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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 037 - janeiro 1961

 

LAVAGEM CEREBRAL

CIÊNCIA E RELIGIÃO

FIGUEIREDO (Mineiros, Goiás): «Em que consiste a chamada lavagem de crânio, tão frequente nos países da Cortina de Ferro?»

 

A expressão «lavagem de crânio» (ou lavagem de cérebro ou limpeza da mente ou lavagem cerebral ou reforma do pensamento) entrou no vocabulário moderno no fim da última guerra mundial; parece ser a tradução do termo chinês «Hsi-Nao». Designa a aplicação de uma série de recursos da medicina e da psicologia que visam influir no comportamento de uma pessoa a ponto de mudar (ou, como dizem, «limpar, lavar») por completo o modo de falar e agir de tal pessoa (a pessoa no caso é simbolizada por «crânio» ou «cérebro» ou «mente»). Em consequência de uma dessas lavagens de crânio, quem, por exemplo, sempre foi infenso ao sistema marxista, faz declarações entusiastas em favor do comunismo, denuncia os colegas «anti-esquerdistas», «reconhece» haver cometido delitos contra o regime vigente; numa palavra: desdiz totalmente seus hábitos e suas afirmações de outrora (haja vista o que se deu com o Cardeal Mindszenty, com o ministro Lavrenti Beria...). — Por isto, há quem proponha para tal técnica o nome, certamente mais fiel, de «menticídio».

 

Tal fenômeno nos interessa aqui na medida em que constitui uma manifestação requintada de ciência e técnica humanas, associadas à hipocrisia sádica, a fim de servir ao ódio, à mentira e à deturpação da personalidade. Toda a grandeza da criatura parece assim empenhada em contrariar ao Criador e às leis do Criador — o que é «satânico».

Abaixo estudaremos os fundamentos científicos da «lavagem cerebral»; a seguir, descreveremos os seus procedimentos mais comuns.

 

1. Os fundamentos científicos

 

Já em «P. R.» 5/1958, qu. 6, lembramos que a inteligência e a vontade, faculdades características da alma humana, necessitam, para agir, do concurso do corpo e, em particular, do cérebro. O cérebro vem a ser quase a «central telefônica» onde as impressões captadas pelos sentidos externos e pelo sistema nervoso em geral são colecionadas e ulteriormente transmitidas à inteligência, a fim de que esta distinga o essencial do acidental, formule definições, avalie as proporções entre meios e fins, etc.

 

Daí a grande importância que tem a saúde ou o funcionamento normal do cérebro para as manifestações da inteligência e da vontade do respectivo sujeito... Ora, conscientes disto, médicos e psicólogos modernos têm concebido métodos esmerados que conseguem influir no sistema nervoso e, por conseguinte, no cérebro de um paciente de modo tal que este produza manifestações da inteligência e da vontade bem diversas das que ele antes produzia. Tais métodos consistem ora em paralisar, por inteiro ou em parte, uma determinada função do sistema nervoso ou do cérebro, ora em canalizar essa função a fim de que ela reaja sempre do mesmo modo.

 

A lavagem cerebral utiliza muito particularmente as descobertas do fisiologista russo, pai da medicina córtico-visceral, Ivan Petrovitch Pavlov, sobre os chamados «reflexos adquiridos» ou «condicionados»: por cerca do ano de 1929, Pavlov averiguou, sim, que certos estímulos ou agentes extrínsecos podem provocar ou condicionar reflexos (isto é, reações inconscientes) tão arraigados em determinado sujeito que este passa a reagir de tal modo (mesmo fora de propósito e em circunstâncias ridículas) todas as vezes que seja atingido por tal ou tal estímulo...

 

Uma das experiências mais significativas realizadas por Pavlov versava sobre um cão e uma campainha. —.Sempre que se levava o alimento a um cão, Pavlov mandava tocar uma campainha; depois de assim haver feito numerosíssimas vezes, o cientista mandou tocar a campainha, mas nada dar de comer ao animal por essa ocasião. Observou então estranho fenômeno: o cão, acostumado a comer logo após ouvir a campainha, conservou o hábito de salivar abundantemente a boca ao som da campainha, mesmo quando já não lhe serviam comida. O animal ficou destarte «condicionado» (como se diz em linguagem técnica) a responder ao som da campainha como se este som tivesse o odor e o sabor de alimento. — Pavlov verificou ainda que outros estímulos, repetidamente aplicados ao mesmo animal, provocavam reações ou, como se diz, «reflexos» ainda mais complicados.

 

Ora, de experiência em experiência, os cientistas descobriram que também o homem é capaz de adquirir reflexos condicionados inconscientes; o que quer dizer: é capaz de contrair certos hábitos e tomar atitudes marcantes (por palavras ou gestos) mediante a influência de fatores mecânicos devidamente concebidos pelos psicólogos e médicos.

 

Esta capacidade do homem não significa que ele seja mera máquina, cujo funcionamento se deva a fatores puramente mecânicos. — Mesmo quem age por efeito de reflexos condicionados, isto é, indeliberada ou cegamente, possui inteligência capaz de refletir, assim como vontade dotada de livre arbítrio; em outras palavras: possui alma espiritual, alma que transcende a matéria. Contudo os agentes mecânicos, desviando de maneira forte o funcionamento normal do sistema nervoso e dos aparelhos sensitivo e vegetativo que deveriam colaborar com a alma espiritual, fazem que o respectivo sujeito já não possa manifestar as riquezas (isto é, as capacidades de deliberar, de dizer «sim» ou «não») de sua alma espiritual. Daí parecer que o homem, marcado por reflexos condicionados, não passe de um conjunto de elementos mecânicos. A aparência, porém, engana... Todo homem possui alma espiritual, que é imortal e nele permanece até a dissolução do corpo; contudo o Criador fez a alma humana de modo tal que as suas atividades características ficam sempre dependentes das funções do corpo (funções estas naturalmente sujeitas à influência de agentes corpóreos extrínsecos).

 

No homem, a capacidade de adquirir reflexos condicionados pode ser utilizada para remediar a situações doentias e comportamentos moralmente viciados da personalidade humana. Ela pode, porém, ser explorada para o mal, ou seja, para esmagar e destruir a personalidade. É isto justamente o que fazem os «limpadores de crânio» nos países totalitários (comunistas e nacional-socialistas).

 

A técnica longa e complexa da «lavagem» conserva até agora índole um tanto misteriosa; as declarações das respectivas vítimas parecem, a certos peritos, tendenciosas, não merecedoras de pleno crédito.

 

Como quer que seja, pode-se reconstituir o curso geral de um processo de limpeza de crânio nos termos que vão abaixo delineados (publicação da revista «Science et Vie» CXIII 489 [junho de 1958] 32-37).

 

2. Gomo se desenvolve o procedimento

 

São três horas da madrugada. Um marido e pai de família, André W., dorme, quando repentinamente quatro holofotes, a projetar luz fortíssima sobre as suas pálpebras, o despertam sobressaltado. Ao abrir os olhos, avista quatro homens dissimulados sob máscaras, que lhe cercam o leito e o intimam friamente a se vestir a fim de os acompanhar.

 

Qualquer pergunta e qualquer tentativa de resistência da parte de André são baldadas. Não lhe resta senão obedecer sem saber porque (podia ter sido ainda mais infeliz, pois outros foram despertados mediante veementes bofetões). Uma vez trajado, vê-se ele bruscamente levado para dentro de um carro, onde o fazem sentar entre dois guardas; deixa a casa sem nada levar consigo... Sem demora, o veículo desenvolve alta velocidade em demanda de um objetivo desconhecido; inútil é questionar a comitiva.

 

Pouco mais tarde, André, olhando em torno de si, vê-se encerrado em um cubículo de prisão. Mandam-lhe que troque de vestes, tomando trajes já usados por dezenas de infelizes antes dele. Essas vestes apresentam uma particularidade aparentemente secundária: não têm botões; basta isto, porém, para provocar uma situação estranhíssima: André terá que ficar continuamente sentado ou, todas as vezes que se quiser erguer, deverá fazer o papel ridículo de segurar as calças com as mãos.

 

Apenas dois orifícios perfuram esse cubículo de cimento: uma boca para a entrada do ar, e uma viseira na porta, através da qual dois olhos, de dez em dez minutos, controlam qualquer atitude do prisioneiro. A iluminação é fornecida por uma lâmpada elétrica que «pisca» em ritmo regular, produzindo luz ora vermelha, ora amarela; André pergunta ao vigia porque a iluminação é tão anômala; após a centésima interrogação, respondem-lhe que a instalação elétrica «está com defeito»; é, porém, um «defeito» apto a tornar louco o paciente!

 

Aliás, tudo que se vai sucedendo nesse cubículo, é apto a gerar a loucura: André não pode ver a luz natural, mas também não tem relógio, de modo que nunca sabe ao certo que horas são; assim as noções básicas de «dia» e «noite» para ele se vão esvanecendo. Quando saiu de casa, a esposa e os filhos estavam para voltar das férias, ela esperando mais um «nenezinho»; «que susto não terá ela experimentado?», pergunta constantemente o prisioneiro de si para si. Não sabe por que nem por quanto tempo se acha na situação presente. Todo contato com o mundo externo lhe é peremptoriamente vedado; esse isolamento absoluto tende a desarraigar André e a subtrair-lhe os pontos cardeais segundo os quais a sua personalidade se orientava antigamente.

 

Dentro do cubículo, durante meses a fio verificam-se fenômenos intrigantes, de índole aparentemente inofensiva ou casual, mas na realidade todos premeditados e desencadeados de modo a desconsertar cada vez mais o paciente. Por exemplo, frequentemente dirigem-lhe a questão: «És realmente André W. ... ?». Fazem-lhe ouvir discos que imitam a sua voz, em tom de sussurro, de modo que André é levado a confundir vozes reais e a voz do íntimo da sua consciência em solilóquio. Um dia, a refeição principal consta de um osso apenas, como se nada mais houvera na cozinha; há ocasiões em que os olhos do carcereiro ficam fixos a espreitá-lo incessantemente durante uma hora, a ponto tal que o encarcerado começa a duvidar da realidade da sua própria visão. O piscar sistemático da lâmpada, o fato de ter que segurar as calças nas mãos sempre que se levante, ainda contribuem para dar à vítima a impressão de que está vivendo num mundo novo, mundo em que tudo é absurdo. Nem sequer lhe permitem dormir um pouco a fim de esquecer a triste realidade em que se acha! Destarte o sistema nervoso de André se vai esgotando; cedo ou tarde poderá parecer-lhe que o preto se tornou branco, e que o branco «virou» preto...

 

Finalmente, nesse estado de extrema debilidade e vacilação mental o prisioneiro recebe certo dia a visita de um homem... Virá para conversar? — O estranho, munido de capacete de aço, começa a interrogar...; mas que coisas absurdas não pergunta ele!? Mostra-se, além disto, brutal: esbofeteia, aplica o choque elétrico mediante pinças fixas às partes mais sensíveis do corpo, e durante quarenta e oito horas contínuas intima-o periòdicamente: «Confessa! Confessa! Confessa!».

 

Após três visitas desse tipo, o complexo do medo está implantado na maioria dos homens corajosos; a vítima perde todo senso de crítica e de resistência, assemelhando-se a um animal medroso!

Alguns pacientes, de temperamento fraco, após tais tratamentos, se tornam totalmente maleáveis nas mãos de seus carrascos. Confessam tudo que se lhes sugira, mesmo as coisas que eles reconhecem como falsas.

 

Durante a guerra da Coréia, um oficial da marinha norte-americana, Frank Schwable, submetido à lavagem cerebral em prisão chinesa, acabou por assinar a confissão de que os Estados Unidos faziam a guerra bacteriológica; mais tarde, porém, de volta à pátria, Frank declarou: «Ao redigir tal documento, sabia perfeitamente que a declaração era falsa, mas não podia resistir».

 

Admita-se contudo que o «réu» ainda queira contradizer aos seus acusadores, mesmo após tais maus tratos. Começa então um segundo grau de «lavagem» ou de «extorsão». — Outro visitante o vai procurar no cárcere:... alguém que, desta vez, o parece deixar à vontade e confiante; é um operário, no caso do prisioneiro ser um operário, ou então um militar, um intelectual, uma mulher, um jovem ou um ancião, de acordo com a identidade do «réu». Usa de voz branda, atitudes calmas, a fim de explorar a situação psicológica do paciente: este, vendo-se no extremo abandono, mil vezes hostilizado, tende a se deixar cativar espiritualmente pela primeira pessoa que se lhe mostre benigna. Consciente disto, o «benévolo» visitante põe-se a aconselhar: «Não tens esperança de escapar, caso não confesses. Confessa, e recuperarás teu regime de vida normal, com tua esposa e teus filhos». Essas palavras, de teor aparentemente tão amigo, não podem deixar de impressionar e mesmo desconsertar a quem só espera maus tratos. A vítima então, já muito debilitada física e moralmente, desarmada como «criança, facilmente se entrega confiante, ou mesmo sentimentalmente, ao conselheiro... E confessa tudo, chegando a inventar a narrativa de faltas que lhe sejam sugeridas pelos acusadores.

 

O conselheiro aproveita-se da situação para fazer um exame juntamente com a vitima:

«Nunca disseste tal ou tal coisa?»

           «É possível... creio que sim,... Ah, agora lembro-me: disse-o!».

           «Serias capaz de o confessar em público?»

           «Sim; hei de confessá-lo!»

           «É o melhor. A verdade tem que ser dita. Levarão em conta a tua declaração espontânea».

 

Assim se processa a autocrítica, muito explorada por ocasião dos «expurgas stalinianos» empreendidos pelo governo russo após a morte de Stalin. Muitas vezes a autocrítica se efetua numa atmosfera de «delírio místico» em que a vítima é estimulada a se penitenciar e sacrificar em prol dos «interesses da coletividade», chegando mesmo a aceitar como graça ditosa a pena capital!

 

Dado, porém, que o segundo grau de «lavagem cerebral», assim descrito, não produza todos os efeitos desejados, os técnicos conhecem mais um recurso, que constitui o terceiro grau, de todo irresistível. Utilizam dessa vez táticas não propriamente psicológicas, mas fisiológicas e violentas: aplicam, sim, ao paciente injeções de insulina e séries de choques elétricos. A insulina queima a glicose do organismo, glicose indispensável para que o cérebro possa controlar as suas percepções; assim o cérebro fica exposto a receber, sem defesa, nem capacidade de discernimento, todas as palavras e imagens sugestivas que se incutam à vítima. Os choques elétricos, por sua vez, acabam de destruir qualquer vestígio de resistência. Destarte se destrói a antiga personalidade moral do indivíduo, e outra, nova, lhe poda ser impingida, feita segundo a medida dos «lavadores de crânio». Como dizem, essa nova personalidade moral é extremamente tenaz e desapiedada; a vítima doravante é um autômato sem identidade, «teleguiado» até a morte.

 

Como se compreende, os resultados obtidos pelos recursos da «lavagem» dependem, em parte, do temperamento do paciente: pessoa colérica reage aos choques mais rapidamente do que pessoa sanguínea; quem toca o senso prático da realidade, resiste melhor do que um sonhador isolado do mundo em que vive. Conscientes dessas particularidades, os limpadores de crânio tendem a produzir em torno do povo uma atmosfera de entusiasmo ou delírio coletivo; em vista disto, costumam promover vultuosas concentrações de massas, em que longos discursos, espetáculos e demonstrações de esporte ou de força bruta, holofotes e gritos apoteóticos marcam profundamente a mentalidade dos participantes.

 

Quem respira dentro de tal atmosfera, dificilmente se subtrai à sua influência nefasta. A resistência à ação dos limpadores de crânio tem que ser empreendida já a longa distância. O conhecimento dos artifícios que eles empregam, certamente ajuda o indivíduo a desmascará-los e a imunizar-se psicologicamente contra eles. Além disto, para que alguém lhes possa resistir, torna-se necessário que viva da maneira mais coerente possível com sua consciência, isento de conflitos internos, de paixões obscecantes, procurando dominar em tudo os impulsos e as reações de sua sensibilidade. Está claro que um tal nível de vida só poderá ser adequadamente atingido com o auxilio da graça de Deus, ou seja, mediante um procedimento cristão que, removendo toda languidez e rotina de ânimo, utilize em grau máximo os dons que Deus dá a cada um de seus filhos para que se torne «sal da terra e luz do mundo» (cf. Mt 5,13s).

 

Em conclusão: a tática da «limpeza de crânio» que ameaça os mais inocentes dos cidadãos de qualquer país, não deixa abatido o cristão. Este, longe de se entristecer com a notícia, procurará, em resposta à mesma, ser mais integralmente cumpridor de seus deveres de bom cristão; procurará viver mais perfeitamente a sua vida de filho de Deus na Sta. Igreja. Os tempos presentes impõem a todo indivíduo o dilema inelutável: ou viver 100% a serviço de uma grande causa (a causa de Cristo) ou «ir na onda», ser arrastado, despersonalizado e sufocado. Não são possíveis atitudes amorfas ou ambíguas; quem não queira ser coerente com seus princípios, é degradado da sua dignidade humana e perece na onda do mal!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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