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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 532 – outubro 2006

Um livro revolucionário:

 

"MADALENA, O ÚLTIMO TABU DO CRISTIANISMO"

por Juan Arias

 

Em síntese: O autor escreve em estilo de divulgação, afirmando sem comprovar o que diz. Afirma que não se pode provar que Jesus era casado, mas adota esta tese: Jesus, "o profeta de Nazaré", terá esposado Maria Madalena, que deveria ser a orientadora do Cristianismo, mas foi suplantada pela corrente machista dos Apóstolos Pedro e Paulo. Ciente disto, a Igreja terá destruído Evangelhos apócrifos gnósticos que relatavam esse conúbio de Jesus, para não perder o poder que os homens arrogaram a si mesmos na Igreja. Somente no século XX a verdade veio à tona após a descoberta dos documentos de Nag-Hammadi, diz o autor. O mesmo contesta a Divindade de Jesus; Paulo terá "nomeado Jesus Deus"...

 

Em suma, o autor incide em imprecisões e contradições, negando verdades básicas da fé cristã tradicional em favor de hipóteses gratuitas e de todo inverossímeis.

 

O jornalista Juan Arias foi correspondente no Vaticano durante quatorze anos; já se tomou conhecido no Brasil por suas publicações; ver PR 485/2002, pp. 484ss. Ultimamente vem-se dedicando ao estudo dos Evangelhos apócrifos gnósticos descobertos em Nag-Hammadi (Egito) na década de 1940. Acaba de publicar em tradução portuguesa o livro "Madalena, o último tabu do Cristianismo" ([1]), que traz o subtítulo "O Segredo mais bem guardado da Igreja: as relações entre Jesus e Maria Madalena". Como se vê, o livro é sensacionalista em matéria delicada, merece atenção e discernimento. É o que as páginas subseqüentes proporão.

 

Examinaremos a tese e o fio condutor do livro antes do mais; após o quê passaremos à consideração de aspectos particulares da obra.

 

1. A tese do livro

 

Como dito, a obra versa sobre o relacionamento entre Jesus e Maria Madalena.

À p. 107 diz o autor:

 

"É necessário admitir... que não existem provas históricas que demonstrem definitivamente que Jesus foi casado. Mas tampouco existem argumentos definitivos para negá-lo. A interrogação continua de pé".

 

Todavia J. Arias opta pela hipótese de que houve casamento entre ambos, pois Madalena devia ser a líder da religião reformada por Jesus, como deduzem alguns estudiosos dos evangelhos gnósticos apócrifos. Eis, porém, que o machismo liderado por Pedro e Paulo prevaleceu sobre o feminismo de Maria Madalena. As autoridades da Igreja, cientes de tais fatos, trataram de queimar os textos gnósticos a fim de que não fosse contestado o domínio dos homens na Igreja. Assim se lê à p. 55:

 

"Esses textos foram descobertos em 1945 no deserto egípcio de Nag Hammadi. Encontravam-se em um vasilhame e provavelmente foram escondidos ali pelos monges de algum mosteiro para que não fossem queimados, pois isto era o que desejava a Igreja oficial daquele tempo".

 

A Igreja sempre teve medo de Maria Madalena, porque... "este fato poderia enfraquecer os alicerces da instituição, que ainda hoje exige a castidade e o celibato de seus sacerdotes e não permite que as mulheres se ordenem ou oficializem os sacramentos".

 

Assim o autor parte de uma hipótese que ele passa a considerar base firme para atribuir à Igreja uma atitude desonesta ou a sonegação da verdade no intuito de garantir seu prestígio e poder.

 

Na verdade, quem faz papel pouco honesto é Juan Arias, que calunia a Igreja na base de uma hipótese que ele mesmo reconhece ser discutível.

 

Podem-se citar várias razões que refutam a tese de Arias: tenha-se em vista o silêncio de toda a tradição cristã, que jamais conheceu um Jesus casado, mas, ao contrário, enalteceu a sua vida totalmente dedicada à missão evangelizadora. Além do quê, deve-se lembrar que "a mentira tem pernas curtas", cedo ou tarde é desmascarada; é, pois, difícil aceitar que a falsa versão do Cristianismo nascente se tenha podido manter intacta durante vinte séculos; ninguém teve como denunciá-la a não ser Arias e seus colegas no século XXI.

 

Nota-se aliás que Arias escreve sem provar o que diz, afirma gratuitamente sem documentação e sem notas de rodapé. Isto comunica à sua obra um caráter de superficialidade e sensacionalismo, que pouco tem a ver com um estudo científico e bem ponderado.

 

Acrescente-se que, segundo Arias, para dissipar a imagem de Madalena "esposa de Cristo", a Igreja terá feito dessa mulher uma prostituta possessa do demônio - coisa que a própria Igreja após o Concílio do Vaticano II já não sustenta. - De passagem notamos que o assunto não toca a fé, mas depende de um tipo de exegese bíblica que durante séculos parecia correto, mas hoje em dia é posto de lado; a prostituta de Lc 7, 36-50 não é a Madalena de Lc 8, 1-3; cf. PR 530/2006, pp. 341-345.

 

2. O "profeta" de Nazaré

 

J. Arias cita sempre Jesus como profeta, e nada mais do que isto; ver pp. 49, 75, 77...

Terá sido São Paulo que fez de Jesus Deus Filho:

 

"Paulo, à frente do Cristianismo ortodoxo e oficial, converteu Jesus no Mestre prometido e esperado pelos judeus, converteu-o em Deus e o nomeou segunda pessoa da Trindade" (p. 64).

 

Daí o texto da p. 167: "Isto nada tiraria da dignidade do personagem, o mais importante da história, nem de seu caráter divino - para os que crêem que era Deus...".

 

Na verdade, em todo o decorrer do livro Jesus é sempre tratado como mero homem,... homem que pecou:

 

"A Igreja aceita que Jesus, como homem verdadeiro que era, cometeu o pecado da ira contra os mercadores do templo... insultou Herodes chamando-o 'essa raposa'.

Também aceita a Igreja que Jesus foi acusado de excessos na comida e na bebida... Aceita que nem sempre foi um rapaz exemplar com seus pais. Escapou no templo e os fez sofrer... Também aceita que Jesus teve dúvidas de fé no momento supremo da sua agonia, quando se queixa diante de seu Deus Pai de havê-lo abandonado" (p. 163).

 

A bem da verdade, a Igreja não reconhece pecado em Jesus; se pecasse, Deus estaria pecando - o que é absurdo. Jesus assumiu as conseqüências do pecado, não porém o pecado mesmo. Teve afetos ordenados e puros, embora expressos de maneira enérgica frente aos vendilhões do templo. Aliás, à p. 162 Arias cai em contradição, afirmando que a Igreja sustenta que "Jesus foi um homem simples em tudo menos no pecado".

 

3. Celibato e casamento

 

Há dois tipos de apócrifos: os cristãos e os gnósticos.

 

Os apócrifos cristãos respeitam Jesus; atribuem-lhe o poder de fazer milagres desde a infância muito imaginosamente, mas revelando estima pela figura humana de Jesus.

 

Os apócrifos gnósticos é que descrevem Jesus amante de Maria Madalena (2). É, pois, dessa fonte não cristã que os críticos modernos deduzem o pretenso casamento de Jesus com Madalena. Esta tese, dizem, foi professada por cristãos gnósticos, mas abafada pela Igreja machista oficial.

 

2 Cf. PR 529/2006, pp. 290-294.

 

Ora não se pode falar de cristãos gnósticos, pois entre Cristianismo e gnosticismo há total incompatibilidade. A Gnose se opõe ao Cristianismo por seu dualismo: a matéria seria má e o espírito bom; o mundo material terá sido criado por um deus mau; o homem está no corpo em conseqüência de uma queda dos espíritos. Para libertá-lo da matéria, terá vindo à terra um emissário do mundo espiritual, que haverá ensinado ao homem o conhecimento (gnose) que permite deixar este mundo material e voltar ao convívio dos espíritos. Por conseguinte "o Jesus casado" nasceu num berço não cristão; jamais tal concepção poderá ter tido origem em ambiente cristão tal como a Gnose a professa. E por que não?

 

Para o Cristianismo, o casamento é santo, mas há um estado ainda mais excelente que é o celibato ou a vida una e indivisa. Com efeito, Jesus veio inaugurar o Reino de Deus na terra (ver Mc 1, 15); quem toma consciência disto, pode sentir-se chamado a dedicação total a esse Reino, que implica os valores definitivos ou o antegozo dos bens eternos. É o que São Paulo afirma em 1Cor 7, 38. É da certeza de que um pouco de eternidade entrou no tempo, que os cristãos se inspiraram para abraçar o celibato desde as origens da pregação do Evangelho (em Corinto no ano de 56 devia haver quem se entregasse à vida una ou indivisa). O celibato é portanto uma expressão originária da fé cristã e não uma prática de época tardia na história. Jesus parece corroborá-lo dizendo que após esta vida terrestre os homens serão como os anjos no céu: não se casarão. "Quando ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, mas serão no céu como anjos de Deus" (Mt 22, 30). Ora Jesus, que veio anunciar o Reino de Deus na terra, devia ser o primeiro a abraçar o celibato, dando assim o testemunho mais cabal da presença do Reino, testemunho que não mutila nem diminui a pessoa humana, mas, ao contrário, permite-lhe realizar façanhas heróicas como as realizou Jesus até sofrer soberanamente o martírio da sua Paixão.

 

Em suma, a vida una ou indivisa é, conforme a tradição cristã, vida angélica, antecipação da vida celeste. O judaísmo clássico não podia pensar assim, porque esperava a vinda do Messias através da linhagem carnal, de modo que não ter descendentes equivalia a ficar excluído dos antepassados do Messias.

 

Ainda se pode notar que a arbitrariedade subjetiva de Arias vai tão longe que admite não somente Jesus como esposo de Madalena, mas também Jesus como irmão gêmeo de Tomé o Dídimo (Gêmeo) (ver p. 69). Alta imaginação sem respaldo documentário!

 

4. As origens do Cristianismo

 

Segundo Arias, "Jesus não quis fundar uma Igreja, mas purificar a velha fé judaica... para convertê-la em uma revelação universal" (p. 84).

 

Os discípulos é que interpretaram diversamente o pensamento do Mestre, dando origem a várias modalidades de Cristianismo, entre as quais a feminista (com Maria Madalena à frente) e a machista, chefiada por Pedro e Paulo apóstolos. A princípio essas modalidades disputavam entre si a hegemonia até que se impôs a chamada "linha hierárquica", "a que organizou a Igreja nascida da doutrina do profeta crucificado com uma ordem de poder concreto" (p. 57).

Nessas modalidades tocava às mulheres um papel de orientação muito relevante.

 

Tal teoria é gratuita ou destituída de fundamento. O que a documentação existente (os Evangelhos e as epístolas canônicas) refere, é que Jesus quis fundar "minha Igreja", que ele confiou a Pedro e seus sucessores (verMt 16, 16-19; Lc 22, 31s; Jo 21, 15-17; Mt28, 18-20). Ao lado dessa Igreja fundada por Cristo, houve dissidências ou heresias, como era de esperar, heresias e cismas que nunca foram equiparados à Igreja hierárquica. Basta ler a literatura antiga (S. Inácio de Antioquia, S. Ireneu, S. Cipriano, S. Justino...) para perceber a linha central que procede de Jesus e passa pelos antigos cristãos retratados por tais autores; há continuidade, que não se perde apesar de dissidências de cá ou de lá.

 

Não se pode dizer que no Cristianismo antigo "as mulheres exerciam funções das mesmas categorias dos homens como dirigentes de comunidades, bispos, diaconisas etc... Paulo declarou que o profeta não fazia distinção entre varão e mulher e entre livres e escravos" (p. 72).

 

Na verdade. São Paulo afirma a mesma dignidade para o homem e a mulher, mas assinala funções diferentes para homens e mulheres. A pregação na Igreja ficava reservada aos homens, conforme 1Cor 14, 34s e 1Tm 2, 10-15. Não há documentação em contrário.

 

5. Mais dois pontos importantes

 

5.1. O Evangelho de João

 

Segundo Arias, tal escrito sofreu influência gnóstica e poderia ser atribuído a Maria Madalena (p. 59).

 

Ora tal afirmação inclui uma contradição: sim a Gnose é dualista, como vimos, ao passo que, conforme São João, o Logos, que é Deus desde todo o sempre, se fez carne e veio a este mundo material, assumindo todas as conseqüências do pecado, em oposição nítida a todo dualismo. Foi assim que Deus tanto amou o mundo; ver Jo 1, 1-14 e 3, 14s. O que o quarto Evangelho tem de próprio é uma visão mais profunda e teológica daquele mesmo Jesus apregoado pelos sinóticos; é o Evangelho mais tardio, resultante de longa meditação do evangelista com seus discípulos.

 

5.2. A ressurreição de Jesus

 

Juan Arias refere a posição de teólogos recentes que entendem a ressurreição em sentido espiritual ou como símbolo literário. É de notar que tais autores se afastam do próprio pensamento paulino, que afirma ser a ressurreição corporal pedra de quina indispensável da pregação cristã (ver 1Cor 15, 14.17). Jesus veio recriar o homem, apresentando uma nova criatura que, sendo humana, consta de corpo e alma, corpo portador de um penhor de vitória sobre o pecado ou de ressurreição (corporal).

 

6. Falhas diversas

 

O livro apresenta ainda outros pontos falhos, estes de menor importância:

 

1)  À p. 72: Tessalônica e Beréia não são mulheres como julga Arias, mas são cidades gregas.

 

2)  À p. 153 lê-se: "Jesus nunca exigiu o sacrifício da sexualidade para ser seu discípulo". - Ora eis o que diz Jesus conforme Lc 18, 29: "Em verdade vos digo: não há quem tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do Reino de Deus sem que receba muito mais neste tempo e, no mundo futuro, a vida eterna".

Algo de semelhante ocorre em Lc 14, 26: "Se alguém vem a mim e não odeia (ou não ama menos pai e mãe, mulher e filhos... não pode ser meu discípulo".

O grifo é nosso.

 

3)  À p. 165 está escrito: "O galileu diz a Nicodemos... que tem de voltar ao seio de sua mãe e nascer de novo". - É precisamente esta afirmação, proposta por Nicodemos, que Jesus rejeita (Jo 3, 4).

 

4)  À p. 181 lê-se: "Jesus tem que dizer a Madalena: Deixa já de tocar-me". - A tradução do texto grego correta seria. "Não me detenhas, vou para o Pai" (Jo 20, 17).

 

5) Eis os dizeres da p. 57: "A corrente cristã que finalmente se impôs decidiu, no século IV, que as centenas de Evangelhos escritos que circulavam na Igreja primitiva até então... ficavam revogados em sua maioria... e que somente quatro Evangelhos foram inspirados por Deus".

 

Quem assim escreve não acompanhou a literatura cristã anterior ao século IV, pois esta atesta a aceitação dos quatro Evangelhos canônicos desde os primeiros tempos. Seja citado um texto de Orígenes (+254), escritor alexandrino:

 

"A Igreja tem quatro Evangelhos; a heresia, vários, entre os quais existe um Evangelho segundo os Egípcios, outro... segundo os Doze Apóstolos... Também Basilides (gnóstico) ousou escrever um Evangelho, ao qual seu nome é como título... Conheço um Evangelho dito 'segundo Tomé' e outro dito 'segundo Matias', Li ainda outros vários" (sobre Lucas homilia I, Migne grego 13, 1802).

 

O texto de Orígenes atrás citado refuta a afirmação feita por Juan Arias à p. 161 do seu livro:

"O que não se costuma dizer é que, durante vários séculos, quase até o século IV, e antes de a Igreja decidir que só os quatro Evangelhos chamados canônicos eram os únicos inspirados por Deus, todos os demais Evangelhos gozavam da mesma autoridade e se apresentavam como intérpretes da tradição oral das diferentes comunidades cristãs".

 

Como se vê atrás, Orígenes distingue entre os quatro Evangelhos da Igreja e os das correntes heréticas, aos quais não era atribuída a mesma autoridade. Os escritores cristãos comentavam Mt, Mc, Lc e Jo, não porém os Evangelhos gnósticos.

 

5)  À p. 65 está dito que "São Pacômio foi o primeiro eremita da historia do Cristianismo". - Na verdade, o primeiro eremita foi Santo Antão (+356); São Pacômio (+346) foi o primeiro legislador da vida cenobítica (comunitária). Passemos a uma

 

7. Reflexão final

 

Juan Arias entrega ao público uma coletânea de afirmações gratuitas, de caráter não científico, e sim preconceituosas e sensacionalistas, que, se fossem levadas a sério, destruiriam o Cristianismo, pois negam o âmago da mensagem cristã ou a encarnação do Verbo reduzido à qualidade de "profeta de Nazaré". É movido pela obsessão da novidade, que o leva a tudo contestar como faria (em linguagem popular) um macaco em casa de louças.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ed. Objetiva, Rio de Janeiro 2006, 204 pp.


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