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Artigo

CISMA SILENCIOSO

“Eu creio que este seja o tempo da misericórdia. Esta mudança de época e também os muitos problemas da Igreja como o testemunho não bom de alguns padres, problemas inclusive de corrupção na Igreja, também o problema do clericalismo, só para exemplificar – deixaram muitos feridos”.

Encontro do Santo Padre com os jornalistas

durante o voo de regresso á Roma-JMJ-RIO-2013

 

“As experiências de sofrimento que o livro ressalta um pouco por tudo nos vários âmbitos socioeclesiais e eclesiásticos são o resultado de uma resposta não dada às exigências do povo, dos católicos praticantes. É certo que nem todos partilham dessa visão; o mal-estar de que falamos deve ser individualizado numa reduzida e sacrificada experiência de comunhão eclesial em nível comunitário. Quando dizemos comunitário, não queremos fazer sociologismo miúdo. Queremos, antes, definir com exatidão que, não obstante a aparência de uma visão comum e uniforme entre clero e leigos católicos, e inclusive na aberta ausência de conflitos, na realidade existem atritos, separações, divisões entre a hierarquia (o Papa e os bispos) e o “seu” povo (os batizados e os praticantes, além inclusive de alguns sacerdotes). Isso representa um verdadeiro e autêntico cisma que, pela sua manifestação de modo não explosivo, podemos definir silencioso”, escreve Piero Cappelli, autor do livro: O Cisma Silencioso da casta clerical à profecia da fé (1).

                Em grandes linhas, temos uma variedade de personagens sobre os quais, de um modo ou de outro, influem a organização, a ideia e o comportamento eclesiástico, a ponto de contribuir à criação do “cisma” silencioso entre os prelados católicos e a massa dos fiéis; podemos colocá-los - quer aos católicos tradicionais; quer também aos personagens desorgânicos à vida eclesial – sempre em relação ao poder eclesiástico -, como também aos católicos “de nome”, mas não praticantes, os católicos “de nome”, mas não crentes e os não católicos “de nome”, mas não crentes e os não católicos não crentes.

Quando o caminho está praticamente fechado e trancado, uma das respostas constantes dos leigos é o abandono. Tem-se a impressão de que não sejam poucos os párocos, anciãos ou não, que, tendo uma mentalidade impostada no comando e no poder eclesiástico, veem as pessoas fugir da paróquia, sobretudo a juventude, permanecendo normalmente em companhia das crianças, dos anciãos e das mulheres de certa idade: o sociólogo da religião, padre Silvano Burgalassi, definia a comunidade católica do final do século passado como uma Igreja “infantil, feminil e senil”, por causa da tipologia social dos personagens leigos que a caracterizavam na participação eclesial-litúrgica.

Tal análise deve ser considerada válida também hoje. Em geral, o padre faz recair a responsabilidade desse estado de coisas diretamente sobre as pessoas interessadas, não reconhecendo as próprias responsabilidades e as hierarquias católicas: “A culpa é dos fiéis!”.

200 Anos Para Trás

Na sua última entrevista, o Cardeal Carlo Martini (1927-2012), que fora arcebispo de Milão e candidato á sucessão de João Paulo II, no Conclave de 2005, confessou serenamente: “A Igreja Católica está cansada e anda 200 anos para trás!” Aos 85 anos, poucos dias antes de seu falecimento, ocorrido em 31 de agosto de 2012, afirmou que “nossa cultura (europeia) envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias”. “A burocracia da instituição Eclesiástica aumentou e os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos”. Mais adiante, afirmou: “Sei que não podemos nos livrar disso facilmente, mas pelo menos poderíamos tentar ser como os homens livres e mais próximos dos fiéis”. Aponta, em seguida, três “instrumentos” para combater o cansaço na Igreja. Conclui sua entrevista, dizendo: “Temos medo? Medo invés de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. Eu sou velho e doente e dependo da ajuda dos outros. As pessoas boas ao meu redor me fazem sentir o amor. Esse amor é mais forte do que o sentimento de desconfiança que, ás vezes, eu percebo com relação á Igreja na Europa. Só o amor vence o “cansaço...” (In: Corriere dela Sera”, 01-09-2012).

Na primeira aparição pública após a renúncia, o papa Bento XVI usou a homília de Quarta-feira de cinzas para exortar os que estariam “instrumentalizando Deus”. Bento XVI afirmou: “A divisão do clero e a falta de unidade estão desfigurando a Igreja”. “Penso em particular nos pecados contra a unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesial”, disse Bento XVI (2).

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja

Instituto de Teologia Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: pe.inaciojose@gmail.com

 

Notas:

(1)                 Capelli, Pierro. O cisma silencioso: da casta clerical á profecia da fé. São Paulo: Paulus, 2010, pp. 22 e 161.

(2) O Estado de S. Paulo, 14/02/2013, p. 01.

 


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