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Artigo

Pergunte e Responderemos 016 – abril 1959

 

Virgindade e Matrimônio

DOGMÁTICA S. F. (Campina Grande): “Se o estado conjugal é santificado por um sacramento próprio, ao passo que não há sacramento especial para o estado virginal, como se pode dizer que a virgindade é mais digna do que o matrimônio?

 

1. O fato de que a virgindade representa um dom de Deus ainda mais rico do que o matrimônio, consta claramente das palavras de Cristo (Mt 19,12) e São Paulo (1 Cor 7) já comentadas em «P. R.» 7/1957, qu. 7.


Resta agora ver como se podem conciliar as afirmações da S. Escritura com a dificuldade proposta no enunciado da questão.

 

2. A solução se deriva das seguintes considerações:


a) O sacramento do matrimônio é conferido a certa categoria (numerosa, sem dúvida) de cristãos chamados a se santificar mediante o consórcio conjugal. Santificar-se, porém, quer dizer: chegar à união perfeita com Cristo. Consequentemente a esposa cristã, em todos os atos de sua vida matrimonial, tem que ver no consorte o sinal de Cristo; amando o seu esposo humano, ela tem que procurar merecer o beneplácito do Divino Esposo, de sorte que, no fim da vida presente, esteja unida ao Senhor Jesus na caridade perfeita. — Algo de análogo, é claro, se dá com o marido cristão: este tem que considerar a sua esposa como sinal sobrenatural, ou seja, como a Igreja de Cristo (cf. Ef 5,25-32); dando-se à sua consorte, ele deve-se aproximar cada vez mais do Senhor.


Em uma palavra: o estado matrimonial foi instituído pelo Criador para levar os cônjuges ao que se chama «as núpcias místicas» com Cristo. Esta é, aliás, a meta comum de todo cristão; no matrimônio, porém, tal objetivo é atingido por via indireta, ou seja, mediante a entrega a sinais do Cristo ou às várias criaturas com as quais o esposo e a esposa têm que lidar. E justamente para santificar esta etapa intermediária, a qual não deixa de oferecer perigos (cf. 1 Cor 7, 32-35), Cristo instituiu o sacramento do matrimônio.


b) Voltando agora nossa atenção para a virgindade, verificamos que ela representa a antecipação do estado consumado na medida em que isto é possível na terra; o celibatário e a virgem procuram viver em presença de Cristo, livres das solicitudes da carne e do mundo, à semelhança do que se dá no céu. Assim o celibatário procura por via direta aquilo a que o cônjuge tende por via indireta. O estado virginal carece daquela nota de divisão a que alude o Apóstolo em 1 Cor 7. Por isto também o estado virginal não precisa de ser santificado por um sacramento próprio.

 

3. A fim de aprofundar estas idéias, utilizaremos aqui uma distinção que se tornou clássica entre os teólogos.

Todo sacramento apresenta à nossa consideração três aspectos:

a) um sinal externo, que é mero sinal destinado a causar efeitos invisíveis na alma; por exemplo, a água no batismo, o óleo na crisma, as palavras do consentimento matrimonial no casamento. É o que se chama o sacramentam tantum, na terminologia técnica;

b) um efeito interno na alma, que por sua vez ainda é sinal de ulterior efeito; por exemplo, o caráter (configuração espiritual) imediatamente produzido pela aplicação da água no batismo, ou o vínculo conjugai causado pelas palavras do consentimento no matrimônio. É o que se chama res et sacramentum (efeito e sinal);

c) um efeito que não é mais sinal, mas efeito apenas (res tantum); é a graça santificante, que todo sacramento confere.

 

Como se sabe, os sacramentos podem ser validamente administrados sem produzir necessàriamente a graça santificante. É o que se dá todas as vezes que o cristão participa do rito sagrado sem ter as devidas disposições espirituais; dado, por exemplo, que alguém contraia matrimônio em pecado mortal, se se casa segundo os trâmites canônicos, o sacramento é válido e o vinculo conjugal se estabelece, mas o nubente não recebe graça santificante. Também a crisma pode conferir o caráter à alma sem comunicar a graça santificante, caso a pessoa que se crisma esteja em pecado mortal.


Estas distinções servem para mostrar que todo sacramento é um dom não consumado, mas tendente à consumação; todo sacramento está essencialmente associado ao regime de via, de véus e símbolos provisórios em que nos achamos.


Ao contrário, a virgindade cristã é de tal modo afim ao estado de consumação que nela não tem cabimento a distinção entre mero sinal externo e graça santificante: ou a virgindade cristã é abraçada e sustentada por amor a Deus na graça santificante, ou simplesmente ela não tem razão de ser; a virgem que vivesse habitualmente em pecado mortal, seria um absurdo monstruoso na Santa Igreja. Para se justificar perante o mundo, ela tem que ser cheia de Deus.


Donde se vê que, se ao estado de virgindade não corresponde um sacramento próprio (além do Batismo e da Eucaristia, que são os sacramentos básicos da vida cristã), isto se dá não porque o estado virginal seja menos perfeito do que o matrimônio, mas justamente porque o estado virginal já toca de mais perto as raias da perfeição consumada ou da plenitude, à qual tende de mais longe o matrimônio. A virgindade cristã inclui em seu conceito a res (o efeito derradeiro) de todo sacramento, ou seja, a vida na graça e na caridade, ao passo que a essência dos sacramentos já se salva mesmo quando eles não podem conferir a graça.

 

4. Se não há sacramento especial, há ao menos sacramentais que põem a virgindade cristã em contato particular com a Cruz de Cristo e as graças do Salvador: são a consagração virginal e a profissão religiosa de castidade. A Santa Igreja, reconhecendo nesses dois sacramentais a excelência do estado celibatário, empenha toda a sua «graciosidade» ou a sua força impetratória para pedir de Deus os mais ricos frutos espirituais em favor de tal ou tal virgem cristã. É de crer seja realmente muito agradável ao Pai do Céu a prece da Esposa de Cristo então proferida. — É, de resto, nesses dois sacramentais que se vão encontrar as mais eloquentes afirmações de que a virgindade cristã representa o ideal de todo e qualquer matrimônio ou... de que a virgindade realiza diretamente, e de modo tão perfeito quanto possível, aquilo que o matrimônio (santificado pelo sacramento) tende a atingir indiretamente.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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