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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 351/agosto 1991

Mundo Atual

Centenário de:

A Encíclica “Rerum Novarum“

de Leão XIII

 

Em síntese: A encíclica Rerum Novarum de Leão XIII leva em conta a mísera condição dos operários no século passado, explorados que eram pelo capitalismo selvagem. Propõe, portanto, os direitos fundamentais do trabalhador: salário justo, repouso dominical, limitação das horas de trabalho, consideração das mulheres e crianças que trabalham, possibilidade de que o operário vá constituindo o seu patrimônio particular...

Tal documento foi tido como revolucionário na sua época; parecia exigente demais; hoje é considerado ainda muito tímido, pois novas reivindicações da classe operária se fazem ouvir. Se, porém, hoje as leis trabalhistas garantem ao operário direitos indispensáveis para que leve vida digna, isto se deve, em grande parte, ao brado de alarme levantado pelo Papa Leão XIII há cem anos, quando publicou a sua encíclica "Sobre a Condição dos Operários". De resto, a encíclica conserva a sua plena atualidade pelo fato de que não raro são violados alguns dos princípios que ela formula e que pedem aplicação mais estrita e fiel em vários setores da economia contemporânea.

 

Aos 15/05/1991 completaram-se cem anos de publicação da primeira encíclica social da Igreja, assinada pelo Papa Leão XIII e iniciada pelas palavras Rerum Novarum (das coisas novas). (1) A data é importante, pois tal documento foi comparado ao ressoar de um trovão, que despertou os católicos e o mundo para a procura de mais justiça e fraternidade. A encíclica abriu o caminho aos sucessivos pronunciamentos da Igreja sobre a questão social. Daí a oportunidade de lhe dedicarmos algumas páginas de resenha e comentário. Aos 02/05/1991, o S. Padre João Paulo II deu a lume a encíclica Centesimus Annus, commemorativa do centésimo aniversário da Rerum Novarum; será apresentada em PR 352/91.

 

1 As primeiras palavras da encíclica soam: Rerum Novarum semel excitata cupidine o que quer dizer: "Uma vez despertada essa avidez de inovações (rerum novarum)".

 

1. O fundo de cena

1.  Em fins do século XVIII e no começo do século XIX registrou-se a chamada "revolução industrial": foram sendo exploradas as riquezas do subsolo do globo e manufaturadas em fábricas e canteiros de obras. Reinava então a filosofia liberal, que atribuía ao capital todos os direitos em vista da conquista de maiores bens materiais. Em conseqüência, os operários das fábricas e das minas eram submetidos a duras condições de trabalho; mulheres e menores de menos de dez anos de idade eram levados à extração de carvão do fundo das minas; os salários eram exíguos, ocasionando taxas de mortalidade precoce; a morada era miserável, ficando muitos homens e mulheres aglomerados em subúrbios. Não havia instituições de defesa dos trabalhadores; os sindicatos eram perseguidos, e a assistência médica muito precária. O próprio Estado entrava na disputa do capitalismo competitivo, mostrando-se indiferente à angustiosa sorte dos trabalhadores.

2.  Da parte da Igreja, fizeram-se ouvir vozes em defesa da classe trabalhadora.

Na Alemanha, destacou-se o bispo de Mogúncia, Mons. Wiliheim. Emmanuel von Ketteler (1811-77), que denunciou os grandes abusos do capitalismo, deixando como principal escrito o livro "Die Arbeiterfrage und das Christentum A questão operária e o Cristianismo" (1864). Numa alocução aos trabalhadores dizia:

"O caráter fundamental que dá ao movimento operário sua importância e significação e que pertence, na verdade, à sua essência, é a tendência à associação operária, que tem por objetivo unir as forças a serviço dos interesses operários. A religião só pode apoiar estas associações e lhes desejar bom êxito para o bem da classe operária".

 

Mons. Ketteler pleiteava nesse discurso:

 

aumento de salário correspondente ao verdadeiro valor do trabalho;

diminuição das horas de trabalho, de modo a não se arruinar a saúde do operário;

regulamentação dos dias de descanso. O tempo de descanso deve ser calculado de acordo com o tempo de trabalho;

proibição do trabalho das crianças em fábricas durante a época em que ainda são obrigadas a freqüentar a escola;

proibição do trabalho das mulheres nas fábricas, principalmente quando são mães de família;

 

— proibição do trabalho das moças nas fábricas.

Na Áustria, nota-se a figura do barão Karl von Vogelsang (1818-1890), que reuniu personalidades de destaque, a fim de lutarem contra os crimes do capitalismo liberal e também contra as tendências do socialismo emergente, que transformaria o mundo "numa monstruosa organização de trabalho forçado".

Na Suíça foram muito atuantes duas figuras: Gaspar Decurtins (1885-1916), estadista, que fundou o Movimento Social Cristão e escreveu a obra "A questão da proteção internacional do trabalhador". Foi seu contemporâneo o Cardeal D. Gaspar Mermillod (1824-1892), bispo de Lausanne e Genebra, que se tornou infatigável arauto da justiça social; dizia em 28/02/1868, na igreja de Sta. Clotilde em Paris:

"Quem quer penetrar até a raiz profunda de nossas agitações atuais, percebe bem depressa que ela reside na questão social. Todos repetimos que estamos numa época de transição, que uma velha sociedade está em ruínas e que uma nova se vem formando. Daí as incertezas, as hesitações: na superfície, gritos de alarme; nos subterrâneos, paixões ardentes e violentas. Cerram-se fileiras de ambos os lados na alternativa de transformar o mundo num campo de batalha ou de assinar um tratado de paz entre ricos e pobres.

As obras cristãs e nossa atividade pessoal devem dar a sua ativa contribuição para a solução pacífica destes inumeráveis problemas....

Se cabe ao nosso século a honra de ter-se dado conta destes grandes problemas da humanidade, cabe também à Igreja a honra de sondá-los com coragem e resolvê-los com energia. Quem tomará a mão do proprietário e do proletário para as unir? Quem se não Jesus Cristo?... O que nos salvará, não é um Cristianismo debilitado e inerte, mas um Cristianismo sério e vivido, encarnando-se em virtudes capazes de empolgar o povo e inspirar-lhe otimismo e consciência de sua dignidade...

Não quero ser nem o cortesão dos ricos, nem o adulador dos pobres. Não quero ser tributário nem das opiniões dos poderosos nem das dos humildes. .. Mas insisto em vos repetir que a crise que atravessamos é uma das mais graves e das mais cruéis que nossa geração já conheceu. . . A Internacional, notai-o bem, é ao mesmo tempo uma doutrina sedutora, um exército em marcha, um corpo que se organiza. Para solucionar a questão social, seria necessário ter o coração de uma Irmã de Caridade e a lucidez genial de S. Tomás de Aquino".

O Cardeal Mermillod foi encarregado por Leão XIII de orientar uma comissão de estudos dos problemas sociais, que teve influência decisiva na preparação da encíclica Rerum Novarum.

Na Itália destacou-se o Pe. Taparei li D'Azeglio, que teve como aluno o jovem Gioacchino Pecci, futuro Leão XIII. Mais relevante ainda foi a figura de Giuseppe Toniolo, jurista e economista, que também contribuiu concretamente para a elaboração dos princípios da Rerum Novarum.

A França e a Bélgica tiveram notáveis pensadores e agentes de renovação social: Léon Harmel, René de la Tour du Pin, Albert de Mun, D. Doutre-loux, bispo de Liège, e D. Stillemans, bispo de Gartd.

 

Na Inglaterra salientou-se o Cardeal Henry Edward Manning, e nos Estados Unidos o Cardeal James Gibbons, arcebispo de Baltimore, cujas teses foram reconhecidas por Leão XIII como de grande valor.

 

3. Da parte dos não cristãos, várias vozes se levantaram, ao mesmo tempo que a classe trabalhadora se insurgia. Em 1848 Karl Marx e Friedrich Engels lançaram o Manifesto Comunista. Em 1864 foi fundada em Londres a Primeira Internacional Socialista, que apregoava o programa marxista de luta dos operários contra o capitalismo. Em 1889 fundou-se em Paris a Segunda Internacional Socialista. A agitação se propagava ardente pelos círculos operários, quando, dois anos mais tarde, foi publicada a encíclica Rerum Novarum.

 

Vê-se assim o pano de fundo ou a trama de idéias e fatos subjacentes à Rerum Novarum. Esta colhe os frutos dos intensos trabalhos de pensadores católicos que no decorrer do século XIX lutaram pela justiça social; a Igreja não ficou estranha à questão operária, mas ao contrário acompanhou-a com sucessivas intervenções até a publicação da sua primeira encíclica social.

Vejamos agora.

 

2. As linhas centrais da encíclica

 

Distinguiremos quatro subtítulos:

 

2.1. Liberalismo e coletivismo em confronto

1. Leão XIII toma por tema central da sua encíclica a triste situação em que se encontram desprotegidos os trabalhadores de sua época:

 

"O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para os trabalhadores uma proteção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas e, assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão de um pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários" (Rerum Novarum no 2).

O principal fator responsável por tal estado de coisas era o pensamento liberal, que predominava entre os empresários do século XIX. O liberalismo proclamava o uso irrefreado da liberdade no setor sócio-político-econômico; é antidogmático ou contrário a princípios filosóficos ou éticos de valor perene.

 

Já em 1885 Leão XIII publicara a encíclica Immortale Dei, e em 1888 a encíclica Libertas, nas quais condenava o liberalismo, por enfatizar o individualismo com grave detrimento para os valores sociais e o bem comum; era o liberalismo dos patrões possuidores de capital, mas desligados de normas éticas, que provocava as míseras condições de trabalho e vida dos operários.

 

Em réplica a tais abusos ia tomando vulto no século XIX o coletivismo ou socialismo. Este apregoava a transferência do capital dos cidadãos particulares para as mãos do Estado; o único grande proprietário seria o Governo, ao qual os socialistas tributavam sua confiança, julgando que seria um justo administrador dos bens da coletividade.

 

Ora Leão XIII bem percebeu que tal alternativa era ilusória. Daí a rejeição, na Rerum Novarum, do coletivismo socialista, talvez mais perigoso do que os próprios males que ele pretendia eliminar:

"A perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte, enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria" (no 12).

Com muita lucidez o Papa antevia as funestas conseqüências do socialismo marxista. Quase cem anos mais tarde, a implosão dos países comunistas havia de confirmar as apreensões de Leão XIII.

 

Assim, pois, o Sumo Pontífice tomava posição frente aos dois sistemas que tentavam os homens da época, incluídos os fiéis católicos,([1]) do século XIX: o liberalismo capitalista, que exaltava a liberdade a ponto de explorar os pequeninos indefesos, e o coletivismo socialista, que apregoava a igualdade de todos os homens, mas em troca da renúncia à liberdade individual (o Estado seria o grande proprietário e ditador). Estava assim esboçada a via média pela qual se desenvolveria a doutrina social da Igreja: procuraria evitar os extremismos, pregando o respeito à pessoa, humana e a seus justos direitos, de modo, porém, a não ferir os interesses comuns ou o bem da sociedade como tal.

 

2.2. Propriedade particular

Condenado o coletivismo socialista, Leão XIII defende a propriedade particular, baseando-se na tradição do gênero humano em geral bem como em razões de ordem filosófica:

"O fim imediato visado pelo trabalhador é conquistar um bem que possuirá por direito particular e propriedade sua. Porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é por outro motivo senão para conseguir prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso a usar dele como entender.

Por conseguinte, se, reduzindo as suas despesas, o trabalhador chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, na compra de um campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado, e por isto o terreno assim adquirido será propriedade do operário com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas quem não vê que é precisamente nisto que consiste o direito de propriedade mobiliária e imobiliária? Assim a conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, tirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isto mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação" (no 4).

 

Vejamos agora nesta seqüência

 

2.3. Os deveres do Estado

Surpreendendo muitos dos seus contemporâneos, Leão XIII preconizou a intervenção do Estado não só em matéria econômica, mas também no relacionamento entre patrões e operários, a fim de tutelar os direitos destes. Os homens de bem da época julgavam que bastaria ao Estado exercer sábia política econômica ou sagaz administração da economia nacional; desta resultaria a solução da questão social. Com outras palavras: julgavam que o desenvolvimento social seria uma conseqüência gradativa e automática do desenvolvimento econômico. São palavras de Leão XIII:

"O Estado pode melhorar muitíssimo a sorte da classe operária, e isto em todo o rigor do seu direito, e sem ter a recear a censura de ingerência indevida, pois, em virtude mesmo do seu ofício, o Estado deve servir ao interesse comum. E é evidente que, quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta ação de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores. . .

Os pobres, a mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos. .. Como seria desarrazoado atender a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, violará a estrita justiça, que quer que a cada um seja dado o que lhe é devido" (no 27).

"O trabalho tem uma tal fecundidade e uma tal eficácia que se pode admitir, sem receio de engano, que ele é a fonte única de onde procede a riqueza das nações. A eqüidade manda, pois, que o Estado se preocupe com os trabalhadores, e proceda de modo que de todos os bens que eles proporcionam à sociedade, lhes seja dada uma parte razoável, como habitação e vestuário, e que possam viver à custa de menos trabalhos e privações.

 

De onde resulta que o Estado deve favorecer tudo que, de perto ou de longe, pareça de natureza a melhorar a sorte deles. Esta solicitude, longe de prejudicar alguém, tornar-se-á, ao contrário, profícua a todos, porque importa soberanamente à nação que homens, que são para ela o princípio de bens tão indispensáveis, não se encontrem continuamente a braços com os horrores da miséria" (no 27),

 

Temos aqui o esboço do que hoje se chama "a Previdência Social".

 

2.4. Direito de Associação

Leão XIII foi ousado ao proclamar o direito dos trabalhadores a constituir associações para a defesa dos seus interesses ou, com outras palavras, os sindicatos livres. No século XIX tal direito era contraditado pelas autoridades e os patrões, que podiam contar com a repressão policial para coibir o exercício de tal direito.

 

"Os direitos dos operários devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los a todos os cidadãos, prevenindo e vingando a sua violação. Todavia, na proteção dos direitos particulares, deve preocupar-se de maneira especial com os fracos e indigentes. A classe rica faz de suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade de tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre" (no 38).

 

O Papa sabe que na sua época existem associações não cristãs que chegam a tiranizar os seus membros. Daí o apelo a que os operários cristãos fundassem seus sindicatos próprios:

 

"Em nenhuma época se viu tão grande multiplicidade de associações de todo gênero, principalmente de associações operárias.. .

Mas é opinião, confirmada por numerosos indícios, que elas são ordinariamente governadas por chefes ocultos, e que obedecem a uma palavra de ordem igualmente hostil ao nome cristão e à segurança das nações: depois de terem açambarcado o trabalho em todas as empresas, se há operários que se recusam a entrar em seu seio, fazem-lhes expiar a recusa pela miséria.

Neste estado de coisas, os operários cristãos não têm remédio senão escolher entre dois partidos: ou darem os seus nomes às sociedades de que a religião tem tudo a recear, ou organizarem-se eles mesmos e unirem as suas forças para poderem sacudir denodadamente um jogo tão injusto e tão intolerável.

Haverá homens verdadeiramente empenhados em arrancar o supremo bem da humanidade a um perigo iminente, que possam ter a menor dúvida de que é necessário optar por este último alvitre?" (no 40).

 

2.5. Salário justo e outros direitos do trabalhador

Outro passo audaz da encíclica Rerum Novarum foi a proclamação da necessidade de se pagar salário justo ao trabalhador. Salário justo é entendido pelo Pontífice como aquele que garante ao operário dignas condições de vida, adequada subsistência de sua família e possibilidade de poupança para enfrentar os imprevistos da vida:

"O operário que perceber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e agirá de forma que, com sábias economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio" (no 34).

O repouso dominical é outra justa reivindicação enfatizada pela encíclica:

"Daqui vem como conseqüência a necessidade do repouso dominical. Isto, porém, não quer dizer que se deva estar em ócio por mais largo espaço de tempo, e muito menos significa uma total inércia, como muitos desejam, e que é fonte de vícios e ocasião de dissipação; mas um repouso consagrado à religião.

Unido à religião, o repouso tira o homem dos trabalhos e das ocupações da vida ordinária para o rechamar ao pensamento dos bens celestes e ao culto devido à Majestade de Deus" (no 32).

A delimitação das horas de trabalho de tal modo que o operário não seja acabrunhado por sobrecarga excessiva, eis outro ponto recomendado pelo Pontífice:

"Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de fazer pelo excesso da fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo. A atividade do homem é limitada como a sua natureza. O exercício e o uso a aperfeiçoam, mas é preciso que, de quando em quando, se suspenda para dar lugar ao repouso.

Por conseguinte, não deve o trabalho prolongar-se por mais tempo do que as forças permitem. Determinar a quantidade do repouso depende da qualidade do trabalho, das circunstâncias do tempo e do lugar, da compleição e saúde dos operários. O trabalho, por exemplo, de extrair pedra, ferro, chumbo e outros materiais escondidos debaixo da terra, sendo mais pesado e nocivo à saúde, deve ser compensado com uma duração mais curta.

Deve-se atender também às estações, porque não poucas vezes um trabalho que facilmente se suportaria numa estação, noutra é de fato insuportável ou somente se vence com dificuldade" (no 32).

Leve-se em consideração a condição das mulheres e das crianças que, por sua índole natural, não podem ser submetidas a tarefas violentas:

"O que pode fazer um homem válido e na força da idade, não será equitativo exigi-lo de uma mulher ou de uma criança. Especialmente a infância. . . não deve entrar na oficina senão depois que a idade tenha desenvolvido nela as forças físicas, intelectuais e morais; do contrário, como uma planta ainda tenra, ver-se-á murchar com um trabalho demasiado precoce e será prejudicada a sua educação.

Também há trabalhos que não se adaptam tanto à mulher, à qual a natureza destina de preferência os afazeres domésticos, que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família. Em geral, a duração do descanso deve-se medir pelo dispêndio das forças que ele deve restituir" (no 33).

É de notar ainda que Leão XIII, embora proponha soluções de ordem social e humanitária, não esquece que a raiz de qualquer reforma social é a renovação dos costumes de todos os cidadãos (ricos e pobres):

"O que torna uma nação próspera, são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a prática da religião e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição equitativa dos encargos públicos, o progresso da indústria e do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os há, do mesmo gênero: coisas estas que não se podem aperfeiçoar sem fazer subir outro tanto a vida e a felicidade dos cidadãos" (no 26).

 

Todas estas propostas e normas sociais de Leão XIII eram inovadoras na sua época e continuam a ter hoje sua plena atualidade. Outrora os homens pensavam em sujeitar a economia apenas à mecânica das leis do mercado; não lhes era fácil conceber uma economia sujeita às normas da Ética ou uma economia regida por valores morais. Cem anos mais tarde ou em nossos dias, pode haver mais respeito pelos valores éticos na área da economia (as leis trabalhistas o impõem em certo grau), mas ainda falta muito para que se alcance o nível ético indispensável na vida econômica e na vida pública de nossas sociedades.

Por causa de suas teses, a Rerum Novarum foi na sua época considerada revolucionária. Tornou-se, porém, a Magna Carta do operariado vítima da exploração do capitalismo selvagem.([2]) A legislação trabalhista hoje existente em quase todos os países do mundo muito deve à intuição, suscitada e alimentada por Leão XIII, dos valores humanos e cristãos dos trabalhadores.

 

3. Conclusão

À guisa de conclusão, sejam citadas palavras do Papa João Paulo II destinadas a ser lidas nas reuniões comemorativas do centenário da Rerum Novarum:

"A encíclica Rerum Novarum deve ser relida com os olhos de hoje para se descobrir a sua permanente e viva atualidade. Ela nos ensina também a renovar nossa intuição, a considerar todas as coisas novas que surgem, não raro na escuridão e na desordem, para que lhes demos sentido e harmonia.

Do ponto de vista humano, os desafios de nossa sociedade são tão vultosos e complexos que seríamos levados a desanimar e desesperançar-nos do homem. Mas Deus está conosco, Deus fica sendo o Senhor da história. O Evangelho é sempre novo: ele coloca em nossas mãos sementes que não cessam de fecundar a terra para torná-la mais habitável. . .

Das grandes mudanças que tumultuam a nossa época, guardemos uma lição: Deus é a verdadeira medida do homem; só Deus revela plenamente o homem ao homem. Frente à crise das ideologias e das estratégias, não receeis colocar nosso conhecimento do homem ao serviço de sua vida social, cultural, política e econômica. Que a verdade e a dignidade do homem sejam sempre salvaguardadas nos novos caminhos da história pelos quais ele envereda!

Para responder às exigências concretas do Evangelho, não vos bastará uma comemoração, em data precisa, da Rerum Novarum, nem vos bastará todo este ano que dediquei ao estudo do pensamento social da Igreja. Estai convictos de que se trata de um canteiro sempre aberto, de um canteiro a que todos são chamados para que toda a humanidade, na precariedade de sua condição, responda sempre melhor à sua divina vocação" (extraído de L’OSSERVATORE ROMANO, ed. francesa, 05/03/91, p.2).



[1] Havia, sim, os católicos liberais e os católicos sociais. Aqueles achavam que as condições de miséria eram conseqüências inevitáveis das leis econômicas, que os próprios mecanismos de mercado haveriam de corrigir aos poucos. Os católicos sociais, porém, viam a urgência de profundas reformas que concretizassem as exigências sociais da fé cristã.

[2] Ao lado do capitalismo selvagem existe o capitalismo moderado por leis trabalhistas, que tornam aceitável tal forma de capitalismo.


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