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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 554/agosto 2008

Santos e Místicos

Os sonhos de São João Bosco:

 

CÉU, INFERNO E PURGATÓRIO

 

Em síntese: São João Bosco terá visto em sonhos alguns traços característicos do céu, do inferno e do purgatório. Descreve-os, porém, de maneira muito antropomórfica, que não se sustenta. Tal livro não se presta à catequese, pois transmite concepções que não constroem a personalidade do leitor.

* * *

São João Bosco (1815-1888) costumava sonhar e muitos dos seus sonhos se realizavam na vida cotidiana. Sendo o seu confessor e diretor São José Cafasso, foi solicitado a redigir o teor desses sonhos. Ele o fez de modo que estão contidos no arquivo das Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco. Deste livro foram extraídos três sonhos, versando respectivamente sobre o céu, o inferno e o purgatório. AArtpress e Industria Gráfica e Editora Ltda. os publicou num livreto de 85 páginas, cujo teor vai, a seguir, sumariamente comentado.

1. Céu

Na noite de 6/12/1876 foi o Santo levado a ver uma planície coberta de belíssimos jardins. Ouvia-se aí uma música celestial e percebia-se uma multidão de gente a cantar. De repente o padre observa outra multidão, essa de jovens, tendo à frente Domingos, discípulo de D. Bosco falecido em 1857. Há um diálogo entre o sacerdote e o jovem, que lhe afirma: "É impossível dizer-te de que gozamos no paraíso. Aquilo de que se goza no paraíso, nenhum homem mortal pode sabê-lo enquanto não deixar esta vida e se reunir ao seu Criador; basta dizer que se goza do próprio Deus". O colóquio continua, e finalmente o padre desperta do sonho.

A respeito seja observado:

1)  Céu, inferno e purgatório não são localidades, mas estados de alma; começam na terra e desabrocham plenamente no Além. Não há portanto jardins e casas no céu.

2)  Positivamente falando, o céu é a visão de Deus face-a-face, que sacia todas as legítimas aspirações do homem. Em Deus os justos vêem seus familiares, amigos, toda a corte celeste; nada mais lhes resta a desejar. Tal realidade é apresentada por São Paulo como "Aquilo que o olho do homem jamais viu, o ouvido humano jamais apreendeu e o coração humano jamais concebeu" (1Cor 2, 9), de sorte que fica fora do alcance do homem nesta vida.

2. Inferno

Dom Bosco é acompanhado por um guia (anjo), que o leva ao inferno.

De novo é conduzido a um lugar donde se avista imensa planície. Chega ao fundo de precipício que termina num vale sombrio. Apareceu um enorme edifício. "Um calor sufocante me oprimia, uma densa fumaça esverdeada se elevava em torno das muralhas, marcadas por chamas cor de sangue" (p. 47).

O texto fala da "ira de Deus" (p. 49), da "vingança de Deus" (p. 48). "A divina justiça, provocada, empurra os pecadores para dentro do fogo" (p. 56). Mais expressivas ainda são estas palavras: "Esta é a milésima parede antes de chegar ao verdadeiro fogo do inferno. Mil muralhas o rodeiam. Cada uma delas tem mil medidas de espessura, e essa é a distância entre cada uma delas; cada medida é de mil milhas, esta muralha dista pois um milhão de milhas do verdadeiro fogo do inferno. Encostei a mão na pedra daquela milésima muralha: naquele instante senti uma queimadura tão intensa e dolorosa que, saltando para trás e dando um fortíssimo grito, acordei" (p. 61).

 

Comentando

Mais uma vez seja dito que o inferno não é um local, mas sim um estado de alma, que começa na terra com um pecado grave consciente e voluntário e se desenvolve no Além, caso o pecador não se arrependa e reconcilie com Deus. Estar separado de Deus para sempre é o âmago do inferno. Implica odiar tudo e a todos. O fogo de que fala o Evangelho não é o fogo da terra, mas é como que uma réplica do mundo material que todo pecado maltrata. Requer-se sobriedade ao falar dos últimos fins; a imaginação fecunda pode distorcer os conceitos de modo a fazer, em lugar de uma catequese, uma anticatequese. É preciso frisar bem que não é Deus quem castiga, mas é o homem quem castiga a si mesmo, abandonando o único Bem que ninguém pode perder.

3. Purgatório

A descrição do purgatório é mais breve. Conduzido por um guia amigo o santo avista um magnífico palácio. Encontra lá um Bispo majestosamente sentado em posição de quem se prepara para dar audiência. O santo estranha esse encontro. Propõe muitas perguntas ao Prelado, que recomenda a fidelidade à lei de Deus, a oração e as boas obras.

O semblante do Bispo foi se tornando sempre mais triste e sofredor. Finalmente o prelado se retira "Parecia que expirava: Uma força invencível o arrastou dali para habitações mais interiores, de modo que desapareceu'.

Que dizer...

A topografia proposta é fantasiosa. Não há trajes no purgatório, pois nesse estado se encontram almas separadas de seus corpos (o purgatório terminará quando o Senhor voltar para o juízo final).

Positivamente, o purgatório é o estado da alma que deixa este mundo com o amor voltado para Deus, mas ainda contraditado por tendências desregradas ou raízes do pecado (por exemplo, alguém pode amar a Deus sem nunca O ofender gravemente) mas simultaneamente guarda o hábito de comentar a vida alheia ou se envaidecer por pequenas coisas ou certas gulodices. Tal pessoa não se afastou de Deus, mas não pode ver o Três Vezes Santo face-a-face porque, na presença de Deus, não subsiste nenhuma imperfeição. Morrendo em tais condições, o cristão tem que erradicar essas más tendências desordenadas, sem fogo nem diabinho com tridente. Algo de semelhante acontece a quem desrespeita os sinais do trânsito; não comete grave crime, pois é hábil motorista. Um belo dia, porém, é colhido por um acidente que leva essa indivíduo a ficar engessado e parado. Fará então seu purgatório, isto é, arrancará do seu coração todo desejo de brincar com o trânsito. Porque na caminhada para Deus, também as coisas pequenas têm importância e requerem vigilância para não sofrer decepções.

Vê-se assim que o purgatório é algo de muito lógico, além de ter sua fundamentação bíblica em 2Mc 12, 38-45 e 1Cor 3, 10-15.

Dom Bosco proferiu uma catequese para seus jovens segundo a linguagem do seu tempo. Terá feito grande bem aos discípulos descrevendo o que viu em seus sonhos. Em nossos dias, porém, tal linguagem antropomórfica já não cala no íntimo dos ouvintes. A Teologia quer ser sóbria a respeito dos acontecimentos finais, sem negar a realidade de céu, inferno e purgatório.

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