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Artigo

Monteiro Lobato e o controle populacional

Ivanaldo Santos (ivanaldosantos@yahoo.com.br), Filósofo

 

O livro Cidades Mortas, do escritor brasileiro Monteiro Lobato, foi publicado originalmente em 1919, pela editora Revista do Brasil. Trata-se do segundo livro de Lobato e tinha originalmente o subtítulo Contos e Impressões. O motivo da existência desse subtítulo é que o livro reúne trabalhos bastante antigos do autor, alguns do tempo em que Monteiro Lobato era estudante no Largo de São Francisco em São Paulo. Em edições subsequentes, novos textos acrescentaram-se à obra. O título do livro é tomado de um texto escrito em 1906.

É no ambiente pacato e muitas vezes parado e sem novidades socioculturais das pequenas cidades do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, que Monteiro Lobato vai colher a inspiração para escrever os contos presentes em Cidades Mortas. Em grande medida o livro, entre outras temáticas, é a descrição detalhada do cotidiano das pequenas cidades do interior de São Paulo no início do século XX, cuja decadência econômica impunha-se desde as últimas décadas do século XIX com a derrocada da produção cafeeira, deslocada para o Oeste paulista.

Para Monteiro Lobato as cidades dessa região tenderiam a ficar despovoadas. Isso aconteceria, entre outros motivos, porque a população jovem emigraria para os grandes centros urbanos ou outras regiões do país em busca de emprego, estudo e novas e brilhantes formas de vida. Por sua vez, a população que não se mudasse seria composta, em sua essência, por idosos saudosistas que passariam os dias falando dos parentes que moram em outras regiões e/ou dos dias de glória que essa região viveu no passado, mas que infelizmente tentem a não mais se repetirem.

Para Monteiro Lobato a causa do grande esvaziamento populacional dessas cidades, criando o dramático quadro das cidades mortas, é a decadência econômica da região e o surgimento de outras regiões com melhores atrações econômicas, políticas e culturais. Isso fez que a população, principalmente jovem, fosse maciçamente embora e, por conseguinte, deixassem as suas cidades de origem praticamente despovoadas.

O problema é que parece que a vida real imita a literatura. Atualmente vivemos um tipo de fenômeno que pode ser enquadrado como cidades mortas. São cidades e regiões em várias partes do mundo, principalmente na Europa, Canadá e Japão, que passam pelo dramático processo de perda substancial de população e, com isso, estão virando verdadeiros desertos urbanos, ou seja, cidades com pouca ou quase nenhuma população.  

Ao contrário da descrição feita por Monteiro Lobato, no início do século XX, essas cidades e regiões não estão perdendo população por causa da decadência econômica, mas por causa da política ideológica e populacional sendo adotada, desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em grande parte dos países do Ocidente. Trata-se de uma política conhecida pelo nome de controle populacional.

Esse controle incentiva aos indivíduos a não terem filhos. Para alcançar esse objetivo o controle populacional incentiva às pessoas a não se casarem e, se por acaso, houver algum casamento que não haja a presença dos filhos. Além disso, são apresentadas diversas técnicas e práticas sociais antinatalidade com o intuito de convencer as pessoas a não terem filhos. Entre essas técnicas é possível citar, por exemplo, amplo incentivo à prática do homossexualismo e do aborto, ampla distribuição de anticoncepcionais, dos quais a camissinha é o mais popular, política de incentivo as pessoas não se casarem e, ao mesmo tempo, de incentivo para os casais se separarem, severa e radical crítica ao casamento e a família, incentivo para que as pessoas passem a constituir novos arranjos familiares, como é o caso da chamada família homossexual e da família por afinidades.

Todas essas técnicas somadas têm por objetivo reduzir drasticamente o índice de nascimento de filhos (as) nos países. A consequência do controle populacional é que em muitos países do Ocidente (Japão, Canadá, etc) já existem regiões passando pelo deserto populacional, ou seja, as cidades estão ficando mortas, da mesma forma que é descrito por Monteiro Lobato. Por causa disso, essas regiões já têm graves problemas econômicos (falta mão de obra para o mercado de trabalho), o Estado arrecada menos impostos e ainda por cima a sociedade e o Estado têm que manter um crescente nível de idosos em suas cidades. Uma situação tão dramática como a que é descrita por Monteiro Lobato no livro Cidades Mortas.

O Brasil não é indiferente ao controle populacional. De acordo com os últimos dados fornecidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a taxa de natalidade no Brasil atualmente é de apenas 1,7% ao ano. Vale salientar que a taxa de reposição da população, de acordo com os especialistas na área, é de 2,14% a 2,2% ao ano, ou seja, o Brasil encontra-se bem abaixo da taxa de reposição de sua própria população.  A taxa de 1,7% é a mesma taxa de países, como, por exemplo, a França e o Reino Unido. Ambos são países que, devido as baixas taxas de nascimento, enfrentam atualmente graves problemas de falta de mão de obra, tendo inclusive que recorrer a mão de obra estrangeira, e de algum tipo de déficit no orçamento por causa da perda na arrecadação de impostos e do constante crescimento da população idosa, a qual requer cuidados crescentes nas áreas de medicina e previdência social.  

Assim como no livro Cidades Mortas a perda de população não é bom para ninguém. Todos saem perdendo (Estado, sociedade, indivíduo, empresa privada, etc). É incrível como no início do século XX Monteiro Lobato conseguiu descrever, com brilhantismo, as primeiras décadas do século XXI. Uma época dramática onde as pessoas são incentivas a não terem filhos e, por causa disso, tem-se o envelhecimento da população, o esvaziamento das cidades, crises econômicas e uma série de outros males políticos, econômicos e sociais. Infelizmente atualmente o controle populacional é o responsável por criar as novas e dramáticas cidades mortas.

 

Bibliografia consultada:

 

LOBATO, Monteiro. Cidades Mortas. 26 ed. São Paulo: Brasiliense.

SOARES, Pedro. Taxa de natalidade cai e população brasileira deve parar de crescer.


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