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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 59 - novembro 1962

 

COMO DIFERENCIAR MILAGRES FALSO E VERDADEIRO?

LAUREANO (Ilhéus): «Quais as notas que diferenciam de um falso milagre (fenômeno doentio ou diabólico) o verdadeiro milagre realizado por Deus?»

 

Dizíamos que nem todo fenômeno portentoso pode ser considerado como sinal de Deus ou como portador de mensagem divina. Tanto o fenômeno em si como o respectivo quadro religioso devem preencher determinadas condições para que se possa admitir genuína intervenção de Deus no caso. Analisaremos agora essas condições, distinguindo entre características negativas e características positivas da verdadeira intervenção de Deus ou do genuíno milagre.

 

1. Critérios negativos

 

Eis as principais notas que servem para denegar a algum fato maravilhoso o valor de milagre propriamente dito:

 

a) Circunstâncias que tornem o fenômeno indigno de Deus; assim

 

- irreverência a Deus,

- imoralidade,

- índole infantil ou ridícula,

- foros de charlatanismo ou ilusionismo,

- vantagens materiais e lucro financeiro sistematicamente aceitos pelo pretenso taumaturgo,

- ocasiões de satisfazer ao orgulho, à vaidade ou à sensualidade das pessoas envolvidas no portento.

 

Certamente os Evangelhos apócrifos, principalmente os da Infância de Jesus, referem pseudo-milagres do Senhor, denunciados, uns, por seus traços irreverentes ou sua Índole indigna de Deus (tenham-se em vista as punições violentas e arbitrárias infligidas por Jesus a seus colegas e ao seu mestre na escola), outros, por carecerem de significado messiânico, apresentando-se como mera ostentação de poder (que sentido religioso poderia ter o fato de que Jesus modelasse pássaros de argila e os fizesse esvoaçar logo depois de plasmados?). Cf. «P. R.» 56/1962, qu 7.

 

À luz deste critério, poder-se-ão julgar certos portentos relatados no decorrer dos séculos cristãos. Louis Monden, Le Miracle, Signe de salut pág. 60, observa:

 

«Se a ciência não tivesse provado que a trasladação da Casa Santa de Nazaré (para Loreto) constitui uma lenda, nós o teríamos suspeitado, dada a índole mesma de tal prodígio. A missão dos anjos no plano redentor não é precisamente a de transportadores benévolos».

 

A respeito da Casa de Loreto, veja-se «P. R.» 12/1958, qu. 9.

 

Outro exemplo de portento que, vistas as circunstâncias em que se realiza, não pode ser atribuído a extraordinária intervenção de Deus, é a prática do horóscopo, principalmente como se verifica nos consultórios de grandes mestres ou em Institutos especializados: abstração feita de outras circunstâncias, o simples fato de se estabelecer comércio sistemático, com finalidades altamente lucrativas, em torno da predição do futuro, bem significa que essa predição não pode ser inspirada por Deus, mas deve decorrer de obra meramente humana.

 

Assim há de ser considerada a empresa de um mestre parisiense que, sob o pseudônimo de «Fakir Birman», nos anos anteriores à última guerra mundial montou prestigiosa agência de horóscopos nos Campos Elísios de Paris. Tinha a seu serviço numerosa equipe de funcionários, que se aplicavam às tarefas de estipular, escolher, copiar e despachar oráculos, dos quais lhe provinha uma renda de 50 milhões de francos.

 

Na mesma época funcionava em Mônaco semelhante instituto, cujos lucros não devem ter sido exíguos, visto o teor dos respectivos prospectos de propaganda: «Horóscopo completo, com estudo minucioso e datas decisivas do ano; o ano em curso, com os acontecimentos de cada dia: 1000 francos. Comparação de dados que permitem sondar o futuro de um casamento ou de uma associação: 200 francos, etc.». ....

 

Simultaneamente em Paris existia ainda outro orago ou adivinho, Tarah Bey, ao qual afluíam consulentes de todas as partes da cidade; quando realizava sessões públicas no Circo de Paris, a multidão de espectadores era tal que certa noite, excitados e impacientes junto às respectivas bilheterias, chegaram a arrancar e levar consigo um poste de iluminação pública!

 

Eis outro critério que pode servir para desqualificar o portento:

 

b) índole fortemente sensacional ou retumbante do prodígio.

 

As obras de Deus costumam ser discretas, mesmo quando derrogam ao curso ordinário dos acontecimentos. Nunca removem o regime de fé em que os cristãos viverão até o fim dos tempos. Portento exageradamente sensacional já não seria sinal, já não levaria os espectadores a procurar e entrever outra realidade invisível assim assinalada, mas, maciço e privado de transparência, prenderia a atenção dos observadores; alimentaria a fantasia e a curiosidade profanas mais do que as faculdades superiores do homem e a reverência a Deus.

 

O autêntico milagre, portanto, nunca da aos homens a impressão de estarem num universo já glorificado ou no paraíso reconquistado. Assemelha-se antes a um sorriso reconfortante que Deus dirige à sua Igreja posta no caminho da cruz. De resto, iludir-se-ia quem julgasse que os milagres mais retumbantes provocariam em todos os homens a adesão a Deus. Quem não possui uma certa docilidade ou uma atitude inicial de fé, tende a contornar e desvirtuar qualquer prodígio; procura explicações racionalistas, sugeridas por preconceitos obcecados; verifica-se assim o que Jesus disse no fim da parábola de Lázaro e do ricaço: «Mesmo que alguém ressurja dentre os mortos, não lhe darão o crédito» (cf. Lc 16,31).

 

Em Lourdes, onde se julga, com razão, haver autênticos milagres, a discrição é um dos traços mais marcantes. Ali não há curas em massa; os fenômenos portentosos ficam sendo exceções (cf. significativa estatística em «P. R.» 11/1958, qu. 1). Também não há cálculos humanos que levem a prever a obtenção de alguma cura por se terem preenchido determinadas condições; nem se pode falar de probabilidade estatística em favor de tal ou tal caso. As circunstâncias das curas registradas não podem ser reduzidas a um processo uniforme: na piscina, em procissão, durante a Missa, numa enfermaria comum ou num quarto isolado dão-se os portentos. Ademais a maneira como se realizam é muito sóbria.

 

Mais um traço que desabona os fenômenos maravilhosos, seria:

 

c) O espírito de arrogância e de domínio com que o taumaturgo trata as coisas de Deus e os fenômenos portentosos.

 

Quem julga ter direito a algum milagre, porque possui ciência e receitas ou porque é virtuoso e sempre foi fiel a Deus, já se coloca fora das disposições necessárias para ser atendido pelo Senhor Deus. O autêntico milagre é sempre sinal gratuito, nunca, é devido por Deus ao homem; por isto estaria simplesmente fugindo ao Pai celeste quem exigisse um milagre como condição de sua adesão a Deus. É com humildade e disponibilidade que o homem se deve colocar perante o Senhor, esperando a gratuita condescendência do Altíssimo.

 

Observa Monden, ob. cit. 65:

«Estas considerações ajudam valiosamente a discernir os verdadeiros milagres. Será considerado ao menos como improvável qualquer fato maravilhoso que esteja constantemente à disposição do povo cristão ou que se produza a intervalos regulares. Parece-nos contaminada por inverossimilhança a hipótese daqueles, por exemplo, que atribuem a liquefação do sangue de São Januário em Nápoles a uma intervenção milagrosa, e não a um processo químico natural. Deus usa do milagre conforme as normas da sua soberana liberdade; é difícil admitir que Ele queira fazer do portento um brinquedo maravilhoso oferecido à curiosidade dos filhos dos homens».

 

Em particular, no tocante a predições e revelações, são suspeitos os oráculos que apresentam

 

d) Grande abundância de pormenores ao descrever o futuro.

 

Há vaticínios que descem a minúcias grotescas, reduzindo-se frequentemente ao seguinte esquema: haverá tremendos flagelos para a humanidade nos próximos tempos; sobreviverão apenas os bons, os quais, terminada a borrasca, passarão a gozar de prosperidade sobre a terra. Tem-se assim a afirmação de um Cristianismo que tende a se instalar neste mundo e a se dar por satisfeito com os bens da vida terrestre (o que, na verdade, é muito pouco cristão). Tais oráculos gozam de muita voga porque constituem uma espécie de consolo para o homem atribulado de nossos dias; correspondem, sim, a uma atitude psicológica do cidadão moderno e não a uma revelação divina; fornecem devaneio à fantasia e satisfação à curiosidade, coisas que vêm muito a propósito numa época em que o homem procura tantos paliativos (meias-soluções) para as misérias que o acometem.

 

Vai aqui transcrito um espécime de tais oráculos, datado de maio de 1947 (época de calamidades imediatamente decorrentes da última guerra mundial). É bem fiel ao esquema habitual (deve-se à «Oeuvre Mondiale de Propagande et d'Information». Bourg-Saint-Maurice, Savoia, França):

 

«O reino do S. Coração de Jesus está próximo. Contudo, antes que chegue, desencadear-se-ão terríveis provações sobre o mundo, a fim de o levar de volta a Deus pela penitência e exterminar por justo castigo aqueles que não se quiserem converter. Assim a terra será purificada e o mundo renovado.

Primeira série de provações...

 

Segunda série de provações (ainda haverá ímpios e ateus)... Então o grande flagelo do céu precipitar-se-á sobre eles, flagelo inédito e espantoso, que atingirá especialmente os impenitentes. Esse novo flagelo será breve, muito breve; seguir-se-lhe-á imediatamente o triunfo dos servos de Deus. A maior parte do gênero humano desaparecerá nesse inaudito castigo; aqueles, porém, que sobreviverem, servirão o Senhor com temor e amor».

 

Obedecem ao mesmo esboço profecias sucessivamente propagadas nos últimos cem anos: assim a «Profecia do Cura de Ars», a «Predição de Orval», a «Profecia de Santa Odilia», as «Interpretações modernas de Nostradamus», etc. São documentos que por si mesmos se desprestigiam.

 

Jamais será intenção da Igreja atrair a si os homens mediante promessas de remuneração temporal ou de prosperidade terrestre para os bons. Portanto, a utilização de tais profecias na Apologética comunicaria noção errada do Evangelho, fundamentaria a vida cristã sobre a crendice mais do que sobre a fé;... sobre a curiosidade mais do que sobre a procura do verdadeiro Deus;... sobre temores e sonhos terrestres mais do que sobre a verdadeira esperança cristã. O apologista católico não procurará sucesso para a sua causa à custa de traição dos valores mesmos (sobrenaturais, invisíveis) que a Apologética quer defender.

 

Note-se a propósito uma sábia observação de São Tomás: na Suma Teológica III qu. 69, a. 3, pergunta o S. Doutor por que o Batismo, apagando o pecado original, não extingue também as consequências do pecado, que são os sofrimentos da vida presente e a morte. E responde. «Não os extingue, a fim de que os homens não procurem o Batismo movidos pelo desejo de uma vida terrestre isenta de tribulações, mas o façam unicamente em vista da glória da vida eterna».

 

O Cristianismo, por certo, não garante existência prazenteira neste mundo. Donde se vê quão suspeitas são as profecias que prometem o que quer que seja neste sentido.

 

Também não se recomendam os oráculos marcados por

 

e) Acentuada tendência a interferir em assuntos de ciências naturais, elucidando em nome da Religião questões da alçada das ciências profanas.

 

Relatam-se, com efeito, vaticínios que pretendem desvendar novos horizontes referentes à origem e à evolução do mundo e do homem, à natureza aos anjos, etc.

 

Certo farmacêutico, ex-aluno do Laboratório de Geografia Física de Paris, redigiu uma «Geologia Mariana», baseada nos estreitos liames que ele julgava haver entre os terrenos calcários e as aparições de Maria Santíssima. Assim concluía a sua explanação:

 

«Poder-se-ia do seguinte modo representar, em simbolismo perfeito, o ato central da história deste mundo (a Encarnação): 8, numero de Maria (5, número do homem, acrescentado a 3, numero de Deus), unido ao infinito ( 00 ), dá uma flor em forma de cruz a qual evoca a hóstia quando esta é colocada no centro de um Omega de plenitude divina, que é, antes do mais, o sinal geológico das escavações subterrâneas» (libelo publicado sem licença da autoridade eclesiástica e sem o nome do editor; aqui transcrito da revista «La Vie Spirituelle. Supplément» no 25 de 15/V/1953, pág. 155).

 

Difícil é entender o que o autor quer significar mediante tal elucubração. Em todo caso, deve-se afirmar que é vitima de falsa «visão»; não é ao Espírito Santo que se devem tais intuições. A ciência e a Religião não contradizem uma à outra; contudo não é necessário, nem consentâneo, pedir à Religião respostas para desvendar os mistérios da ciência.

 

Sejam agora apontados os principais indícios positivos do genuíno milagre ou das autênticas intervenções de Deus.

 

2. Critérios positivos

 

Devem-se indicar separadamente os traços que caracterizam as pessoas envolvidas no genuíno portento, e os que concernem os frutos ou os efeitos deste.

 

a) As pessoas envolvidas no autêntico milagre devem apresentar verdadeira atitude religiosa, marcada, antes do mais, pela oração e a humildade.

 

As idéias professadas por tais pessoas deverão ser as da Revelação cristã. O milagre verificado em tal contexto será então, como já foi afirmado atrás, o sinete dado por Deus para confirmar a virtude, a doutrina ou a missão das pessoas por intermédio das quais ou em favor das quais o portento se realiza. Sendo assim, entende-se que os genuínos milagres se efetuem geralmente na vida dos santos e dos pregadores ou arautos de Deus, pois estes justamente é que precisam de credenciais, isto é, precisam de ser identificados ou confirmados pelo Senhor aos olhos do mundo.

 

A rigor, não se exclui que um milagre ocorra por intermédio de pessoa de vida indigna ou de ideologia errônea. É de crer, porém, que isto só se dê excepcionalmente e que o Senhor, ao realizar o portento, remova os perigos de ilusão; Deus então fará que os homens compreendam o sentido do prodígio ou o termo preciso ao qual se refere o sinal milagroso (pode-se dar que o Senhor se queira servir de um homem pecador ou pagão para ser portador de uma verdade ou de uma mensagem divina; em tais casos, o milagre atestará a veracidade de tal mensagem, mas não comprovará a conduta de vida ou o conjunto de idéias do arauto; o Senhor permitirá que isto se torne claro aos homens).

 

Muito a propósito dizia Pascal: «Les miracles discernent la doctrine et la doctrine discerne les miracles. — Os milagres levam a reconhecer a doutrina, e a doutrina leva a reconhecer os milagres». Donde se vê que a importância do milagre, na teologia católica, não é absoluta, mas, sim, relativa; deverá ser avaliada à luz de um contexto ideológico que os homens hão de reconhecer de algum modo como válido já antes de reconhecer o fenômeno milagroso.

 

Veja «P. R.» 6/1958, qu. 1, onde se trata da possibilidade de autênticos milagres ou sinais de Deus fora da Igreja Católica.

 

O quadro mais normal, dentro do qual o milagre se insere, é o da prece humilde: o prodígio aparece então como a resposta de Deus ao apelo da miséria do homem. Não é a miséria que impede o homem de ser agraciado por Deus (contanto que o miserável ore com um coração contrito e humilde), mas são o orgulho e a presunção que criam obstáculo à graça e à intervenção milagrosa de Deus.

 

Pode-se dizer que em Lourdes há um só elemento constante em todos os casos de milagres: é a oração. Os prodígios constituem a resposta à oração humilde.

 

Passemos agora a outro indicio positivo do autêntico milagre.

 

b) Os efeitos do genuíno portento são, entre outros, a confirmação dos homens na verdade e no bem, repúdio do pecado, conversões à reta fé, paz de alma, concórdia e caridade entre os homens, fidelidade ao dever de estado, obediência às autoridades.

 

Estes indícios já foram objeto de consideração em «P. R.» 6/1958, qu. 1, onde o leitor poderá colher ulteriores informações sobre o assunto.

 

c) As genuínas revelações milagrosas nunca são inovações em relação à doutrina tradicional da Igreja, mas apenas constituem explicitações da mesma ou aplicações a casos particulares; além disto, a Igreja não as impõe à fé do povo de Deus.

 

Assim a mensagem do S. Coração de Jesus a S. Margarida Maria Alacoque em Paray-le-Monial (séc. XVII) não é senão a concretização dos dogmas da Encarnação e da Redenção numa época em que se ia esquecendo o Amor de Deus para arvorar o temor religioso jansenista. A devoção ao S. Coração de Jesus tem fundamento cabal no Credo (é, sim, a devoção ao Amor do Redentor ou ao Amor de Deus que se fez homem para remir os homens). Em consequência, poderia alguém prestar culto ao S. Coração de Jesus, sem muito se interessar pelas graças extraordinárias concedidas a S. Margarida Maria, até mesmo sem as conhecer. — Diga-se algo de análogo a propósito das aparições da Virgem Santíssima em La Salette, Lourdes, Fátima: a mensagem aí atribuída a Maria (repúdio do pecado, entrega à oração e à penitência, recitação do Rosário) está incluída no ensinamento dos Pontífices e do magistério comum da Igreja; as aparições apenas visaram avivar nos cristãos a consciência da importância e da necessidade de tais elementos.

 

Estas considerações já bastam para que o leitor possa distinguir os genuínos milagres e avaliar o significado (nem absoluto, de um lado, nem desprezível, de outro lado) que lhes compete no conjunto da Revelação e da vida cristãs.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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