PERGUNTE E RESPONDEREMOS 373 – junho 1993

Livro antididático:

 

"HISTÓRIA"

por Joel Rufino dos Santos

 

Em síntese: O manual escolar de história da autoria de Joel Rufino dos Santos é obra superficial e errônea sob certos aspectos, dada a leviandade com que o autor aborda temas importantes; procura ser "simpático", falando a linguagem de meia-gíria dos adolescentes, caricaturando e deformando episódios do passado. O manual é espécime do baixo nível de nosso 1o grau escolar, como também é comprovante de quanto a história tem sido "manipulada" para apoiar ideologias estranhas.

 

O Prof. Joel Rufino dos Santos publicou um Manual de História Geral e História do Brasil para as séries 5a, 6a, 7a, e 8a do 1º grau, pela Editora F.T.D. Pretende ser um livro didático. Na verdade, porém, é uma obra que, em vez de formar o aluno, contribui para prejudicá-lo tanto por seu estilo (que chega ao sarcasmo e ao "engraçado-gaiato") como por seu conteúdo, que é superficial e tendencioso, especialmente quando trata do Cristianismo. O autor se coloca em posição francamente anticristã e faz da historiografia o veículo para caricaturar a mensagem do Catolicismo.

 

Detenhamo-nos sobre alguns dos vários pontos vulneráveis dessa obra.

 

 

1. EQUÍVOCOS E IRONIA

 

O autor, de ponta-a-ponta, é impreciso e superficial nas suas explanações. Isto tem importância especial quando encara o Cristianismo. Pouco conhecedor do assunto, baseando-se em informações vagas, o Sr. Joel R. dos Santos desfigura a história:

 

1) No volume (destinado ao professor) para a 7a série, p. 89, Jesus é chamado "o sujeito". O autor não conhece devidamente o Evangelho, de modo que inverte a ordem dos acontecimentos concernentes a Jesus: Pilatos teria interrogado Jesus a respeito do título "Rei dos Judeus"; vendo que Jesus era inocente, deixou-o partir e Jesus continuou a pregar... — Ora isto não corresponde à história: Jesus foi questionado por Pilatos horas antes de morrer; depois disso não mais pregou a Boa-Nova; cf. Jo 19,28-40.

 

2) No mesmo volume, à p. 91, o autor escreve:

 

"A primeira explicação para a vitória do Cristianismo é essa: parasitou as religiões mais fortes de Roma. Uma colcha de retalhos. Ganhando Roma, ele se irradiou pelas terras do Império".

 

Só pode escrever tais linhas quem não estudou a matéria. O Cristianismo se propagou precisamente porque apregoava uma grande novidade aos povos mediterrâneos, vítimas do ceticismo e desesperançados das suas religiões politeístas e mitológicas. Com efeito; o Cristianismo proclamou algo de inédito: Deus é o primeiro a amar o homem; não é este quem atrai os favores da Divindade por ser justo e reto, mas, antes que o homem procure a Deus, Este já lhe disse Sim, criando-o para ser consorte da bem-aventurança do próprio Deus; cf. 1Jo 4,9s; Rm 5,8. O Cristianismo, sem dinheiro, sem proteção dos maiorais, sem armas, antes perseguido, se implantou no Império Romano precisamente por causa do valor intrínseco da sua mensagem, que correspondia aos mais profundos anseios dos homens. As religiões do Império, com as suas concepções mitológicas e infantis, como também a filosofia dos gregos e romanos, haviam fracassado, deixando céticos os pensadores da época; basta lembrar os discursos de Cícero, as escolas do pirronismo (descrente), do cinismo (zombeteiro), dos pregadores ambulantes dos séculos imediatos antes e depois de Cristo. O próprio Apóstolo São Paulo faz questão de dizer que o Evangelho destoa de sabedoria e da arte retórica dos grandes de sua época; a fé cristã parecia loucura e escândalo, pois se centrava na mensagem de um Deus crucificado (cf. 1Cor 1,17.23). Donde se vê quão falhas são as afirmações do Manual em foco.

 

Se há aparentes pontos de contato entre o Cristianismo e as religiões não cristãs, isto não se deve a dependência daquele em relação a estas, mas ao fato de que existe em todo ser humano uma religiosidade natural, pré-cristã e pré-pagã, que tem suas manifestações espontâneas, manifestações que são assumidas pelos diversos Credos: assim o rezar de joelhos, de braços estendidos, em prostração no chão, o peregrinar a lugares tidos como sagrados, as procissões, as orações litânicas, as abluções rituais, as ceias sagradas... Nenhum desses ritos é privilégio de alguma corrente religiosa, porque cada qual tem sua base na própria natureza humana psicossomática, espontaneamente necessitada de símbolos. É claro, porém, que cada corrente religiosa coloca dentro dessas expressões naturais os artigos de sua fé. Conseqüentemente o Cristianismo, ao celebrar seu Batismo, sua Ceia Eucarística, parte de premissas monoteístas (e não politeístas nem mitológicas) e exprime as grandes verdades reveladas através desses ritos espontâneos: a água é símbolo de purificação, a ceia é sinal de partilha e comunhão...

 

3)  À p. 90 do mesmo volume, J.R. dos Santos cita a máxima: "Não façais aos outros o que não quereis que vos façam"; teria sido inspirada a Jesus por Confúcio. — A propósito devemos dizer que o próprio bom senso humano anterior a Confúcio e Jesus é suficiente para explicar tal norma. Todavia o que R. dos Santos não observa, é que no Evangelho é positiva (muito mais exigente) e não negativa: "Tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles" (Mt 7,12).

 

4)  No volume do professor para a 7a série, à p. 91, lê-se que "no culto egípcio de Isis o Cristianismo foi buscar a Sagrada Família: José, Maria e Jesus são cópia de Osires, Isis e Horus". — Ora

 

a Sagrada Família, no Cristianismo, não é produto de ficção, mas redunda de fatos históricos; em Nazaré (Israel) a arqueologia aponta os lugares sagrados em que Jesus, Maria e José viveram; a Tradição guardou a lembrança desses vestígios do passado, de modo que não era preciso aos cristãos recorrer ao Egito para reconhecer a S. Família.

 

Mais sagaz do que J.R. dos Santos, a Escola das Religiões Comparadas (com seus corifeus Frazer, Jansen, Max Müller, Bousset, Eichhorn, Gunkel...), no fim do século passado e no início do presente, quis derivar a SS. Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) das trindades do Egito ou da Mesopotâmia. — Tal Escola, porém, perdeu sua voga; as aparentes semelhanças encobriam fundamentais diferenças; a mentalidade cristã era (e é) algo que não se confunde com a mitologia, a tal ponto que até 313 o Cristianismo foi perseguido no Império Romano por não se compatibilizar com as proposições do paganismo. Os cristãos eram (e são) ciosos da sua identidade; preferiam morrer mártires a pactuar com alguma crença ou prática mitológica. Vários estudos publicados no decorrer do século XX demonstraram a inequívoca singularidade do Cristianismo, de modo que já a Escola das Religiões Comparadas hoje em dia perdeu autoridade. Ver a propósito P. Cerrutti, O Cristianismo em sua Origem Histórica e Divina. Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro.

 

5)  À p. 90 do mesmo volume encontra-se ainda: "A partir do imperador Constantino, aí pelo ano 300... quem não era cristão foi perseguido". — O autor, sendo historiador, podia e devia ser mais preciso: em 313 Constantino, pelo Edito de Milão, concedeu a paz e a liberdade aos cristãos; não oficializou o Cristianismo como religião do Estado, coisa que Teodósio I fez em 380. Precisamente sob Diocleciano (284-305) foi desencadeada a mais grave e a mais longa perseguição aos cristãos.

 

6)  À p. 104 do mesmo volume, o autor mostra mais uma vez a sua imperícia. Desfigura o pensamento de S. Agostinho, interpretando mal a sua obra De Civitate Dei (sobre a Cidade de Deus): o santo mestre refere-se aí a dois amores que constituíram para si cada qual uma cidade: o amor a Deus até o desprezo de si, e o amor a si até o desprezo de Deus. São duas cidades existentes neste mundo, e não cidades do além, como julga J.R. dos Santos. De resto, S. Agostinho, que é, reconhecidamente, um dos maiores gênios da humanidade, não era o palhaço que o historiador apresenta logo a seguir. — É melhor não entrar em certos assuntos para não trair a própria incompetência do que se intrometer sem ter o adequado conhecimento de causa, como faz J.R. dos Santos.

 

7)  A p. 102 do referido volume, o autor se refere ao Cristianismo dos primeiros séculos como algo de masoquista: "Os cristãos faziam do mundo uma idéia triste. Um vale de lágrimas entre o nascimento e a morte. O melhor era se conformar com a travessia, cheia de dores, na certeza de ser recompensado do outro lado com uma vida sem fim no regaço de Cristo".

 

O autor não leu os documentos emanados do próprio Cristianismo, pois, se os conhecesse, nunca diria isso. Basta lembrar as passagens em que São Paulo exorta os fiéis à alegria:

 

"Alegrai-vos sempre no Senhor'. Repito: alegrai-vos'." (Fl 4,4). Cf. Fl 1,4; 3,1; 4,10.

 

"De resto, irmãos, alegrai-vos, procurai a perfeição, encorajai-vos" (2Cor 13, 11).

 

Uma corrente melancólica ou pessimista não atrai adeptos, como os atraiu a pregação cristã, de maneira que não teve similar até hoje na história. O masoquismo é o contrário do entusiasmo com que os cristãos professavam a sua fé perante os juízes e carrascos. A galhardia e a fortaleza de ânimo dos cristãos são belamente descritas por um autor anônimo na sua Carta a Diogneto (século III):

 

"Os cristãos obedecem às leis, mas as ultrapassam em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos. Desconhecidos, são assim mesmo condenados. Mas, quando entregues à morte, são vivificados. Na pobreza enriquecem a muitos; desprovidos de tudo, sobram-lhes os bens. São desprezados, mas no meio das desonras sentem-se glorificados. Difamados, mas Justos; ultrajados, mas benditos. Injuriados, prestam honra. Fazendo o bem, são punidos como malfeitores; castigados, rejubilam-se como revivificados".

 

8) Ao referir-se à origem da vida, diz o autor à p. 8 do livro em foco: "Um dia por acaso, dentro da sopa, um molécula daquelas fez cópia de si mesma". — Sabe-se que o recurso ao acaso para explicar a vida e o universo é subterfúgio da ignorância. A Filosofia ensina que o acaso não é um senhor sujeito de atividades; o acaso é o nome que se dá a um fenômeno cujas causas ignoramos. Se saio à procura de uma livraria e encontro na rua um amigo, há muito desaparecido, digo que o encontrei por acaso. Isto, porém, não quer dizer que o evento não foi causado por causas conscientes: eu saí com propósito bem definido e meu amigo também saiu de casa, porque tinha uma finalidade concebida por sua razão. Todavia, já que ignoro por que meu amigo se encontrava a caminho, digo que o encontro se deu "por acaso". Acaso, pois, significa um evento bem determinado por suas causas, mas não previsto por quem o observa; acaso não designa o sujeito de alguma ação.

 

A alusão ao acaso por parte de J.R. dos Santos mostra que o autor não tem conceitos filosóficos claros e confirma a impressão geral de que é um escritor superficial, mais gozador e sensacionalista do que profundo e coerente.

 

 

2. REFLETINDO...

 

O manual de História em foco é nítido sintoma do baixo nível de nossos estudos de 1o grau. Temos em mãos os livros do professor; se estes são tão falhos e vagos, quanto mais não o serão os livros do aluno?

 

Dir-se-ia que o autor escreve na base de preconceitos, entre os quais predomina o de satisfazer ao desejo de ser "simpático" por um linguajar de quase gíria ou "gaiatice". Passa por cima de grandes temas sem os aprofundar, em perspectivas unilaterais e deformantes. Aliás, não é este um caso singular na historiografia; esta tem sido um campo predileto das ideologias; muitos pensadores preconcebidos servem-se da história, vista de relance, para tentar incutir suas concepções unilaterais ou tendenciosas. O amor à verdade objetiva falta em muitos mestres... É doloroso que tal deformação se transmita a adolescentes, que não têm parâmetros para avaliar o que lhes é apresentado; são vítimas dos preconceitos e das caricaturas que os mais velhos lhes passam irresponsavelmente, e possivelmente hão de se ressentir dessa falha escolar por todo o resto de sua vida.

 

Possam os educadores tomar consciência da problemática de ordem ética (e não apenas de índole historiográfica) que a obra de J.R. dos Santos lança sobre o mundo escolar!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt


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