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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – julho 2006

Ainda uma vez:

 

BÍBLIA SAGRADA

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

 

Em síntese: O Pe. Ney Brasil Pereira, Mestre em Ciências Bíblicas, apresenta sábia recensão da nova tradução da Bíblia, menos severa do que aquela publicada em PR 523/2006, pp. 7-14.

 

A Nova Tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje, já comentada em PR 523/2006, pp. 7-14, é apreciada pelo Pe. Ney Brasil Pereira, Mestre em Ciências Bíblicas e Professor do Instituto de Teologia do Estado de Santa Catarina, a quem a Redação de PR agradece cordialmente a colaboração. O autor destas páginas é menos severo do que PR no caso em foco. Eis o seu texto:

 

BÍBLIA SAGRADA

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

São Paulo, Edições Paulinas, 2005, 21cm x 13,5, 1472 p.

 

Mais uma edição da Bíblia aqui no Brasil. A novidade está no subtítulo, "Nova Tradução na Linguagem de Hoje" (NTLH), e também no fato de que a edição é na realidade uma coedição, de alcance ecumênico, de Edições Paulinas, católica, com a Sociedade Bíblica do Brasil, SBB, protestante.

 

Os tradutores não são identificados nominalmente. Mas se informa que os Direitos Autorais, quanto aos "Textos canônicos do Antigo e do Novo Testamento, com as Introduções, Notas e Auxílios ao Leitor", são da SBB, desde 2000, cedidos em 2005, com Direitos Reservados, para Paulinas Editora. Informa-se também que os Direitos dos "Textos deuterocanônicos (Tobias, Judite, Adições a Ester, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e Adições a Daniel", com as "Introduções e Notas", são das Sociedades Bíblicas Unidas, SBU, desde 2003, cedidos em 2005, com Direitos Reservados, para Paulinas Editora.

 

A edição conta com a Apresentação de Dom Eugênio Rixen, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Administração bíblico-catequética, o qual, em data de 10-12-2004, assim conclui as suas palavras: "Ao recomendar esta edição aos fiéis católicos, desejamos que as Sagradas Escrituras sejam fonte de vida, de comunhão entre os cristãos, alimentem nossa vida de oração e favoreçam o diálogo entre as Igrejas cristãs. Parabenizamos a Paulinas Editora pela publicação da "Bíblia Sagrada - Nova Tradução na Linguagem de Hoje". Apreciamos o esforço de traduzir a Sagrada Escritura em linguagem atual, acessível ao leitor contemporâneo e à sua cultura".

 

No Prefácio, não assinado, em data de janeiro de 2005, resume-se a história da Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Recorda-se que o empreendimento começou em 1973, com o lançamento do Novo Testamento em Tradução na Linguagem de Hoje (TLH). Quinze anos depois, em 1988, era lançada toda a Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH), sem os deuterocanônicos. Doze anos depois, em 2000, após cuidadosa revisão, foi lançada a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, (NTLH), ainda sem os deuterocanônicos, embora também eles tivessem sido traduzidos.

 

Como lembra o prefaciador, "os princípios seguidos na NTLH, como já na TLH, são os princípios de tradução de 'equivalência funcional', em que se reproduz o sentido dos textos originais hebraico, aramaico e grego, expressando-o de maneira simples e natural, como fala a maioria da população".

 

O prefaciador apresenta também os recursos desta edição: 1) Introdução para cada livro, com dados relevantes sobre o seu autor e o contexto histórico em que surgiu, bem como a sua mensagem central; 2) Esquema do conteúdo, destacando os principais assuntos e divisões de cada livro; 3) Referências paralelas, no rodapé, possibilitando ao leitor a consulta de outras passagens bíblicas relacionadas ao assunto; 4) Notas explicativas, no rodapé, com variantes textuais e traduções alternativas; 5) Vocabulário, com esclarecimento de termos importantes; 6) Mapas, permitindo que o leitor situe geograficamente os acontecimentos narrados nas páginas da Bíblia.

 

Quanto aos deuterocanônicos, o prefaciador informa que, de 2002 a 2003, houve a colaboração de peritos católicos, designados pela CNBB, para a sua revisão, sendo os demais livros bíblicos "igualmente apreciados pela CNBB". A recomendação para o uso da NTLH foi oficializada em 25-3-2003 por Dom Francisco Javier Hernandes Arnedo, então Bispo responsável pela dimensão bíblico-catequética da CNBB. São suas estas palavras:

 

"Esta tradução, além de manter uma fidelidade irrestrita aos textos originais, representa um significativo esforço por adequar-se à cultura e linguagem do homem contemporâneo, facilitando aos fiéis a compreensão dos conteúdos da Revelação de Deus e permitindo-lhes maior familiaridade com a sua Palavra (cf. Dei Verbum, 25). Ao recomendar esta edição aos fiéis católicos de língua portuguesa, no Brasil e na África, expressamos nosso singelo desejo de que as Sagradas Escrituras sejam não só fonte perene de espiritualidade para todos os cristãos, mas, também, um lugar privilegiado de encontro e diálogo entre as Igrejas cristãs. É a Palavra de Deus que nos pode dar a todos a Sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus (cf. 2Tm 3, 15)".

 

E o prefaciador conclui: "A Bíblia, com o texto da NTLH, está aí, portanto, para o uso comunitário e individual, familiar e geral, para a catequese, a liturgia e o estudo pessoal, trazendo os escritos bíblicos na linguagem simples do povo".

 

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

 

Obra católica similar à Bíblia Sagrada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, é a Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Lançada em março de 1990 pela Editora Paulus, encontra-se já, no exemplar que tenho agora em mãos, na 56a reimpressão. É um sucesso editorial inegável. Recordo o furor que causaram, no lançamento, suas Notas de rodapé, e igualmente o "Pequeno Vocabulário", depois supresso, considerados esquerdistas demais. Quanto à Tradução, os editores observam o seguinte: "Conservando a fidelidade aos textos originais, procuramos traduzi-los em linguagem corrente, evitando construções rebuscadas e palavras de uso menos comum". Quanto às Notas, alerta-se o seguinte: "Elas não pretendem esgotar o assunto, nem se apresentam como normas rígidas para a leitura do trecho: pelo contrário, são apenas início de reflexão. Nasceram de exame minucioso do texto, à luz da recente literatura disponível sobre o assunto tratado...". Última observação dos editores, reimpressa até hoje: "Não é nossa pretensão ter realizado um trabalho completo e intocável. Solicitamos, por isso, que os leitores nos enviem observações e sugestões, que serão muito úteis para aprimorar o trabalho até aqui realizado".

 

Problema atual, problema antigo

 

A dificuldade de traduzir está há muito tempo expressa pelo aforisma italiano traduttore, traditore, segundo o qual o tradutor pode ser um traidor, isto é, ele muitas vezes "trai", não consegue ser fiel ao sentido do texto que traduz. Em relação ao texto bíblico, temos na própria Bíblia o testemunho de um tradutor do hebraico para o grego, no final do século II antes de Cristo. Trata-se do neto de Ben Sirá, o Sirácida, que comenta sua própria tradução do livro do avô, o livro deuterocanônico posteriormente chamado de "Eclesiástico". Veja-se o que ele diz do seu trabalho (cito o texto da NTLH): "Fiz todo o possível para traduzi-lo bem. Mas, mesmo assim, se parecer que não fui feliz na tradução de algumas passagens, peço que me desculpem. É que as coisas escritas em hebraico não têm exatamente o mesmo sentido quando são traduzidas para outra língua. Isso não acontece somente com este livro que traduzi: a própria Lei, os livros dos Profetas e os outros livros são bem diferentes quando lidos na língua em que foram escritos".

 

Isto dizia o neto de Ben Sirá comentando o próprio trabalho e referindo-se à primeira tradução da Bíblia, realizada em Alexandria desde meados do século III antes de Cristo, tradução depois chamada de "Septuaginta", ou seja, a tradução dos "Setenta", segundo informação da carta de Aristéias. Essa dificuldade, quase impossibilidade, às vezes, de traduzir, não impediu que se continuasse traduzindo, dada a barreira linguística entre o texto bíblico e seus cada vez mais numerosos destinatários. Os rabinos helenistas do século II depois de Cristo, considerando tendenciosa a Septuaginta, então apropriada pelos cristãos, produziram mais três versões gregas. Surgiram as versões latinas antigas e, depois, a Vulgata de Jerônimo. Depois, no final da Idade Média, as primeiras versões nas línguas modernas. E hoje, com todos os recursos da linguística e da técnica, não se pára de traduzir.

 

Assim, também a CNBB produziu a sua tradução da Bíblia, para uso oficial da Igreja Católica no Brasil. É a Bíblia Sagrada - Tradução da CNBB. Lançada em 2001, e numa segunda edição em 2002, ela continua em processo de revisão. Como recomenda o Concílio Vaticano II (Dei Verbum, n. 22), a tradução da CNBB se baseia nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, cotejados criteriosamente com a Nova Vulgata, ela mesma baseada nos documentos originais. A apresentação desta segunda edição recorda que ela "se destina à leitura proclamada, à formação e à oração, à citação em documentos e à preparação das edições litúrgicas e, graças à dupla numeração de versículos, ao uso ecumênico. Mantém a segunda pessoa tu/vós, que dá maior clareza à proclamação e implica os pronomes correspondentes (te/vos, teu/vosso). Conforme o princípio de que o sentido literal seja compreendido, se possível, na hora da leitura ou proclamação, foram evitados certos termos, mesmo tradicionais (como homem, quando se quer dizer o ser humano em geral), que poderiam induzir uma compreensão espontânea não visada pelo original". A apresentação conclui afirmando que "a tradução sempre terá de respeitar, o mais possível, o teor do texto original, deixando a explicação e a atualização para a homilia, a catequese e a "'formação permanente da fé".

 

Conclusão

 

Não tive tempo para uma leitura mais abrangente de todo o texto da Bíblia Sagrada - Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Mas penso que. no conjunto das traduções atualmente publicadas no Brasil, ela aparece como o resultado de um trabalho cuidadoso, persistente, de uma equipe abalizada, que levou em conta semelhantes "traduções na linguagem de hoje" em outras línguas, e agora oferece ao leitor cristão brasileiro, evangélico e católico, esta leitura que se pretende atualizada da eterna Palavra de Deus.

 

Quanto à "atualização" da Palavra, pessoalmente faço grandes reservas a certo tipo de atualização ou simplificação. Será que realmente contribui para o melhor entendimento a substituição de princípio por "começo", serpente por "cobra", óleo por "azeite", evangelho por "boa notícia", justos e injustos por "bons e maus", mistério por "segredo", tomar por "pegar", manto por "roupa" etc etc? Não me parece válida, por exemplo, por uma série de detalhes, a tradução de Os 6, 6: Eu quero que vocês me amem e não que me ofereçam sacrifícios; em vez de me trazer ofertas queimadas, eu prefiro que o meu povo me obedeça... Onde ficaram os conceitos de misericórdia/solidariedade inter-humana (hebr. hesed) e o verdadeiro "conhecimento de Deus", que leva à prática da justiça (cf. Jr 22, 16)? Da mesma forma, a tradução das Bem-aventuranças em Mateus deixa muito a desejar: é um caso típico em que uma interpretação determinada impede o leitor ou ouvinte de abrir-se para todas as implicações do original. Assim, não me parece exato que os pobres no espírito (Mt 5, 3) sejam "os que sabem que são espiritualmente pobres". Da mesma forma, a fome e sede de justiça (Mt 5, 6) é muito mais do que "a fome e sede de fazer a vontade de Deus'...

 

Repito. Haveria muita coisa a discutir nos detalhes, assim como também as há, evidentemente, nas outras traduções. Jamais chegaremos a uma tradução perfeita. E neste sentido também não é perfeita esta Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Mas é uma alternativa valiosa, preciosa, bem-vinda, que poderá vir a ser aperfeiçoada, e que certamente fará muito bem. Neste sentido, alegro-me e congratulo-me com a Sociedade Bíblica do Brasil e as Edições Paulinas por este significativo e oportuno trabalho de coedição.

 

Fonte e-mail: Ney.Brasil@itesc.org.br


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