REVISTA PeR (1954)'
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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 510 – dezembro 2004

 

Crise de fé:

 

"CARTA A MARIA DOS ANJOS QUANDO COMEÇAVA A SE SENTIR ATEIA"

por Josep Vives S.J. ([1])

 

Em síntese: Ver Recapitulação (no final do artigo)

 

O livro supõe uma jovem em crise de fé, prestes a cair no ateísmo. O Pe. Vives deseja ajudá-la a refletir, seguindo o roteiro seguinte:

 

1. Amadurecimento da fé

 

Em cada cristão a fé geralmente começa num estágio infantil. A criança não entende, por exemplo, que o Pai do céu tenha chamado a si a cara vovó; segundo o seu modo de ver, Deus deveria ter deixado a avó por muito tempo ainda neste mundo. Com os anos a criança vê que Deus não é o Papai Bonachão que ela imaginava. Ao contrário, Ele é o Senhor que permite ao joio crescer ao lado do trigo; cala-se diante dos males dos homens, não intervém nos campos de concentração... de modo que a fé se vai atenuando ou extinguindo. As três tentações sofridas por Jesus continuam a acometer os discípulos. Com efeito, 1) no reino de Deus não deveria haver fome (as pedras se converteriam em pães), 2)... não deveria haver acidentes (os anjos sustentariam os homens em perigo) e 3) o reino de Deus seria hegemônico ou o mais respeitado de todos os reinos (cf. Mt 4, 1-11). Já que assim não é, a fé se atenua ou se extingue em muitos casos.

 

O sacerdote não poderá explicar o porquê de cada desgraça para tentar compatibilizá-la com a Sabedoria Divina, mas poderá afirmar com toda certeza que Deus não erra nem se engana. Os males da história não permitem acusar Deus, pois um Deus criticável já não seria Deus: ou Ele é sumamente perfeito ou não é, não existe. Por definição filosófica (e não só pela fé), Deus é absolutamente santo; no fim dos tempos será mostrada à humanidade a ação da Providência Divina na trama da história.

 

Muito a propósito vem a parábola de Mt 20, 1-16, segundo a qual os operários que trabalharam uns mais, outros menos são pagos com a mesma moeda; um dos mais cansados, tendo prestado doze horas de serviço, ousa perguntar por que essa desconsideração. Ao que o patrão responde em Mt 20, 13-15: "Amigo, não cometo injustiça. O que te prometi em contrato de trabalho está aí. Acontece, porém, que tenho muitos bens e quero dar graciosamente sem lesar direitos alheios. Ora precisamente porque sou bom, imprevistamente bom, tu te irritas. Tu te aborreces com o exercício da gratuidade precisamente porque ela não é costumeira entre os homens". Por conseguinte o que o homem não entende em Deus não se deve a alguma deficiência divina, mas, ao contrário, à Suprema Perfeição de Deus. O ser humano é demasiado limitado para entender a excelência do Senhor Deus.

 

Pergunta-se, porém: esse Deus que "escandaliza" por ser mais sábio e justo do que o homem, existe realmente?

 

O Pe. Vives responde apontando dois argumentos em prol da existência de Deus.

 

2. Existe Deus?

 

O autor explora 1) a ordem do universo e 2) o desejo inato do homem tendente ao Absoluto.

 

2.1. Os céus proclamam a glória de Deus

 

O autor leva sua interlocutora a pensar na complexa realidade do universo que nos cerca.

E acrescenta:

 

"Imagine que, por um toque maravilhoso de varinha mágica de uma dessas fadas dos contos infantis, de repente lhe é dado a conhecer absolutamente tudo o que é, o que foi e o que será de todas as coisas do universo: todas as causas, os princípios, as características, as relações, a profundidade do ser de absolutamente todas as coisas, pessoas e acontecimentos, de tal sorte que nada disso tivesse mais para você algum segredo.

 

Pois bem; neste momento você poderia e deveria perguntar-se ainda: e tudo isto, por quê? Por que esta imensa concatenação de seres, entrelaçados por essa complexíssima cadeia de causas, efeitos e relações? Por que existiu e existe tudo isto, e não, ao invés, o nada absoluto, a obscuridade absoluta do não-ser? Esta pergunta coloca-nos defronte do mistério do universo, do mistério de sua razão de ser. E temos de confessar que, diante desta pergunta, não sabemos dar uma resposta e, no entanto, tem de haver uma resposta.

 

Não podemos dizer qual é a razão de ser do mundo, mas tem de haver uma razão de ser do mundo. E isso, que não sabemos dizer o que é, mas tem de existir para que tudo seja e exista, é o que designamos com o nome de 'Deus'" (pp. 34).

 

Este Ser que explica a existência dos outros seres, mas não precisa de explicação porque é o ser Absoluto, independente, deve ser também a Perfeição Absoluta, a Vida e a Bondade, o Amor, a Felicidade sem limites. Ora é justamente a tais valores que todo ser humano aspira. Põe-se, porém, a pergunta: será que esse Absoluto existe ou é ficção da mente humana? - Responde o Pe. Vives e, com ele, a boa lógica:

 

2.2. O desejo inato do homem tendente ao Absoluto

 

"De minha parte, quisera acrescentar apenas que esse Deus não é meramente o objeto de um 'querer' mais ou menos subjetivo e caprichoso.

 

Uma vez que minha 'fome de Deus', minha necessidade de Deus são coisas objetivas e reais que não posso negar sem negar o que sou, o que se requer para saciar essa fome real, para satisfazer essa necessidade real, há de ser algo efetivamente real e existente.

 

Diante deste tipo de argumentação, alguém quis objetar que 'a existência da sede não é garantia da existência da fonte'. Esta objeção, porém, aparece como um sofisma. Porque, se existe a sede, vale dizer, se existe um ser que necessita de água para existir, há de existir realmente a água necessária para que tal ser exista. Se a água não existisse, tampouco existiria algum ser que necessitasse de água para subsistir. A existência de seres que têm sede, que não podem existir sem água, há de me levar a concluir que, no âmbito em que tais seres existem, há de haver realmente água, ainda que, de maneira semelhante, minha existência e a existência do mundo como seres que têm 'fome e sede de Deus', que não podem explicar-se nem realizar-se com sentido, mais do que postulando essa realidade explicativa de tudo o que chamamos 'Deus', há de me levar a reconhecer e admitir a efetiva e real existência de Deus" (p. 36).

 

Pelo dito, consta que, para a criatura sequiosa do Bem Absoluto que é Deus, existe resposta. Todavia resposta que o coração humano não pode deixar de procurar aprofundar: esse Deus se revela e se comunica? Tal indagação tem suscitado várias tentativas de solução. Em última análise, requer-se fé, mas uma fé apoiada em credenciais que a abonem para que não seja uma fé cega. É sobre este pano de fundo que se coloca o novo subtítulo:

 

3. Em Busca de um Rosto

 

O Pe. Vives propõe a fórmula

O Rosto de Deus chama-se Jesus

 

Explica o autor:

 

"A tradição judeu-cristã professa que, ao longo da historia humana, Deus foi revelando aos homens as profundidades misteriosas do seu ser e de seu agir. Trata-se de um processo longo e complexo, ao mesmo tempo desconcertante e fascinante, cujo desenrolar já não seria capaz de resumir neste formato de carta" (pp. 51 s).

 

"O cristianismo professa que o ponto culminante desta relação de Deus com a humanidade é Jesus Cristo. Jesus Cristo é uma manifestação inaudita, insuspeitada do rosto de Deus. Jesus é um ser humano em quem se deu algo de Deus mesmo e se comunicou efetiva e realmente aos homens por amor.

 

Preparado, anunciado, prometido no decorrer dos séculos, Jesus é o desvelo, a manifestação do mistério, da incógnita de Deus, para a humanidade. E nesta manifestação, a incógnita de Deus se revela como Pai, como alguém que está conosco, nos ama e quer nos tornar participantes de sua própria vida. Por isso, o nome próprio de Jesus é 'Deus conosco'" (p. 53).

 

4. Como encontrar "Deus conosco"?

 

"Você conhece o texto: 'Vinde, benditos do meu Pai... Porque eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber... estava nu e me vestistes...'. E, diante do espanto dos que acreditam nunca se ter encontrado com Deus, e menos ainda com um Deus faminto, sedento ou nu, o mesmo Deus lhes revelará que 'todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes' (Mt 25, 31 ss). Assim, talvez seja preciso dizer que não é tão importante buscar a Deus com raciocínios, mas fazer por encontrá-lo naqueles que são suas imagens vivas (pois a Bíblia diz que 'Deus criou o homem à sua imagem', Gn 1, 27).

 

As primeiras comunidades cristãs repetiam uma frase que atribulam a Jesus, embora não tenha ficado consignada nos evangelhos: 'Viste teu irmão, viste teu Deus'. Isto é válido, não pelo mero fato de ver corporalmente o irmão, mas por reconhecê-lo como tal e agir em consequência disso. Se todo homem é feito à imagem de Deus, todo homem merece todo o respeito e todo o amor. Mais ainda, infligir, favorecer ou tolerar, de qualquer maneira, qualquer dano à imagem de Deus é ofender a Deus. E mesmo quando o homem praticasse más ações e não se comportasse como 'imagem de Deus', permaneceria o fato de que Deus continua amando esta sua imagem desfigurada, e quer que seja respeitada e ajudada a recuperar seus traços originários" (p. 57).

 

5. Conclusão

 

E, acima de tudo, não cesse de pedir ao Espírito de Jesus que lhe dê aquela luz e aquela força irresistível com que os Apóstolos chegaram a crer, para além de todo raciocínio e de toda dúvida, que Jesus é a revelação de Deus para nós,... Revelação na qual aquele mistério 'tremendo' se revela a nós como o mistério do amor incondicionado que, sendo capaz de identificar-se no sofrimento e também na morte com aqueles a quem ama, tem poder para vivificá-los e fazê-los participar da vida que ele tem de per si e que ninguém lhe pode arrebatar.

 

Isto é o que peço para você, como para mim mesmo.

Um abraço Josep Vives, sj"

 

6. Recapitulando...

 

A uma amiga em crise o Pe. Vives propõe:

 

1)  passar da fé infantil, que vê Deus à semelhança de um Grande Banqueiro, para uma fé adulta, que aceita Deus como Ele é ou infinitamente mais sábio e santo do que o homem.

 

2)  Esse Deus existe, pois

             a) a existência do mundo, contingente como é, postula a existência do Necessário e Absoluto;

             b) o inato anseio do homem à Vida deve ter sua resposta.

 

3)  O rosto de Deus é Jesus Cristo, que revela aos homens o amor do Pai;

 

4)  E Jesus Cristo se encontra em cada irmão: "Viste teu irmão, viste teu Deus". A prática do amor fraterno abre os olhos para Deus.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ed. Loyola, São Paulo 2004, 120 x 170 mm, 59 pp.


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