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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 036  - dezembro 1960

 

A IGREJA ROMANA

LORENZI (São Paulo): O amigo pergunta se o título de "Igreja Romana" constitui uma das características essenciais da Igreja de Cristo.

 

A Igreja de Cristo ou a Igreja Católica (universal) tem entre as suas características essenciais o fato de estar fundada, por desígnio divino mesmo (cf. Mt 16, 17-19), sobre um alicerce visível, que é Pedro (o qual, como se compreende, é sustentado, por sua vez, pelo próprio Cristo, fundamento invisível da Igreja ; cf. 1 Cor 3,11).

 

Em consequência, a Igreja de Cristo é necessariamente petrina.

 

1. Pergunta-se agora: Pedro onde terá estabelecido a sua sede de pastor de almas?

 

Fixou-a em Roma. É o que a tradição incute por meio de inscrições arqueológicas e textos literários, desde o primeiro século da Igreja até hoje. É também o que corroboram as recentes escavações levadas a efeito em Roma no local apontado como "túmulo de São Pedro" (os documentos da Tradição e os resultados da arqueologia contemporânea já foram analisados em "P.R." 13/1959, qu. 2-4 e 14/1959, qu. 3). Torna-se assim bem compreensível que a Igreja de Cristo, a qual é Igreja petrina, seja também Igreja Romana.

 

A Igreja é, sim, Igreja Romana porque a função de alicerce visível, confiada primeiramente a Pedro, não se pode ter extinto com a morte deste Apóstolo; em tal caso, o edifício visível da Igreja teria ficado sem o respectivo fundamento, haveria então perdido a sua consistência, teria desmoronado... Por conseguinte, a missão de fundamento visível se transmitiu e vai transmitindo aos sucessores de Pedro na cátedra de Roma, fazendo que se perpetue a expressão "Igreja Católica Romana".

 

Como se vê, o título de "Romana" não tem que ver com nacionalismo nem com preponderância partidária dentro da Igreja Santa; a sua origem está nas próprias notas constitutivas da Igreja que Cristo fundou. É claro que essa característica ("Romana") não constitui algo que de antemão, anteriormente ao estudo da história, se pudesse prever como nota inerente e essencial da Igreja de Cristo. Tal nota depende, antes, de um livre e positivo desígnio da Sabedoria Divina, a qual poderia ter disposto de outro modo o curso dos acontecimentos da história, mas na realidade não o dispôs de outro modo... — A Providência podia, sim, ter feito que Pedro fixasse finalmente sua Sé episcopal em Antioquia, em Jerusalém ou em Alexandria. Em tais casos, a única Igreja de Cristo, sendo sempre petrina, ficaria sendo consequentemente "antioquena", "jerosolimitana" ou "alexandrina" ; na verdade, porém, Ela é "romana", porque o Espírito Santo, que de modo especial guiou os Apóstolos na propagação do Evangelho, dirigiu definitivamente os passos de Pedro para Roma.

 

2. Passemos agora a um aspecto secundário da questão, aspecto a propósito do qual fica a cada fiel a liberdade de opinar.

 

a) Os mais abalizados teólogos afirmam que o sucessor de São Pedro na chefia da Igreja universal (ou seja, o Santo Padre o Papa) deverá sempre conservar o título e as atribuições de bispo de Roma. Por motivos acidentais ou extraordinários, porém, poderá acontecer que não resida em Roma. Foi, aliás, o que se deu na Idade Média, de 1305 a 1376, durante o chamado "exílio de Avinhão": os Papas, detendo o seu cargo de bispos de Roma e pastores da Igreja universal, residiram então na cidade francesa de Avinhão.

 

Em termos técnicos, essa sentença ensina : não pode haver mudança de sede, mas pode haver mudança de residência do Papado ; onde quer que residam, os Papas ficarão sendo sempre os bispos de Roma. Caso a cidade de Roma venha um dia a ser destruída, os sucessores de Pedro ficarão sendo por direito os bispos de Roma ; só deixariam de o ser na realidade pelo fato de haver sido destruída a cidade.

 

b) Ao lado dos teólogos que assim pensam, existe pequeno grupo, menos abalizado, ao qual se deve a seguinte opinião: se um dia a sede episcopal de Roma desaparecer (por ruína da cidade ou invasão de agentes do Anticristo), o Papa deixará, por direito mesmo, de ser bispo de Roma, podendo então ficar sem sede episcopal própria ou escolher outra.

 

Em última análise, a divergência entre as duas sentenças é sutil e de pouca importância atual.

 

Na ordem de coisas agora vigente, os princípios acima expostos levam qualquer fiel cristão a proclamar, de acordo aliás com uma declaração do "Syllabus" de Pio IX (1864), que "nunca um decreto de concílio universal ou a vontade comum dos povos poderá transferir o Sumo Pontificado, inerente ao bispo e à cidade de Roma, para outro bispo e outra cidade" (cf. Denzinger, Enchiridion 1735). Segundo a sentença mais comum, deve-se mesmo dizer que nem ao próprio Papa seria lícito separar da sé de Roma as funções de Supremo Pastor da Igreja (cf. L. Billot, De Ecclesia Christi 591 ; Ch. Journet, L'Église du Verbe Incarné I. Paris 1941, 527).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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