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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 012 – dezembro 1958

 

A Trasladação da Casa de Loreto

J. P. (Bebedouro): “O Santuário da Virgem Santíssima em Loreto terá sido de fato trasladado do Oriente pelos anjos ?

 

1. Em Loreto, cidade vizinha de Recanati na província de Ancona (Itália), mostra-se uma «Casa Santa», que, outrora situada na Palestina, terá servido de residência à Virgem Santíssima durante longos anos de sua vida na terra.

Quais os precedentes desse santuário ?

 

A primeira notícia sobre o seu histórico se deve a Pietro di Giorgio Tolomei (Teramano), que por volta de 1472, na «Relatio» ou «Translatio miraculosa ecclesiae beatae Mariae virginis de Loreto», .narra o seguinte:

 

Belo dia (sem data precisa) uma igreja, sem fundamentos arquitetônicos, apareceu perto de Recanati em bosque pertencente a nobre dama chamada Loreta. Grande número de fiéis passou a frequentar esse templo, provocando a cupidez e os atos de profanação dos ladrões. Em consequência, o santuário foi pelos anjos transferido milagrosamente para uma colina próxima, dita «dos Dois Irmãos»; já, porém, que estes dois proprietários do monte disputavam entre si os lucros provenientes da afluência de peregrinos, a igreja foi de novo trasladada para a planície, à margem da estrada onde hoje se encontra.

 

Ninguém sabia donde vinha esse templo, quando em 1296 a Virgem Santíssima o revelou em sonho a um santo varão: a dita casa não era senão a mansão onde ela nascera em Nazaré, onde morara, onde o arcanjo Gabriel lhe aparecera e onde ela cuidara de seu Divino Filho até os doze anos de idade. Mais tarde, os Apóstolos haviam convertido esse recinto em igreja dedicada à Mãe de Deus, e São Lucas, com o trabalho de suas próprias mãos, ai pintara uma imagem de Maria. Acrescentava a Virgem que, após a invasão muçulmana na Terra Santa, os anjos haviam transportado o santuário para Tersatz, perto de Fiume, na Ilíria; visto, porém, que ai não era devidamente reverenciado, os anjos o haviam transferido para o outro lado do Adriático, colocando-o sucessivamente no bosque de Dama Loreta, na colina dos Dois Irmãos e no lugar onde permanece até hoje...

 

Dizia ainda Teramano que uma comissão de dezesseis cidadãos de Recanati, a quem o santo varão havia contado tal história, tinha sido enviada a Nazaré, onde verificara que as medidas da igreja de Loreto correspondiam rigorosamente às dos alicerces da Casa de Maria ainda existentes naquela cidade palestinense!

 

Teramano afirmava por fim ter colhido essa narrativa dos lábios de dois velhos habitantes de Recanati, os quais por sua vez a tinham ouvido de seus avôs, avós que tinham sido informados igualmente por seus avós. Assim podia Teramano preencher a lacuna de 181 anos que ia de 1472 à data da primeira trasladação (1291, como se dirá abaixo).

 

A narrativa de Teramano foi completada em 1525, aproximadamente, por Girol amo Angelita, secretário perpétuo da Comuna de Recanati, no seu livro «Virginis Lauretanae historia». Entre outras coisas, este cronista acrescentou datas que Teramano omitira: 9 de maio de 1291, trasladação de Nazaré para Tersatz (Ilíria); 10 de dezembro de 1294, transferência para o bosque de Loreta; entre julho e agosto de 1295, chegada à colina dos Dois Irmãos. Finalmente um cronista de 1565, Rafael Riera, ainda indicou o dia 2 de dezembro de 1295 como data do transporte para o local definitivo do santuário.

 

É de Teramano e Angelita que se derivam todas as versões sobre a Casa Santa de Loreto até hoje propagadas.

 

2. Pergunta-se agora: que autoridade tem a história assim referida ?

 

No início do séc. XX, árdua foi a controvérsia em torno do assunto. Há hoje em dia críticos que negam a veracidade da narrativa, baseando-se nos seguintes argumentos:

a) Em Loreto, antes da data indicada para a trasladação (1291), já havia famoso santuário mariano, existente provavelmente desde 1100. Sabe-se por documento autêntico que aos 4 de janeiro de 1193 Jordão, bispo de Umana, doou a igreja de Santa Maria colocada na planície de Loreto («ecclesiam sancte Marie que est sita in fundo Laureti») a Marcos, Prior camaldulense de Fonte Avellana (Loreto vem le Lauretumi, bosque de loureiros). Em 1285 outro documento menciona a mesma igreja («in fundo Laureti») num inventário de propriedades da diocese de Recanati. — Donde se vê, de passagem, que o nome dado ao santuário não data da trasladação (1294) nem se deriva do nome da dama proprietária do bosque em questão, mas é antiga denominação da região.

b) Muito estranho é o silêncio dos historiadores no intervalo que vai desde a apregoada data da transferência (1291) até a data do primeiro documento que contenha a narrativa completa (com todas as indicações cronológicas) dos fenômenos milagrosos (relato de Girolamo Angelita em 1525). Dificilmente se compreende que quatro extraordinários aparecimentos da Casa Santa destituída de alicerces tenham deixado de ser registrados pelos cronistas durante cerca de 180 anos (até Teramano) ou 230 anos (até Angelita). E note-se que, quando estes dois autores referem em sua época os prodígios, apoiam os respectivos relatos em visões e revelações particulares ou então numa coleção de documentos de nome «Annales de Fiume», citada por Angelita, mas jamais encontrada pelos pesquisadores de arquivos nem mencionada por outro escritor.

Apontam-se, é verdade, certas peças historiográficas que seriam relatos contemporâneos da translação: assim uma carta da Câmara de Recanati, datada de 1295; a narrativa do eremita Paulo, de 1297; o história do bispo Pedro de Macerata de 1330. Os críticos, porém, têm-nos como peças forjadas nos séc. XVII/XVIII; os próprios defensores da autenticidade do portento (Trombelli, Vogel, Leopardi) têm-nos, no mínimo, em conta de suspeitos. Também não merecem crédito certas imagens de anjos a carregar uma casa, pois não ê certo que se refiram a Loreto.

c) A historiografia dispõe até o séc. XIII de cinco documentos que descrevem o lugar onde, conforme a tradição, a Virgem Santíssima terá habitado em sua infância e no momento da visita do Anjo; são relatos de peregrinos da Terra Santa, os quais unanimemente nos dão a saber que em Nazaré a cena da Anunciação se verificou não em uma casa com paredes de pedra ou tijolos, mas em um recinto cavado na rocha, por cima da qual os cristãos construíram uma igreja; fazem-nos também notar que o tipo de habitação cavada na rocha era usual em Nazaré.

 

Caso, porém, se queira, apesar de tudo, admitir que a Anunciação se deu em casa de pedra e cal, forçoso será admitir que esta casa havia desaparecido na época da apregoada translação, pois os peregrinos anteriores não a viram mais; disto seguir-se-ia que o rochedo (que os peregrinos viram) foi transferido em 1291, hipótese que não quadra em absoluto com o monumento apontado em Loreto; este é uma genuína casa de forma retangular (10,71 x 5,21 m), construída de tijolos e blocos de grés, blocos cuja composição, muito característica, é a mesma que a do terreno da região de Monte Conero, situado a uma hora e meia de Loreto! A este propósito, chama também a atenção o fato de que a imagem da Virgem de Loreto é uma estátua de madeira, objeto que não estava, nem está, em uso na piedade oriental.

 

Dizem, porém, os fautores da tese da translação que, ao lado da gruta da Anunciação (que ainda hoje se pode ver em Nazaré), havia a casa de Maria, que desapareceu de lá e se acha em Loreto, tendo ficado em Nazaré apenas os seus alicerces, que, como afirmava a comissão medieval, correspondem às dimensões da casa existente em Loreto. — Verifica-se, contudo, que estas explicações são poucos plausíveis, pois os relatos de peregrinos antigos e medievais (desde o do peregrino de Placença em 570 até o de Francisco Suriano em 1485) não mencionam casa alguma de Maria ao lado da gruta da Anunciação (gruta à qual, conforme a linguagem da época, podia muito bem convir a designação, corrente nos relatos, de oikos, domus, cubiculum, casa). Além disto, dado que tivesse existido tal casa, haveria sido destruída pelos invasores maometanos em 1263; com efeito, sabe-se de fonte fidedigna (carta do Papa Urbano IV ao rei São Luís IX, escrita em 23 de agosto de 1263) que aos 8 de abril de 1263 o sultão do Cairo, Bíbaros Boudokhar, mandou destruir totalmente o santuário de Nazaré, só ficando intato o recinto da Anunciação, porque, estando cavado na rocha, não se sabia como o destruir. Os peregrinos posteriores a 1263 atestam só ter visto em Nazaré o recinto ou cela da Anunciação cavada na rocha e os destroços da construção arrasada pelos árabes. Sendo assim, pouco ou nada significa a noticia de que as dimensões da casa de Loreto quadram com as dos seus «alicerces» deixados em Nazaré!

 

d) Chama outrossim a atenção o fato de que os relatos de viagens posteriores ao ano de 1291 continuam a mencionar a existência da gruta da Anunciação, sem noticiar alguma trasladação para o Ocidente. Do fim do séc. XIII ao inicio do séc. XVI contam-se trinta e cinco testemunhos desse gênero, todos concordes entre si, sendo alguns provenientes de viajantes italianos oriundos da região de Ancona. As bulas pontifícias que nesse mesmo período se referem encomiosamente a Loreto, jamais aí mencionam a presença da Casa Santa; limitam-se a aludir à imagem de Maria Santíssima. Há mesmo declarações de peregrinos do séc. XIV, posteriores ao surto da notícia da translação, que se insurgem diretamente contra esta tese (assim o normando Greffin Affagard, o franciscano Francisco Suriano...). — É somente no Ocidente que se fala da transferência da Casa Santa para Loreto; nenhum autor oriental, nenhuma inscrição, nem em Nazaré, nem fora de Nazaré, em época alguma menciona tal portento.

 

Apoiando-se em tais considerações, abalizados autores católicos negam a trasladação e explicam o surto da crença popular nos seguintes termos: havia desde o séc. XII famoso santuário mariano em Loreto, cada vez mais estimado e frequentado pelos fiéis; lá se venerava uma imagem milagrosa da Virgem Santíssima. No séc. XV já que o santuário atraia multidões de peregrinos construíram-se ao redor albergues e hospitais para satisfazer às necessidades destes. O conjunto dessas construções mereceu para Loreto o nome de «Alma Domus», isto é, Casa Benfeitora, Hospitaleira por excelência; era tida como a Casa da Santíssima Virgem, segundo atestam documentos dos arquivos de Recanati. Ora tal conceituação bem permitia uma confusão, que se deve ter realmente dado: os fiéis começaram a julgar que em Loreto se achava a casa mesma habitada pela SSma. Virgem em Nazaré; haveria sido trasladada pelos anjos...; e a imaginação popular, em sua espontaneidade simples, com boa fé, se terá encarregado de completar o noticiário.

 

3. A conclusão negativa assim estruturada parece merecer o assentimento do estudioso, embora a tese da trasladação seja calorosamente defendida por bons autores. O poder de Deus é, sem dúvida, ilimitado, mas, dizem-nos, será preciso demonstrar com provas autênticas que o Senhor realmente o quis usar no caso de Loreto.

 

Contudo ainda pode restar uma dúvida: os sucessivos favores que os Sumos Pontífices têm concedido ao santuário de Loreto não somente antes, mas também, e principalmente, depois do séc. XV, a celebração mesma de uma festa litúrgica em honra da Casa Santa de Loreto não equivalem à confirmação da notícia portentosa, a qual, por conseguinte, se deveria impor à fé do católico ?

 

A questão tem sido estudada pelos negadores da autenticidade, os quais respondem lembrando quanto segue: a autoridade da Igreja é muito sóbria e cautelosa no que diz respeito a fatos milagrosos; ela não os declara tais com facilidade, como também  não é ávida de destruir qualquer crença em milagre propalada entre os fiéis, desde que essa crença não constitua perigo para a reta fé e a moral cristã. Em particular, tratando-se de devoções populares aprovadas pela Igreja, verifica-se que os documentos oficiais de aprovação distinguem entre tais práticas de piedade ou o culto autorizado, mesmo estimulado pela autoridade eclesiástica, de um lado, e, de outro lado, as narrativas ou as crenças que são comumente associadas com o surto de tais devoções. Os documentos de aprovação, referindo-se a essas narrativas e crenças, usam frequentemente das fórmulas “ut pie creditur, ut asserunt, ut fama est..., como piedosamente se crê, como dizem, consoante o rumor”, fórmulas mediante as quais a autoridade da Igreja intenciona declinar qualquer pronunciamento a respeito da autenticidade das apregoadas narrativas.

 

Tais fórmulas ocorrem, por exemplo, na bula do Papa Júlio II, que em 1507 concedia favores espirituais aos peregrinos de Loreto:

«Nos attendentes quod solum erat in praedicta ecclesia de Loreto imago ípsius beatae Mariae Virginis, sed etiam, ut pie creditur et fama. est, camera sive thalamus, ubi ipsa beatíssima Virgo concepta, ubi educata, ubi ab angelo salutata...».

 

Por conseguinte, dir-se-á que, aprovando e incrementando a devoção ao santuário de Loreto, a Santa Igreja visa apenas confirmar e desenvolver a piedade dos fiéis para com a Santa Mãe de Deus; esta devoção será sempre oportuna e frutuosa independentemente da historicidade dos episódios narrados a respeito de Loreto desde o séc. XV. Esta outra questão de crítica historiográfica não fica definida pela concessão de favores espirituais aos devotos de Loreto, pois não é questão que toque um «fato dogmático», como se diz, ou um fato direta ou indiretamente relacionado com algum dogma de fé. Aos fiéis católicos resta, pois, a liberdade de julgar na base dos documentos que a história lhes apresenta. Em todo e qualquer caso, porém, seja Loreto para todos motivo de santificação, não pomo de discórdia e rixa!

 

BIBLIOGRAFIA

 

Em favor da autenticidade da narrativa:

A. Eschbacb, La vérité sur le fait de Lorette. Paris 1909.

C. G. Kresser, Nazareth, ein Zeug für Loreto. Wien 1908.

L Rinieri, La verità sulla Casa di Loreto (3 vol.), Torino 1910.

 

Contra a autenticidade:

U. Chevalier» Notre-Dame de Lorette. Etude historique sur l'authenticité de la Santa Casa. Paris 1906.

H. Leclercq, Lorette, em «Dictionnaire d'Archéologie chrétienne et de Liturgie» IX 2 2473-2511.

G. Huffer, Loreto. Eine geschichtskritische Untersuchung der Frage des heiligen Hauses (2 vol.) Münster in/Westf. 1913-1921.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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