MUNDO ATUAL (702)'
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Artigo

Por favor, uma moedinha para o pão!

 

Sergio Sebold

Economista e Professor Independente

sebold@terra.com.br

 

O instinto de sobrevivência inato em todos os seres vivos oportunizou na raça humana a formação de grupos interessados nessa fragilidade, para sua efetiva exploração. O requisito básico é a necessidade de comer que todo ser humano tem a cada 6 horas. Neste contexto formou-se um mecanismo de exploração econômica, o chamado mercado livre de alimentos.

 

Setores políticos que administram as necessidades humanas (FAO) na luta contra a fome e desnutrição, têm como obstáculos a prioridade dos mercados e a ganância, transformando os alimentos em mercadoria como qualquer outro bem produzido pelo homem, encarada como uma mera commodity. A pressão econômica para que se desenvolva este mercado é justamente a fome de milhões. Por outro lado, pode-se reconhecer que houve avanços na produção agrícola mundial, mesmo com o crescimento da população. Até agora a mãe terra conseguiu atender a todos. O paradoxo desse mercado é que apesar dos números da produção serem suficientes para atender toda a população do planeta, temos ainda um enorme contingente de famintos. Assim a falta de comida para estes famintos é devido ao desvio para aqueles outros mais aquinhoados em termos de poder econômico e político que comem esta diferença. Estamos diante do absurdo da abundância, onde há alimentos para todos, mas nem todos podem comer; fazem parte desse absurdo o desperdício, o descarte, o consumo excessivo por grupos privilegiados. Para completar tem-se o desvio de alimentos para outros fins industriais como, por exemplo, indústria de cosméticos.

 

Não podemos nos esconder somente nos números das estatísticas, como bem lembrou São João Paulo II quando de sua missão terrena: “o desemprego não pode ser visto apenas como mero número estatístico, mas sim como uma tragédia humana”; da mesma forma, a miséria não pode ser tratada como um número meramente estatístico pelos políticos, onde o atual Papa Francisco alertou que “... o faminto está ali, em qualquer lugar, na esquina da rua, e pede por seus direito de cidadania, pede para ser considerado na sua condição, para receber seu quinhão de uma alimentação sadia. Pede-nos dignidade, não esmola”.

 

O que se pode dizer depois de tudo isso que se comentou, encontrar 30% da população mundial absurdamente acima do peso fisiológico ideal (obesos ou sobrepeso), em números 2,1 bilhões de habitantes? Esta comilança é o que está faltando para muitos famintos espalhados pelo mundo inteiro. Em nossa confissão de mea culpa, quantos de nós estamos nesta condição acima do peso?

 

A ganância, o egoísmo, o individualismo que se manifesta na falta de solidariedade para com nossos semelhantes em condições de fragilidade, levam a fortalecer a lógica de mercado: a escassez. Na ótica capitalista, quanto maior é a escassez, maior a oportunidade de ganhos. Na visão política, aqueles que passam por fome endêmica, e se sujeitam em viver de esmolas, são os socialmente excluídos.

 

A esmola subverte dramaticamente o homem ao nada psicológico. A pessoa que chega ao ponto de pedir esmola é por que já se esgotaram todas as suas forças psíquicas de sobrevivência. Esta é uma chaga social que clama aos céus.

 

“Não podemos olhar para a nutrição como competência exclusiva do individuo: a nutrição é uma questão pública”, José Graziano Silva – Presidente da FAO.

 


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