REVISTA PeR (1199)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 030 – junho 1960

 

Saúde e Doença

ARIEL (Rio de Janeiro): «Como estima o cristão higiene e doença ? Há quem tenha a higiene na conta de expressão de apego demasiado ao corpo! Há, ao contrário, quem considere a doença como um desastre na vida!»

 

Antes de entrarmos propriamente nos temas indicados, convém recordar que a noção de doença, no Cristianismo, está associada ao conceito de pecado, como já ficou dito em «P.R.» 2/1957, qu. 7.

 

Sim. Deus. ao criar a natureza humana, dotou-a de dons preternaturais, cuja função era estender além dos limites ordinários o vigor das forças naturais. No estado original, portanto, a alma possuía tanto domínio sobre o corpo que este jamais devia deixar de lhe prestar a sua colaboração; em outros termos: o corpo não seria afetado pelo desgaste natural da matéria, que são as moléstias e a morte. Não havia doença, por conseguinte, na ordem inicial em que Deus colocou o homem; cf. «P. R.» 28/1960, qu. 2 e 3.

 

Já, porém, que a criatura humana decaiu dessa ordem por efeito do pecado de Adão, ela foi despojada do dom preternatural da impassibilidade. Embora a doença seja um fenômeno natural, ela, em verdade, só entrou no mundo em que vivemos, a titulo de consequência do pecado.

 

Dito isto, já podemos voltar nossa atenção para o modo como o cristão aprecia higiene e doença.

 

1. Saúde e higiene

 

Frisava o S. Padre o Papa Pio XII num discurso a esportistas reunidos aos 20 de maio de 1945:

«O estado normal do homem e, por conseguinte, do cristão, é o gozo de boa saúde».

 

Entende-se bem tal proposição: sendo o corpo o instrumento natural da alma, é de desejar que ele tenha o vigor necessário para preencher as suas funções e destarte beneficiar o espírito da respectiva pessoa. Torna-se mesmo ilícito ao homem contradizer a essa disposição do Criador, descuidando-se voluntariamente do corpo, e sujeitando-o a contrair moléstia ou prematura morte; nem mesmo a penitência de que falávamos na questão 2 deste fascículo, poderá ser exercida a ponto de equivaler a um suicídio direto.

 

Donde se vê quão errado é o parecer do autor moderno G. Séailles:

«O ideal (para o asceta cristão) é a antecipação da morte pela violência feita à natureza, que se identifica com o pecado» (Les affirmations de la conscience moderne 91).

 

Deve-se, portanto, frisar que a Moral católica implica até certo ponto higiene do corpo ou o mínimo de asseio indispensável para que se conservem o vigor e o bom funcionamento das faculdades corpóreas; a virtude jamais prescreverá, por exemplo, abstenção habitual de banho (desde que este seja praticado de acordo com as normas do pudor).

 

O banho, nos tempos do Império Romano, era tido pelos cristãos como algo de moralmente suspeito. Tal apreciação era sugerida não pelo banho em si, mas pelas circunstâncias lascivas e indecorosas em que antigamente se tomava banho (principalmente nos balneários de Roma). — O mesmo, porém, não se dá na civilização moderna, de sorte que já não teria cabimento manter sobre os banhos hoje em dia o juízo reservado dos antigos.

 

São as considerações acima que justificam a norma muitas vezes adotada por programas cristãos de educação : «Mens sana in corpore sano. — Haja mente sadia em corpo sadio».

 

Os mesmos princípios explicam o apreço positivo que o S. Padre o Papa Pio XII dedicou ao esporte em uma de suas alocuções públicas:

 

«O esporte e a ginástica têm como fim próximo educar, desenvolver e fortificar o corpo, do ponto de vista estático e dinâmico; como fim mais remoto, a utilização, por parte da alma, do corpo assim preparado para o desenvolvimento da vida interior ou exterior da pessoa; como fim ainda mais profundo, contribuir para a sua perfeição; por último, como fim supremo do homem em geral, fim comum a todas as formas de atividade humana, aproximar o homem de Deus» (Alocação a oitocentos professores de Educação Física e Médicos Desportivos, proferida aos 8 de novembro de 1952; texto transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» 13 [1953] 204).

 

2. A doença

 

Considerada do ponto de vista meramente natural, a doença vem a ser detrimento não só para o corpo (que ela atinge diretamente), mas também para a alma do paciente (que assim se vê privada da colaboração que o corpo normalmente lhe deveria prestar). Atendendo-se a este aspecto da doença, nem mesmo sob o pretexto de mortificar a carne, será lícito ao cristão provocá-la voluntàriamente. O homem, dotado de natureza psicossomática, não pode pretender que Deus supra diretamente o que Ele decretou dar à alma, em condições ordinárias, mediante as faculdades do corpo.

 

Contudo a consideração meramente natural da doença tem de ser completada pela visão sobrenatural da realidade.

 

Embora ao homem não seja permitido provocar a moléstia em seu corpo, o Criador pode fazer que esta o acometa, sem representar desastre na vida do paciente. Ao contrário, permitida pelo Criador, a doença poderá e deverá ser tida como precioso dom de Deus. Com efeito ; Cristo quis remir-nos do pecado e das suas consequências, tirando às misérias humanas o caráter de mera sanção, para torná-las fonte de purificação e união com Deus; a própria doença, por conseguinte, desde que aceita pelo cristão em espírito de fé, vem a ser participação da cruz de Cristo e canal de Redenção. Deve-se mesmo dizer com os mestres da vida espiritual: não costuma haver progresso na vida interior que não esteja ligado de perto a achaques do corpo.

 

Eis a propósito alguns significativos depoimentos:

 

São Paulo da Cruz, o fundador dos clérigos Passionistas, escrevia aos 16 de julho de 1754 à Carmelita Columba Gertrudes Gandolfi:

«Ouvi dizer que sua saúde está debilitada. Creia-me: jamais conheci uma alma que se aplicasse à procura da perfeição e à oração, gozando ao mesmo tempo de plena saúde» (Lettere. Roma 1924, t. 2, 459).

 

O mesmo santo aos 24 de maio de 1768 declarava a outra Religiosa, Mariana Girelli:

«Santidade e saúde nunca foram boas companheiras» (ibd. t. 3, 754).

 

Sta. Teresa de Ávila (+1582), inegável mestra da vida de oração, também podia afirmar:

«Conheço uma pessoa que, desde que começou a receber do Senhor a graça da união, isto é, há quarenta anos, pode assegurar em toda a verdade que ela nunca passou um só dia sem sofrer e sem experimentar outras penas; quero dizer: sem sofrer fisicamente...» (O Castelo interior, 6a. morada c. 1).

 

Faz-se mister frisar: tais afirmações não significam que a doença como tal santifique, mas, sim, que a moléstia, cristãmente aceita, suscita um estado de ânimo (desapego interior, visão mais objetiva. menos egocêntrica da realidade) que de outro modo dificilmente ou nunca poderia ser atingido pela criatura; Deus, não permitindo ao cristão a realização de grandes obras de penitência e apostolado, dá-lhe, não obstante, as graças correspondentes para que faça da moléstia o instrumento de sua mortificação, de sua purificação e, por conseguinte, de fecundo apostolado (através do Corpo Místico de Cristo ou da Comunhão dos Santos).

 

Os justos, por conseguinte, nunca se julgam destroçados na vida por causa de alguma doença; ao contrário, em seu itinerário para Deus sempre previram algo de semelhante, e de antemão propuseram-se servir ao Senhor em meio aos achaques mesmos da natureza. «A guarda da virtude é a moléstia», ensinava S. Gregório Magno, consciente de que a saúde, não acompanhada de mortificação, pode acarretar perigo para o cristão: o perigo do embotamento da consciência (cf. Moralia 19,6). É o que inspirava a seguinte norma do mesmo santo:

 

«Será preciso exortar os doentes a que considerem quão valiosos instrumentos de salvação se podem tornar para o coração os achaques do corpo» (Pastoral I. 2, c. 12).

 

Apraz citar outrossim o testemunho da irmã de Blaise Pascal, que em uma carta datada de 15 de janeiro de 1655 observava:

 

«Não há dúvida, constitui um grande bem termos saúde suficiente a fim de podermos fazer tudo que nos aconselham para curar nossa alma. Não constitui, porém, bem menor recebermos uma penitência da mão de Deus mesmo. Se pertencemos a Ele, sempre estaremos bem, quer vivamos, quer morramos. Não está dito: 'Se alguém, quer vir após Mim, faça obras muito penosas, que exijam grandes esforços', mas '.. .renuncie a si mesmo’. Ora um doente talvez possa renunciar a si melhor do que um homem muito sadio».

 

A mesma escritora refere como Pascal, em sua última doença, respondia aos que se mostravam penalizados com seu estado de saúde:

 

«Pascal não compartilhava essa pena; manifestava-se mesmo receoso de vir a ser curado... 'Conheço o perigo da saúde e as vantagens da doença... Não tenhais pena de mim; a doença é o estado natural do cristão porque o coloca na situação em que sempre deveria estar, isto é, no sofrimento, nas dores, na privação de todos os bens e dos prazeres dos sentidos; ela isenta de todas as paixões, da ambição, da avareza, e põe na expectativa íntima da morte. Não é assim que os cristãos têm que viver a sua vida? Não será então- grande beneficio estarmos por necessidade num estado em que temos obrigação de estar...? Não nos resta outra coisa a fazer, quando doentes, senão submeter-nos humilde e tranquilamente» (Vie de Blaise Pascal, par Mme. Périer, éd. «Grands écrivains» t. 1 Paris- 1923, 109s).

 

É certo que não se devem exagerar as observações acima a ponto de crer que a virtude não possa florescer a par com a saúde do corpo. Apenas se deve incutir que a doença permitida pelo Senhor muitas vezes supre (a título de purificação passiva) a mortificação que as almas (a título de purificação ativa) deveriam realizar, mas, geralmente não têm a coragem de efetuar. — Em todo e qualquer caso, seja por efeito de doença, seja por efeito de suas iniciativas pessoais (fomentadas pela graça), o cristão tem que se purificar das tendências desregradas da natureza.

 

Em conclusão: todo homem deve fazer o possível para conservar ou restaurar a saúde do corpo, instrumento normal de aperfeiçoamento da alma. Dado, porém, que a Providência Divina permita a doença (caso muito frequente), o discípulo de Cristo, longe de se desconsertar, abraçará a moléstia em união com a Cruz do Salvador, a fim de mais decididamente morrer ao velho homem e formar em si a nova criatura (cf. Ef 4,22-24): pela saúde ou pela doença, o que importa é que cada um reproduza a imagem do Cristo Jesus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
4 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)