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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 044 – agosto 1961

 

PRAZER e DOR nos ANIMAIS IRRACIONAIS

FILOSOFIA E RELIGIÃO

I.B. (Americana, SP): «Os animais tidos como 'irracionais' têm alma? Em que medida experimentam o prazer e a dor? Podem ser ditos, como ocorreu num recente manifesto público, 'almas que sofrem em silêncio'?»

 

Para muitos pensadores, o chamado «escândalo do mal» é provocado não somente pelo sofrimento do homem, mas também pelo dos animais inferiores ou irracionais; parece não se poder justificar o padecimento destes viventes, que não contraem culpa alguma nem têm a possibilidade de adquirir virtudes e méritos; tal desordem não recai sobre o próprio Criador?

 

O sofrimento dos animais tem inspirado Sociedades de Proteção aos mesmos; têm-se visto brochuras e declarações sobre o assunto, sugeridas muitas vezes pelo sentimentalismo mais do que pela sã razão (Augusto Comte, +1857, chegava a incorporar ao Grande Ser, que é a Humanidade, os animais «afetuosos», fiéis ao serviço do homem). Principalmente os adeptos da metempsicose ou migração das almas se empenham por promover o bem-estar dos irracionais, já que não raro os consideram como portadores de almas em tudo semelhantes às dos racionais.

 

A fim de delinear a reta posição diante do problema, analisaremos abaixo a questão da existência de alma nos irracionais; a seguir, procuraremos averiguar como sofrem. Por fim, na resposta seguinte deste fascículo diremos uma palavra sobre a Sabedoria e a Bondade de Deus em relação aos animais irracionais.

 

1. Animais irracionais e alma

 

1.1. Duas são as principais correntes filosóficas que tentam explicar os fenômenos da vida nos organismos: o mecanicismo e o vitalismo. Examinemo-las sucintamente:

 

a)    O mecanicismo, professado pelos atomistas antigos, por Descartes (+1650) e, em nossos dias, por Le Dantec, Rostand, ensina que todas as manifestações da vida nada mais são do que reações físico-químicas assaz complexas; um organismo vivo, por conseguinte, não se diferencia de uma máquina senão pela complexidade de suas partes componentes e das atividades que estas desempenham; contudo as mesmas leis regem os seres vivos e os não vivos. Para afirmar tal tese, baseiam-se no fato de que os fenômenos vitais, tomados em suas fases particulares, são fenômenos físico-químicos, podendo ser favorecidos ou impedidos por agentes físicos e químicos; ademais, dizem, nunca se encontrou em um ser vivo alguma entidade que não fosse física ou química.

Eis um episódio que ilustra bem tal tese e a mentalidade que a pode sugerir:

 

O filósofo francês Malebranche (+1715) dava pontapés à sua cadela e sorria, dizendo: «É um relógio mais sutil e tolerante do que os outros; late, como o pássaro de madeira canta nos relógios suíços; mas nada sente. Felizmente! Pois, se os animais sofrerem inocentes como são, a justiça de Deus não estaria comprometida? (citado por Sertillnges. Le Problème du Mal II. Paris 1951, pág. 112).

 

Malebranche abrangia no seu mecanicismo os animais irracionais e as plantas, não o homem.

 

Adiante (cf. pág. 334) evidenciar-se-á que não é necessário reivindicar a justiça de Deus mediante a teoria mecanicista, teoria muito precária do ponto de vista filosófico.

À teoria do «organismo-máquina» opõe-se:

 

b)    O vitalismo. Segundo este sistema, os fenômenos da vida não se podem reduzir a forças mecânicas apenas ou a reações físico-químicas; em consequência, deve-se admitir em todo ser vivo um princípio específico responsável pelas reações vitais do organismo. Tal principio é chamado, de maneira geral, alma: alma vegetativa, na planta; alma sensitiva, no irracional; alma intelectiva, no homem (cf. «P. R.» 3/1957, qu. 1).

Os fundamentos desta posição são os seguintes:

 

a) em termos negativos: o mecanicismo pode talvez explicar as fases dos fenômenos vitais consideradas em si mesmas ou isoladamente, mas não consegue dar conta do fenômeno vital como tal ou como conjunto de múltiplas atividades reduzidas à unidade: verifica-se, com efeito, que as diversas reações físico-químicas de um organismo vivo convergem para uma só finalidade, exprimindo um comportamento constante e homogêneo, visando o que é útil ao organismo inteiro e à sua conservação. A coordenação e a subordinação das reações físico-químicas do organismo vivo parecem assim exigir um princípio de ação superior que oriente as reações parciais e , inferiores, obedecendo a leis específicas, leis da vida, diferentes das leis da física e da química.

 

b) Em termos positivos: três são as manifestações características dos organismos vivos, que parecem não se poder reduzir ao tipo das reações físico-químicas. Assim

   a assimilação, que consiste em transformar substâncias extrínsecas ao organismo na substância do próprio vivente. Isto não se dá nos inanimados; o crescimento dos cristais, por exemplo, se faz por justaposição de moléculas iguais ou semelhantes, sem que haja transformação;

   a irritabilidade, isto é, a capacidade de reagir aos estímulos do mundo externo de modo a defender, e favorecer o organismo afetado; também este fenômeno parece obedecer a leis diversas das que regem as reações físicas e químicas;

   a geração, ou seja, o poder que o vivente possui, de produzir indivíduos da mesma natureza, em virtude de um impulso interno. Também esta propriedade não tem igual no mundo dos inanimados; o que, da parte destes, mais se aproxima da geração, é a produção de cristais a partir de um cristal por meio de ruptura — fenômeno que sempre supõe a intervenção de um agente extrínseco heterogêneo.

 

Principalmente o processo de crescimento e desenvolvimento do individuo gerado constitui algo de singular e novo em relação aos fenômenos não vitais: um óvulo fecundado, mediante divisões celulares, se vai diferenciando e complexificando, de modo a formar um organismo completo dotado de múltiplas funções. No mundo inanimado, registra-se a formação de moléculas relativamente complexas a partir dos átomos que as constituem; contudo esse procedimento não significa evolução nem diferenciação, mas apenas agregação, de átomos segundo determinado traçado; no desenvolvimento do ovo, ao contrário, vão-se formando tecidos diversos, os órgãos e os aparelhos do metabolismo, ora coordenados, ora subordinados entre si; dir-se-ia que cada atividade se desencadeia em seu tempo, observando harmonia com as demais, como se todas obedecessem a um princípio dirigente unitário.

 

Como consequência dos fenômenos anteriores, observa-se outrossim nos seres vivos a capacidade de regenerar ou restaurar um órgão lesado ou mutilado; as energias do organismo vivo convergem de longe para determinado ponto que haja sido atingido, e tendem a defendê-lo ou a reproduzir os tecidos violados. — Ora a máquina não se restaura por sir ao contrário, ela se vai desgastando irreversivelmente.

 

Mais ainda- verifica-se que as funções vitais dos animais estão longe de apresentar a regularidade ou uniformidade características das máquinas. Acontece, com efeito, que, postos sucessivamente nas mesmas circunstâncias, os mesmos animais não se comportam sempre do mesmo modo. Pode também dar-se que, mudadas as circunstâncias, eles em nada mudem o seu comportamento. — Tenham-se em vista os seguintes tópicos:

 

Caso mostremos a um animal o «bom bocado» que ele aprecia, ele se levanta imediatamente para o arrebatar. Dado, porém, que algumas vezes lhe recusemos entregar o alimento mostrado, o animal já tardará a se levantar para o apreender; se continuarmos a decepcioná-lo dessa forma, ele desistirá mesmo de reagir ao nosso convite. O cão que vê o seu senhor pela janela, de modo nenhum se precipita por ela a fim de ir acariciar o dono, embora tal fosse o caminho mais direto e mais curto, como ensina a mecânica; o cão tomará direção absurda encaminhando-se para a porta diametralmente oposta à janela. — O gato escaldado ou espancado evita cautelosamente o seu malfeitor.

 

Vê-se, pois, que os animais aprendem alguma coisa pela experiência — resultado que é de todo impossível a uma máquina; esta é incapaz de mudar para melhor o seu funcionamento, utilizando experiências anteriores. Donde se depreende que existe nos animais um principio de atividades que não se deixa reduzir às leis da mecânica.

 

Recomendado por tais observações, o vitalismo tem sido, desde a antiguidade até nossos dias, professado por diversas escolas de pensamento, mormente pelo filósofo grego Aristóteles e o aristotelismo. Nos tempos atuais, apesar da voga de que goza a mentalidade mecanicista, encontrou novos adeptos ditos «neovitalistas»: Buffon, De Lamarck, L. Pasteur, E. von Hartmann, J. Reinke, H. Driesch, G. Grassi, A. Garrei...

 

Como se compreende, adotaremos no nosso estudo o vitalismo; aliás, este parece ser o pressuposto necessário para se poder falar de sofrimento ou de dor nos animais.

 

1.2. Aprofundando agora a tese vitalista, devemos acrescentar: o princípio vital dos seres infra-humanos é meramente material (reduzido da matéria e por ela reabsorvido), ao passo que o do homem é espiritual, diretamente criado por Deus (não nos demoramos na demonstração desta verdade, pois já foi explanada em «P.R.» 3/1957, qu. 1 e 2). Pode-se  dar a qualquer princípio vital o nome de «alma». Contudo, para melhor frisar a distinção que separa o princípio vital infra-humano do humano, costuma-se reservar o nome de alma ao princípio da vida humana; o princípio da vida do vegetal e do irracional é simplesmente dito «princípio vital» ou respectivamente «alma vegetativa» e «alma sensitiva».

 

Postas estas premissas, já podemos voltar nossa atenção para o importante tema: prazer e dor nos animais irracionais.

 

2. O prazer no animal irracional

 

2.1. Dentre os viventes, focalizemos os animais irracionais.

Estes como dissemos, possuem um principio vital de ordem sensitiva, isto é, cuja função mais nobre e característica é a que se realiza pelos sentidos: os animais, mediante os órgãos sensitivos, tomam conhecimento dos objetos concretos, individuais que os cercam; são, porém, incapazes de se emancipar das notas concretas (tal cor pálida, tal som agudo, tal odor suave...), desses objetos, a fim de lhes penetrar a essência; em uma palavra não distinguem o que é essencial e o que é acidental em tais objetos. Mais ainda: os animais meramente sensitivos não conseguem perceber as relações de instrumento à respectiva finalidade nem as proporções vigentes entre diversos valores (a/b =b/c, fórmula em que a. b, c podem significar sucessivamente várias quantidades concretas).

 

2.2. Note-se agora que todo conhecimento tende a provocar uma atitude prática da parte de quem conhece. Em outras palavras: todo conhecimento desperta um afeto no individuo conhecedor. Ora os bens que podem ocorrer provocando afeto, enquadram-se necessariamente dentro de uma das três categorias seguintes:

a)    bens agradáveis ou deleitosos: objetos que afetam agradavelmente os sentidos e são cobiçados precisamente por causa desse agrado ou deleite;

b)    bens úteis: objetos que não são desejados propriamente por causa de seu valor intrínseco, mas por se prestarem à consecução de finalidade ulterior (no setor da técnica, da arte, da medicina, da ciência, etc.). Tais objetos podem ser ardentemente desejados e cobiçados, embora esse desejo signifique algo de árduo e penoso;

c)     bens honestos. Bem honesto é todo e qualquer objeto considerado à luz do Fim último das criaturas, ou seja, à luz de Deus e da Lei (moral); caso se mostre compatível com esse Fim Supremo, é dito «honesto» ou «objeto moralmente bom»; em caso contrário, é dito «desonesto» ou «objeto moralmente mau». Os bens honestos podem também ser desejados veementemente sem que o sujeito experimente nisso algum prazer sensitivo.

 

2.3. Como dizíamos, o animal sensitivo não pode apreender relações ou proporções, mas percebe o objeto concreto e material. Disto se segue que motivos de utilidade ou de honestidade (moralidade) de modo nenhum lhe podem despertar a cobiça; ele só se deixa mover pelo deleite ou pelo gozo dos sentidos. Donde se vê que é sempre e exclusivamente em vista do prazer sensitivo que o animal irracional exerce as suas atividades. O Autor da natureza, porém, ordenou as criaturas de tal modo que o animal irracional, mesmo procurando o prazer em todos os seus atos, faz muita coisa que lhe é útil e se encaminha para a sua própria perfeição ou consumação. Assim o irracional come, porque isto lhe dá prazer; tal prazer lhe será útil, porque concorre para a conservação da sua vida; não é, porém, a perspectiva de conservar a vida que o move; o irracional não percebe explicitamente a relação que existe entre tal alimento e a manutenção de sua vida; só apreende o prazer que o alimento lhe pode proporcionar.

 

Com outros termos: o animal irracional é sempre um «hedonista»; nem sequer suspeita da existência de outra modalidade de atitude; fecha-se no «egoísmo», do qual ele não se pode emancipar (como se compreende, nisto não há culpa morai, pois o irracional fica abaixo da ordem moral; e com esse «egoísmo» mesmo que o animal sensitivo concorre para o bem comum da" criação). Por conseguinte, os termos «altruísmo, dedicação, espírito de sacrifício», com que às vezes se caracteriza o proceder dos irracionais, não passam de meros modos de falar.

 

Levem-se em consideração alguns exemplos:

 

A ave que choca seus ovos. não os abandona... Não os abandona, porém, pelo motivo de que o contato com os ovos absolve o excesso de calor acumulado em sua região abdominal por irrigação sanguínea mais intensa em certas épocas.

 

O animal que amamenta seus filhotes, amamenta-os porque isto alivia suas mamas demasiado cheias; desde que, por motivos fisiológicos quaisquer, esse animal não experimente mais a necessidade «hedonista» de amamentar a prole, ele nem sequer reconhece mais o filhote, passando a tratá-lo como qualquer outro animal.

 

Ensinam também os psicólogos que o apego que o cão dedica ao seu senhor se deve aos deleites sensitivos (principalmente do paladar) que este lhe proporciona. Verdade é que o cão defende o seu dono; defende-o, porém, como defenderia uma posta de carne que lhe tentassem arrebatar; chega a se sacrificar e expor à morte em prol do seu patrão; ele arriscaria, porém, os mesmos perigos para defender qualquer presa. De resto, o cão não tem consciência desse sacrifício; não é capaz de perceber as relações que possa haver entre determinada atitude sua e a morte.

 

2.4. Contudo talvez se possa objetar: os animais possuem instinto. Ora o instinto visa seus objetos enquanto são úteis ao sujeito; parecem, portanto, perceber as relações entre meios e fins.

 

Já tratamos do instinto em «P.R.» 33/1960, qu. 2, onde ficou averiguado que é potência cega; acerta mecanicamente, sem distinguir situações. O animal, guiado pelo instinto, não tem noção do objeto a ser atingido : quando a abelha sai para recolher o néctar das flores, não tem noção dos favos de mel que a sua indústria há de produzir; quando a ave recolhe uma palha ou uma penugem, não tem idéia do ninho que no fim do seu trabalho estará construído.

 

Em linguagem precisa, dizem os autores: os animais têm consciência da atividade que executam, não, porém, da obra a ser executada. Para comprovar isto, lembram o seguinte: os animais sabem perfeitamente lutar contra os obstáculos que possamos opor à sua atividade; não sabem, porém, corrigir os defeitos que se introduzem no produto dessa atividade.

 

Tenha-se em vista o caso da vespa dita «sphex»: este inseto costuma abrir um buraco na areia, onde coloca um verme ferido mortalmente ao lado do qual põe o seu ovo; a seguir, fecha esse ninho, recobrindo-o de areia. Suponha-se, porém, que um observador intervenha durante o trabalho de fechamento do ninho... Afasta a vespa, e retira do ninho tudo quanto nele se acha; feito isto, recoloca a inseto diante do seu buraco; vendo a entrada deste aberta, o animalzinho entra e permanece alguns instantes em casa. Depois, sai, e com o zelo habitual recomeça o trabalho de fechamento no ponto mesmo em que o interrompeu... Desta vez, porém, com que finalidade obstrui ele o ingresso do seu ninho, que nada mais contém de interessante a guardar e defender? Em tais condições, a obstrução torna-se inútil, mesmo absurda.. Donde se vê que os atos instintivos do animal se processam sem que este perceba a respectiva finalidade ou a obra a ser executada; o animal só tem conhecimento da sua atividade momentânea e para esta é devidamente equipado pela natureza; a execução, porém, procede automaticamente, de modo que o mesmo ato cheio de sabedoria em certas circunstâncias é continuado sem propósito depois de mudadas tais circunstâncias.

 

Donde conclui o famoso naturalista J. H. Fabre:

«O inseto que em determinado momento nos deixa surpresos e maravilhados pela sua alta lucidez, pouco depois... nos decepciona por sua estupidez» (Souvenirs entomologiques, t. II. Paris 1920, cap. XII).

 

Assim se confirma a verificação de que o animal irracional não percebe as relações de utilidade (ou as proporções entre meios e fins); o que o move a agir, é a estima do gozo, não a da utilidade nem a da honestidade (ou moralidade).

Voltemos agora nossa atenção para

 

3. A dor nos animais irracionais

 

De quanto foi dito até agora depreende-se que o sofrimento nos irracionais não pode ser causado pela perda de objetos úteis ou de valores morais, mas é provocada unicamente pela presença de objetos que afetam desagradàvelmente os sentidos do animal. Por conseguinte, a dor, como o prazer, no irracional, tem sempre um fundo «egoísta»; nunca e algo de desinteressado, como seria a dor que o homem concebe ao perceber um vício moral ou uma obra de arte mutilada (isto é ao perceber a carência de afinidade entre determinado ato e o Fim Supremo da vida humana ou as regras da estética).

 

3.1. Detendo-nos agora na análise do sofrimento sensitivo (que é comum aos animais irracionais e ao homem), verificamos que tal sofrimento no irracional é muito menos profundo do que no homem. Com efeito, no homem o sofrimento sensitivo é particularmente intenso, porque a razão da pessoa se pode aplicar à consideração do mesmo, experimentando-o do seu modo (o que não pode deixar de o intensificar); assim a razão prevê a dor, vivendo-a antecipadamente; reflete sobre tal dor enquanto está presente, tece teorias e conjeturas em torno dela e, por fim, antevê possíveis consequências funestas de tal padecimento; uma vez passada a tormenta, pode continuar a vivê-la por suas recordações e reflexões. O animal irracional, ao contrário, está isento dessa sobrecarga de dor: só experimenta o desagrado nos momentos em que os sentidos são afetados pela ação do estimulo desagradável; não pode antecipar nem prolongar por raciocínios esses momentos dolorosos- ao invés do que se dá no homem, ele não sofre dos males que possam afetar «sua família, seus amigos, sua raça, sua pátria» (tais valores estão fora do alcance do irracional). O homem, enquanto padece, pode muito bem refletir sobre si mesmo e dizer: «Estou sofrendo... estou desfalecendo... estou morrendo...»; tal verificação não é efetuada pelo irracional que sofre simplesmente, mas não analisa a sua dor, não a apreende como algo que destoa do ideal; por isto diz-se com razão que o seu sofrimento é menos penetrante e profundo do que o do homem; é impessoal e se esvaece mais facilmente. — Para o homem, «não pensar» é difícil ou impossível; para o irracional, ao contrário, é constitutivo da sua natureza.

 

A importância da reflexão na percepção da dor pode ser ilustrada por alguns fatos ocorrentes no setor humano.

Sabe-se que o homem doente cuja moléstia é agravada por insônia, sofre com intensidade particular durante a noite; isto se dá porque então, durante horas a fio, nada lhe distrai a atenção de si mesmo.

 

O paciente que pela segunda vez se submete à mesma intervenção cirúrgica, em geral padece mais da segunda vez, pelo fato de que ele antecipa em sua mente os pormenores do duro golpe que o aguarda.

Situações tão dolorosas não se verificam na vida do irracional.

 

3.2. Acrescente-se agora ulterior observação: quanto mais um ser está elevado na escala dos viventes, tanto mais é sujeito a padecer. Sim; o sofrimento se intensifica na razão direta da dignidade das criaturas.

 

Já entre os homens se nota que os mais nobres de caráter e os mais inteligentes sofrem mais do que os seus semelhantes menos prendados; os egoístas sofrem menos do que os altruístas e caridosos; os débeis mentais padecem menos do que os de mente sadia; as crianças, menos do que os adultos; os ignorantes, menos do que os sábios. A razão deste estranho fenômeno é o fato de que os homens mais perfeitos mais facilmente associam idéias do que os menos perfeitos.

 

Em uma palavra: quanto mais um homem realiza a «medida» do homem, tanto mais é ele acessível ao sofrimento. Esse fato se compreende bem: à medida que alguém se aproxima do ideal, não pode deixar de perceber novas perspectivas, descortinando assim o que deveria ser e o que de fato é. Tenham-se em vista principalmente os santos com sua delicadeza de consciência: estando mais perto de Deus, mais identificados com o ideal, apreenderam (e apreendem) melhor o sentido negativo ou a deformidade de certos atos que o comum dos homens, com indiferença ou superficialidade, costuma chamar «pecadinhos de todos os dias». — Algo de análogo se dá no campo da ciência: o homem pouco ilustrado pouca ciência possui, e dá-se por seguro com o que sabe; ao contrário, o homem mais douto está continuamente a descobrir novos motivos de dúvida e novos problemas, que lhe parecem encobrir ulteriores mistérios, o que não pode deixar de lhe causar dolorosa inquietude.

 

Descendo agora para o reino dos infra-humanos, registramos que os animais superiores (como o cão, por exemplo) sofrem, sim, mas sofrem menos do que o homem; quanto aos animais inferiores ou menos perfeitos, são menos sujeitos à dor, na proporção mesma em que são menos dotados de perfeição ontológica.

 

Os veterinários, por exemplo, atestam ser relativamente fácil praticar no cavalo intervenções cirúrgicas sérias e graves; tal animal não manifesta estorvantes sintomas de reação; pode acontecer que continue a comer a sua aveia sem se mostrar incomodado pelo operador. A ferradura pregada à pata do cavalo não lhe causa dor. Ao contrário, outros animais, como o cão e principalmente o macaco, são muito mais sensíveis, de modo que se torna necessário recorrer à anestesia a fim de se poder efetuar a intervenção cirúrgica.

 

Um animal inferior pode viver vários dias com lesões graves, ao passo que o homem, portador de análogos ferimentos, não resistiria por muito tempo., Há contusões que, para o homem, são dolorosas, mas que o animal irracional simplesmente não sente.

 

Em conclusão, vemos de que modo e em que proporções o animal irracional sofre: 1) sua dor é, em tudo, menos intensa do que a do homem pelo fato de não poder refletir, percebendo o alcance do sofrimento. Verifica-se mesmo o seguinte: 2) há um paralelismo estreito entre a hierarquia dos seres vivos e a do sofrimento; grande sofrimento vem a ser sinal de grande perfeição e nobreza.

 

Estas observações nos ajudarão a compreender a resposta à questão que ora se segue.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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