do mal e sua derrota e destruição, seguida pelo canto triunfal dos vencedores: Jesus Cristo e os seus fiéis seguidores. Tais calamidades são apresentadas sob a forma de símbolos nos quais predomina o número 7. Dir-se-ia que no conjunto, constituem uma profecia "da morte dos perseguidores", como o estilista Lactando denominou a sua relação histórico-apologética.


Visão de abertura: o cenário celeste (c. 4). O livro fechado por sete selos (c. 5). À abertura de cada um dos quatro primeiros selos sai um cavalo de cor diferente, com um cavaleiro portador de males para os habitantes da terra (6, 1-8). Ao se abrirem o 5- e o 7- selos, vêem-se as primeiras vítimas da perseguição e lúgubres sinais do drama já em ação (6,9-17).


Interlúdio: os 144.000 assinalados (7, 1-8) e o repouso eterno dos justos (7, 9-17).


Rompido o 7° selo, saem sete trombetas empunhadas por sete anjos. Ao soar das quatro primeiras trombetas, derrama-se igual número de desgraças sobre a terra (8,1-12); as outras três trombetas preanunciam três grandes ais! 1- ai!, invasão de gafanhotos mortíferos (8,13-9,12); 2º ai!, um exército de cavalaria que mata a terça parte da humanidade (9,13-20).


Interlúdio: o anúncio do 3º ai! (última e decisiva fase da luta horrível) está escrito num livro aberto, que o vidente é obrigado a devorar (c. 10); as duas testemunhas de Deus pregam durante 1.200 dias, são mortas, ressuscitam e sobem ao céu (11,1-12).


Com o soar da sétima trombeta, chega o tempo do 3º ai! (11,13-19). Antes, porém, aparecem sinais terrificantes: satanás, sob a figura de enorme dragão, arrastando consigo a terça parte das estrelas (anjos), combate, no céu, contra os anjos bons, chefiados por S. Miguel. Satanás é derrotado, expulso do céu e lançado sobre a terra, onde começa a fazer guerra aos seguidores de Cristo (c. 12). Sai do mar uma besta de 1 cabeças (13,1-10), e da terra surge outra besta com chifres (13,11-18). Ambas, sob a dependência do dragão (satanás), combatem a religião de Cristo e procuram induzir os homens a adorarem as criaturas (o dragão e a primeira besta) contra o verdadeiro Deus.


Interlúdio: a falange de 144.000 virgens que acompanham o Cordeiro divino no céu (14,1-5; cf. 7,1-8). Três anjos anunciam a iminência e o resultado da luta e do juízo divino entre bons e maus (14,6-13); outros três anjos, anunciam, sob a figura da ceifa, o final já próximo do drama (14,14-20).


Prepara-se a realização do 3º ai! com a entrega a 1 anjos de 7 pragas, encerradas em 7 taças "cheias da ira de Deus" (c. 15). A uma ordem, os 7 anjos derramam sobre a terra, uma após outra, as sete taças, causando grande mortandade entre os pagãos que se obstinam na sua impiedade (c. 16).


Descrição do centro e baluarte do paganismo: uma grande cidade, chamada pelo nome simbólico de Babilônia, ou, por causa de seu crasso politeísmo, a grande meretriz. Reconhece-se facilmente nessa cidade a Roma imperial dos três primeiros séculos (c. 17). Queda, abandono e punição da ímpia cidade (18,1-8); pranto de seus amigos e cúmplices (18,9-19); gesto simbólico, que representa o seu desaparecimento definitivo (18,20-24). Festa no céu pelo castigo da "grande meretriz" (19,1-9).

As duas bestas, aliadas do dragão na luta contra os seguidores de Cristo, são mergulhadas vivas no fogo eterno; os homens, seus cúmplices, são mortos e atirados como alimento aos abutres (19, 11-21).

III  parte: o dragão é atado durante 1000 anos; Jesus Cristo reina na sociedade humana que ele mesmo transformou (20,1-6).


IV  parte: depois dos mil anos, satanás, livre dos grilhões, desencadeia seus últimos e furiosos ataques contra a Igreja de Cristo. Mas é vencido e precipitado no fogo eterno, juntamente com as duas bestas (20,7-10). Os mortos ressuscitam, são julgados todos segundo as suas ações e ouvem o próprio destino eterno (20,11-14). É o fim deste mundo.


V    parte: sorte oposta dos justos é a dos maus, por toda a eternidade (21, 1-8); felicidade eterna dos justos, representada em dois quadros: primeiro quadro: a cidade, a Jerusalém celeste de estrutura perfeita, com os mais preciosos materiais, iluminada e cumulada pessoalmente por Deus de toda a sorte de bens (21,9-27); segundo quadro: um jardim cheio de árvores que produzem continuamente o fruto da vida, onde se gozará da visão de Deus (22,1-5).


Conclusão de toda a série das visões e testemunho do autor, João (22,6-11).


Epílogo: Jesus mesmo, compendiando em poucas palavras a substância do livro, atesta que foi escrito por sua ordem expressa e promete vir muito em breve; invocação e saudação (22,12-21).


Segundo essa interpretação, a maior parte do livro (cc. 9-19) descreve as perseguições romanas até à paz que Constantino concedeu à Igreja. Deve isto causar-nos admiração? É um fato que, pelos fins do séc. IV, que fora iniciado com a mais feroz das perseguições, o império romano já se tornara sinônimo de cristandade, terra dos cristãos, evento esse realmente digno de ser preanunciado por uma profecia, como foi mais tarde celebrado pela eloqüência dos oradores. Vêm mesmo a pelo estas belas palavras de S. Leão Magno: "Enquanto esta cidade [Roma] dominava sobre todos os povos, era escrava dos erros de todos eles, e tinha em conta de grande religiosidade o não recusar nenhuma falsidade. Por essa razão, sendo grande a afoiteza com que o diabo a mantinha vinculada, tornou mais admirável o fato de a ter Cristo libertado" (Sermão I na festa de S. Pedro e S. Paulo). Nenhum outro exemplo de triunfo tão vasto e radical como esse da fé cristã conhece a história mundial.


Dos outros sistemas de interpretação, mencionaremos apenas os dois mais célebres: o histórico, já fora de moda, que vê representadas nas cenas do Apocalipse as personagens e os fatos da história eclesiástica no volver dos séculos; e o escatológico, hoje o mais seguido, segundo o qual todas as visões e predições se referem aos últimos tempos da história humana, ao fim do mundo. Roma imperial, significada muito claramente nos cc. 17-18, seria apenas um tipo ou figura do perseguidor da Igreja, o Anticristo.


Quanto à composição do livro, convém  frisar sobretudo isto: que do início ao fim (especialmente nas visões) vêm à tona símbolos, cenas e locuções tomadas de vários livros do Antigo Testamento, principalmente de Ezequiel e de Daniel. Poder-se-ia comparar o Apocalipse a um grandioso mosaico, cujas pedrinhas provêm do vasto repertório dos antigos autores bíblicos, mas reordenadas e dispostas segundo um harmonioso projeto, absolutamente novo e original. Esse fato, além de nos dissuadir de procurar outras fontes fora da Bíblia para o Apocalipse; ê também um modo indireto de insinuar que nos acontecimentos anunciados se realizarão decisiva e plenamente as profecias do Antigo Testamento.


Quem é o autor do Apocalipse? Ele mesmo se identifica no texto, quatro vezes pelo menos: duas na terceira pessoa (1,1-4) e duas na primeira: "Eu, João" (1,9;22,8). Seria o mesmo autor do quarto Evangelho? Ao contrário do autor do Apocalipse, o evangelista jamais declina o próprio nome, mas oculta-se sempre sob a circunlocução "discípulo predileto de Jesus".


Existe uma diferença, talvez mais notável ainda: o Evangelho de João é o menos judaico dos livros do Novo Testamento. Pelo menos no sentido em que "judeus" designa aí quase sempre os inimigos de Jesus. O Apocalipse, pelo contrário, pode ser chamado o mais judaico porque, como ficou dito acima, é quase inteiramente uma trama de idéias, de imagens, de frases tomadas da Bíblia hebraica. Também a linguagem e o estilo de João são notavelmente melhores do que os do Apocalipse. Por essas razões, desde a antigüidade, alguns autores, encabeçados por S. Dionísio de Alexandria (séc. III), atribuíram o Apocalipse a outro João, que não ao apóstolo evangelista. Mas nas idéias e na linguagem teológica existem semelhanças tais e tão pessoais entre João e o Apocalipse, que nos levam a optar pela identidade do autor. Mencionemos as principais: Os títulos "Verbo de Deus" (Jo 1,1; Apoc 19,13) e "Cordeiro" (Jo 1,29; Apoc 5,6 e mais vinte outras vezes) atribuídos a Jesus Cristo; "verdadeiro" como atributo de Deus (Jo 17,3; Apoc 3,7); "testemunho" no campo da religião (Jo 17,19; Apoc í] 2.9); "água viva" para designar os dons (graça e glória) de Jesus Cristo (Jo 4,10; 7,38- Apoc 7,17;21,6).


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