REFLEXõES (1517)'
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Artigo

Prezado Rocim,

Não ficou muito claro se o texto anexado referente ao “O Livro dos Insultos” é de Ruy Castro ou seu. De qualquer maneira, se você anexou texto de outrem deve endossar a opinião, então aqui vai minha resposta.

Está muito em moda hoje, à luz dos progressos da ciência contemporânea, afirmar que o discurso das maiores religiões, com ênfase biliar maior no Cristianismo, é pueril e se presta, apenas, a manipulação de mentes idiotizadas. Este é um dos muitos rótulos midiáticos em evidência atualmente, e, cabe a quem se interessa por pensar o mundo, abrir o pacote do rótulo e desnudá-lo. Rótulos tem o poder de se comunicar apenas com a mente das paixões (corpo) e agem como uma potente droga silenciadora da discussão racional. Em outras palavras, rótulos causam medo, ansiedade, desconforto, e, assim calam o oponente. Por exemplo : o rótulo de nazista (mesmo que seja falso) aplicado a alguém menos maduro que esteja enunciando um argumento causa um estrago imenso a este. Palavrões (no inglês “four letter words”) são claramente rótulos. Concluindo, chamar um cidadão de idiota significa desqualificá-lo e ignorar o que ele tem a dizer. Sabe com quem está falando???

Pondo o rótulo de lado, por hora, e voltando a um discurso racional do embate religiõesXciência, vale a pena mencionar o livro de Dominique Lambert “Ciências e Teologia” da Eds. Loyola. Dominique Lambert é professor universitário na França e possui dois PhDs : um em Física outro em Teologia. Creio que isto o qualifica para um debate desta natureza.

O livro constroi uma tese a partir dos discursos científico e teológico e pretende mostrar que as argumentações de ambos são paralelas, no sentido euclidiano. Em outras palavras, os argumentos científicos não destroem nem apoiam o discurso teológico e vice-versa. Certamente, a ciência não apoia a construção teológica, mas pode, perfeitamente, e, aí discordo do autor, encontrar vestígios na natureza da ação divina. O discurso da ciência é embasado na formulação matemática (lógica aristotélica) e na experimentação (empirismo inglês) que produz resultados estocásticos cujo refinamento evolui com as técnicas de medição (aí entra a história da humanidade). É importante frisar que a ciência não produz verdades apenas provisórias, que logo são substituídas por mais recentes. A ciência é um processo algorítmico similar ao valor de um número irracional que se expressa na exata continuação de infinitas casas decimais, onde as casas conhecidas são eternas. Por outro lado, as verdades da teologia são, a priori, eternas, mas seu significado, que depende do vocabulário que as enuncia pode ser enriquecido com a evolução da humanidade. É aí que reside a confusão (proposital a nosso ver) entre criacionismo e “design” inteligente. O segundo é a evolução do significado do significante teológico com o progresso da humanidade e o primeiro é interpretação ao pé da letra das fabulações que aparecem nos textos sagrados. Carl Gustav Jung explica que lançamos mão de fabulações quando temos um conteúdo semântico de algo, mas não desenvolvemos, ainda, palavras (rótulos) e sintaxe adequada para a formação de um discurso coerente. Mais interessante, os textos sagrados são, na nossa visão, metatextos, que estão , portanto, vivos! Aqui me vem a mente uma imagem muito linda que são as modernas reconstruções matemáticas da face de N. Senhor Jesus Cristo feitas recentemente a partir do Santo Sudário. No Sudário de Turim está o metatexto imageico, ao qual aplicadas as modernas técnicas matemáticas de DSP regeneram a face de Jesus Cristo.

Temos que dissecar um pouco melhor o modo como pensamos para tornar bastante claros os processos de construção do conhecimento. Os autores clássicos que abordam o tema são Husserl e Wittgenstein. Mais recentemente, os matemáticos Von Neumann e Turing lançaram as bases para a moderna teoria da computação. É nesse “zeitgeist” que o trabalho de Marvin Minsky e outros culmina na moderna teoria da Inteligência Artificial.
Toda esta construção guarda um certo paralelo com as teorias psicanalíticas de Freud e Lacan. Que queremos dizer com isto? Queremos dizer que este conjunto enorme de idéias centrado no indivíduo, conjugado com a visão puramente local (diferencial) da física e a teoria darwiniana do acaso local na biologia, constitui a enciclopédia do conhecimento iluminista. É a construção, do que gosto de chamar, A Religião Iluminista. Este enorme corpo de conhecimento, de natureza materialista, pretende (na paixão de seus seguidores) provar a inexistência de Deus e a inutilidade das religiões. Se não ficou bastante claro o que dissemos, todas essas idéias repousam no caráter puramente local, das coisas, dos indivíduos, das consciências, da evolução. É tomar ao pé da letra o que nos diz Nietzsche quando rejeita a totalidade, a unidade e a finalidade (lógica do corpo). Se o mundo é somente isto, como poderemos integrar as equações de campo locais de uma teoria se não dispuzermos de uma simetria global? E o que dizer das conexões não- locais que estão surgindo dos experimentos recentes da Mecânica Quântica? Como entender as mutações biológicas num contexto puramente local já que estas são o resultado de tunelamento eletrônico (fenômeno quântico)? O que explica os fenômenos de rebanho? Será que não existem conexões entre mentes? Será que a inflação cosmológica é a última palavra que explica a homogeneidade não-local do universo? Poderíamos encher páginas com perguntas desta natureza, sem respostas. Um texto emblemático que se constitui num poderoso libelo contra a Inteligência Artificial é o livro do cosmólogo Roger Penrose, “A Nova Mente do Rei” Ed. Campus. Em outro livro mais recente (não me lembro-alguém me ajuda?) dele há a clara proposta que o citoesqueleto celular (neuronal também, é claro) constitui SQUIDs (circuitos quânticos), o que quer dizer que a vida é um fenômeno quântico (o grifo é nosso), e, portanto, essencialmente, não- local.

Um filósofo brasileiro que gosto de citar é Luis Sergio Coelho de Sampaio. Em sua obra : “Lógica Ressuscitada” Ed. UERJ, Luis Sérgio faz uma proposta ousada de classificação da Filosofia à luz da Lógica. É um livro difícil que tem que ser lido e relido com muito cuidado, mas que fundamenta dentro da história da Filosofia a existência de cinco lógicas, ou modos de pensar diferentes. Esta é, a nosso ver, sua grande contribuição, pois desnuda as diversas formas de pensar da humanidade estabelecendo, inclusive, uma nova lógica de caráter gerencial - a lógica hiper dialética que vem a se somar aos quatro elementos clássicos dos gregos (que podemos interpretar como um conhecimento ainda de caráter mitológico das quatro lógicas clássicas – descobertas depois). Seu projeto se situa dentro do quadro iluminista pois pode ser representado pela estrela de cinco pontas, que representa o Homem sem a conexão divina. Se pretendemos interpretar textos sagrados deveremos adicionar mais uma lógica-a lógica da intuição, que é a conexão divina. Aqui emerge a estrela de seis pontas de Davi, símbolo do homem completo na cultura judaico-cristã, onde “o que está em cima é igual ao que está embaixo” dos dois triângulos invertidos.

As reflexões que faremos em seguida representam pensamentos de alguns anos para cá, e são tentativas puramente nossas de entender os metatextos sagrados dentro de uma linguagem contemporânea.

O Pai Nosso de nós cristâos parece ser dividido em seis principais orações.

A primeira das orações, a nosso ver, enaltece o Divino em nossa mente intuitiva. É como se pedíssemos ao Senhor que iluminasse nossa intuição, que nos iluminasse com Sua sabedoria. É da mente intuitiva que brotam nossas idéias mais brilhantes, as revoluções na ciência, as criações artísticas mais elevadas e a própria fé. A segunda oração pede que “Venha o Reino” à nossa mente fundacional, ou seja, aquela que estabelece os axiomas dos teoremas que desejamos demonstrar, a mente cartesiana por excelência, a “do penso logo existo” . Ao fazermos a segunda oração pedimos a Deus que nos dê uma boa fundamentação axiomática aos construtos lógicos que pretendemos fazer e que decorrem desta boa axiomatização. A terceira oração em que se pede ao Senhor que se faça a “Sua Vontade” é a lógica da Lei do Senhor, que não é senão a lógica de Aristóteles expressa pela Lei Mosáica bem antes do próprio Aristóteles. Esta é a lógica clássica do terceiro excluído e é daí que surge o conceito de bem e mal, e a individuação pela responsabilidade do comportamento. Foi aí que surgiu o indivíduo na História da Humanidade. Esta oração roga a Deus o bom caminho. É a lei moral por excelência. Estas três primeiras orações completam o triângulo da alma.

O triangulo do corpo começa ao pedir o “Pão Nosso de Cada Dia”. Esta é a lógica do corpo por exelência, a das necessidades biológicas que temos, a base da Psicanálise Freudiana. É esta a razão de estar tão presente o tema da sexualidade nas teorias psicanalíticas. É a lógica das paixões e do coração. Esta quarta oração solicita ao Senhor que mantenha nosso coração puro. Nietzsche foi o filósofo que incorpora esta lógica. A quinta oração pede pela Misericórdia Divina e promete o perdão dos semelhantes. Esta mente é o pensar dialético de Hegel. A lógica da irreversibilitade, segundo Prigogine, onde o tempo deixa de ser reversível (grupo algébrico) e passa a ser um semi-grupo. Só aí cabe consistentemente a idéia de perdão. Se não estamos enganados quem desenvolve estes conceitos é Levinas (me corrijam, se estiver errado). Acho muito interessante que a idéia de perdão esteja imbricada no conceito hegeliano de história. Isto ilustraria a sabedoria dos textos sagrados. A última oração, ao pedir que Deus nos livre das tentações é um pedido ao Senhor que nos possibilite gerir nossas necessidades postos neste mundo (dasein?) com saúde corporal de excelência. É a nova lógica proposta por Luis Sérgio.

Agora podemos falar um pouco da bondade de Deus. Aqui fica bastante difícil tentar construir um texto com alguma racionalidade para pessoas que não compartilham de nossa fé (revelação pessoal através da mente intuitiva). Mas vamos tentar sem sermos dogmáticos, mesmo porque não temos esta autoridade.

Vamos começar sugerindo uma experiência a quem se dispor. Ao deitar-se procure relaxar dos problemas do dia a dia e peça contritamente ao Senhor que lhe ilumine com Sua Sabedoria. Se você tem uma religião reze uma oração pensando com clareza o que está dizendo. Se não tem religião, simplesmente mentalize este pedido com a melhor de suas intenções e durma! De manhã ao acordar fique um pouco na cama e deixe as idéias fluírem em sua cabeça tranquilamente por algum tempo. Repita esta experiência o quanto quizer e poderá perceber o quanto a vida à sua volta fica com mais sentido. O mundo começa a se abrir e desvendar inúmeras coisas que você não havia percebido antes. Essa é uma dádiva Divina, é só querer!

Não se pede a Deus para ganhar dinheiro, não se pede saúde perfeita para si. Mas podemos pedir desinteressadamente pelos outros. Experimente e verá! É obvio que não podemos negociar com o Criador do Universo, pois afinal o que teríamos a oferecer-Lhe? Podemos até pedir-Lhe alguma coisa para nós e lhe será atendido. Entretanto, você irá notar que surgirá uma situação nova mais complicada. Tudo se passa como se estivéssemos numa escola onde você decidiu livremente assumir um curso. Se você está agindo com honestidade, é claro que não pode solicitar ao professor que lhe aprove de antemão!

O problema lógico posto pelo sofrimento humano frente à Misericórdia Divina foi, até aqui, tangenciado por nós. Em outras palavras, como pode um Pai Bondoso presenciar o sofrimento humano e não intervir diretamente? Dominique Lambert, em obra citada anteriormente, propôe que Deus não intervém no mundo porque isto significaria anular a liberdade humana e que esta é a verdadeira causa do sofrimento. Concordamos em grande medida com esta idéia, mas achamos que é possível enriquecer um pouco mais o discurso fazendo uma análise melhor do tempo.

Indubitavelmente um dos maiores mistérios da física atual é o conceito de tempo. Espaço nos é muito mais familiar do que tempo. Esta coisa misteriosa que flui nos relógios, inclusive biológicos, nos envelhecendo, e que se expressa, como se espaço fosse, na teoria da relatividade. Porque temos ansiedade pelo futuro? Acho que aqui cabem algumas palavras de um diferente discurso.
Todos os nossos computadores são capazes de resolver as chamadas equações diferenciais de evolução de estado ou movimento. As leis determinísticas da natureza, mesmo nos inúmeros casos em que surge o caos, são resolvidas, pelo menos de forma aproximada, e ganhamos com isto alguma previsibilidade que nos permite resolver os problemas mais diversos do dia-a-dia. É razoável se supor que a parte clássica (não quântica) de nossos cérebros, ou seja, a rede neural simula perfeitamente bem estes problemas. Bons exemplos são : quando calculamos, inconscientemente nossa trajetória ao atravessar ruas ou o bebê que brinca jogando coisas para o alto e as observa cair e assim aprender suas leis de movimento. Os nossos sonhos são simulações sofisticadas, para o padrão dos computadores atuais, mas não deixam de ser projeções feitas com uma dinâmica determinística, ou seja, onde o tempo é o tempo reversível da mecânica de Newton. Por outro lado, o tempo de nossas vidas é o tempo irreversível do vivido (Heidegger, Sartre e Prigogine). Este não pode ser simulado, tem que ser vivido, é o tempo da história, e, obviamente, a vida nos causa decepções. Esta é uma causa de sofrimento.

Outra causa de sofrimento vem da dor, não simplesmente a dor física que é um mecanismo de proteção do corpo como um todo, mas a dor da perda, da humilhação, da rejeição. Estas últimas advém de nossa postura de ignorar a complexidade e conectividade do universo, não percebendo que ações mínimas nossas (o bater das asas da borboleta...) causam reações que reverberam em nós mesmos. Ao mantermos a crença que locais do espaço-tempo (indivíduos) estão isolados e independentes se torna realmente incompreensível o sofrimento à luz da Misericórdia Divina.

DEUS QUER O NOVO DE SUAS CRIATURAS LIVRES !

Mariano S. Silva
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