APOLOGéTICA (1272)'
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Artigo

Os Cristãos são chamados à comunhão pois Cristo fundou uma Igreja visível

Uma das diferenças mais fundamentais entre os paradigmas eclesiais católico e protestante diz respeito à natureza da Igreja que Cristo fundou. De acordo com o paradigma predominante protestante, a própria Igreja é uma entidade invisível espiritual, embora alguns de seus membros, ou seja, todos aqueles crentes que ainda vivem na vida presente, sejam visivelmente incorporados a ela.

Corpo de Cristo – A igreja na terra e os Santos no Céu

No paradigma protestante, quem tem a verdadeira fé em Cristo é, ipso facto, um membro da única Igreja que Cristo fundou. Este paradigma protestante não reconhece que Cristo fundou um corpo visível hierarquicamente organizado. Por outro lado, a Igreja Católica por 2.000 anos tem acreditado e ensinado que o Cristo encarnado fundou um corpo visível, hierarquicamente organizado. No paradigma católico, a fé em Cristo não é suficiente por si só para fazer uma pessoa um membro deste corpo; um crente é incorporado a este corpo pelo batismo válido, e pode ser removido deste corpo seja por heresia, apostasia, cisma ou excomunhão.

As confissões reformadas afirmam a visibilidade da Igreja, de modo que se levanta uma questão específica: no que diz respeito à visibilidade, como é que a eclesiologia reformada se distingue tanto do paradigma eclesial protestante comum e da eclesiologia católica? Neste artigo, vamos mostrar primeiro que Cristo fundou Sua Igreja como um corpo visível, e por que Ele fez isso. Em seguida, apresentaremos as várias posições e argumentos que a eclesiologia reformada é equivalente, no essencial, ao paradigma eclesial protestante comum. Finalmente, traçamos algumas importantes implicações decorrentes da visibilidade da Igreja.

I. O Corpo de Cristo é uma unidade visível

A. A Igreja é o Corpo de Cristo, Ele é a cabeça do seu Corpo Místico

“E eu te digo, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mateus 16:18).

Uma das razões pela qual Cristo veio ao mundo, era construir a Sua Igreja, pois através dela os homens poderiam finalmente chegar ao conhecimento Dele e, por conseguinte, à vida eterna – lembremo-nos aqui a ordenança de Cristo aos seus Discípulos de “ir e fazer discípulos de todas a nações”, confirmando que a fé vem do ouvir (Cf Rom 10,17) – , isto é, a visão beatífica do Trino Deus. No Novo Testamento encontramos diferentes termos usados para mostrar aspectos distintos da Igreja. Um desses termos é o “Corpo de Cristo” [σώματος τοῦ Χριστοῦ]. Para distinguir o Corpo de Cristo que é a Igreja, do corpo de Cristo, que nasceu da Virgem Maria há 2.000 anos atrás e agora está assentado à direita de Deus Pai, nós nos referimos ao primeiro como o “Corpo Místico de Cristo “e ao segundo como o Corpo físico de Cristo.

Quanto ao Corpo Místico de Cristo, São Paulo escreve aos santos na igreja de Roma:

Pois, assim como temos muitos membros em um só corpo e todos os membros não têm a mesma função, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros. (Romanos 12:4-5)

São Paulo escreve à igreja de Corinto:

Pois assim como o corpo é um, e ainda tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, somos um só corpo, assim é Cristo também. Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres, e a todos nós foi dado beber de um só Espírito. Para o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: “Porque eu não sou mão, não sou uma parte do corpo, não é por este motivo qualquer, menos a parte do corpo. E se o ouvido diz: “Porque eu não sou olho, não sou uma parte do corpo,” não é por este motivo qualquer, menos a parte do corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus colocou os membros, cada um deles no corpo, como quis. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Mas agora, há muitos membros, mas um só corpo. E o olho não pode dizer à mão: “Eu não preciso de você”, ou ainda a cabeça aos pés. “Eu não preciso de você” Pelo contrário, é muito mais verdadeiro que os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários, e os membros do corpo que consideramos menos honrosos, sobre estes conferimos muito mais honra, e os nossos membros menos apresentáveis se tornam muito mais apresentáveis, ao passo que os nossos membros mais apresentáveis não têm necessidade disso. Mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao membro que faltava, para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham a mesma solicitude uns para os outros. E se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Agora você é o Corpo de Cristo, e seus membros em particular. E pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. Nem todos são apóstolos, são eles? Todos não são profetas, são eles? Todos não são professores, são eles? Todos não são operadores de milagres, são? Todos não têm dons de curar, não é? Todos não falam em línguas, não é? Todos não interpretam, não é? Mas procurai com zelo os maiores dons. (1 Coríntios 12:12-31).

Para os santos que estão em Colossos São Paulo escreve:

Ele [Cristo] é também Cabeça do Corpo, a Igreja, e Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que Ele mesmo venha a ter o primeiro lugar em tudo. . . . Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e na minha carne, que eu faço a minha parte, em nome do Seu Corpo, que é a Igreja, ao preencher o que falta aos sofrimentos de Cristo. (Colossenses 1:18,24).

E aos santos em Éfeso escreve São Paulo:

[Deus Pai] sujeitou aos seus [ Cristo] todas as coisas, e o constituiu como chefe supremo da Igreja, que é o Seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos. (Efésios 1:22).

Pelo contrário, vivendo um amor autêntico, cresceremos sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça. Ele organiza e dá coesão ao corpo inteiro, através de uma rede de articulações, que são os membros, cada um com a sua atividade própria, para que o corpo cresça e se construa a si próprio no amor. (Efésios 4:15-16).

Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. (Efésios 5:23).

Nestas passagens São Paulo ensina que o Corpo Místico de Cristo é uma unidade, é um só corpo. Deus compô-lo de modo que não houvesse qualquer divisão nele. No entanto, em outro sentido, o corpo é uma pluralidade, porque tem muitos membros. Contudo, os membros são unidos em um mesmo corpo. Cada um dos membros do corpo tem um lugar diferente e função no Corpo. Eles não têm todos a mesma função ou cargo. Alguns são apóstolos, alguns são profetas, alguns são professores, etc., cada um de acordo com seus dons. E São Paulo ensina que alguns presentes são maiores do que os outros, mesmo quando cada membro é dependente um dos outros. Esta dependência mútua, é verdade, não é só das mãos e dos pés, mas mesmo da cabeça. A cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês ‘Desta forma, o corpo é hierarquicamente organizado, cada uma das funções subordinadas contribui para a atividade unificada de todo o corpo. 5 Se o corpo não fosse organizado hierarquicamente, haveria muitas atividades diferentes, mas não uma atividade unificada. Haveria muitos indivíduos distintos, e não UM corpo.

No topo da hierarquia está Cristo, a Cabeça do Corpo. A cabeça e os membros, juntos, formam um só corpo, com uma vida divina compartilhada. A vida do corpo é a sua alma, na qual todos os membros do corpo são feitos vivos e de compartilham da mesma vida do corpo. Assim, pois, a Vida do Corpo de Cristo é o Espírito Santo, que é a Alma da Igreja.6 É por isso que São Paulo diz que por um só Espírito os crentes de Corinto foram batizados em um corpo bebendo todos de que um Espírito. Esta incorporação no Corpo Místico de Cristo é o que se entende por união ou comunhão com Cristo. Quando São Paulo diz: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim” (Gl 2:20), isto não deve ser entendido em um sentido individualista ‘eu-e-Jesus’, mas como uma referência à nossa união com Cristo no Seu Corpo Místico, a Igreja. Nossa união com Cristo é realizada através da nossa incorporação em seu Corpo Místico, a Igreja, que é composta de muitos membros. Da mesma forma, quando São Paulo diz em Gálatas 3:27-28 que aqueles que foram batizados em Cristo todos são um em Cristo, ele está se referindo aos crentes sendo incorporados à unidade do Corpo místico de Cristo, a Igreja. No que diz respeito a união, Santo Agostinho escreveu:

Alegremo-nos e demos graças que nos tornamos não apenas cristãos, mas Cristo. Entendeis, irmãos, a graça de Cristo, nossa cabeça? Reflitamos sobre isso: alegremo-nos, nós nos tornamos Cristo. Pois se Ele é a cabeça, nós somos os membros, Ele e nós formamos o homem todo. . . a plenitude de Cristo, portanto, a cabeça e os membros. O que é a cabeça e os membros? Cristo a Igreja “. 7

Observe a linguagem forte que usa Santo Agostinho. Por causa de nossa união com Cristo, Cabeça de seu Corpo Místico, que não são apenas os cristãos, mas, em um sentido verdadeiro, Cristo. Como isso é possível? Porque os membros e cabeça formam um. “Homem inteiro” de que “o homem todo” São Tomás de Aquino escreveu:

A cabeça e os membros são como uma pessoa mística [quasi una persona mystica] e, portanto, a satisfação de Cristo pertence a todos os fiéis enquanto Seus membros.8

Tanto Santo Agostinho quanto São Tomás sustentavam que pelo batismo somos incorporados ao Corpo Místico de Cristo, e que esta união não é extrínseca, mas intrínseca. 9 Pelo batismo somos incorporados em uma unidade maior do que nós mesmos, e assim tornamo-nos um com a cabeça e outros membros, mas sem perder a identidade pessoal. 10 Essa unidade do Corpo Místico é uma unidade visível, precisamente porque é a unidade de um corpo. Corpos são visíveis e hierarquicamente organizados, não são invisíveis. 11 Porque a Igreja é um Corpo, ela é essencialmente visível. 12 A visibilidade do corpo não é redutível à visibilidade de alguns dos seus membros, a Igreja por si só é visível, apenas como o seu corpo, por si só é visível. Porque a Igreja é um Corpo ” também deve ser algo definido e perceptível aos sentidos. ” 13 A fim de entender como o corpo é visível, é preciso considerar as maneiras pelas quais um corpo vivo é unificado. 14

B. As três maneiras pelas quais um corpo é unificado

Um organismo é unificado fundamentalmente de três maneiras. Em primeiro lugar, é unificado em sua essência. Cada uma de suas partes compartilha a mesma essência. Todas as células de nossos corpos humanos são células humanas. Todas as células de uma planta de girassol são células de girassol. Todas elas compartilham a mesma natureza formal. E assim, como diz São Paulo em Efésios 4:5, na Igreja há “uma só fé”. Nós todos acreditamos na mesma coisa no que diz respeito à fé da Igreja – reflitamos aqui sobre as atuais discrepâncias de doutrinas existentes nas milhares de denominações não-católicas. Por este motivo, ao longo da história da Igreja, quando o catecúmeno é incorporado ao Corpo Místico de Cristo por meio do batismo, ele afirma publicamente o Credo, que é a fé da Igreja. Estamos formalmente unificados no Corpo Místico de Cristo, porque todos nós acreditamos que na mesma doutrina. Se por exemplo a Igreja não se pronunciou a respeito de alguma questão de doutrina, podemos ter opiniões diferentes sobre tais questões. Mas os membros não podem estar formalmente unidos a um corpo se eles estão divididos sobre doutrinas que a Igreja tenha definitivamente descartado. É por isso que o Papa Pio XII escreveu:

Daí eles erram em uma questão de verdade divina, pois imaginam que a Igreja seja invisível, intangível, algo meramente ‘pneumatológico’, como dizem, pois muitas comunidades cristãs, embora difiram umas dos outras em sua profissão de fé, estão unidas por um vínculo invisível. 15

Para serem unos em essência, todos os membros do Corpo devem crer e professar tudo o que a Igreja crê, ensina e proclama a ser revelado por Deus.

Em segundo lugar, um organismo é unificado em sua atividade. Cada parte de um organismo é executar uma tarefa específica, mas cada uma destas tarefas específicas, faz parte de uma atividade unificada maior, a atividade de todo o organismo. Da mesma forma, no Corpo Místico, todas as atividades individuais dos membros devem ser coordenadas à atividade global do organismo vivo que é a Igreja. Qual é a atividade global deste Corpo Místico? É a atividade da cabeça, é a vida de Cristo. Todos nós, em união com Cristo, nos oferecemos a Deus como sacrifício vivo. Fazemo-lo mais plenamente nos sacramentos, especialmente a Eucaristia, quando nos oferecemos ao Pai, em união com o sacrifício de Cristo, e em troca somos nutridos por Sua graça. O Corpo Místico é uno por sua vida sacramental unificada:

“Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” (1 Coríntios 10:17.).

Os membros do Místico Corpo são dinamicamente unificados, porque, através de sua coparticipação nos mesmos sacramentos, todos eles estão envolvidos em uma mesma ação litúrgica. A vida dinâmica de Cristo Cabeça vem para os membros do Seu corpo através dos sacramentos. São Paulo refere-se a isso em Colossenses 2:19, onde ele escreve, ” e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, provido e realizado em conjunto pelas articulações e ligamentos, cresce com um crescimento que provém de Deus”. Os sacramentos são os canais ou artérias que Cristo estabeleceu em seu corpo pelo qual os membros do seu corpo recebem a graça da vida divina que flui da Cabeça.16 É precisamente por isso que aquelas entidades que não participam dos sacramentos ou em todos os mesmos sacramentos são “privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja” e “não podem ser chamadas” Igrejas “em sentido próprio” .17

Em terceiro lugar, um organismo é unificado em sua hierarquia. Nem todas as partes do organismo são a cabeça. As partes do corpo estão ordenadas hierarquicamente, em sistemas, órgãos, tecidos, e assim por diante. Vimos isso acima em 1 Coríntios 12, na descrição de São Paulo do Corpo Místico de Cristo. Se não houvesse hierarquia, o conjunto não seria um corpo, mas seria como um alfineteiro, onde Cristo é a almofada, e todos os crentes os alfinetes, cada um individualmente, diretamente, e independentemente dos outros, ligados a Ele. É por isso que a Igreja, uma vez que é um corpo, deve ser ordenada hierarquicamente. Os membros servem a Cabeça (e o todo), ao servir a parte do corpo próximo a si mesmos, de acordo com os dons e capacidades com as quais eles foram equipados, e sob a autoridade da hierarquia, de acordo com o seu lugar dentro dele. A hierarquia de um corpo deve ser unificada no sentido de que cada membro da hierarquia deve ser solicitado à cabeça. Se houvesse duas ou mais hierarquias, isto é, se houvessem dois ou mais objetivos finais para que os membros foram ordenados, haveria dois organismos distintos presentes, ou algo equivalente a um câncer dentro de um organismo (o câncer vive no corpo, depende do corpo, mas não constitui o corpo).18 Portanto, a existência de um corpo requer unidade hierárquica entre os seus membros, assim também a existência do Corpo Místico de Cristo requer unidade hierárquica entre os seus membros.

Estes três modos de unidade correspondem também a três papéis de Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei, respectivamente. Cristo é o Profeta perfeito, e isso implica que os membros do Seu Corpo Místico compartilham uma fé. Cristo é o Sumo Sacerdote perfeito, e isso implica que os membros de seu Corpo Místico participam da mesma ação litúrgica, e, portanto, os mesmos sacramentos. E porque Cristo é o Rei perfeito, isso implica que os membros do Seu Corpo Místico são partes uma hierarquia visível e, portanto, um magistério visível. Desta forma, a realização perfeita de Cristo dos papéis de Profeta, Sacerdote e Rei envolve os três “vínculos de unidade” na Igreja. 19 Estas são também as três maneiras pelas quais a Igreja é visível. Ela está visivelmente unida em sua profissão de fé, na celebração comum ou compartilhada dos mesmos sacramentos, e em sua hierarquia eclesiástica compartilhada, cada um destes três têm sido recebido e transmitidos por sucessão do Apóstolos. 20

C. Visibilidade e Unidade hierárquica do Corpo Místico

“Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me importa conduzir, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.” (João 10:16).

Quando estamos a falar sobre a visibilidade da Igreja, no contexto de uma discussão ecumênica envolvendo católicos e protestantes, estamos falando principalmente sobre o terceiro modo de unidade, porque no diálogo ecumênico a questão relevante sobre a visibilidade é esta: Quando Cristo fundou a Sua Igreja, Ele estabeleceu a Igreja com a unidade essencial não só na doutrina e nos sacramentos, mas também em seu governo hierárquico visível? Em outras palavras, unidade hierárquica visível é parte da essência do Corpo Místico de Cristo? Protestantes e Católicos, apesar de discordarem um pouco sobre o conteúdo do depósito da fé, pelo menos concordam que Cristo estabeleceu a Igreja com a unidade de doutrina, isto é, com um depósito da fé. Da mesma forma, embora os protestantes e os Católicos não concordem sobre o número e a natureza dos sacramentos, eles concordam que Cristo instituiu uma ordem sacramental e deu-a aos Apóstolos, como parte do depósito da fé confiado à Igreja. A Unidade essencial da fé e dos sacramentos podem ser vistas em Efésios 4:5, onde São Paulo diz que há “uma só fé, um só batismo”.

Mas quando chegamos à questão da unidade da hierarquia, os protestantes e os católicos não concordam. Os protestantes alegam que a unidade hierárquica visível que Cristo inicialmente previu para o Seu Corpo Místico foi acidental (ou seja, não-essencial) e, portanto, capaz de ser perdida (e, de fato, acabou se perdendo), ou ainda afirmam que o Corpo Místico de Cristo nunca foi provido de uma unidade hierárquica visível. A posição católica, por outro lado, é que a unidade hierárquica visível pertence à essência de Corpo Místico de Cristo. 21 Por esse motivo, segundo a doutrina católica, a unidade hierárquica não pode ser perdida a menos que o Corpo Místico deixe de existir. Mas desde que o Corpo Místico não pode deixar de existir, porque compartilha das próprias ações vida do Filho de Deus sobre quem a morte é impotente, portanto a unidade hierárquica visível não pode ser perdida.22

Para que haja uma hierarquia visível, não é suficiente que cada membro seja ligado a uma cabeça invisível. Ser meramente comandado por uma cabeça invisível não é por si só compatível com o modelo de uma hierarquia visível. No entanto, para que haja uma hierarquia visível, algumas pessoas visíveis precisam ter uma autoridade eclesial que os outras não têm. Segundo a doutrina católica, a autoridade de Cristo deu aos Apóstolos e seus sucessores é tripla: 1- a autoridade para ensinar, 2- a autoridade para conduzir os homens ao caminho da santidade por meio dos sacramentos (que, por sua vez, levam até Cristo), e a autoridade para governar a Igreja. 23 Esta tripla autoridade também corresponde ao tríplice ofício de Profeta, Sacerdote e Rei de Cristo.

Além disso, para uma hierarquia visível a ser una, ela deve ter uma cabeça visível. Somente se cada membro de uma hierarquia visível estiver organizado à uma cabeça visível é que a própria hierarquia visível poderá ser una. E somente se, a cabeça visível for essencialmente uma hierarquia visível será essencialmente uma. Se a cabeça visível da hierarquia for plural, em seguida, a hierarquia visível não seria essencialmente unificada, mas, na melhor das hipóteses, apenas acidentalmente unificada.

Uma vez que Cristo, tendo subido ao céu, já não é visível para nós (“e uma nuvem o encobriu dos seus olhos”, Atos 1:9), Ele nomeou um administrador visível (ou ‘vigário’) antes de Sua ascensão, para ser a cabeça visível de seu Corpo visível. A única cabeça visível da hierarquia visível está implícita quando Jesus diz: “haverá um só rebanho e um só pastor”. (João 10:16) Quanto ao estabelecimento de uma cabeça visível do Seu Corpo de Cristo, o Papa Pio XII escreveu:

Mas não devemos pensar que Ele governa apenas de forma escondida ou extraordinária. Pelo contrário, nosso Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e normal através de seu Vigário na terra. Vós sabeis, Veneráveis Irmãos, que depois que ele havia governado o “pequeno rebanho” ele mesmo durante sua peregrinação mortal, Cristo nosso Senhor, quando está prestes a deixar este mundo e voltar ao Pai, confiou ao chefe dos apóstolos o governo visível da comunidade inteira por ele fundada. Ele era todo o sábio, e como Ele poderia deixar sem cabeça visível o corpo da Igreja por ele fundada como uma sociedade humana. Nem contra isto poderá alguém argumentar que o primado de jurisdição estabelecido na Igreja dá ao  Corpo Místico duas cabeças. Pois Pedro, em vista de sua primazia é apenas o Vigário de Cristo, de modo que há apenas um chefe principal deste corpo, ou seja, Cristo, que nunca deixa a Si mesmo para guiar a Igreja invisível, porém, ao mesmo tempo, Ele governa de modo visível, por meio daquele que é o Seu representante na Terra. Depois de Sua gloriosa Ascensão aos Céus esta Igreja não descansou sobre ele sozinho, mas em Peter, também, a sua pedra fundamental visível. Que Cristo e Seu Vigário constituem uma única Cabeça é o ensinamento solene de nosso predecessor de imortal memória Bonifácio VIII na Carta Apostólica Unam Sanctam, e seus sucessores nunca deixaram de repetir o mesmo. 24

Quando Cristo ascendeu, não teria havido um unidade hierárquica visível entre os doze Apóstolos, se Cristo não tivesse dado autoridade única à um deles para ser o cabeça visível. Antes de Sua ascensão, Cristo deu a Pedro as chaves do Reino, o comandou a fortalecer seus irmãos, e o nomeou para apascentar as ovelhas de Cristo até que Ele retornasse.25 Se Cristo não tivesse estabelecido uma cabeça visível essencialmente unificada, qualquer cisma no vértice da hierarquia visível separaria o Seu Corpo Místico em dois ou mais corpos. Daí São Jerônimo diz:

Mas você diz, a Igreja foi fundada sobre Pedro: embora em outros lugares o mesmo é atribuído a todos os apóstolos, e todos eles recebem as chaves do reino dos céus, e a força da Igreja dependa deles todos igualmente, mas um entre os doze foi escolhido de modo que, quando uma cabeça foi nomeada, não pudesse haver nenhuma ocasião para cisma.26

E o Papa Leão XIII, diz:

Na verdade, nenhuma sociedade humana verdadeira e perfeita pode ser concebida que não é governada por uma autoridade suprema. Cristo, portanto, deve ter dado à Sua Igreja a autoridade suprema a que todos os cristãos devem prestar obediência. Por esta razão, como a unidade da fé é necessária para a unidade da Igreja, na medida em que é o corpo dos fiéis, assim também por esta mesma unidade, na medida em que a Igreja é uma sociedade divinamente constituída, a unidade de governo, que afeta e envolve a unidade de comunhão, é necessário jure divino. “A unidade da Igreja manifesta-se na conexão mútua ou a comunicação de seus membros, e também na relação de todos os membros da Igreja a uma cabeça. ” 27

Vemos aqui que a graça não destrói a natureza, mas edifica-a e aperfeiçoa-a. É por isso que vilas e cidades têm prefeitos, e por isso mesmo que nosso país tem um presidente. Assim como em uma sociedade natural é preciso haver uma hierarquia unificada e uma cabeça visível, do mesmo modo, na sociedade dos fiéis ( a Igreja), deve haver uma hierarquia unificada e uma cabeça visível. Pela mesma razão que praticamente toda congregação protestante tem um pastor Chefe, toda a Igreja visível também exige uma cabeça ou líder visível. A Igreja como um organismo visível preserva a cabeça visível estabelecida por Cristo e, assim, mantém as três marcas da unidade. Sem um líder visível, o Corpo Místico seria reduzido ao equivalente ontológico de alguns “alfinetes” visíveis invisivelmente ligados a um “alfineteiro” invisível. Isso porque, sem uma cabeça ou líder visível, uma hierarquia visível é apenas acidental, porque intrinsecamente é constituída apenas por várias ou muitas hierarquias separadas. Muitas hierarquias separadas não são a mesma coisa que uma unidade visível, pois são ontologicamente equivalentes a muitos indivíduos separados. Eles são uma mera pluralidade, não uma unidade verdadeira.

A “Igreja visível” composta por hierarquias visíveis separadas seria equivalente em sua desunião à uma Igreja meramente invisível de alguns membros. 28 Portanto, uma cabeça visível pertence à essência do Corpo Místico, uma vez que um corpo não pode ter mera unidade acidental, mas deve ter uma unidade essencial. Em outras palavras, uma eclesiologia que é análoga à “alfinetes” visíveis invisivelmente ligados a uma “alfineteira” invisível é equivalente à negação da visibilidade do Corpo Místico de Cristo, porque tal eclesiologia nega a hierarquia essencialmente unificada necessária para um corpo para ser um corpo. Não faz diferença se os “alfinetes” são cristãos individuais ou congregações individuais. Sem uma hierarquia visível essencialmente unificada, um todo composto não pode ser um corpo, muito menos um corpo visível. E quando a unidade hierárquica é abandonada, nada preserva a unidade da fé e a unidade dos sacramentos. Isso resulta em um problema muito comum no mundo protestante: a fragmentação doutrinária. Desta forma, cada um dos três “laços de unidade” depende dos outros dois.

II. Por que a unidade visível é uma marca da Igreja: Disciplina & Cisma

A. Disciplina.

A Igreja deve ser una, porque Cristo é um, e Deus é um só. As Escrituras repetidamente proíbem as divisões, um imperativo que não faria sentido nenhum na eclesiologia de uma “igreja invisível”. Da mesma forma, se a Igreja por si só não fosse visível, então nosso “apelo à comunhão” seria um tanto impossível de se alcançar e, na verdade,  seria de fato um “apelo”, uma vez que já fora alcançado . Aqui podemos apontar para algumas passagens das Escrituras que mostram a importância da disciplina na igreja, e obediência à autoridade eclesial: 30

E se ele se recusar a ouvi-los, dize-o à Igreja, e se ele se recusar a ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. (Mateus 18:17)

Jesus havia dito em Mateus 16 que Ele iria construir a Sua Igreja, uma coisa singular. Em Mateus 18:17,  onde Jesus trata sobre a disciplina do Cristão pela Igreja, Ele nos mostra que a Igreja tem uma hierarquia visível, algo a que podemos nos voltar e mais importante, algo a que devemos ouvir. Esse versículo mostra que a Igreja tem autoridade para disciplinar o cristão e até excomungar (ex+ comungar, onde ex=fora e com + união – comunhão, portanto,  fora da união) aqueles em pecado. (Cf. 1 Coríntios 5:1-5). Contudo, a comunhão é uma coisa visível, sendo assim apenas uma hierarquia visível poderia excomungar aqueles em pecado. Para uma “igreja invisível” ser capaz de excomungar, a comunhão teria que ser necessariamente algo invisível. Pensemos sob o ponto de vista do neo-protestantismo evangélico, que argumenta que a “placa” da Igreja não importa, porque a igreja visível em si é supérflua. O Cristão adepto desse ponto de vista rejeita, mesmo que inconscientemente, o cumprimento das ordenanças expressas tanto em Mateus 18:17 como  em 1 Coríntios 5:1-5.

Ademais, a instrução bíblica de excomungar ou tirar da comunhão não faz sentido na visão eclesial protestante, onde cada uma das diversas denominações são meras “filiais” de uma organização invisível e o cristão pode simplesmente virar a esquina e filiar-se à próxima igreja que concordar ou tolerar sua  crença doutrinária ou conduta moral. Essa capacidade vai contra e de certa forma impede a Igreja de exercer o seu dever de “entregar tal pessoa a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.” 31 Para que a Igreja seja visível, portanto, é preciso haver ter uma hierarquia visível. A ironia é que, na noção protestante a disciplina é uma “marca da Igreja”, entretanto, a disciplina exige precisamente uma unidade hierárquica que o protestantismo não tem.

B. Cisma.

Não há nada mais doloroso do que o sacrilégio do cisma. . . (Santo Agostinho, Contra Epistolam Parmeniani, lib. Ii., Cap. Ii., N. 25.)

Se Cristo tivesse fundado uma Igreja sem uma hierarquia visível unificada, todo cisma seria, no máximo, apenas uma deficiência na caridade para com os outros crentes. O cisma seria o equivalente a um dos “alfinetes” do “alfineteiro” deixar de ser caridoso para com outro “alfinete”. E esse é o caso tanto em relação a cristãos individuais ou a congregações inteiras. O cisma por si só seria sempre visivelmente simétrica em relação aos limites da igreja, mesmo que a culpa não. Ou seja, nenhuma das partes no cisma estaria ipso facto visivelmente apartando-se da Igreja, a menos que também estivessem abandonando a fé e os sacramentos. Entretanto, negar a fé ou os sacramentos é heresia ou apostasia. Assim, a separação das partes, por si só, não seria cisma da Igreja. A separação da Igreja, se houvesse, aconteceria apenas devido à heresia ou apostasia. Uma unidade eclesial perfeita seria totalmente compatível com o restante das hierarquias visíveis divididas em diferentes denominações, etc. Desde que os cristãos compartilhassem da mesma fé, dos mesmos sacramentos, e fossem caridosos uns com os outros, toda separação em organizações autônomas distintas não prejudicaria a perfeita unidade eclesial. Quando uma congregação fosse dividida em organismos autônomos, isto não seria necessariamente um cisma, mas uma mera ramificação, desde que as novas congregações mantivessem a mesma fé, os sacramentos e a caridade uns com os outros.

Um problema óbvio aqui, no entanto, é que  a divisão ou separação visível é quase sempre causada por (ou racionalizadas por) discordância na fé ou sacramento. A unidade da fé e dos sacramentos não podem ser preservadas à parte da unidade do governo eclesial, ou seja, uma hierarquia visível compartilhada. À parte da unidade hierárquica visível, a fragmentação da fé é inevitável. Mas outro problema é que esta eclesiologia em vigor elimina a própria possibilidade de cisma entendida como a separação da autoridade eclesial visível compartilhada. E quando uma eclesiologia não tem espaço conceitual para a possibilidade de cisma, as muitas advertências sobre o cisma na Escritura lembram-nos de que a unidade eclesial foi determinada.

. . . que eles sejam um, como nós somos. . . . que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti. . . que eles sejam um, como Nós somos um. . . que eles sejam perfeitos na unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e te ama, mesmo como se fizeste me ama. (João 17:11,21-23).

Exorto-vos, irmãos, que atente para aqueles que causam divisões. (Romanos 16:17).

Rogo-vos irmãos, pelo nome de nosso Senhor, Jesus Cristo, para que todos vocês confessar a mesma coisa, e não haja divisões entre vós, mas você estar unidos no mesmo pensamento e em um mesmo propósito. (1 Coríntios 1:10).

Deus compôs [o corpo de Cristo] … que “não haja divisão no corpo. (1 Coríntios 00:25).

Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são:. . . disputas, dissensões, facções. (Gálatas 5:19-20).

Suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (Efésios 4:03).

No último tempo, haverá escarnecedores, seguindo depois as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões. (Judas 1:18-19).

Dada uma hierarquia visível essencialmente unificada, um cisma nunca pode ser visivelmente simétrico. Ele sempre acontecerá entre a Igreja e a parte envolvida no cisma contra a Igreja. Sabemos que toda separação da autoridade eclesial visível compartilhada nunca resulta em dois ou mais Corpos Místicos. Obviamente, não é possível haver mais de um Corpo Mistico, pois a resposta clara à pergunta de São Paulo: “Então estaria Cristo dividido?” é “Não”. 32  Com base nisto São Cipriano escreve:

Deus é um só e Cristo é um, una é a Sua Igreja, a fé é uma e um Seu povo unidos pela cola de concórdia em uma unidade sólida do corpo. Unidade não pode ser fendida, nem pode o corpo da Igreja, através da divisão de sua estrutura, ser dividido em pedaços. 33

Mas o que faz com que isso seja assim? Há apenas duas respostas possíveis: a concepção de como Igreja “alfinete invisível”, pois o que é invisível não pode ser dividido, ou um unitatis principium (princípio de unidade) visível, ou seja, uma cabeça visível permanente da hierarquia eclesial visível. Nós demonstramos acima porque a concepção de Igreja como “alfineteiro invisível” é incompatível com a Igreja enquanto um corpo. Assim, um cisma só pode ocorrer quando há unitatis principium , que não é redutível a heresia ou apostasia. A idéia de “cisma ” pode ser vista tanto na Escritura e nos Padres da Igreja:

Saíram de nós, mas não eram de nós, porque se fossem de nós, com certeza, teriam permanecido conosco. (1 João 2:19).

Será que ele pensa que tem Cristo, que age em oposição aos sacerdotes de Cristo, que se separa da companhia de seu clero e pessoas? (São Cipriano, bispo de Cartago, d. AD 258, Sobre a Unidade da Igreja, 17.)

Pensamos que esta diferença existe entre heresia e cisma: heresia não tem doutrina dogmática perfeita, enquanto que cisma, através de alguns dissidentes Episcopais, também se separa da Igreja. (São Jerônimo, Comentário. Na Epist. Anúncio Titum, cap. Iii., V 10-11, grifo nosso).

Veja com o que deveis tomar cuidado – veja o que vós deveis evitar – veja o que deveis temer. Acontece que, como no corpo humano, alguns membros podem ser cortados fora – uma mão, um dedo, um pé. Por acaso a alma se vai com o membro amputado? Enquanto ele estava no corpo, viveu; separado, ele perde a sua vida. Assim, o cristão é um católico, enquanto ele vive no corpo: corte-o dela e ele torna-se um herege – pois a vida do espírito não segue o membro amputado. (Santo Agostinho, Sermo cclxvii., N. 4).

E é assim que ‘cisma’ foi entendido e definido pela Igreja Católica: Cisma é definido como “a recusa à submissão ao Pontífice Romano ou à comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.” Nenhuma outra definição faz sentido, em parte porque não há outra definição que distinga cisma de excomunhão. Caso contrário, cada lado no cisma poderia com igual mandado dizer: “Não, eu excomunguei você.” Nenhuma outra definição mostra porque cisma é sempre errado, mesmo quando a excomunhão é por vezes necessária.  Assim, vemos que tanto a disciplina e o cisma não se encaixam em uma concepção da Igreja onde falta a unidade hierárquica visível essencial. Um modelo de “igreja” em que tanto a disciplina e a cisma sejam possíveis faz grande violência aos imperativos da Escritura sobre esses dois assuntos e está completamente em desacordo com os primeiros 1.500 anos de tradição da Igreja.

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II Docetismo e Visibilidade da Igreja

Teto da Catedral de Toledo

A. Docetismo

A Igreja Católica é a entidade viva e visível do Corpo de Cristo na Terra, Sua Igreja. A Negação da visibilidade da Igreja de Cristo é chamada de Docetismo Eclesial, onde Docetismo significa uma heresia que considerava o Corpo de Cristo como pura aparência, negando a humanidade de Cristo, rejeitava o mistério da Encarnação, e, por conseguinte, toda a sua obra redentora realizada por sua morte na Cruz. Esta heresia foi definitivamente condenada pelo concílio de Calcedônia.

Na eclesiologia católica, o fundamento da unidade da Igreja é Cristo, que é tanto Espírito e Carne. Estamos unidos a Cristo por estarmos unidos a Seu Corpo Místico, por meio do sacramento do batismo. Estamos ainda mais profundamente unidos a Cristo e à Igreja através dos sacramentos da Confirmação e da Eucaristia. Um ato de cisma separa a pessoa da Igreja, e, portanto, de Cristo, porque a Igreja é o próprio Corpo Místico de Cristo.

O catolicismo é sacramental, na medida em que procura o espiritual através do material, do mesmo modo como conhecemos a natureza divina de Cristo somente através de Sua natureza humana. Nós católicos não tentamos ignorar o material, como no gnosticismo, tentando aqui nesta vida contornar o sacramental e ver diretamente a natureza divina ou tomar o ponto de vista divino, porque isso está presentemente além de nós como criaturas materiais. Se quisermos saber sobre o nosso estado no céu, temos que nos questionar sobre nosso estado no Seu Corpo Místico aqui na Terra. Este sentido Terra-Céu da epistemologia da fé é visto na bíblia, por exemplo, quando Jesus diz aos Apóstolos: “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu” O visível e o invisível estão unidos por causa da encarnação, de modo que o que é feito para a carne de Cristo é feito à Pessoa de Cristo. É precisamente por isso que excomunhão “tem dentes”, pois ela realmente corta uma pessoa fora de Cristo.

Considere a posição protestante, segundo a qual todos os cristãos são igualmente unidos a Cristo pela fé, e, portanto, são igualmente unidos à Igreja. Nós descrevemos esta posição no post anterior (link acima) como o modelo “almofada de alfinetes”. De acordo com essa noção de Igreja, a cisma não prejudica a unidade de todos os cristãos, ela fere apenas a manifestação exterior da nossa unidade espiritual, que do contrário segue intacta. Ou seja, não importa se há uma enormidade de diferentes doutrinas, o importante é que se creia em Cristo. Esta é uma noção desmaterializada (ou seja, é uma noção espiritualizada) de eclesiologia que, neste respeito, é gnóstica e docética. Uma vez que o Cristo encarnado é tanto espírito quanto carne, a unidade visível do Seu Corpo Místico não é meramente uma “expressão externa” da verdadeira unidade espiritual e invisível da Igreja, assim como a união sexual de um casal não é meramente uma expressão física da unidade espiritual de marido e mulher, mas é as duas coisas juntas, inseparáveis. A união sexual realmente deve ser uma expressão corporal de uma união espiritual. Mas a união sexual não é apenas uma expressão externa de unidade espiritual; ela própria é uma verdadeira união de marido e mulher. Da mesma forma, a unidade visível da Igreja (incluindo a unidade hierárquica) é uma unidade real do Corpo Místico, não apenas uma expressão externa de uma unidade espiritual e invisível.

A raiz do problema aqui é uma espécie de dualismo que trata o espiritual como de fato real, e o material como um mero contexto para a expressão do espiritual. Isso reduz o Corpo Místico a um espírito tendo alguns membros visíveis, uma almofada invisível com alguns alfinetes visíveis. Onde quer que o cisma é tratado como não separador de uma pessoa (até certo ponto) de Cristo, a Igreja está sendo tratada como fundamental e intrinsecamente invisível, com alguns membros visíveis. Negar a unidade essencial da hierarquia visível, é tratar o Corpo Místico de Cristo como se ele não fosse, na verdade, e, essencialmente, um Corpo, porque a unidade hierárquica visível é essencial e intrínseca a um corpo. Se um corpo deixa de ser visível hierarquicamente, ele não existe. É por isso que um ser humano não pode sobreviver à desintegração de seu corpo. Então, se a unidade visível é apenas acidental a alguma coisa, essa coisa não é um corpo vivo; isto é, no máximo, apenas a aparência de um corpo. Assim, aqueles que afirmam que o Corpo Místico de Cristo é uma forma invisível de partes visivelmente divididas estão tratando o Corpo de Cristo como se fosse meramente um corpo aparente, mas não um corpo real. É por isso que esta posição é justamente descrita como docetismo, porque docetismo é a heresia que alegou que Cristo só apareceu para ser um homem.

B. Como é o Docetismo na prática?

A espiritualidade e visibilidade da Igreja não são mais opostas do que a alma e o corpo de um homem, ou melhor ainda, do que a divindade e humanidade em Cristo. . . Por ignorar este duplo caráter inseparável da Igreja, o protestantismo, Luterano e Reformado, não conseguiu resistir à tentação de distinguir as duas realidades da Igreja, opondo-as, por um lado, numa igreja evangélica invisível e única, e, por outro, visível, humana e pecadora.

Na prática, o docetismo implica consumismo eclesial, porque elimina a noção de encontrar e submeter-se à Igreja que Cristo fundou. Na mentalidade docetista, o que se procura, na medida em que se olhe, é uma comunidade de pessoas que compartilham de sua própria interpretação das Escrituras. No docetismo a identidade da Igreja não é determinada pela forma e matéria, mas pela forma apenas. Que forma? A forma de uma interpretação própria da Escritura. Isso revela por que existem tantas denominações protestantes diferentes, centros de adoração, e comunidades eclesiais, nenhum deles compartilhando os três laços de unidade com qualquer um dos outros.

Assim como o efeito prático de docetismo é um Cristo de nossa própria fabricação, desconectado do Cristo histórico de carne e sangue, de modo que o efeito prático de docetismo é uma Igreja feita à imagem da nossa própria interpretação, desligada da Igreja histórica.

Isto é expresso doutrinariamente como uma negação da materialidade ou sacramentalidade da sucessão apostólica. O Docetismo redefine a realidade da “sucessão apostólica” como mera preservação da forma, ou seja, a preservação da doutrina dos apóstolos. Mas sem o componente de material de sucessão apostólica, o indivíduo se torna o árbitro interpretativo final do que a doutrina apostólica vem a ser. E assim, a ‘igreja-shopping’ começa a existir. E onde há uma grande variação de demanda, uma grande variação de oferta surge. A “Igreja” é reduzida a uma empresa orientada para o consumidor, com base na própria percepção interna de cada pessoa de suas próprias necessidades espirituais e como os concorrentes, organizações, instituições ou comunidades atendem a essas necessidades. Isso transforma a “igreja” em algo egocêntrico, voltada ao homem e seus caprichos, ao invés de centrada em Deus.

Outro efeito necessário de docetismo é a apatia em relação às divisões visíveis entre os cristãos, comunidades e denominações. Se a unidade da Igreja é espiritual, na medida em que cada cristão é invisivelmente unido a Cristo pela fé, então preservar a unidade visível é supérfluo, e até mesmo presunçoso em sua tentativa de ‘superar’ a Cristo. Se não houver essencialmente hierarquia visível unificada, em seguida, enquanto pode haver algumas razões pragmáticas para a cooperação ecumênica, como existem no seio dos partidos políticos, não pode haver mandato divino de que não haja cismas entre nós. O docetismo redefine o termo “Igreja” para se referir a uma entidade invisível em que todos os crentes são perfeitamente unidos, não importa a que visível instituição (se houver) pertencer o crente atualmente.

Aqui reside um ponto digno de nota. O Docetismo conceitualmente elimina a própria possibilidade de cisma. Fá-lo não por conciliar as partes separadas, mas ao redefinir unidade como algo meramente espiritual, e a desmaterialização do cisma como algo invisível e espiritual, ou seja, apenas uma deficiência na caridade. O Docetismo trata divisões visíveis de hierarquias separadas como ramos e nega a pecaminosidade do cisma, não abertamente ou explicitamente, mas por definição e, portanto, sub-repticiamente (fraudulentamente). Ele classifica o que é realmente mal (ou seja, o cisma) como inócuo, e até bom. Ele esconde dos cristãos cismáticos seu estado de não estarem em plena comunhão com o Corpo Místico de Cristo, privando-os da plenitude da graça que receberiam em plena comunhão com a Igreja de Cristo.

 

Fonte: Ecclesia Militans


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