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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 036  - dezembro 1960

 

DEUS, CAUSA DO PECADO?

DOGMÁTICA

MACHADO (Vitória):Pode-se crer que Deus não tenha culpa alguma nos pecados que os homens cometem?

 

O assunto, em suas linhas gerais, já foi mais de uma vez indiretamente abordado em «P. R.»; assim, ao se tratar do problema do mal, em P. R. 5/1957, qu. 1, ou do inferno em «P. R.» 3/1957, qu. 5.

 

Voltamos, não obstante, ao tema, visto que é constantemente focalizado pela opinião pública. Procuraremos raciocinar sobre tal assunto com rigor, colocando-nos bem acima de qualquer tendência sentimentalista, pois em geral é uma visão sentimental e periférica que provoca dúvidas e perplexidades sobre o problema do mal.

 

A resposta compreenderá três etapas; noção de pecado (§ 1); o pecado e a criatura (§ 2); o pecado e Deus (§1 3 e 4).

 

1. Que é o pecado?

 

1. Logo no limiar do nosso estudo, deveremos desvencilhar-nos de uma concepção errônea muito divulgada, que se torna grave empecilho para a solução do problema.

 

Ao contrário do que geralmente somos inclinados a crer, o mal não é uma entidade positiva, não é um ser propriamente dito, mas carência de ser, e... de ser que deveria existir em tal e tal criatura.

 

A carência pode registrar-se ou na ordem física, isto é, na linha da essência ou da estrutura característica de um ser; tem-se então o mal físico (por exemplo, carência de mãos e pés num indivíduo humano), ou na ordem moral, isto é, na linha da atividade humana comparada com o seu Fim Supremo, Deus; tem-se então o mal moral ou o pecado (falta de conformidade de um ato humano com a sua Regra Suprema, que é a Lei de Deus).

 

Para ilustrar quanto acaba de ser dito, podemos comparar o mal, e em particular o mal moral ou o pecado, às trevas: na estimação comum, estas parecem ser algo de positivo, como sua antítese, a luz, é algo de positivo (energia, ondas, corpúsculos...). Na verdade, porém, as trevas são mera negação, são mera lacuna de luz (ondas ou energia luminosa). Assim o pecado é a carência de orientação positiva que um ato humano deveria ter em relação ao seu Fim Supremo, Deus.

 

Disto se segue que o pecado supõe sempre uma entidade positiva ou uma atividade boa, à qual a lacuna ou a carência sobrevém. Todo e qualquer tipo de mal só pode existir num sujeito ou num suporte, que é bom na medida em que é alguma coisa.

 

Tenha-se em vista, por exemplo, o pecado de furto. Geralmente quem rouba põe em ação seus cabedais de inteligência, forca de vontade, prudência, agilidade do corpo, robustez física, etc.. Cada uma dessas virtualidades de per si é algo de bom, e muito bom; o mal ou o pecado consiste apenas no fato de que a mobilização de todos esses talentos, no latrocínio, carece de conformidade com o Exemplar supremo da conduta humana, que é a Lei de Deus; o exercício da inteligência e da sagacidade, que em si constitui um verdadeiro bem, no ato de furtar não é devidamente rematado; daí dizer-se que o ladrão comete um ato mau ou um pecado. Se o exercício da inteligência e da sagacidade do mesmo indivíduo gozasse de tal complemento que é a conformidade com a Lei de Deus (digamos: se se destinasse ao pagamento de alguma dívida ou à concessão de esmola), o ato assim oriundo seria totalmente bom, seria ato de virtude.

 

2. A hediondez do pecado pode ser percebida à luz mesma da razão natural. Contudo ela só se patenteia em plenitude a quem conhece a Revelação cristã: esta ensina que Deus tudo criou por amor e chamou o homem ao consórcio da vida divina; tolerou, porém, ser repudiado por um ato de revolta dessa criatura bem-amada. O drama da Redenção pela cruz e o sangue, as ofensas feitas a Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ilustram de maneira única a tragédia do pecado «ofensa a Deus». Cf. «P. R.» 6/1957, qu. 2.

 

2. A possibilidade de pecar inerente a toda criatura

 

2.1. Somente Deus, o Ser Absoluto e independente de qualquer outro, é a sua própria regra de vida e de perfeição. Por conseguinte, somente Deus é infalível, impecável por sua própria natureza; para Deus, desviar-se do Exemplar ou da Norma seria desviar-se de Si mesmo, seria simplesmente destruir-se. Ou Deus existe, e existe sem a mínima possibilidade de errar; ou Deus simplesmente não existe.

 

2.2. Justamente o contrário se dá com toda e qualquer criatura. Esta, sendo por definição dependente do Criador, tem a sua Regra Suprema fora de si. E, se a criatura é dotada de livre arbítrio, ela tem por sua natureza mesma a possibilidade de aderir ou não à sua regra suprema de vida. Supor uma criatura livre que seja ao mesmo tempo incapaz de pecar, é supor uma criatura que seja a sua suprema norma de vida, ou uma criatura que seja o próprio Criador — o que vem a ser absurdo ou contraditório.

 

Deus pode não criar seres livres, mas, caso os crie, eles têm que ser falíveis. Exigir que Deus faca uma vontade livre incapaz de falhar (ou incapaz de realizar uma escolha errada) equivale a exigir que Deus faça uma vontade criada que seja a regra mesma de sua conduta,... uma vontade criada portanto acima da qual não haja outro ser ao qual ela seja devedora — o que seria uma vontade criada e, ao mesmo tempo, incriada, algo de relativo e, ao mesmo tempo, algo de absoluto,... verdadeiro absurdo.

 

Numa palavra, é tão impossível a Deus fazer uma criatura impecável por sua natureza mesma quanto impossível é fazer um circulo quadrado (nesses casos, em vez de se dizer que «Deus não pode fazer tal ou tal ente...», melhor se diz que «não pode existir tal ou tal ente...»; cf. S. Tomás, Suma Teológica I 25, 3).

 

2.3. Dizíamos que Deus pode não criar seres livres, mas, caso os crie, eles têm que ser falíveis... Ora, na verdade, Deus quis criar seres livres falíveis. Assim procedendo, o Senhor visava diretamente dar a tais seres uma dignidade própria, ou seja, a capacidade de aderirem espontaneamente (não de maneira impulsiva e cega) à sua Regra Suprema. Essa capacidade, é claro, fica indissoluvelmente associada à possibilidade de se desviarem da mesma Regra Suprema. Contudo, tal possibilidade de desvio, o Criador não a intencionou em si mesma, apenas tolerou-a, visando-a indireta e secundariamente, como algo de inseparável da possibilidade (dignificante para o homem) de aderir livremente ao Supremo Bem.

 

Note-se que Deus, ocasionando indiretamente a possibilidade de que o homem pecasse, de modo nenhum ocasionava o próprio pecado.

 

O «poder pecar» ainda não é «pecar». Pode-se mesmo conceber que a capacidade de pecar nunca se traduza por algum pecado real.

 

«Poder pecar e, na realidade, não pecar», isso supõe, por parte da criatura, um ato grandioso de amor a Deus ou um ato de livre preferência e total entrega ao Supremo Bem. Ora tais atos são tão belos em si e tão caros a Deus que eles, por assim dizer, «justificam» aos olhos do Altíssimo a obra de criar, e de criar seres livres, com todas as consequências que daí possam decorrer.

Vejamos então o que se dá quando a criatura peca.

 

3. Deus e o pecado

 

3.1. Deus, embora fizesse seres por sua natureza mesma falíveis, podia por meios sobrenaturais e gratuitos preservá-los de pecar: Ele o faria, porém, impondo necessidade ao livre arbítrio criado, ou seja, sufocando a prerrogativa característica da criatura humana. Ora o Senhor não quis proceder de tal maneira, pois isso seria pouco digno da Sabedoria Divina. Falando metaforicamente, diríamos: em vez de produzir diretamente frutos já consumados, Deus quis que as criaturas humanas passassem pela fase da planta em flor à demanda do fruto; é, sim, mais condizente com a natureza mesma do fruto «provir da flor» do que «aparecer feito no universo» (no caso, o fruto simboliza a bem-aventurança ou a consumação do ser humano).

 

3.2. Acontece, porém, que, deixando a criatura optar livremente pelo Bem Supremo, Deus de modo nenhum se torna causa de alguma falha ou de algum pecado que a criatura venha a cometer. Com efeito, o pecado é, como dissemos, lacuna ou “carência de ser”; é um não-ser. Ora o não-ser não pode ter causa própria ou direta. Toda causa só age na medida em que é, e, nessa medida mesma, produz entidade. O não-ser só pode ocorrer no efeito, dado que na própria causa haja «ser» mesclado de «não-ser». E a causa em que há «ser» mesclado de «não-ser» só pode ser a criatura, nunca o Criador, pois Este, por definição, é o Ser Absoluto, ao passo que a criatura é o ser oriundo do não-ser e continuamente ameaçado de recair no não-ser.

 

Por conseguinte, em todo pecado distinga-se entre a entidade positiva desse ato (aplicação da inteligência, da vontade, da energia...) e a lacuna ou carência que a essa entidade sobrevém. A entidade positiva tem causa direta, a saber, o próprio agente criado (o ser humano) e, em última análise, Deus, o Autor Supremo de todo ser e de todas as perfeições das criaturas. Quanto à «lacuna» ou «carência», ela só tem causa indireta; e essa causa indireta é exclusivamente a criatura humana que utiliza de maneira falha as suas faculdades, não realizando em termos rematados o efeito que ela devia realizar.

 

Diante do ato falho ou pecaminoso da criatura, Deus fica isento de culpa. Sim; da sua parte, o Senhor dá a todo e qualquer homem os meios necessários (as graças) para proceder corretamente; não o força, porém, a aceitar tais meios. Caso, portanto, a criatura se subtraia ao auxílio divino, ela peca por sua própria e exclusiva culpa. O papel do Senhor Deus em tais casos se pode comparar ao do bom músico que se serve de uma flauta desafinada; por mais que o artista empregue arte e esmero para tirar de tal instrumento uma bela melodia, jamais o conseguirá, não por lhe faltar talento musical, mas unicamente porque o instrumento não está adaptado a receber o influxo belo e perfeito do seu senhor. Assim a criatura mal disposta pode falhar ou pecar sem que Deus, da sua parte, falhe.

 

Ademais, leve-se em conta que todo pecado implica sempre uma aversão a Deus. Ora é impossível que Deus seja causa de aversão ao próprio Deus; Ele fez o homem para Si, e não pode deixar de o atrair continuamente a Si. É impossível, pois, que Deus queira fazer o homem pecar ou que Deus provoque ao pecado.

 

Não obstante, Calvino no séc. XVI julgava que Deus quer o pecado e é, por sua ação direta, causa das culpas humanas:

«O que digo, a ninguém deve parecer estranho: Deus não somente previu a queda do primeiro homem, e nesta a ruína de toda a sua posteridade, mas Ele a quis como tal» (Institution chrétienne 1. III c. 23 n. 7).

«Alguns recorrem à distinção entre vontade e permissão de Deus, asseverando que os iníquos perecem porque Deus o permite, não, porém, porque o queira. Contudo porque diríamos que Ele o permite se não porque Ele o quer?» (ib. n. 8).

«A fim de executar seus desígnios mediante o demônio, que é o ministro da ira divina, Deus orienta o alvitre dos maus como bem Lhe apraz, move a vontade deles e confirma seus esforços» (ib. 1. II .c. 4 n. 3).

 

Não será preciso insistir na incoerência de tais idéias.

 

Verdade é que a S. Escritura em uma ou outra passagem afirma ter Deus endurecido o coração humano (cf. Êx 4,21; 7,3; 14,4; Rom 9,18; Is 6,9s; Jo 12,39s). Nesses trechos a Bíblia serve-se de mero expressionismo semita. O judeu não tinha termos próprios para distinguir entre «causar diretamente» e «permitir»; por isto atribuía diretamente a Deus tudo que de bom e de mau se fazia no mundo. — Na verdade, as mencionadas passagens significam apenas que Deus enviou sinais ou mensagens aos homens, visando convertê-los e atraí-los; essas mensagens, porém, não sendo devidamente aceitas, tornaram-se ocasião de endurecimento e ruína das criaturas obstinadas (dai dizer o semita impropriamente que «Deus endureceu o coração dos homens»). Cf. E. Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento, 2* ed. pág. 155.

 

3.3. Longe de ser causa ou culpado das falhas do homem, Deus aparece, na revelação judaico-cristã, sequioso da salvação humana, excedendo mesmo todos os direitos e expectativas da criatura; impelido por seu Amor, dir-se-ia que «persegue» os pecadores com extremadas solicitações da sua misericórdia.

 

Haja vista, em primeiro lugar, o tema central da mensagem cristã: a Paixão e a morte que o Filho de Deus quis padecer na cruz a fim de transformar a triste sorte do pecador em meio de Redenção e santificação; Ele se assemelhou em tudo aos iníquos, exceto na iniquidade, a fim de que nenhuma das misérias acarretadas pelo primeiro pecado ficasse sendo mera miséria, mas tomasse, antes, um valor de purificação e de volta ao Pai: «Assim amou Deus o mundo a ponto de dar o seu Filho Unigênito, a fim de que todo o que crê nEIe não pereça, mas possua a vida eterna» (Jo 3,16).

 

Antes de iniciar a Paixão redentora, o Filho de Deus inculcou mais de uma vez a imensa misericórdia do Pai celeste para com as criaturas:

«Qual o homem dentre vós que, se um filho lhe pedir pão, lhe apresentará uma pedra? Ou, se pedir um peixe, lhe apresentará uma serpente? Se, portanto, vós, maus como sois, sabeis dar a vossos filhos sòmente as coisas que são boas, quanto mais vosso Pai que está no céu estará pronto a dar boas dádivas àqueles que Lhe pedem!» (Mt 7,9-11).

 

Dir-se-ia que o pecador polariza as misericórdias divinas como o ima atrai as limalhas de ferro; em consequência, Cristo chegava a «escandalizar» alguns dos seus contemporâneos, que Lhe perguntaram: «Porque comes e bebes com os publicanos e pecadores?». Ao que o Senhor respondeu: «Não são os que gozam de boa saúde que precisam de médico, mas, sim, aqueles que estão doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores, à penitência» (Lc 5, 30-32).

 

Merecem menção outrossim as três parábolas referentes à inesgotável misericórdia divina em Lc 15 — a da ovelha perdida, a da moeda perdida, e a do filho pródigo —, dominadas pela declaração: «Eu vo-lo digo: haverá mais alegria no céu por causa de um só pecador que faça penitência do que por noventa e nove justos que não precisam de penitência» (Lc 15,7).

 

Pregado à cruz, o Senhor orou por seus inimigos e perdoou ao ladrão arrependido (cf. Lc 23, 34 . 43).

 

Apesar de tudo, porém, uma questão ainda se faz ouvir: em vez de realizar o grande drama da Redenção, porque não quis o Senhor Deus de antemão evitar o pecado, só criando homens bons?... homens que Ele sabia seriam em tudo fiéis à; vontade divina?

 

É o que passamos a considerar diretamente.

 

4. Porque não quis Deus criar apenas criaturas fiéis?

 

Antes do mais, referimos a quanto já foi dito sobre o assunto em «P. R.» 31/1960, qu. 4.

 

Aqui observaremos que, embora a solução de só criar homens fiéis, fosse exequível, seria artificial e, por conseguinte, pouco condizente com a Sabedoria Divina.

 

Sim, tendo Deus determinado criar flores habilitadas a se tornarem frutos, era normal que Ele aceitasse o «risco» de ver certo número dessas flores (poucas ou muitas; não o sabemos) frustrar a sua finalidade.

 

Uma sóbria ponderação das potencialidades da natureza de uma planta nos leva imediatamente a desistir de querer que toda flor dê fruto... Assim também uma reflexão serena sobre a natureza do homem nos dissuade de esperar que toda vontade livre opte sempre pelo mesmo alvitre ou pela fidelidade à graça, sem exercer a possibilidade oposta (de contradizer à graça); em ambos os casos esperaríamos algo de pouco natural, quase algo de contraditório. O Criador, portanto, produzindo um gênero humano que só quisesse o bem, embora pudesse também querer o mal, teria feito algo de pouco consentâneo com a natureza do homem como tal — o que não seria digno da Sabedoria Divina.

 

Eis a razão pela qual Deus permite haver falhas e pecados no mundo. Há, porém, nessa ordem de coisas agora vigente uma grandeza não menos estimável do que a grandeza de um mundo sem pecado. Sim, S. Agostinho e, depois dele, S. Tomás formularam famoso axioma: «Deus jamais permitiria que algum mal existisse em suas obras, se Ele não fosse bastante poderoso é bom para tirar do próprio mal o bem» (Enchiridion ll; S. Teol. I, qu. 2, a. 3 ad 1).

 

Eis a marca de Deus no mundo e na história: embora cada criatura configure livremente o seu currículo de vida, a Providência Divina utiliza o procedimento de todas em vista de uma só finalidade suprema, à qual ninguém escapa e que consiste em proclamar o Bem Infinito ou dar glória a Deus: assim o pecado de Adão tornou-se o fundo ao qual sobreveio a Redenção...; a incredulidade dos judeus veio a ser a ocasião para que Deus empreendesse a «loucura da cruz» (cf. 1 Cor 1,23) a fim de salvar os homens (a cruz de Cristo é o mais eloquente testemunho de quanto Deus está longe de ser indiferente à miséria humana); por fim, no dia do juízo final também os réprobos afirmarão a Bondade de Deus em uníssono com os justos, embora uns e outros tenham tomado posições diferentes (à esquerda e à direita) em relação a Cristo; cf. «P. R.» 31/1960, qu. 4.

 

Portanto, se Deus permite o pecado no mundo (para não violentar a liberdade da criatura), de antemão Ele assegura a utilização do próprio pecado para a realização de um plano salvífico sumamente sábio e bom. É o que leva S. Tomás a dizer que na raiz de toda e qualquer obra de Deus está a misericórdia; esta é a grande inspiradora e motriz da ação divina neste mundo (S. Teol. I qu. 21 a. 4).

 

À guisa de conclusão, sejam aqui citadas as oportunas palavras de Jacques Maritain:

«Deus não inventou o mal moral e o pecado. Não foi Ele quem concebeu a idéia de tantas nódoas e abominações (morais); não foi Ele quem concebeu os escarros desprezíveis lançados à Sua Face, as traições, os atos de luxúria, crueldade, covardia, maldade bestial,... as depravações do espírito que as suas criaturas contemplam. Tais coisas tiveram origem unicamente na deficiência da liberdade humana; deste abismo é que elas procedem. Ele as permite, pois são produtos do nosso poder de ‘produzir o nada’.

Ele as permite porque é bastante forte, conforme a palavra de S. Agostinho, para fazer redundar em maior bem todo o mal que queiramos introduzir no mundo... O homem de fé, por ter uma noção pálida das proporções desse bem maior e por se maravilhar a respeito delas, avalia qual possa ser a importância do mal que um tal bem maior há de recobrir sobejamente...

Já que a maldade de todo ato livre é produção nossa, Deus deixa que os nossos atos monstruosos se proliferem até as últimas consequências... para que a liberdade divina manifeste finalmente a sua sublime onipotência, tirando do próprio mal o bem maior que Ela tem em vista» (Court Traité de 1'existence et de l'existant 191-3).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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