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Artigo

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Protestantismo

 

Mais um panfleto:

HÁ OUTRO CRISTO?

por J.T.C.

Em síntese: O panfleto "Há outro Cristo?" de J.T.C, ataca o Papado e o ministério sacerdotal em tom sarcástico e caricatural, sem levar em conta os textos em que Jesus confere a Pedro as faculdades de ligar e desligar (cf. Mt 16,19), de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22, 31 s) e de apascentar as suas ovelhas (cf. Jo 21,15-17). Também não leva em conta os dizeres de Jesus relativos à instituição da Eucaristia (Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22,19s; 1Cor 11,23-29); são textos que afirmam ser a Eucaristia a oblação do sacrifício da Cruz (corpo e sangue entregues para a remissão dos pecados); não há, porém, multiplicação do sacrifício do Calvário (que foi cabal e oferecido uma vez por todas; cf. Hb 7,23; 9,11-14. 25-28; 10,10-14); há, sim, perpetuação ou re-apresentação do sacrifício do Calvário, para que os fiéis participem dele na qualidade de oferentes e oferecidos, configurados a Cristo-Sacerdote e Cristo-Hóstia.

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Está sendo difundido no Brasil um panfleto de uma série protestante norte-americana, da qual PR já tratou em PR 364/1994, pp. 210-215 ("O Biscoito da Morte"). O impresso em pauta tem o título "Há outro Cristo?"; combate o ministério sacerdotal católico de maneira injuriosa e sarcástica, descendo abaixo do nível de um autêntico debate religioso.

Embora o opúsculo não contenha sérios arrazoados, pode deixar dúvidas na mente dos leitores. Eis por que passamos a comentá-lo.

 

 

1. O CONTEÚDO DO PANFLETO

O autor, designado como J.T.C., começa dissertando sobre mentira e distorção da verdade, ensinando que tais são os procedimentos da Igreja Católica. Somente a Palavra de Deus consignada na Bíblia merece crédito. (1)

1 Esta afirmação, tipicamente protestante, sugere a questão: quem tem autoridade para definir o sentido da Palavra de Deus escrita entre 1300 a.C e 100 d.C. em linguagem oriental, com suas particularidades de expressão? Os protestantes se dividem, subdividem em centenas e centenas de denominações, embora tenham todos a mesma Bíblia ou a mesma Palavra de Deus. Por quê? — Porque cada chefe protestante dá sua interpretação à Palavra de Deus. Donde se vê que os protestantes não seguem simplesmente a Palavra de Deus, mas seguem a interpretação que o respectivo fundador de comunidade quis dar à única Bíblia.

 

Após estas considerações sobre mentira e embuste, que ocupam quase a metade do panfleto, o autor considera o sacerdócio católico como é exercido pelo Papa e os presbíteros, especialmente na celebração da S. Eucaristia: estariam atribuindo a si títulos e funções do próprio Deus ou de onipotência. O autor pretende citar declarações dos Papas Inocêncio III (1189-1216), Bonifácio VIII (1294-1303) e Leão XIII (1878-1903), sem indicar as respectivas fontes e datas (Bula? Encíclica? Escrito Teológico?...) — o que torna pouco científico e muito desvaloriza o trabalho de J.T.C.

 

Eis alguns espécimens das alegações:

 

"Bonifácio VIII oficialmente declarou que, como papa, ele era Deus" (sem referência a fonte alguma; ademais o opúsculo de J. T.C. não é paginado).

 

Inocêncio III teria dito que "o papa julga a todos e não é julgado por ninguém" (onde o disse? quando o disse?).

Leão XIII: "Ocupamos sobre a terra a posição de Deus todo-poderoso" (onde está escrito nas obras de Leão XIII?).

Quanto aos presbíteros, são censurados porque, mediante a consagração eucarística, "às ordens do padre, o Rei dos Reis e Senhor dos Exércitos se sujeita a ser engolido por qualquer pessoa a quem o sacerdote o der". Ou ainda: "Ele que criou os céus e a terra, tem de obedecer aos desejos do sacerdote... e se humilhar, permitindo se tornar um pedaço de pão, a ser manuseado por esse homem-Deus todo-poderoso, o santo padre de Roma".

O panfleto termina com um convite ao leitor para que se faça protestante, injuriando a S. Igreja como "Mãe das Abominações".

 

Vejamos o que pensar a respeito.

 

 

2. QUE DIZER?

 

2.1. O Papa

1. Os protestantes, que dizem conhecer perfeitamente a Bíblia e a ter como única fonte de fé, mostram, na prática, que não conhecem a Biblia ou só conhecem os textos que lhes interessam,... os textos que correspondem às suas premissas. São assim muito hábeis na manipulação do texto sagrado.

 

Com efeito. A propósito do Papa, J.T.C, não cita um só dos três principais textos que fundamentam o seu primado: Mt 16,16-19; Lc 22, 31 s; Jo21,15-17.

 

Em Mt 16,16-19 Jesus estabelece Pedro como fundamento visível da sua Igreja; promete-lhe as chaves do Reino dos céus, e assegura-lhe que tudo quanto Pedro ligar (impuser, condenar...) na terra será ligado nos céus, e quanto desligar (permitir, absolver...) na terra será desligado nos céus. Isto quer dizer que Pedro recebe faculdades que ultrapassam as de um simples homem; a palavra de Pedro é assistida especialmente pelo Espírito de Deus, de tal modo que as normas emanadas de Pedro são confirmadas pelo próprio Deus. — A palavra e a ação pastoral de Pedro têm valor decisivo, pois traz as chaves do Reino dos céus. Está claro que tão amplos poderes só se entendem se Pedro recebe um carisma próprio, para que não falhe nem induza os fiéis em erro sempre que se trate de tomar atitudes decisivas para a fé e a Moral do povo de Deus.([1])

 

Estas conclusões permitem dizer, com a Tradição católica, que Pedro é o Vigário de Cristo ou faz as vezes de Cristo, porque o Senhor quer agir através de Pedro. E note-se que as funções atribuídas a Pedro não cessam com a morte de Pedro, mas passam para os seus sucessores, pois, se Pedro é a Rocha, o fundamento visível da Igreja, que deve durar até o fim dos tempos, o fundamento deverá ser tão duradouro quanto o edifício respectivo; haverá sempre um Pedro no pastoreio supremo da Igreja.

Lc 22, 31s: Jesus confia a Pedro a missão de confirmar seus irmãos na fé, não por causa dos talentos pessoais de Pedro (que, como homem, é sujeito à fragilidade humana e chegou a trair o Divino Mestre; cf. Mt 26, 69-75), mas porque Jesus rezou por ele. O cristão não segue homens "geniais" (pois estes podem ser muito ilusórios), mas segue Jesus Cristo, que se serve dos instrumentos que Ele queira escolher.

 

Jo 21,15-17: Jesus ressuscitado provoca a tríplice confissão de amor e fidelidade de Pedro, em troca da qual três vezes lhe dá a ordem de apascentar o rebanho do Senhor. Jesus cumpre então a promessa feita a Pedro em Mt 16,16-19.

 

É muito significativo que J.T.C não faça a mínima alusão a estes textos, embora em seu panfleto cite numerosas passagens bíblicas. Dir-se-ia que há um preconceito, uma cegueira voluntária predefinida da parte do autor, como também do protestantismo em geral. O fato de Pedro exercer suas funções pastorais não é usurpação de poderes, mas é o exercício do mandato que Jesus lhe confiou. O Senhor Deus quer santificar os homens mediante os homens, assumindo a realidade mesma dos homens, como na plenitude dos tempos quis salvar a humanidade assumindo a humanidade no seio de Maria Virgem.

 

2. De modo especial com relação a Bonifácio VIII, pode-se dizer que na Bula Unam Sanctam o Pontífice assim se exprimiu:

"Declaramos e dizemos a toda criatura que ela deve estar sujeita ao Pontífice Romano; definimos que isto é absolutamente necessário para a salvação" (Denzinger-Schonmetzer, Enquirídio no 875 (469).

 

Este texto não significa que os homens devam estar sujeitos ao Papa no plano temporal ou profissional, mas quer dizer que a sujeição se dá tão somente no plano dos valores éticos ou ratione peccati, quando entra em jogo o pecado. Assim a atividade dos homens, enquanto é técnica ou profissional, não pode nem deve ser controlada pelo Pontífice Romano; acontece, porém, que toda atividade humana, além das suas notas específicas, tem características éticas (é virtuosa ou pecaminosa, é conforme à Lei de Deus ou não o é); sob este aspecto ela está sujeita à Moral cristã, cujo porta-voz, sustentado por Cristo, é o Papa. — Esta afirmação decorre dos próprios dizeres de Jesus a S. Pedro:"Tudo o que ligares (reprovares, censurares...) na terra será ligado nos céus. Tudo o que desligares (permitires, absolveres...) na terra, será desligado nos céus" (Mt 16,19). — O Sr. J.T.C, não indica, nem podia indicar, a passagem em que Bonifácio VIII teria declarado ser Deus.

3. Quanto ao princípio "A sede primacial por ninguém é julgada", não é originariamente de Inocêncio III (+ 1216), como alega J.T.C. - Foi pela primeira vez formulado pelo Papa Gelásio I (492-496) no ano de 493. O fundo de cena desta declaração é o seguinte: nos primeiros séculos do Cristiaismo os teólogos tentaram formular de maneira clara e precisa os artigos de fé relativos à SS. Trindade e à Encarnação de Deus Filho em Jesus Cristo; os Imperadores e magistrados do Império bizantino tomaram parte nos inevitáveis litígios ocorridos então entre os diversos modos de ver, dos quais alguns eram francamente heréticos (ou avessos aos dados básicos da Escritura e da Tradição); a ingerência dos Imperadores nem sempre era movida por conhecimentos teológicos e interesses religiosos, mas devia-se, em grande parte, a conveniências políticas. Ora, a fim de pôr termo aos males assim oriundos, já um Concílio regional reunido em Sárdica (Sofia, na Bulgária de hoje) reconhecera o Bispo de Roma (= o Papa) como suprema instância de apelo nas mais importantes questões disciplinares. Mais tarde, em 378 o Imperador Graciano, por proposta de um Sínodo reunido em Roma, declarou o Papa São Dâmaso supremo árbitro de todos os metropolitas do Ocidente,... sempre em vista da íntegra conservação da fé ameaçada por correntes de pensamento heterogêneas.

Fazendo eco a estes antecedentes, o Papa Gelásio I em 493 declarou que a Sé de Roma tinha direito de julgamento sobre todas as outras sedes episcopais, ao passo que ela mesma não está sujeita a nenhum juiz humano. Em 501 o Sínodo Palmaris, em Roma, definiu que não se podia arvorar em juiz da Sé de Roma, pois "prima sedes a nemine iudicatur. A primeira sé ou cátedra por ninguém é julgada". Este princípio entrou no Código de Direito Canônico de 1917 e no atual Código (cf. cânon 1404). — Tal princípio decorre do fato de que a Igreja não é uma república nem uma monarquia, mas um sacramento; ela é assistida por Cristo e pelo Espírito Santo para guardar e transmitir incólume a mensagem da fé e da Moral cristãs; a autoridade na Igreja não é exercida por delegação do povo de Deus (como acontece nos regimes republicanos), mas é exercida em nome de Deus; por isto o Papa não está sujeito a algum tribunal humano.

 

2.2. O Sacerdote e a Eucaristia

O mesmo conceito de sacramento leva a Teologia católica a dizer que o padre exerce seu ministério litúrgico in persona Christi, ou seja, como instrumento de Cristo, que é o único Sacerdote da nova Aliança. O Padre é a mão estendida de Cristo, de cujo sacerdócio ele participa. Por isto pode dizer com eficácia: "Eu te absolvo dos teus pecados... Isto é o meu corpo... Isto é o meu sangue...". É Cristo quem fala e age pelo seu ministro. É o que justifica a expressão "Sacerdos alter Christus... O sacerdote é um outro Cristo", que J.T.C não entende.

Quanto à faculdade de consagrar a Eucaristia, é-lhe conferida pelo próprio Cristo. Este na última ceia, após consagrar o pão e o vinho, mandou que os Apóstolos fizessem a mesma coisa "em memória (anámnesis) de Cristo" (cf. Lc 22, 19; 1Cor 11, 23-25). A palavra anámnesis não significa uma recordação teórica ou meramente psicológica, mas há de ser entendida à luz do seu fundo semita; corresponde ao zikarón hebraico, que é um memorial eficiente; implica recordar e fazer aquilo que corresponde a esse recordar. Portanto Jesus, na última ceia conferiu aos seus sacerdotes a faculdade de consagrar o pão em corpo de Cristo e o vinho em sangue de Cristo. Este gesto ritual não significa prepotência do padre nem obediência ou humilhação do próprio Deus; é, sim, a continuação do mistério da Encarnação, pelo qual Deus quer entrar dentro dos elementos e sinais usuais dos homens para realizar sua obra redentora e santificadora. Tal é a concepção de sacramento, que procede da Encarnação do Verbo e perpassa toda a mensagem cristã. 0 protestantismo perdeu a noção de sacramento: reduz a Igreja a uma república (expressão usada pelos reformadores do século XVI) ou uma sociedade que vale tão somente pelo valor de seus membros humanos; e reduz os sacramentos a testemunhos da fé dos homens ou a gestos meramente simbólicos. Por isto J.T.C pode dizer com ironia e ignorância: "O sacerdote católico romano é mais do que um deus... Isto é doutrina católica romana. Negá-la traz. a maldição e condenação por heresia". Como isto é falso:

 

Se algum místico ou autor de espiritualidade disse que o padre é criador do seu Criador, disse-o em linguagem poética e imprópria, que não pode ser tomada ao pé da letra. De mais a mais, a expressão é ilógica ou contraditória; não se sustenta aos olhos da razão.

 

2.3. A Missa

 

O protestantismo tem dificuldade para entender a Missa como perpetuação do sacrifício do Calvário. Alega que Cristo morreu uma vez por todas, expiando cabalmente os pecados da humanidade. Por conseguinte, não precisa de renovar o seu sacrifício de maneira sacramental, como afirmam os católicos.

Ora a doutrina católica reconhece, sem hesitação, que Cristo se ofereceu uma vez por todas para a remissão dos pecados e já não morre mais. Afirma, porém, que o único sacrifício da Cruz é perpetuado ou feito presente (não multiplicado) sobre os altares para que possam tomar parte dele os fiéis na qualidade de cooferentes e cooferecidos com Cristo. Sim; cada cristão batizado participa do sacerdócio de Cristo para oferecer com Cristo o sacrifício da Cruz e, nessa oferta, incluir o sacrifício ou a oblação de si mesmo. Cada qual oferece com Cristo e se oferece com Cristo.

 

A fim de comprovar esta doutrina, examinemos o Novo Testamento.

 

Os textos que vêm ao caso são principalmente os que referem a instituição da Eucaristia: Mt 26,26-29, Mc 14,22-25; Lc22,19s; 1Cor 11,23-29. Comentemo-los.

1. Notemos que, ao dar aos Apóstolos o pão e o vinho consagrados, Jesus lhes apresentava o seu corpo entregue (cf. Lc22,19) e o seu sangue derramado pela remissão dos pecados (cf. Lc 22,20; Mc 14,24). Ora, no estilo bíblico, as duas expressões "entregar, dar o corpo (ou a alma) " e "derramar o sangue (pelos pecados)" indicam a imolação de um sacrifício propriamente dito. Com efeito, o sentido de "dar o corpo, a alma" depreende-se de Is 53,12, Mt 20,20; Rm 8,32; Gl 1,4; Ef 5,25; 1Tm 2,6; Tt 2,14, Hb 10,10. O sentido sacrificai e expiatório de "derramar o sangue (pelos pecados)" depreende-se de Rm 3,25; 5,9; Ef 1,7; Hb9,7; 1Pd 1,19; Uo 1,7.

Merece atenção o fato de que na última ceia o Senhor não ofereceu apenas o seu Corpo e o seu Sangue aos discípulos como alimento, mas ofereceu-os pelos discípulos em favor destes (hyper hymoon) o que incute o caráter sacrificai do rito (cf. Lc 22,19s).

Mais ainda: ao falar do sangue da nova Aliança na ceia, Jesus aludia a Ex 24,8, texto em que Moisés apresenta o sangue da antiga Aliança ("Este é o sangue da Aliança que Javé pactuou convosco"); Cristo assim oferecia-se como vítima para selar a definitiva Aliança, em lugar da vítima irracional cujo sangue selava a primeira Aliança no Sinai; Jesus assim opunha sangue a sangue, sacrifício a sacrifício, imolação realizada na última ceia à imolação realizada outrora em Israel. A última ceia aparece como a nova Páscoa, que, mediante o sangue do verdadeiro Cordeiro imolado pelos pecados do mundo (cf. Jo 1,29), faz cessar os numerosos e imperfeitos sacrifícios do Antigo Testamento; cf. 1Cor 5,7; Jr 31,31-33.

Não seria plausível replicar que na quinta-feira santa Jesus oferecia "seu corpo e seu sangue imolados" como símbolos vazios de conteúdo e meramente figurativos daquilo que devia acontecer na sexta-feira santa. Não, as palavras do Senhor são simples e claras; Jesus não teria empregado termos ambíguos e metafóricos em circunstâncias tão solenes, provocando confusão na mente dos discípulos. Por conseguinte, podemos repeti-lo, sobre a mesa (que se transformava em altar) Jesus se colocava em estado de Vítima realizando uma ação sacrifical. Quem ainda concebesse dúvidas sobre o sentido do texto evangélico, poderia resolvê-las considerando a praxe e o ensinamento das gerações cristãs que, desde os inícios da igreja tomaram as palavras de Cristo no seu significado próprio e natural.

 

2. Levemos agora em conta que Jesus mandou aos Apóstolos que repetissem o rito da última ceia,... dessa última ceia à qual Jesus atribuiu o significado de sacrifício; ver Lc 22,19; 1Cor 11,24. Desta ordem concluíram os Apóstolos e as gerações subseqüentes que, todas as vezes que renovavam a Ceia do Senhor (também chamada Eucaristia), realizavam a oblação de uma Vítima (Cristo) ou de um sacrifício. Este, porém, não podia nem pode ser a repetição do sacrifício da Cruz, pois Jesus se imolou uma vez por todas conforme a epístola aos Hebreus. A epístola aos Hebreus inculca solenemente a unicidade do sacrifício de Cristo oferecido outrora no Calvário. Sim, Cristo aí aparece como o Sacerdote Único (cf. Hb 4,14; 6,20; 7,21.23s), que se oferece como Vítima Única e Perfeita (cf. 7,28) numa oblação definitiva (cf. 9, 11-14.25-28; 10,10-14). O Senhor Jesus não precisa de se oferecer muitas vezes, mas sua oblação foi feita uma vez por todas, porque, à diferença do que se dava com os sacrifícios de animais irracionais do Antigo Testamento, a oferta de Cristo possui valor infinito, capaz de expiar todos os pecados; passados, presentes e futuros, do gênero humano; cf. Hb 4,14; 7,27; 9,12.25s.28; 10,12.14. A ceia, por conseguinte, não pode ser senão o ato de "tornar presente" (sem multiplicar) através dos tempos, e de maneira incruenta (ou sacramental), o único sacrifício de Cristo oferecido cruentamente no Calvário há vinte séculos. Concluímos, portanto:

a)     na quinta-feira santa Jesus perante os discípulos tornou presente de modo real, mas incruento, o sacrifício que Ele no dia seguinte devia realizar cruentamente na Cruz; tornou-o antecipadamente presente;

b)     atualmente em cada S. Missa Jesus torna presente de modo real, mas incruento, esse mesmo e único sacrifício que Ele já realizou cruentamente na Cruz.

 

Justamente este "tornar presente" a todos os tempos, sem implicar repetição nem multiplicação, constitui o "mistério da fé", título dado por excelência à S. Eucaristia.

Brevemente o Concílio de Trento (1545-1563) define as relações do rito eucarístico com o sacrifício da Cruz nos seguintes termos:

"Há (em ambos) uma só e mesma Hóstia, um mesmo Sacerdote, que se oferece agora pelo ministério dos presbíteros depois de se ter oferecido Ele mesmo outrora sobre a Cruz; apenas a maneira de oferecer é diferente" (Denzinger — Schõnmetzer,   Enquirídio dos Símbolos e Definições, no 1743).

Em conseqüência, vê-se que é imprópria a expressão: "A Missa renova o sacrifício da Cruz". Prefira-se a seguinte linguagem;

A Missa torna presente sobre os altares (sem o multiplicar) o único sacrifício da Cruz. — A Missa, porém, renova e repete a última ceia de Cristo.

3. Quanto ao ministério dos presbíteros de que o Senhor agora se serve para oferecer o seu sacrifício, não implica multiplicação do sacerdócio. Cristo fica sendo o Único Sacerdote, que santifica os fiéis por meio dos presbíteros, seus instrumentos; nenhum destes se coloca ao lado de Cristo; ao contrário, é mediante especial incorporação a Cristo que cada presbítero se torna participante das atribuições do Único Sacerdote.

Eis algumas reflexões que o infeliz panfleto "Há outro Cristo?" nos sugere. É claro que há um só Cristo e precisamente aquele Cristo que as Escrituras Sagradas, lidas em todo o seu leque de pronunciamentos nos apresentam como o Único Mediador, que perpetua sua única oblação mediante os seus ministros, a fim de que todo o povo de Deus se possa oferecer com Cristo ao Pai.



[1] Estas afirmações não excluem eventuais falhas e pecados pessoais do Papa, que é criatura humana, mas que, como Pastor Supremo da Igreja, goza de particular assistência do próprio Deus para conservar incólume o patrimônio da fé e da Moral cristãs. Não se entende que Deus tenha deixado a mensagem do Evangelho ao léu, permitindo que fosse dilacerada e deturpada pelo capricho dos homens, sem algum referencial apto a distinguir verdade e erro.


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