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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 508 – outubro 2004

 

A MISSA

Memória de Jesus no coração da vida

por Ione Buyst ([1])

 

O livro pretende ser uma catequese sobre a Missa, visando a incutir principalmente a participação dos fiéis na celebração eucarística e a necessidade de unir Liturgia e vida do povo de Deus. A autora apresenta questões de ordem teológica e percorre o rito da Missa parte por parte, formulando sugestões e recomendações destinadas a favorecer a consciência de que é a assembleia que celebra e o padre preside.

 

No intuito de fomentar a participação dos fiéis, Ione Buyst propõe atitudes e gestos que já em 2001 (5a. Edição) eram revolucionárias e em 2004 mais ainda o são, visto que a Santa Sé censurou severamente o desrespeito às rubricas do Missal na sua Instrução Redemptionis Sacramentum (O Sacramento da Redenção). Eis algumas reflexões que a leitura sugere:

 

1. Considerações gerais

 

Sem dúvida, é muito desejável a participação do povo de Deus na celebração da Eucaristia. Mas é preciso lembrar que esta não é simplesmente uma ceia ou uma confraternização ou uma festa animada, mas é a perpetuação da Páscoa de Cristo; o sacrifício da Cruz é feito presente sobre os nossos altares, para que a Igreja (= os fiéis) o ofereçam com Cristo ao Pai. Somente em decorrência deste fato a Eucaristia é Ceia. Isto implica que os critérios para celebrar a Eucaristia não são simplesmente os da cultura de cada povo, mas sim os de índole teológica que a autoridade da Igreja formula impregnada de fé e acompanhada pelo Espírito Santo. A Igreja é a guardiã do depósito da fé, que ela exprime em sua liturgia. Existe uma relação muito íntima entre fé e oração: (lex orandi lex credendi, a maneira de rezar é a maneira de crer), de modo que toca à Igreja regulamentar a Liturgia a fim de que não se deteriore o depósito da fé. O povo de Deus corre o risco de fazer da Eucaristia um folclore muito agradável, mas destoante da sua verdadeira identidade. Nem o padre está autorizado a fazer retoques no ritual eucarístico; assim evita-se todo individualismo que viola a unidade da Liturgia e da Igreja. São palavras da citada Instrução:

 

"186. Todos os fiéis participem , segundo as possibilidades, plena, consciente e ativamente da Santíssima Eucaristia, a venerem de todo o coração na devoção e na vida. Os bispos, os sacerdotes e os diáconos, no exercício do sagrado ministério, se interroguem em consciência sobre a autenticidade e a fidelidade das ações por eles realizadas em nome de Cristo e da Igreja na celebração da sagrada liturgia. Todo ministro sagrado se interrogue, também na verdade, se respeitou os direitos dos fiéis leigos, que se entregam a si e seus filhos a ele com confiança, na convicção de que todos exercem corretamente em prol dos fiéis as funções que a Igreja, por mandato de Cristo, procura realizarão celebrara sagrada Liturgia. De fato, cada um lembre-se sempre de que é servidor da sagrada liturgia".

 

2. Tópicos particulares

 

Como dito, o livro propõe pontos inaceitáveis, dos quais sejam destacados os seguintes:

 

1. Os fiéis devem dizer ao padre como querem que seja celebrada a Missa.

 

"Infelizmente quando o padre vem para celebrar a missa, muitas vezes o estilo característico das celebrações na comunidade é interrompido. A missa é realizada da maneira muito formal e centralizada no padre. Algumas comunidades nem mesmo preparam a celebração, porque esperam o padre chegar para saber como vai ser, como o padre vai querer que seja a missa naquele dia. É como se a missa não pertencesse à comunidade, mas ao padre... Não deveria ser o inverso? Não deveria ser o padre que pergunta: 'Como será a celebração? O que vocês prepararam? O que vocês querem que eu faça?...'As comunidades deveriam preparar normalmente a celebração da missa a partir de sua realidade e com seu jeito de celebrar, e combinar os detalhes com o padre na hora de ele chegar" (p. 20)

 

Na verdade, nem os fiéis nem o padre são "donos” da Missa; é a Igreja, que celebra representada pelo padre e os fiéis.

 

2. A intercomunhão generalizada

Distribuir-se-ia a Comunhão Eucarística a todos os cristãos presentes numa reunião ecumênica:

 

"Por motivos de divergências teológicas, Igrejas cristãs se negam a celebrar a eucaristia juntas. Mas a eucaristia é justamente o sacramento da unidade deixado por Cristo! São Paulo, embora em outro contexto, argumenta com a comunidade de Corinto: 'O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos deste único pão' (1 Cor 10, 16-17). Em Cristo já estamos unidos; a unidade já existe no único Senhor, no único batismo, na mesma fé que é dom de Deus; no mesmo Espírito (cf. Ef 4, 1-6). Como poderemos continuar negando uns aos outros a participação na mesa do Senhor que expressa e faz crescer esta unidade como dom do Senhor?" (p. 14).

 

A propósito deve-se lembrar que a Comunhão Eucarística supõe a Comunhão Eclesial. A intercomunhão é a última etapa ou ponto de chegada do diálogo ecumênico, e não o primeiro passo; católicos, ortodoxos orientais e protestantes não professam exatamente a mesma fé; não basta professar a fé em Jesus Cristo Deus e Homem; Ele é inseparável do seu corpo que é a Igreja por Ele fundada.

 

3. Ordenação de homens casados e mulheres

À p.13 lê-se:

 

"É alguém que só vem para celebrar, isto contradiz o sentido mais profundo da eucaristia na sua relação com a vida comunitária; o normal seria que a presidência da eucaristia fosse confiada a quem de fato coordena a comunidade... Não estaria na hora... de ordenarem cada comunidade organizada as lideranças já existentes, possibilitando assim que celebrem a eucaristia a cada domingo?" (pp. 13s).

"Sabe lá Deus quantas pessoas (homens e mulheres, casadas ou solteiras, leigas ou religiosas), atuantes pelo Brasil a fora, recebem do Espírito Santo o dom da coordenação e não estão sendo reconhecidos pela Igreja, conferindo-lhes a ordenação" (p. 21)

 

Sabe-se com certeza que a Igreja diz Não à ordenação de homens casados e de mulheres.

 

4. A matéria do sacramento da Eucaristia

À p. 74 escreve a autora:

 

"8) E nas regiões onde não se conhece pão feito de farinha de trigo? O bom senso e a necessidade da inculturação não nos levarão a usar pão feito de milho, mandioca, aipim ou tapioca?" (p. 74s)

 

O Código de Direito Canônico prescreve pão ázimo (sem fermento); cf, cânon 924.

 

5. Distribuição da Eucaristia

 

"É bom lembrar que não é necessário ser ministro ou ministra extraordinário da comunhão eucarística para poder distribuir a comunhão; o padre pode chamar outras pessoas para ajudar neste serviço"

 

Pergunta-se: em que documento se apoia a afirmação acima?

 

Outros avanços indevidos se poderiam ainda apontar. É para desejar que a autora os reconheça; confronta seu livro com a Instrução Redemptionis Sacramentum e faça os ajustes respectivos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 



[1] Ed. Vozes, Petrópolis 2001 (5a edição). 140 x 230 mm 116 pp.


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