PERGUNTE E RESPONDEREMOS 543/setembro 2007

Filosofia

Perguntas básicas:

 

DE ONDE VIEMOS? ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS?

 

Em síntese: Cada pessoa humana é uma idéia de Deus concebida desde toda a eternidade e criada no tempo oportuno a fim de desenvolver suas virtualidades e voltar plenamente realizada à Casa do Pai. Cada um de nós pode dizer com Cristo: "Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto para o Pai" (Jo 16, 28).

* * *

As três perguntas deste título impõem-se a todo ser humano que reflita: Qual é o sentido desta vida? Muitas respostas foram dadas a tais questões, inclusive a da reencarnação, que é um postulado sem fundamento. Procuraremos, a seguir, formular a resposta numa perspectiva cristã, que certamente dilatará o coração.

 

1. DE ONDE VIEMOS?

Redigiremos a nossa resposta abrindo os olhos em torno de nós. Vivemos num universo harmonioso e equilibrado entre milhões de astros que percorrem suas órbitas bem dimensionadas, de modo a maravilhar quem contempla o makrokosmos, que tem seu paralelo na beleza do mikrokosmos (olho, ouvido, coração humanos extasiam o observador).

Ora toda esta grandeza deve ter um Planejador e Criador, uma inteligência Suprema que, com seu poder, deu origem a tal realidade vertiginosamente desmedida. Contudo, esse sábio Planejador e Criador há de primar também pelo amor; deve ser santo e perfeito em tudo.

Ora um axioma filosófico antigo nos diz que "o Bem é difusivo de Si". Isto quer dizer que o Supremo Sábio, também chamado "Deus", é supremamente difusivo de Si; quis comunicar-se a fim de que seres não existentes viessem a existir e gozar da sua bem-aventurança.

É nesse fundo de idéias que se coloca a origem de cada um de nós. Com efeito, Deus em sua eternidade concebeu o modelo ou protótipo de cada qual, configurado à imagem e semelhança do Criador. Essa idéia de Deus deve tornar-se realidade neste mundo em tempo oportuno ou nos decênios de vida que passamos na terra. Ele nos criou como uma semente embrionária, cheia de virtualidades, que devemos desenvolver por nossa conta, a fim de nos adequarmos ao modelo ou protótipo que o Pai tem para cada qual de nós. No centro do plano do Pai está a figura do Cristo Jesus, Irmão mais velho, ao qual basicamente nos devemos configurar (cf. Rm 8, 29). Diz o Apóstolo que tudo foi criado nele e para Ele (cf. Cl 1, 15s).

 

2. ONDE ESTAMOS?

Deus criou para o homem o palácio deste mundo, palácio que só elevadas pesquisas da inteligência humana podem tentar explicar, tão inteligentemente foi ele estruturado.

A idéia de Deus (que era cada um de nós antes de ser criado) foi feita realidade palpável quando Deus o houve por bem (digamos: nos séculos XX e XXI). É de notar, porém, que a criancinha que nasce neste mundo é muito embrionária; está cheia de potencialidades que devem ser desenvolvidas para que essa criatura atinja "o estado do Homem Perfeito", a medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4, 13). A tarefa de se desabrochar é entregue aos cuidados de cada um(a); cada qual se esculpe, se burila e se configura segundo o ideal que concebe; alguns o fazem muito sabiamente, aplicando seus talentos à prática do bem; outros são menos felizes, pois desperdiçam os seus talentos na leviandade e frivolidade de vida. Cada qual fica sendo assim responsável pela sua estrutura definitiva,... estrutura com a qual ele(a) se apresentará ao Pai quando este chamar de volta a sua criatura. Cada segundo de nossa vida tem sua repercussão na eternidade; é como uma semente que lançamos à terra e que dará frutos bons ou não de acordo com a qualidade do tratamento recebido.

Estas afirmações valem não somente para os cristãos, mas também para todos os homens e mulheres de boa vontade; não conhecem Jesus Cristo, mas têm o coração aberto à Verdade e ao Bem, praticam sua religião ou vivem sem religião, julgando sem hesitação que estão no caminho certo. Se Deus não lhes revelou o Evangelho e eles o ignoram sem culpa própria, não serão julgados segundo os padrões do Evangelho, mas segundo a fidelidade à sua consciência sincera e aberta à Verdade e ao Bem. Poderão salvar-se mediante Cristo e sua Igreja na qualidade de membros invisíveis da Igreja.

Destas considerações se depreende o valor da vida presente; ela é breve e cheia de percalços, de modo que o(a) sábio(a) não perde tempo e vigia assiduamente. Para o fiel cristão, recomendam-se como recursos indispensáveis a Eucaristia e a oração.

O encontro com Deus não é algo de meramente futuro, mas já ocorre sob os véus da fé na vida presente. O Criador não abandona sua criatura neste mundo, mas acompanha-a, dando-lhe os subsídios necessários para o bom êxito de seus esforços e permitindo-lhe gozar os benefícios da experiência de Deus, que habita nos corações justos. O Deus conhecido veladamente na terra é o mesmo que se dá reveladamente na eternidade. Poucos pensam nisto e poucos têm a coragem da coerência.

O mundo colorido e sonoro que nos cerca é tão sedutor que às vezes pode empalidecer a visão do além; o indivíduo mergulha nos afazeres materiais, que são muito exigentes e pode não fazer caso do Principal, que é a vida eterna. Não seja assim o cristão; trabalhe com zelo em tudo que empreender, mas sempre com o olhar voltado para o Eterno; haja no cristão sempre um fio condutor intocável que leve ao encontro de Deus através das múltiplas tarefas temporais.

 

3. PARA ONDE VAMOS?

Vamos para a Casa do Pai, que nos concebeu, criou e acompanhou neste mundo a fim de chegarmos à vida eterna([1]). Somos peregrinos, aos quais diz S. Agostinho:

"O peregrino quer subir. Mas para onde irá ele? Para o sol, a lua, as estrelas? O céu é a Jerusalém eterna, onde moram os anjos, com os quais viveremos. Na terra peregrinamos longe deles; durante a peregrinação, suspiramos; ao chegar à pátria sentiremos grande alegria" (Comentário aos Salmos).

Veremos então Deus ou a Beleza Infinita face-a-face e todas as nossas aspirações serão saciadas. Diz ainda S.Agostinho: "Serás insaciavelmente saciado". Veremos nossos familiares e amigos em Deus ou contemplando Deus.

Consciente destas verdades, escreve São Paulo:

"Sabei que quem semeia com parcimônia, também colherá com parcimônia, e quem semeia com largueza, também com largueza colherá" (2Cor9, 6).

 

A colheita será proporcional à semeadura. Em poucas palavras podemos afirmar com o mesmo Apóstolo:

"O que o olho não viu, o que o ouvido não ouviu nem o coração humano jamais percebeu. Eis o que Deus preparou para aqueles que O amam" (1Cor2, 9).

O amor abrirá o olho da mente; quanto mais ardente for ele, tanto mais propiciará uma visão nítida de Deus, ao passo que o amor lânguido será menos clarividente. Deus é amor, e quanto mais o amamos, tanto mais afinidade temos com Ele.

Feitas estas observações, só resta ao cristão compenetrar-se do valor da vida presente, que é a ante-câmara da eternidade. O tempo é precioso, como lembra S. Agostinho:

"Tanto Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei. Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e aí Vos procurava; com o meu espírito deformado, lançava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco.

Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e curastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume; aspirei-o profundamente e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e comecei a desejar ardentemente a vossa face" (Confissões).

Vemos assim que um fiel cristão não pode dizer que não sabe o que há no além. Diga antes que possuirá a plenitude dos bens dos quais um certo antegozo é concedido aos que sinceramente buscam a Deus. O próprio Deus se dará às criaturas em vez de lhes dar subsídios para a caminhada de peregrinos.



[1] Entende-se, porém, que aqueles que morrem com o amor voltado para Deus, mas ainda contraditado por escórias do "pecadinho" de cada dia terão de fazer um estágio de purificação. Este nada tem a ver com fogo, mas será a ocasião de repudiar por completo as raízes de todo e qualquer pecado.

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