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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 039 - março 1961

 

A RELIGIÃO na PRÉ-HISTÓRIA

CIÊNCIA E RELIGIÃO

CONSTANTINO (Belo Horizonte): «Pode-se crer que o homem da pré-história, rude como era, tenha tido consciência de uma realidade transcendente (Deus, a alma humana...) e, em particular, tenha possuído algum senso religioso

 

Antes do mais, em nossa resposta impõe-se breve explanação do que se entende por «pré-história».

«Pré-história» vem a ser a fase da existência do homem anterior aos primeiros documentos escritos que possuímos; só a podemos conhecer através de detritos (ossos e utensílios) fossilizados no seio da terra ou em cavernas. A conservação de tais detritos era naturalmente esporádica, sempre dependente das circunstâncias do respectivo ambiente (ar, umidade, chuvas, invasões de animais e homens, etc.); daí a índole relativamente lacônica dos fósseis da pré-história. Em consequência, torna-se difícil reconstituir com precisão os caracteres e o gênero de vida das populações pré-históricas; muitos traços, principalmente os que se referem ao psíquico ou ao íntimo do homem das cavernas, nos devem ficar para sempre ocultos.

 

Faz-se mister notar outrossim que, além de ser relativamente lacônica, a ciência da pré-história não pode pretender atingir o limiar da existência do homem sobre a terra; nos fósseis, não se espera encontrar algum sinal que caracterize o primeiro dentre os primeiros homens; pode-se admitir que esse primeiro pai tenha existido há uns 600.000 anos atrás, sem que daí surja conflito com a S. Escritura (cf. «P. R.» 17/1959, qu. 5). Ora o fato de que o primeiro homem nos é praticamente inatingível acresce as dificuldades de se saber exatamente como pensavam e viviam as mais antigas gerações humanas.

 

Como quer que seja, procuraremos rapidamente sondar o que, neste vasto setor de pesquisas, se oferece ao estudioso, percorrendo as seguintes etapas: 1) o quadro de vida do homem da pré-história; 2) suas manifestações religiosas; 3) considerações finais.

 

1. O quadro de vida dos mais antigos homens

 

A pré-história, abrangendo um período que vai aproximadamente do ano 600.000 ao ano 5.000 a.C., é dividida em fases caracterizadas pelo tipo de cultura então vigente entre os homens. Consequentemente distinguem-se:

 

- a idade da pedra ou lítica, com suas subdivisões: a idade da pedra bruta (paleolítica) e a da pedra lascada ou polida (neolítica);

- a idade do metal (cobre, bronze, ferro).

 

Tentemos reconstituir as circunstâncias da vida humana na época paleolítica mais antiga ou inferior.

Os homens levavam então existência nômade, ou seja, habitualmente peregrina; agrupados em pequenas hordes, a fim de assegurar ajuda e defesa mútuas, seguiam geralmente os cursos dos rios ou das costas marítimas; as altas montanhas e as cordilheiras constituíam para eles barreiras intransponíveis.

 

A alimentação era-lhes fornecida pela flora e a fauna do ambiente em que se achavam. Eram caçadores primitivos (de grandes e pequenos mamíferos, aves, peixes, moluscos...) e coletores de frutas, folhas, raízes, bulbos, não sabendo cultivar industriosamente o solo nem domesticar os animais; viam-se, por conseguinte, obrigados a emigrar desde que a natureza não lhes oferecesse mais os necessários recursos de subsistência. Postos em marcha, os pequenos grupos passavam as noites no local mesmo em que o pôr do sol os surpreendia, procurando o melhor abrigo que as matas ou as cavernas rochosas lhes proporcionassem; em tais abrigos estabeleciam às vezes um acampamento provisório que lhes servia para descanso mais demorado; ramos de árvores, fincados no solo e entrelaçados uns nos outros forneciam proteção contra o vento, a chuva e outras intempéries do clima ; durante a noite, acendiam o fogo a fim de manter os animais selvagens à distância.

 

Os destroços de cultura humana do paleolítico inferior foram encontrados com especial frequência em antigos terrenos lacustres ou fluviais, ou seja, em terraços de lama e areia; donde se depreende que as hordes antigas se estabeleciam de preferência junto às águas (de lagos ou rios), possivelmente aproveitando os meandros e promontórios, a fim de se beneficiar tanto do abrigo natural como da facilidade da pesca e da frequência de animais de caça que iam beber em tais lugares; ademais era no leito dos rios, principalmente nas sinuosidades respectivas, que os antigos homens podiam encontrar, em maior abundância, pedras e cascalhos de tipos diversos para sua indústria rudimentar; a seleção perspicaz que os primitivos faziam entre as numerosas pedras que se lhes ofereciam (preferindo o sílex e o quartzo) é prova de que percebiam as relações entre meios e fins, possuindo consequentemente uma inteligência prática alertada. Quando se demoravam em cavernas, era geralmente na abertura destas que os primitivos estabeleciam mansão, a fim de se beneficiar da luz do dia, e evitar os males provenientes da umidade assim como do difícil escoamento da fumaça do fogo.

 

A caça devia dirigir-se com particular afinco contra os animais ferozes (panteras, hienas, lobos...). Além de manejar armas primitivas (pedras e ossos, bastões...), os homens da pré-história recorriam com frequência às armadilhas. Estas eram cavadas à margem dos roteiros mais percorridos pelos animais, junto às fontes e aos bebedouros e em outros lugares estratégicos; recobria-as uma camada de folhagem, terra, estêrco... O animal desprevenido caia na cova, ferindo-se muitas vezes mortalmente; debatia-se então para sair, mas geralmente em vão, de modo que parava extenuado; a essa altura sobrevinha o caçador, que desferia as pedradas finais ou sufocava a presa com densa fumaça, caso não a quisesse deixar morrer lentamente em consequência das suas contusões ou da fome. Para apoderar-se dos animais que costumavam passar os dias em profundas covas (como o urso e o leão das cavernas), era preciso não raro asfixiá-los em suas próprias mansões mediante a fumaça de possantes fogueiras acesas à entrada dos esconderijos. Nem eram poupados os animais de corrida muito veloz (veados e cavalos selvagens...); o homem pré-histórico sabia acometê-los de surpresa, deixando-se ficar durante horas e horas prostrado por terra à espreita dos mesmos; encontraram-se exemplares dos dardos e globos de pedra então arremessados.

 

Quanto à colheita de frutas silvestres, folhas e raízes, era geralmente confiada às mulheres e crianças.

O fogo se obtinha por fricção mútua de dois pedaços de madeira ou por meio de um pilão movido à mão.

A cerâmica era ignorada pelo homem paleolítico. Vasilhas de barro, dada a sua fragilidade, teriam sido de exígua utilidade para o nômade. Este, à guisa de recipientes, usava crânios de animais, conchas, talvez também vasos de madeira e odres de couro.

 

A respeito do estado sanitário da época, indícios escassos, mas interessantes, têm sido colhidos. A vida humana devia durar pouco, raramente ultrapassando os quarenta anos de idade; a mortandade infantil era muito frequente, mais precoce no sexo feminino do que no sexo masculino. O reumatismo era um mal muito generalizado, ao passo que não se conhecia cárie dentária.

 

Eis algumas linhas gerais do que se presume tenha sido o quadro de existência do homem em sua primeira fase sobre a terra. Interessa agora averiguar se tal vivente possuía realmente o senso religioso ou a crença em Deus.

 

2. Manifestações religiosas

 

a) O homem de Pequim.

O primeiro tipo humano pré-histórico de maior importância é o «Sinântropo», cujos vestígios foram encontrados na gruta de Chou-Kou-Tien a 50 km de Pequim (China), permitindo-nos reconstituir uma população de trinta indivíduos (adultos e crianças). O sinântropo apresenta caracteres muito primitivos, tais como volumosa viseira (proeminência dos ossos superiores da cavidade ocular), crânio alongado e achatado, testa quase nula, falta de queixo, capacidade craniana aproximada de 1000 cm3. Em vista de tão rude índole, não poucos autores recusaram-se a considerar os fósseis de Pequim como pertencentes a verdadeiros homens. — Prevalece, porém, hoje em dia a sentença afirmativa; e isto, por três motivos:

1) o sinântropo sabia produzir e entreter o fogo (arte esta que nenhum vivente infra-humano pratica); encontraram-se, com efeito, junto às ossadas pedaços de carvão, depósitos de cinzas, pedras manchadas por fumaça, ossos calcinados.

2) O sinântropo utilizava instrumentos devidamente talhados em vista de determinado objetivo; o que quer dizer: apreendia as proporções vigentes entre meio e fim ; consequentemente, inventava... Ora a capacidade de inventar supõe abstração de notas concretas e percepção de relações que ligam diversos valores entre si; muito difere do instinto do animal, que geralmente «acerta», mas acerta sem perceber o «porque» da sua atividade e sem se poder aprimorar.

Assim foram recolhidos perto de 2000 pedaços de quartzo talhado segundo técnica precisa; encontraram-se outrossim longos ossos transformados em utensílios, assim como chifres de animais convertidos em punhais.

3) Além disto — o que é muito importante —, o homem de Pequim revela um certo culto de valores superiores, principalmente perante os mistérios da morte ou do Além (esta terceira nota, aliás, está geralmente associada na pré-história ao uso do fogo e à confecção de instrumentos).

 

Assim é que na gruta de Chou-Kou-Tien se acharam diversos ossos de animais fragmentados. Ao contrário, os restos humanos consistem apenas em crânios e mandíbulas correspondentes a doze adultos, dez crianças e dois adolescentes; em alguns crânios o orifício occipital foi artificialmente alargado, a fim de melhor se extrair o cérebro (a quanto parece)... Ora estes vestígios se correlacionam com ritos funerários praticados por povos primitivos da própria era histórica; com efeito, atestam a inumação dita «a dois degraus»: primeiramente, tais primitivos sepultavam os cadáveres no seio da terra segundo um cerimonial respeitoso; uma vez putrefeitas as carnes, recolhiam os crânios e extraiam os respectivos cérebros. Quanto ao destino que a estes davam, discordam os paleontologistas; há quem pense que ofereciam o cérebro, uma das partes mais importantes do corpo humano, em sacrifício a uma Divindade; há também quem julgue (talvez com mais probabilidade) que o cérebro era consumido pelos sobreviventes a fim de assimilarem a si as qualidades do falecido. Como quer que seja, segundo os intérpretes, os crânios da gruta de Chou-Kou-Tien indicam que o homem pequinense possuía o senso do mistério, do transcendente, assim como uma atitude religiosa correspondente. Observa Gabriel de Mortillet: «Uma das primeiras manifestações das ideias religiosas é a prática de ritos funerários» (citado por Bergounioux-Glory, Les premiers hommes, 4e. éd. Paris 220).

 

Pode-se mesmo dizer que o respeito do defunto e o desejo de manter contato com ele (mediante o possível consumo do cérebro) ilustram bem a famosa frase de Robert Pitrou:

«Nesta vida apenas percebemos o borbulhar da fonte da qual somente os mortos podem beber» (transcrito da ob. cit., pág. 7).

 

Em suma, transcrevemos, à guisa de conclusão nossa, as palavras com que Bergounioux encerra seu estudo sobre o homem de Pequim:

«Seria imprudente deduzir desses fatos (os três indícios atrás recenseados) conclusões demasiado precisas. Contudo é necessário registrar cuidadosamente essas manifestações de vida de uma tribo ditadas por preocupações já não meramente materiais e já características de uma aspiração a valores superiores. Primeiros lampejos de uma consciência religiosa que veremos expandir-se e aprimorar-se no homem da etapa seguintes (Les Religions des Préhistoriques et des Primitifs, na coleção «Je sais — je crois» n' 140. Paris 1958, pág. 14).

 

b) O homem de Neandertal.

 

O homem da etapa seguinte é o chamado «Neandertalense», cujas primeiras ossadas devem ter uma centena de milhares de anos.

 

O aspecto físico do Neandertalense ainda é assaz primitivo; apresenta corpo robusto, pequeno, com cabeça grande, mas um tanto diversa da do homem moderno: as órbitas oculares eram avantajadas, quadrangulares, e dotadas de espessas viseiras; a testa era quase nula, a parte superior do crânio achatada ; quase não havia queixo, de modo que a configuração geral do rosto se achava fortemente projetada para a frente. Os dentes contudo eram tipicamente humanos, embora mais volumosos do que os das raças atuais.

 

Poder-se-iam nesse tipo de viventes averiguar os indícios de inteligência, assim como o senso de Deus e da religião ?

 

Não há dúvida, a raça de Neandertal, embora fosse rude, era propriamente humana, pois os detritos deixados dão a ver que sabia usar o fogo e talhar utensílios de caça, de pesca, de cozinha...

 

Contudo é costume dizer-se que o homem de Neandertal era «homo faber» (operário manual, manufatureiro, pequeno fabricante), e não «homo sapiens» (homem inteligente, homem que cultive os valores invisíveis). A razão desta afirmativa é que não se descobriu expressão alguma de senso artístico na raça de Neandertal. — A distinção, porém, é insidiosa: desde que se tenha um ser humano, em qualquer época ou lugar que seja, tem-se um «homo sapiens», dotado de inteligência. Não há criatura que seja apenas 50%, 30% ou 80% homem, pois o que caracteriza o homem é a alma intelectiva; ora esta ou existe em determinado corpo, fazendo que seja corpo humano; tem-se então um homem 100%, embora dotado de traços somáticos grosseiros, ou simplesmente não existe em tal corpo; neste há então uma alma meramente vegetativa e sensitiva, característica do macaco ou do animal infra-humano.

 

É claro que há corpos fossilizados muito semelhantes ao do macaco; há outros, mais próximos ao do homem moderno; contudo (insistimos em dizê-lo) o indivíduo que nesses corpos vivia, caracterizado por sua alma (alma intelectiva ou alma apenas sensitiva), era ou 100% homem ou 100% símio.

 

De resto, a técnica do «homo faber» ou manufatureiro supõe sempre uma faculdade intelectiva. Talhar utensílios segundo métodos precisos e variados é fazer obra de «homo sapiens», pois isso supõe sempre um poder inventivo, ou seja, uma inteligência que, pela sua ampla capacidade de conhecer, pode transcender o concreto e perceber as relações abstratas que unem os meios ao fim respectivo. É assim precisamente que o homem se distingue do animal irracional, como já notamos; forte fica, por toda a sua vida, paralisado na «perfeição» dos seus instintos e na «impecabilidade» das suas atitudes técnicas. Na verdade, o homem é uno, «faber» e «sapiens», através dos séculos; apenas se deve notar que ora se manifestou mais como manufatureiro, ora mais como artista e cientista.

 

Portanto, o homem de Neandertal, sendo verdadeiro homem, não podia deixar de ter também suas expressões religiosas, que vão abaixo sumariamente enumeradas:

 

b.1) as sepulturas. É, como se sabe, na maneira de tratar os mortos que primariamente se manifesta a alma religiosa.

 

Ora as pesquisas dão a ver que os esqueletos neandertalenses foram inumados de acordo com ritos próprios; as sepulturas eram, sim, intencionalmente escavadas em forma retangular ou oval; muitas vezes uma camada de pedras as recobria; a sua posição era a do eixo solar (Este-Oeste); utensílios, alimentos e oferendas diversas acompanhavam os mortos na grande viagem póstuma.

 

Além disto, é significativa a posição dos cadáveres no túmulo: um esqueleto, por exemplo, descoberto em Moustier (França) aos 10 de agosto de 1908 apresentava o crânio a repousar sobre o braço direito devidamente dobrado; a face se apoiava diretamente sobre o cotovelo; duas pedras foram colocadas à altura do nariz; o braço esquerdo se estendia de modo a alcançar um utensílio bifacial. Na Capela dos Santos («Chapelle-aux-Saints») encontrou-se um cadáver no fundo de um fosso retangular (1,45 x 1m); jazia sobre o dorso, na direção de leste; a cabeça, a oeste, era protegida por três ou quatro destroços de ossos alongados. Junto à mão do defunto, foi colocada uma sela de rena e uma pata de grande bovino com sua carne respectiva.

 

No Oriente, as sepulturas neandertalenses ainda são mais interessantes ou intrigantes. Na Palestina, por exemplo, em Sukhiil se encontrou o esqueleto de um ancião que parece ter sido muito manipulado depois de lançado na terra; substituíram-lhe a cabeça por um crânio de bovino !... Outro cadáver do sexo masculino tinha em mãos uma mandíbula de javali. Um terceiro apresentava o fêmur e o púbis perfurados por uma arma de corte quadrangular. Os esqueletos mais conservados se acham sempre em posição arqueada, o que atesta um rito de inumação intencional.

 

Na Ásia Central, cerimônias especiais se realizavam: no túmulo de Teshik-Tash, o fundo é constituído por ossos de cabra postos em filas paralelas; o cadáver de um menino foi ai deitado sobre o seu flanco esquerdo; em torno do crânio seis pares de chifres de cabra das montanhas («capra - sibérica») formavam uma espécie de diadema (mera decoração ou munição defensiva?); cuidado meticuloso foi, sem dúvida, dispensado a essa sepultura.

 

Por vezes tem-se a impressão de que os cadáveres eram recobertos de ocre vermelho (caso de «Chapelle-aux-Saints»), ou de tênue camada de cinzas (em Spy, na Bélgica); não se saberia indicar a razão exata de tais práticas.

 

Como quer que seja, as descobertas que acabamos de enunciar, atestam todas que o homem de Neandertal tratava zelosamente os seus mortos.

 

«Esses ritos funerários vêm reforçar a convicção em nós gerada pelo estudo da técnica neandertalense: a inteligência do neandertaloide era tão .viva quanto a nossa. Ele foi nosso irmão na miséria assim como na grandeza. Embora tivesse uma anatomia um tanto diversa da nossa, seu psiquismo conquistador lhe permitiu encarar de frente as tremendas questões às quais nenhum homem desde essa época respondeu por seus próprios recursos» (Bergounioux-Glory, Les premiers hommes 221).

 

b.2) O rito dos crânios. Prolongou-se entre os homens de Neandertal a antiga praxe (de fundo religioso, como sabemos) de se extrair o cérebro dos crânios. Assim na gruta de San Felice Circeo, às margens do mar Tirreno, encontrou-se um único crânio, com o orifício occipital alargado; estava depositado em meio a um círculo de pedras, ao passo que nas proximidades círculos semelhantes envolviam fragmentos de ossos de animais (possíveis vestígios de oferendas).

 

Para ilustrar tal costume, cita-se o fato de que ainda hoje os Adamas do Oceano Índico em ocasiões oportunas procedem à solene exumação do cadáver de um defunto caro; os ossos são purificados na água do mar e levados de volta à aldeia, enquanto as mulheres entoam lamentações. Crânio e mandíbula são conservados na família do extinto e não raro trazidos ao pescoço dos familiares (à guisa de amuleto ou «porte-Wonheur»); em certas solenidades, o crânio, ungido de óleo ou de gordura, torna-se objeto de grande veneração.

 

b.3) Os santuários dos sacrifícios. Na Suíça, em Drachenloch (2445 m acima do nível do mar) encontraram-se duas grutas que continham pequenas caixas de lajes largas, nas quais se viam numerosos ossos de urso das cavernas («ursus spelaeus»), principalmente, porém, crânios deste animal.

 

Na gruta de Wildermannsloch (a 1628 m de altura), na Suíça, descobriram-se outrossim crânios de urso dispostos em nichos cavados nas paredes rochosas. Semelhantes achados registraram-se na Francônia («Petershõle»). Trata-se, em todos esses casos, de sacrifícios oferecidos como primícias à Divindade por parte de caçadores de urso. O mesmo tipo de oferenda ainda é observado por certas populações da região ártica.

 

Em El-Guettar, no sul da Tunísia, descobriu-se sobre as areias de um poço artesiano um acervo de ossos, pedras talhadas e dardos esféricos. O conjunto tinha a forma de um cone regular, de 1,50 m de diâmetro na base e 0,75 m de altura. Mais de duas mil pedras foram aí contadas, geralmente talhadas em forma pontiaguda. Levando em conta semelhantes monumentos dos povos históricos, julgam os intérpretes tratar-se de um depósito de oferendas feitas à divindade do poço, à qual os homens exprimiam sua fé e sua veneração.

 

Em termos sumários, eis alguns indícios da mentalidade religiosa do homem de Neandertal; procuraremos aquilatar todo o seu significado no § 3 deste artigo.

 

c) As raças posteriores.

 

No período paleolítico superior aparecem na Europa, provenientes talvez do oeste da Ásia, os homens dos quais descendem diretamente as raças atuais: são os tipos de Cro-Magnon, Grimaldi, Chancelade, Wadjak. Como ensinam os paleontologistas, representam o desabrochar racial de um único tronco humano, que, passando pelos neandertalenses, teve início com os primeiros homens do paleolítico. A primeira fase paleolítica superior, a de Aurignac, deve-se ter estendido do ano de 40.000 ao de 20.000 a. C.

 

Em tal período da pré-história, os homens já viviam em sociedade organizada, entregando-se principalmente à caça; é o que explica as modalidades características da sua cultura, que serão abaixo brevemente focalizadas.

No setor religioso, reproduzem-se então as manifestações já assinaladas no estudo dos períodos anteriores.

 

Apenas importa aqui notar que a crença na sobrevivência da alma do defunto é atestada ainda mais explicitamente do que outrora. Parece que se atribuiu ao extinto uma nova existência durante a qual ele poderia ser nocivo aos sobreviventes na terra. Daí não somente a oferenda de alimentos, mas também o desejo de se manter o defunto no lugar mesmo de sua sepultura; em vista disto, acendiam fogo e lamparinas junto a esta a fim de proteger o morto contra o frio; amarravam-no todo ou apenas o manietavam; colocavam-no dentro de um saco; fixavam também uma estátua sem pernas ou com um só braço ao seu lado, como para indicar que não devia mais poder locomover-se. Procuravam outrossim satisfazer ao defunto, sepultando-o com seus mais belos adornos (braceletes, colares, ligas...); no mobiliário dos sepulcros se encontraram não raro estatuetas de animais, que os sobreviventes queriam assim colocar a serviço do defunto.

 

Nova manifestação religiosa ainda se pode observar nessa época paleolítica superior: é a arte sacra inicial. Com efeito, não são raras as grutas da época cujas paredes apresentam desenhos e pinturas diversos: ora trata-se da representação de animais, principalmente daqueles que o caçador mais estimava (veados, cavalos, touros, vacas, renas, bisões, por vezes mamutes...); ora aparecem cenas de caça, ora sinais simbólicos (os dedos de uma mão aberta, por exemplo, na atitude de quem quer vedar a passagem). Com razão afirmam os paleontologistas que tal decoração não se pode atribuir ao simples desejo de ornamentar a mansão do homem pré-histórico, de mais a mais que as grutas assim ornamentadas são muitas vezes de difícil acesso; parecem ter servido apenas a indivíduos iniciados. O significado de tais figuras é, antes, o seguinte: a caça e a pesca eram ocupações de primeira necessidade para o homem antigo ; caso nelas não fosse bem sucedido, morreria (ou abatido pelos animais que ele perseguia, ou prostrado por inanição). Dessa necessidade deve ter nascido no caçador o desejo de recorrer a um poder superior, divino, a fim de obter pleno êxito na luta pela vida; o recurso se fazia então nas cavernas, transformadas em santuários com suas imagens (a gruta de Lascaux, França, que data de 20.000/15.000 a. C., foi mesmo denominada «a capela sixtina da pré-história»). Nesses santuários desenvolvia-se um ritual cuja inspiração era provavelmente de índole mágica: os homens, tendo à frente um mago ou iniciado, aplicavam aos animais representados em efígie os ferimentos que eles depois lhes tentariam infligir na realidade; ferir a imagem em determinadas circunstâncias era, de certo modo, equiparado a adquirir o poder de ferir o protótipo vivo. Essa índole mágica do culto, reservado aos iniciados, explica o desejo que os antigos nutriam, de ocultar os seus santuários.

 

Além de imagens e grutas sagradas, a pré-história no paleolítico superior apresenta rica coleção de estatuetas dotadas de caráter religioso: aparecem principalmente figuras femininas de pedra ou marfim, com os seios muito desenvolvidos, a representar a deusa da Fecundidade; desde remota época se deve ter associado a esse ídolo a ideia da «Tellus Mater» ou da «Terra Mãe» (sempre fecunda). Para o homem antigo, a esterilidade das mulheres causava verdadeiro dano, pois concorria para diminuir o número de componentes da tribo, fazendo que esta se tornasse ainda mais vulnerável aos múltiplos adversários que a assaltavam.

 

Com o adiantamento dos tempos pré-históricos, as expressões de religiosidade se foram multiplicando e cada vez mais enriquecendo pelos recursos da arte e da civilização. Apenas ressaltaremos que o lugar onde os defuntos repousavam, foi sendo mais e mais considerado terra sagrada; procuravam, por isto, situá-lo a certa distância do «habitat» da respectiva tribo. Podia acontecer, porém, que o morto fosse enterrado em seu próprio domicílio sob as cinzas da lareira; então os sobreviventes incendiavam tal choupana, que naturalmente desabava e recobria o túmulo com os destroços do incêndio. — As pesquisas de paleontologia também nos deram a conhecer vestígios de culto do sol mais notáveis do que a simples orientação de cadáveres na direção LO (já praticada em épocas (remotas): assim, por exemplo, na gruta de Peyort (Ariège, França) foi encontrada a imagem de um homem que com os braços estendidos persegue três veados, enquanto um imenso disco fulgurante domina toda a cena.

 

Tais dados, que poderiam ser ainda longamente enumerados, já bastam para incutir no observador a conclusão de que, desde que o homem aparece na pré-história, possui senso religioso. Esta consciência religiosa se manifesta, antes do mais, no reconhecimento de que existe um Mistério ou uma realidade transcendente de que o homem depende e que ele deve cultuar reverentemente.

 

Contudo algumas dúvidas provavelmente ainda afloram ao espírito do estudioso, dúvidas que deverão ser elucidadas nas nossas

 

3. Considerações finais

 

Talvez cause espanto ou decepção o fato de que a Religião na pré-história se manifeste sob formas tão grosseiras (magia, possível canibalismo, totemismo, etc.).

 

Para esclarecer tal fenômeno, lembraremos o que a princípio observamos: o testemunho da pré-história é assaz lacônico, pois é testemunho morto, fossilizado, e representado apenas por documentos tardios. Sendo assim, concordam os estudiosos em afirmar que os resultados da pré-história têm que ser completados e interpretados pelos da Etnologia (ciência que estuda os povos mais primitivos hoje existentes, povos que parecem representar de perto as primeiras formas da cultura humana: pigmeus, certos índios, esquimós...).

 

«Para atingir o passado longínquo, não nos podemos dirigir à ciência da pré-história se não em medida muito limitada; e, quando a ciência da pré-história encontra algum documento, ela só o pode interpretar apelando para a Etnologia» (Brillant-Aigrain, Histoire des Religions V. Paris pág. 348).

 

Ora os etnólogos chegaram em nossos dias à conclusão de que a religião dos primeiros homens não era fetichista, nem totemista nem politeísta, mas consistia no culto do «Supremo Ser», também chamado «o Deus do Céu», «Nosso Pai», Autor do mundo e dos homens, tutor da lei moral e distribuidor da justa sanção para cada criatura. — Sobre este testemunho da etnologia, já dissertamos em «P.R.» 19/1959, qu. 1; aqui limitar-nos-emos, por conseguinte, a citar apenas o seguinte depoimento, colhido pelo explorador Martin Gusinde em 1920 dos lábios de um velho índio chamado Tenenesk, da tribo dos Selk'nam, na Terra do Fogo :

«Antes de todos os antepassados existia Temaukel; é anterior a todos os howenk (seres maravilhosos) e a todos os tehon (homens). Só mais tarde é que veio Kenosh (o primeiro homem);-antes, porém, já existia Ele (Temaukel).

Temaukeu é kashpl (espírito), mas não é homem; não tem corpo.

Fez o primeiro firmamento e a terra primordial; mas nunca veio à terra. Kenosh (o primeiro homem) foi por Ele enviado à terra. Ele mesmo fica longe, por detrás das estrelas; é lá que mora, lá é que permanece sempre. Desde os tempos antigos Ele existe.

Aquele que está no Alto (= Ele lá em cima) sabe o que acontece aqui; vê todos os Selk'nam. De vez em quando, Ele castiga os homens; então morre alguém. Os Selk'nam choram e se queixam; dizem: 'Tu que estás lá no Alto, mataste tal ou tal dentre nós!' O kashpl (espírito) do morto vai ter com Ele lá em cima; lá permanece e não volta mais cá.

Mas Temaukel é mais forte do que todos os homens; o que Ele manda, devemos executá-lo, pois é o Senhor de todos. Se assim não fizermos, Ele castigará e de novo alguém morrerá. Aquele, porém, que habita no céu jamais morrerá; é kashpi (espírito), existe sempre» (Die Feuerlandindianer I 506).

 

Este texto, em estilo muito simples, refere verdades profundas, que constituem o patrimônio filosófico-religioso da humanidade da primeira hora: existe um só Deus, diferente do mundo e do homem, Autor do universo, providente para com todas as criaturas e esteio da ordem moral. Foi dentro desta perspectiva que se orientou a alma religiosa do homem primitivo.

 

O fato de que a pré-história nos transmita manifestações religiosas de índole grosseira, se explica muito bem nos termos seguintes: é crença, igualmente comum entre os povos antigos e corroborada pela Revelação judaico-cristã, que os primeiros homens não se mantiveram na ordem de coisas ou na harmonia inicial: abusando de seu livre arbítrio, revoltaram-se contra Deus, procurando ser autossuficientes; em consequência, a sua inteligência se embotou frente aos valores invisíveis, tendendo sempre a desfigurar os conceitos de «Supremo Ser» e «Criador» ; daí as formas de religiosidade decadente que a pré-história e a história dos povos pagãos nos dão sobejamente a conhecer. Por conseguinte, magia, totemismo, canibalismo, etc. estão longe de ser expressões religiosas da primeira hora; vêm a ser, antes, aspectos do senso religioso da alma humana, senso religioso que é espontâneo e inelutável, mas não foi sempre devidamente orientado por lhe faltarem as luzes de uma inteligência aberta para as coisas de Deus.

 

O homem da pré-história ao menos guardou sempre a consciência do mistério... e orou, diferenciando-se assim de qualquer outro ser vivo sobre a terra. Era preciso, porém, que na época providencial (1.800 a. C.) o próprio Deus se manifestasse de novo explicitamente às criaturas, representadas por Abraão e sua descendência, a fim de reerguer a consciência religiosa da humanidade e restaurá-la na base do monoteísmo inicial. É precisamente essa revelação nova e sobrenatural do único Deus que dá origem ao Cristianismo (Antigo e Novo Testamento); é neste, portanto, que se dá a manifestação autêntica do senso religioso espontâneo de toda a humanidade.

 

Sobre a breve duração da vida do homem pré-histórico e a aparente longevidade dos Patriarcas bíblicos, veja-se «P. R.» 17/1959, qu. 5.

 

Sobre evolucionismo e criacionismo, cf. «P. R.» 29/1960, qu. 1.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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