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Artigo

O Fenômeno do Crescimento Pentecostal

 

“Sexo, dinheiro e exploradores do evangelismo pentecostal”. “A Exploração vai ao exponencial, nas multi-igrejas dos “últimos dias”, e na formação instantânea dos ditos pastores, nascidos das conveniências da hora”, diz Dr. Candido Mendes Integrante do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações (1).

 

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Rio de Janeiro e mestre e Sociologia com concentração em Antropologia, a professora Christina Vital é uma daquelas intelectuais que percebeu a importância de um segmento que não para de crescer na sociedade brasileira: os evangélicos. Autora da tese de doutoramento Evangélicos em ação nas favelas cariocas, ela é professora da Universidade Federal Fluminense, colaboradora do Instituto de Estudos da Religião (Iser), integra o Grupo de Pesquisa Religião, Cultura e Política no Brasil Contemporâneo e membro do Comitê de Diversidade Religiosa da Secretária Nacional de Direitos Humanos, recém-criado pelo governo federal. Coordena, ainda, pesquisas sobre religião, mídia, política e violência contra a mulher, além de ter atuado em projetos nas áreas de segurança pública e violência urbana. Com um currículo desses, Christina tornou-se profunda conhecedora da religião no país, e, embora não pratique nenhuma crença.

 

- “Mas creio em Deus”, garante -, reconhece o peso cultural desse imenso grupo de mais de 40 milhões de pessoas. Ela fala sobre a presença e influência dos evangélicos na sociedade nacional. Segundo ela, duas “igrejas”, por assim, dizer, coexistem. “De um lado, os crentes que são reconhecidos por sua conduta ilibada, honestidade, gentileza e dignidade”, enumera; de outro, como gente que explora a boa fé alheia, pratica a corrupção, defende a intolerância e tem sede de poder – deste mundo, e não o de Deus. “Essas percepções conflitantes se apresentam no espaço público e fornecem repertórios de acusação e de defesa á Igreja”. (2)

 

O Crescimento Pentecostal

 

                O historiador britânico e professor da Baylor University, Dr. Philip Jenkins, cuja relação esteve recentemente no centro de uma conferência internacional sobre os novos movimentos religiosos, organizada em Roma pela Conferência Episcopal Alemã, que desde os anos noventa do século passado instituiu um grupo de pesquisas para o estudo das seitas.

                Segundo Jenkins, “estes movimentos oferecem acolhimento, apoio, cura espiritual e libertação. É fácil compreender porque o povo se deixa facilmente convencer pela afirmação de estar sob o assédio das formas demoníacas, e que só a intervenção divina pode salvar”.

                Um fenômeno que para o cardeal Kurt Kock, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, ainda não foi “suficientemente tomado em consideração”. Um verdadeiro grande desafio para a Igreja, sobretudo na áfrica e na América do Sul, afirma o cardeal Kock.

                O fenômeno dos movimentos religiosos é transversal a todas as Igrejas e comunidades eclesiais tradicionais. Segundo Karl Gabriel, da universidade de Münster, o desaparecimento das religiões há muito tempo esperada e dada por certa não se materializou. Ao contrário em todo o mundo observa-se um verdadeiro boom de religiões. Contudo, este fenômeno global de renovação religiosa refere-se a grupos que tradicionalmente são indicados como seitas. Portanto, o crescimento da cristandade no mundo deve-se em grande medida aos novos movimentos religiosos. Na América Latina – observou o estudioso – as comunidades pentecostais cresceram a um ritmo impressionante durante vários anos. A áfrica do Sul é testemunha de uma expansão do cristianismo carismático. E também na Ásia oriental, incluída a China, as formas carismáticas do cristianismo estão em crescimento.

                O elenco dos fatores que está na base deste crescimento é longo. Certamente contribuem também as perturbações sociais e econômicas do sul do mundo e a oferta aos próprios seguidores de identidade e significados, assim como o reforço da autoestima. A este respeito, uma pesquisa comissionada pelo episcopado alemão supervisionou quatro países: Costa Rica, Filipinas, Hungria e África do Sul. No capítulo que trata à Costa Rica – segundo quanto referiu à agência de imprensa Sir – é interessante o envolvimento das mulheres em tal fenômeno, porque são sobretudo, elas as mais atraídas por este tipo de proposta religiosa e as razões devem ser procuradas também nas condições de precariedade nas quais muitas vezes vivem.

                Para monsenhor Juan Fernando Usma Gómez, do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, este fenômeno é fonte de preocupação para os bispos nos vários continentes, também porque a realidade transversal, que praticamente começou a fazer parte de todas as tradições cristãs. “Já se fala há uma década de pentecostalização” do cristianismo.

                Todavia, segundo o cardeal Koch, este fenômeno demonstra que está em curso uma grande mudança no panorama ecumênico e que no diálogo se debruçam novos parceiros. No entanto, nem sempre parece fácil empreender relações. Só podemos manter um diálogo com aqueles que manifestam o desejo de dialogar, disse o purpurado á agência Sir, observando assim que alguns grupos pentecostais se definem anti-ecumênicos e anticatólicos. Não obstante, é necessário ter este fenômeno em séria consideração. Em minha opinião, este é o desafio principal, que levanta a seguinte interrogação: por que motivo se afastam as pessoas pertencentes ás nossas Igrejas, não só católicas mas também protestantes: é uma pergunta importante, um grande desafio para nós. As razões dos abandonos são muito diferentes umas das outras. Contudo, é absolutamente necessário conhecê-las questionar-se a respeito da realidade do cristianismo e da Igreja católica no vários países. Além disso, é necessário principalmente um novo impulso missionário, mas para sermos missionários, primeiro nós mesmos temos que estar persuadidos da nossa fé. E ela deve ser simples, autêntica, boa e bonita (3).

 

Bento XVI e a Resposta

 

“O pluralismo religioso crescente constitui um elemento que exige uma consideração séria. A presença cada vez mais concreta de comunidades pentecostais e evangélicas, não só na Colômbia (falando aos bispos desse país). Mas também em muitas regiões da América Latina, não pode ser ignorada nem subestimada.” Neste sentido, é evidente que o povo de Deus é chamado a purificar-se e a revitalizar a sua fé deixando–se orientar pelo Espírito Santo, para dar assim uma renovada pujança à sua obra pastoral, pois muitas vezes, a pessoa sincera que sai da nossa Igreja não o faz pelo que os grupos “não católicos” crêem, mas fundamentalmente pelo modo como eles vivem; não por razões doutrinais, mas vivenciais; não por motivos estritamente dogmáticos, mas pastorais; não por problemas teológicos, mas metodológicos da nossa Igreja (V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento conclusivo, n. 225). Trata-se, portanto, de sermos crentes melhores, mais piedosos, afáveis e acolhedores nas nossas paróquias e comunidades, para que ninguém se sinta distante nem excluído. E necessário fortalecer a catequese, prestando atenção especial aos jovens e aos adultos; preparar com esmero as homilias, assim como promover o ensino da doutrina católica nas escolas e nas universidades. E tudo isto para que se recupere nos batizados o seu sentido de pertença à Igreja e se desperte nele a aspiração a compartilhar com o próximo à alegria de seguir Cristo e de serem membros do seu Corpo Místico” (4).

 

DECADÊNCIA DOS EVANGÉLICOS

 

“A única maneira de sermos transformados é pela imersão na Palavra de Deus. Caso contrário, é fácil agirmos como Pedro e nos tornarmos uma pedra de tropeço para os outros, apresentando a perspectiva de Satanás em vez da perspectiva de Deus a um mundo perdido e que está morrendo”, escreve Rev. Richard D. Emmons, professor de Bíblia e Doutrina na Universidade Bíblica da Filadélfia e pastor-sênior da GraceWary Bible Church em Hamilton Township, Nova Jersey (EUA) (5).

 

De acordo com a Pesquisa LifeWay, em 89% dos lares americanos há uma média de três Bíblias, mas 52% dos americanos raramente ou nunca as leem. Embora um terço dos americanos diga eu leio a Bíblia pelo menos uma vez por semana, aparentemente a maioria simplesmente faz devocionais superficiais. Poucos estudam a Palavra de Deus buscando mudanças sérias em suas perspectivas, e os levantamentos revelam que os valores e as práticas dos que se dizem cristãos se diferenciam pouco dos valores e práticas de seus vizinhos não salvos.

 

Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville (Kentucky/EUA), em seu artigo intitulado “The Scandal of Biblical Illiteracy: It’s Our Problem” [O Escândalo da Falta de Instrução Bíblica: é Problema Nosso], escreveu: “Poucos dentre os adultos sabem o nome dos quatro Evangelhos. Muitos cristãos não conseguem identificar mais do que dois ou três dos discípulos. De acordo com dados do Barna Research Group [Grupo de Pesquisas Barna], 60% dos americanos não sabem nem cinco dos Dez mandamentos”. “Não surpreende que as pessoas quebrem os Dez Mandamentos o tempo todo. Eles não sabem quais são” disse George Barna, presidente daquela empresa. Conclusão? Cada vez mais a América se torna biblicamente analfabeta.

 

Falando a respeito do conhecimento bíblico, Barna afirmou: “O problema que a igreja cristã está enfrentando não é que as pessoas não tenham um conjunto completo de crenças; o problema é que elas têm um conjunto de crenças na mente, e pensam que essas crenças são consistentes com os ensinamentos bíblicos, mas [as pessoas] não estão abertas nem a serem convencidas de que estão erradas, nem a aprenderem novas informações”. Nossa pesquisa sugere que esse desafio surge inicialmente no final da adolescência ou no início dos anos da juventude.

 

No momento em que a maioria dos americanos chega à idade de 13 ou 14 anos, eles acham que sabem praticamente tudo de valor que a Bíblia tem para ensinar e não ficam mais interessados em aprender outros conteúdos escriturísticos. São cada vez mais necessários esforços concisos, criativos, reforçados e pessoalmente relevantes para penetrar na mente das pessoas com informações novas e mais exatas sobre os princípios genuinamente bíblicos. Em uma cultura dirigida pelo desejo de receber valor, mais ensinamentos bíblicos não são geralmente vistos como um exercício que proporcione tal valor.

 

“Alguns dizem que a igreja evangélica está em tempo de transformação. Eu digo que ela está à beira de uma total desordem”, diz Craig L. Parshall, vice-presidente e conselheiro geral do National Religius Broadcasters (Radiodifusores Religiosos Nacionais) nos EUA (6).

 

Ross Douthat, colunista do New York Times, revelou sua visão sobre os evangélicos: O Cristianismo Conservador na América (...) enfrenta um desafio demográfico ameaçador: o aparecimento de uma geração que é mais “desigrejada” do que qualquer outra antes dela, mais liberal em questões como o casamento de gays, e alérgica à retórica apocalíptica da era Pat Robert Robertson - Jerry Falwell (7).

CONCLUSÃO

Considerado “O Príncipe dos Pregadores”, Charles H. Spurgeon, o grande pregador inglês do século XIX, disse bem: “Atualmente, ouvimos homens arrancarem uma única sentença das Escrituras, tirando-a do seu contexto, e gritarem: “Eureka! Eureka!”, como se tivessem encontrado uma nova verdade. No entanto, eles não encontraram um diamante, mas apenas um caco de vidro quebrado. Se tivessem sido capazes de comprar coisas espirituais, se tivessem entendido a analogia da fé, e se estivessem familiarizados com o aprendizado santo dos grandes estudiosos da Bíblia que viveram em épocas passadas, não seriam tão ligeiros em se vangloriarem de seu maravilhoso conhecimento. Estejamos completamente familiarizados com a Palavra de Deus e sejamos poderosos em explanar as Escrituras” (8).

O pensamento de Spurgeon denuncia o racionalismo dogmático, o elitismo dos pastores, o racismo, a teologia liberal e a terrível frieza espiritual das igrejas protestantes históricas em sua era.

Na pessoa do pastor americano Charles Parham, em outubro de 1900, foi que teve início o movimento pentecostal. Agnes Ozman, aluna do Pr. Parhan, no Colégio Bíblico Betel, por ele fundado em Topeka, Kansar, foi batizada com Espírito Santo, em 01 de Janeiro de 1901, e começou falar em línguas estranhas. Em outra Escola Bíblica de Parham, em Houston, Texas, outro aluno, William Seymour, filho de escravos e cego de um olho, torna-se mais tarde o líder de uma missão em Los Angeles, Rua Azusa, n. 312, no ano de 1906. Foi o pregador Seymour a peça fundamental para explosão do pentecostalismo.

O crescimento do movimento pentecostal se encontra no contexto da obra missionária que tem como prática: o falar em línguas, batismo com o Espírito Santo, os dons espirituais, curas, milagres, exorcismos, visão, revelação, arrebatamento (repouso no Espírito), profecias e a segunda vinda de Jesus. Para poder viver o fogo pentecostal e o crescimento da igreja é necessária uma vida de santidade, por meio da leitura da Bíblia, cultos, oração, jejum, vigília e participar da Santa Ceia (Eucaristia). Dentro dessa “espiritualidade pentecostal”, o crente tem poder para testemunhar, mobilizar novos crentes e pregar nas igrejas, nas ruas e nas praças. E sempre procurando viver avivado, renovado e reavivado. Daí será um novo pastor e novas comunidades.

Pe. Inácio José do Vale

Pesquisador de Seitas

Professor de História da Igreja

Instituto Teológico Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

 

Notas:

(1)                         O Globo, 31/05/2015, p.15.

(2)                         Cristianismo Hoje, abril e maio de 2013, p.44.

(3)                         L’osservatore Romano, 05/05/2013, p.10.

(4)                         L’osservatore Romano 30/06/2012, p.5.

(5)                         Chamado da Meia-Noite, maio de 2013, p.p.6 e 7.

(6)                         Chamada da Meia-Noite, maio de 2013, p.17.

(7)                         Ross Douthat, “The Tempting of the Christian Right”

(8)                         [A Sedução do Direito Cristão], December 6, 2011, The New York Times, Campaign Stops.

(9)                         Charles Haddon Spurgeon, citado em Steve Miller, C.H. Spurgeon on Spiritual Leadership [C.H. Spurgeon Sobre Liderança Espiritual] (Chicago, IL: Moody Publishers, 2003), p.106.

 

Bibliografia

 

Jenkins, Philip. A próxima cristandade. Rio de janeiro: Record, 2004.

Cairns, E arle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja Cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.

Walker, John e outros. A Igreja do Século XX: A história que não foi contada. Americano- SP: Worship Produções, 2001.


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