HISTóRIA (683)'
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Artigo

Medievalidade

Temos um Papa medieval, e as pessoas não percebem.

O Papa Francisco está exorcizando a modernidade

Hoje em dia, em plena desconstrução pós-moderna, a impressão que se tem é que tudo é questão de alguns adereços de mão: a mesma pessoa, com a mesma mentalidade, quiçá a mesma barba, seria medieval com um balde de lata na cabeça, soldado americano em Iwo Jima se o balde fosse mais arredondado, e cachimbeiro chique numa tabacaria de shopping se do chaveiro se fizesse latinha de fumo. Tudo é acidental, tudo é aparência.

Nos meios católicos de internet (que por vezes mereceriam ser ditos “católicos-de-internet”, em contraposição a simplesmente católicos), duas modas em adereços têm feito muito sucesso, no mais das vezes sem que seus portadores entusiasmados sequer se deem conta da imensidão de contradições que elas implicam.

A primeira é o Chesterton: ele mesmo, o meu escritor inglês favorito, que eu cito a três por dois, que eu traduzi e de quem eu sou fãzoco de carteirinha. Sempre digo que Chesterton é intraduzíveleu ia até fazer uma palestra sobre essa intraduzibilidade num congresso que rolou por aí, mas como estava na UTI na hora da palestra tive que furar e ela não está no youtube. Chesterton, para resumir meu argumento, não escrevia: ditava, e o que o guiava era fundamentalmente o som das palavras, as aliterações que brilhantemente fazia para expor verdades ocultas na forma de aparentes paradoxos. Traduzido, o som das palavras vai-se embora, e o que se tem é algo que parece um raciocínio complexo e desnecessariamente tortuoso. Mas mesmo assim há quem o leia em tradução e, mais ainda, proclame-se chestertoniano sem ter jamais tido acesso à verve e ao humor permanentes do escritor. Criou-se, nas traduções, um Chesterton sério e hiperdoutrinal absolutamente irreconhecível. É um Chesterton mal-humorado, que se define pela oposição a tudo e a todos, sempre disposto a julgar e condenar tudo o que há ao redor. Coisa estranhíssima, para quem conhece e aprecia o gordão. Costumo dizer que uma grande sacada do Neil Gaiman foi retratar Chesterton como não exatamente uma pessoa, mas um lugar, ao mesmo tempo bucólico e alegre, acolhedor e retirado. Já o que se vê na imagem que dele se pinta é algo mais parecido com seu amigo Belloc, sempre pronto a comprar alguma confusão e a partir fios de cabelo ao comprido para esmiuçar algum ponto.

A segunda moda de adereço de mão é o cavaleiro medieval. Esse é ainda mais complicado, porque no delírio pós-moderno que o emprega ele em geral vem junto com o apoio às coisas menos medievais que se possa imaginar, da política externa dos EUA a um hiperintelectualismo doutrinal que só poderia ter surgido na sua forma presente agora, quando os manuais de teologia estão saindo de seu longo sono pós-conciliar e sendo redescobertos por gente que foi criada pela Xuxa. Como eu venho acrescentando algo a esta confusão ao mencionar seguidamente a medievalidadeou pré-tridentinidadedo Santo Padre o Papa Francisco, achei prudente apontar aqui do que estou falando quando digo isso.

A primeira coisa a perceber é que a nossa sociedade é uma forma tremendamente decadente e dissolvida da mesma sociedade medieval. No caso do Brasil, a decadência é menor que no caso europeu, e, mais ainda, no pouquíssimo que resta desta civilização nos EUA, que já começaram como anti-medievais; os EUA são a encarnação das forças que demoliram o Medievo. Mas o Medievo, aqui no Brasil, está escondido sob uma fina casca “para inglês ver”, e para nós é menos difícil encontrá-lo. Apelar para “conservadorismos” anglo-saxões, contudo, é ocultar mais ainda essas sobrevivências.

Para chegarmos a uma compreensão do que é efetivamente medievallogo civilizadona nossa sociedade e, mais ainda, o que o não é, precisamos ir tirando as camadas de podridão e sujeira que ocultam este cerne civilizacional ainda presente. Não é fácil, mesmo porque hoje em dia vende-se a podridão e a sujeira como se o cerne fossem elas. Uma coisa que me salta aos olhos, por exemplo, é como a cada vez que eu elogio a medievalidade do papa me aparece gente querendo medi-la… pela adequação dele a alguma “pedra de toque” que naquele momento defina os times de aderentes a listinhas modernas de supostos imperativos morais categóricos. Se o vocabulário do Santo Padre, por exemplo, não se encaixar nas listas de palavras-chave da direita moderna, ele é condenado pelos mesmos pafuncinhos que se identificam com cavaleiros medievais, sem perceber que o soldado PM da esquina está muito mais próximo desse ideal que eles.

Vamos, então, tentar vislumbrar um pouco do que há por baixo de toda essa confusão e imundície de séculos. Os primeiros fenômenos históricos que vou apresentar de maneira absurdamente resumida aqui são os que conduziram a sociedade ocidental para fora do Medievo: o dito “Renascimento” e a dita “Reforma” protestante, seguida pela dita “Contra-Reforma” católica. Vale notar que nós, latino-americanos, bem como os filipinos, somos filhos da Península Ibérica, um território em que a “Reforma” (ao contrário da “Contra-Reforma”) não se criou, o que nos poupou de muitos de seus efeitos deletérios e fez com que hoje possamos dizer que estamos objetivamente melhor, em termos civilizacionais. Não, oitocentas opções de cereal açucarado para o café-da-manhã e iPhones novos a cada temporada não são sinônimo de progresso. Muito pelo contrário, aliás.

A sociedade cristã do Medievo foi construída pela cristianização dos restos mortais do Império Romano, inclusive dos seus territórios periféricos (O semicírculo que hoje é ocupado por Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, R. Tcheca, Eslováquia, Hungria e Romênia) e ultraperiféricos (Irlanda, Escócia, Escandinávia e Polônia). Esta cristianização ocorreu na forma fundamental de prática cristã; pode-se mesmo lembrar que os territórios periféricos da atual Alemanha foram primeiro evangelizados por hereges arianos (que diziam que o Cristo seria uma criatura) e só aos poucos vieram plenamente à ortodoxia. A religião cristã substituiu as religiões animistas tradicionais (em muitos aspectos semelhantes ao candomblé ou ao xintoísmo), no mais das vezes reaproveitando o que havia de bom ou mesmo de simplesmente decente nelas. Por exemplo: as árvores cultuadas como deuses, às quais se ofereciam sacrifícios humanos, foram derrubadas; as festas com que comemoravam as estações em torno delas, todavia, foram cristianizadas. A Fé cristã era, corretamente, Fé na Igreja, assim como a confiança de uma criança em sua mãe é confiança no que virá da boca da mãe, não comprovação pela criança de que o que a mãe já disse estava correto.

A cristianização avançou, evidentemente, das cidades para o campo: o termo “pagão” vem do latim “paganus”, que significa simplesmente “camponês”, “habitante dos pagos”. Ela foi feita, contudo, e bem-feita, criando-se, assim, uma sociedade cristãou, antes, centenas de sociedades, com costumes distintos e línguas distintas; à distância de um dia de caminhada a pé já era comum chegar-se a uma região em que se falasse outra língua, governada por outro governante! O que a todos unia era justamente a prática e a crença religiosa católicas. As festas religiosas marcavam para todos do mesmo modo a passagem do tempo, sacralizando cristãmente o que antes fora marcado no paganismo; mesmo as igrejas, comumente, erigiam-se nos lugares em que haviam estado os locais de culto pagãos.

A sociedade era, em grandes linhas, dividida em três grandes “estados” (no sentido aproximado em que hoje se tem o “estado civil”: quem se é, não uma unidade geográfica). A imensa maioria era de camponeses, encarregados do cultivo da terra e ligados a ela. Ninguém podia expulsá-los da terra em que viviam. Outro estado era o das armas, ou nobreza, encarregado da defesa da sociedade. Seria o equivalente hoje ao Exército e à Polícia. Ao contrário do que reza a lenda, eles não “exploravam” os camponeses, ao menos não mais que eram “explorados” por estes: cada um tinha, de parte a parte, deveres e direitos para com o outro, contraídos solenemente por juramento. O juramento era a base da coesão social, o que explica o horror que causou a heresia cátara, por exemplo, que negava que juramentos obrigassem em consciência. Finalmente, tanto o filho do camponês quanto o filho do nobre poderiam tornar-se membros do terceiro estado, o de clérigo (monge, padre ou freira). Os clérigos eram os responsáveis pelo ensino fundamental (normalmente feito nas escolas paroquiais) e superior, pelo cuidado dos doentes e, principalmente, pelo culto perfeito e permanente a Deus, objetivo final de toda a sociedade.

Note-se que as funções que hoje são atribuídas ao “Estado” (único) eram divididas entre clero e nobreza. Mais ainda, note-se que se trata de estados de vida, não de organizações. O nobre local era praticamente independente, ligando-se aos demais por um complexo sistema de alianças e juramentos de suserania e vassalagem, sem uma hierarquia clara. Do mesmo modo, as distâncias faziam com que a Santa Sé raramente tivesse como pronunciar-se acerca de questões como nomeação de Bispos ou superiores conventuais. Presumia-se que a escolha feita localmente seria aceita pelo papa, e se não fosse o caso sempre se poderia voltar atrás. A autoridade papal, contudo, era infinitamente menor que é hoje no governo direto da Igreja.

A Fé cristã era percebida como sinônimo da vida cristã, ou melhor, da vida vivida cristãmente no afã de alcançar a salvação. O desempenho das funções sociais de cada um era simplesmente a forma pela qual essa pessoa chegaria ao Céu, o lugar onde ela ao longo da vida era chamada a aceitar a graça de Deus e assim salvar-se. No meio dos clérigos, os padres seculares (das paróquias) eram normalmente camponeses ordenados, muitíssimas vezes sem estudo algum além do fundamental. Isto ocorria porque a Fé era fundamentalmente percebida como algo que se vive, não algo que se estude. Estudava-se-a, claro, e muito; até hoje ninguém conseguiu ir além do que foi estudado nas universidade medievais que nos deram tantos grandes doutores. Mas o estudo era uma coisa, e a vivência da Fé outra, muito mais importante. O estudo era importante fundamentalmente para evitar confusões, com as definições doutrinárias normalmente vindo em resposta a erros novos, e fazia parte da vocação clerical. Era na vida religiosada Missa às procissões, passando pelas devoções particulares e festas religiosas em geral, sempre com o fito de reformar-se, de santificar-se na Igreja , não na biblioteca, que se esperaria encontrar a Deus.

Quando essa sociedade entrou em decadência, começaram a surgir “opções” que antes não havia. Entre os clérigos, tornou-se vergonhosamente comum que cargos eclesiásticos, de dioceses ao curato de capelas, fossem negociados e muitas vezes dados até mesmo a crianças. Bispos, cardeais e abades (ou abadessas) de dez anos de idade, frequentemente acumulando vários cargos, percebidos apenas como fonte de renda, eram algo comum. Entre os descendentes de camponeses, riquezas advindas do comércio frequentemente levaram a um novo modo de vida, centrado no lucro: era a nova classeoficialmente inexistentedos burgueses, habitantes das cidadezinhas (burgos) que se desenvolveram como centros comerciais ao redor dos castelos mais bem situados em termos de rotas comerciais. É importante observar que esta nova classe não tinha qualquer reconhecimento; ela era algo que existia na prática, apenas. A terra continuava sem poder ser comprada ou vendidana verdade, sem proprietário, no sentido atual –, e mesmo uma riqueza extrema não faria com que alguém deixasse de ser percebido como socialmente igual a quem vivesse de uma hortinha de subsistência. Finalmente, no meio da classe guerreira, o mesmo fenômeno de decadência e queda nas tentações da riqueza levou a focar o interesse predominantemente na conquista interna de terras, ou seja, na apropriação de terras já cristãs, pertencentes a outros senhores, para lucrar com os impostos, em detrimento da expansão das fronteiras da Cristandade. Mais tarde, às vésperas da revolta protestante, chegou-se a cercar terras, como se elas fossem propriedade particular da família guerreira que as devia proteger, impedindo que os camponeses nelas plantassem. Seria como se os soldados da PM começassem a construir-se casas nas praças e no meio das ruas! A exceção, neste caso, foi a Ibéria, que se livrou dos muçulmanos em 1492 e imediatamente depois passou a expandir-se para as Américas. Esta expansão, todavia, foi um pouco prejudicada e modificada, como veremos mais adiante, pelas circunstâncias do Século XVI, de que ora estamos tratando.

É neste contexto decadente que surgiu o dito Renascimento: a redescoberta intelectual do grego clássico e do hebraico, ocorrida no Século XV. Ela foi feita basicamente por clérigos, ainda que aos poucos a nova classe burguesa tenha se interessado e se unido a seu modo, financiando artistas e estudiosos. Ao contrário do que prega a lenda negra, não se tratava de uma revolta contra a Igreja ou contra o Cristianismo. Pelo contrário: o que se fazia era a continuação da obra de cristianização do melhor da sabedoria pagã que séculos antes levara ao “batismo” da filosofia aristotélica por S. Tomás. A invenção da imprensa, que fez com que os livros baixassem tremendamente de custo, também foi um fator importantíssimo na difusão dos novos estudos. Antes da imprensa, obter um livro significava conseguir couros curtidos (ditos pergaminhos) em número suficiente para neles copiar, letra por letra, palavra por palavra, linha por linha, todo o texto do livro. Era um trabalho de meses em dedicação exclusiva, com materiais caros. Podemos ter uma ideia do valor de um livro naquela época ao pensarmos que um Antigo Testamento para uso em sinagoga, que por razões religiosas judaicas deve ser feito com as técnicas tradicionais, não podendo ser impresso, custa mais de quatro milhões de dólares. Era por isso que só instituições (universidades, conventos, etc.) tinham bibliotecas, e nelas os livros ficavam literalmente acorrentados às estantes. Com o surgimento da imprensa, os livros passaram a poder ser feitos de uma maneira que para nós ainda é tremendamente artesanal, montando-se “carimbos” de página inteira com letrinhas de chumbo encaixadas em placas de madeira e carimbando folha por folha. O que custava uma fortuna incomensurável passou a custar apenas um bom dinheiro. Pela primeira vez passou a ser possível a particulares ricos ter livros, e a instituições ter bibliotecas com centenas, ou mesmo milhares, de livros.

Um aspecto interessante, de que pouco se fala, dessa revolução operada pelo surgimento da imprensa (em muito semelhante à operada pela digitalização dos textos no início do nosso século) é que ela tornou possível a uma pessoa dedicada conquistar uma quantidade de conhecimento com que antes não se poderia sonhar. Um intelectual do Renascimento poderia saber muito mais coisas que qualquer seu antecessor, devido à possibilidade de ter ao seu alcance uma quantidade de livros antes impensável. A biblioteca de uma universidade passou a ter livros suficientes para anos de leitura, coisa que antes nunca se veria em um lugar só. O humanismonome que se dá ao movimento intelectual do Renascimento, paralelo ao movimento artístico que nos deu a Mona Lisa e a Pietáera, em grande medida, o fruto dessa nova possibilidade. Os textos gregos e hebraicos da Escritura, bem como comentários judaicos e obras sapienciais pagãs, passaram a estar ao alcance dos estudiosos com relativa facilidade. Muitas edições impressas multilíngues, como o Novo Testamento de Erasmo e a magnífica Bíblia Complutense, facilitavam este estudo. Foi um momento que poderia ter tido consequências maravilhosas para toda a Cristandade, se não houvesse sido tão brutalmente interrompido pelas circunstâncias históricas.

A Fé cristã continuava sendo, como sempre foi, uma Fé a se viver, não uma gnose, um conhecimento esotérico a se obter. Ao mesmo tempo, contudo, o conhecimento dos objetos da Fé aprofundava-se pelo estudo eprincipalmentepela sua rápida difusão impressa, de uma maneira que só poderia ocorrer quando a própria Fé era pressuposta e aceita por toda a sociedade. Até mesmo o diálogo entre a Igreja Católica e os cismáticos orientais havia sido retomado, e um acordo final não foi alcançado por muito pouco no Concílio de Florença (1431–1449). Do mesmo modo, o diálogo inter-religioso com os judeus estava avançando a passos largos, com apoio papal à impressão e preservação de textos judaicos. Até hoje o padrão de paginação do Talmude da Babilônia é o que foi criado no início do Século XVI pelo impressor cristão Bomberg, por encomenda e com apoio formal do Papa Leão X.

Tudo isso foi cortado, todavia, pelas rápidas e sucessivas revoltas político-religiosas a que se convencionou chamar “Reforma protestante”.

Elas surgiram quase que por acaso. Uma campanha em prol da construção da Basílica de São Pedro, em Roma, dava indulgências a quem colaborasse financeiramente com a obra. Na Espanha do Cardeal Ximenes essa campanha fora proibida, assim como na cidade alemã de Wittenberg. Mesmo assim, os nativos desta cidade iam às cidades ao redor para colaborar com a campanha e lucrar indulgências, motivados por uma pregação completamente louca feita pelo pregoeiro autorizado, que não era em absoluto pessoa culta e falava o que quer que lhe parecesse bom para arrecadar mais. O resultado é que muitos deles foram ter com o padre Martinho Lutero, um frade agostiniano que era professor de teologia e de artes na Universidade de Wittenberg, contando-lhe o que haviam ouvido, e ele desafiou o pregador para um debate. Neste e nos subsequentes, Pe. Lutero apelou para um truque que lhe facilitaria tremendamente debater com um leigo ignorante: ele só aceitaria argumentos tirados das Escrituras Sagradas.

Quanto mais debatia, mais ele se enrolava nas próprias palavras, e mais fortemente se colocava contra a própria Igreja. Em um certo ponto, apenas para não perder os debates, passou a pregar abertamente uma nova heresia (tornada possível pela imprensa), baseada no seu truque sujo anterior: só a Escritura seria revelação divina. Era a invenção da doutrina chamada “Sola Scriptura” (“só a Escritura”, em latim). Como a Escritura, apesar de ter tido o seu cânon (lista dos livros) determinado às portas do Século V, não contém nenhum texto posterior ao final do Século I, tornava-se fácil negar a autoridade religiosa, a liturgia (que ele aliás nem se interessava tanto em destruir) e o que mais se quisesse. Na verdade, seria impossível a duas pessoas, quaisquer que fossem, chegar a conclusões iguais lendo as Escrituras em separado, pois elas simplesmente não foram feitas para isso.

Imediatamente a sua heresia inicial se espalhou, fazendo surgir centenas de movimentos religiosos cuja única crença comum era que só a Escritura é revelação divina. Destes movimentos, dois conseguiram patrocínio político-financeiro: o do próprio Lutero, que dominou o norte da Alemanha e a Escandinávia, e o encabeçado pelo advogado João Calvino, que dominou a Suíça. Os demais foram massacrados pelas autoridades políticas, a mando dos próprios Lutero e Calvino em muitos dos casos.

A diferença crucial entre a visão de mundo medieval, anterior a Lutero, e as que ele e Calvino implantaram é que nestas o Estado coloca-se na prática acima da Igreja. A religião passa a estar diretamente subordinada ao governante. Os príncipes luteranos simplesmente apropriaram-se de todos os bens da Igreja em seus territórios, assim como os burgueses calvinistas. O Rei da Inglaterra, Henrique VIII, que brigou com o Papa por outras razões, gostou da ideia e criou também uma “igreja” subordinada apenas a ele, a “igreja anglicana”, e roubou todos os bens de todas as dioceses, abadias, conventos, etc. da Inglaterra.

Fez-se então necessário para a Igreja, que permanecera íntegra nos territórios mais centrais e importantes (não nos esqueçamos de que esses países que se tornaram protestantes eram a periferia da periferia europeia) definir de uma só penada tudo o que estava sendo atacado pelas inúmeras seitas protestantes. Afinal, todas elas se dedicavam a atacar a Igreja tanto quanto atacavam as demais seitas concorrentes.

Assim, o Santo Padre convocou o Concílio de Trento, ao qual foram inclusive convidados os protestantes, que não se interessaram. Nele a Igreja definiu como sua a (magnífica) explicação feita por São Tomás dos Sacramentos e da Revelação. A luta então passou a ser para implantar aquilo, ou seja, para fazer do estudo teológico das coisas definidas algo muito mais importante na vida dos cristãos. São Carlos Borromeu escreveu, a mando do papa São Pio V, o Catecismo Romano (que pelas razões que se há de ver no fim desse texto eu defendo ser o melhor para uso no Brasil), as universidades cresceram, as obras de divulgação proliferaram, etc. A doutrina cristã passou a ser algo estudado a sério por muita gente que antes não se incomodaria em fazê-lo. Novas congregações, como os jesuítas, e antigas, como os dominicanos e franciscanos, assumiram essa tarefa missionária de pregação doutrinal. Como uma das diferenças mais importantes entre a Igreja e os cismáticos orientais era justamente a ênfase católica já maior que a deles na importância da Doutrina, naquele momento jogou-se uma pá de cal em qualquer esperança de reconciliação dos cismáticos com a Igreja pelos próximos 500 anos. Do mesmo modo, o Renascimento foi interrompido pelo irracionalismo protestante nos lugares onde a revolta ganhou poder e pelo hiperracionalismo católico onde isso não ocorreu. Não era hora de permitir debates internos e estudos abertos, sim de implantar o Concílio.

Lembro que o processo que ora descrevo começou com uma disputa doutrinária dentro de uma religião que era antes vivida que explicada (o cristianismo medieval) pela maior parte da população. Até mesmo o próprio Pe. Lutero erapelos padrões pós-tridentinosum analfabeto doutrinal. As invenções doutrinais dos protestantes, contudo, afetaram a vida dos fiéis fortemente, e diferentemente de acordo com a seita dominante: luteranos, calvinistas e anglicanos não têm a mesma religião, nem doutrinária nem liturgicamente. Para poder preservar a vida da Fé, foi necessário deixá-la um pouco de lado em prol da formação doutrinal, pois era o erro doutrinal que vinha sendo usado para violentar a vida de Fé das pessoas que moravam em regiões dominadas por governos protestantes. O protestantismo foi, desde o início, algo imposto de cima para baixo, uma forma de aumentar tremendamente o poder das autoridades civis. Antes dele surgir, o poder de um governante era limitadíssimo; depois dele, tanto em territórios protestantes quanto nos católicos (por resposta) surgiu o absolutismo e a noção de que o rei governaria por um “direito divino”.

O lado ruim disso é que passou a haver uma certa mentalidade de cidade sitiada na Igreja, perfeitamente compreensível quando se pensa que ela acabara de perder para o Demônio toda a periferia da Cristandade. Seria como um Brasil que em poucos anos houvesse perdido o Norte e parte do Centro-Oeste: seria quase impossível um mineiro ou paulista não se sentir ameaçado! Essa mentalidade, contudo, causou problemas inesperados, tanto maiores por se estar em plena Era dos Descobrimentos: a pertença ao clero, cuja formação Trento tornou obrigatoriamente complexa (antes não era necessária nenhuma formação; depois passou a ser necessário estudar filosofia e teologia tomistas), passou a ser na prática restrita apenas aos europeus. Os conversos em terras que vinham sendo acrescentadas à Cristandadenas Américas e na Ásianão conseguiam autorização para ordenação, e cleros autóctones só foram surgir muitas gerações depois, quando surgiram. A autoridade papal teve que ser fortemente reafirmada e definida, a liturgia controlada de maneira centralizada (a bula papal que hoje ironicamente há quem tente usar contra a forma ordinária da Missa tinha como objetivo justamente criar uma forma ordinária para a Missa), etc. O diálogo inter-religioso praticamente desapareceu, ainda que os judeus tenham recebido generosa acolhida na Polônia católica quando o antissemitismo protestante começou a ameaçá-los mais fortemente. É por isso que o ídiche, a língua falada pelos judeus da Polônia e Rússia, é um dialeto do alemão: eles foram expulsos da Alemanha pelos protestantes e acolhidos pelos católicos poloneses e lituanos. A Rússia invadiu a Lituânia depois, e não os expulsou de lá. E por aí vai.

E mesmo assim a sociedade europeia, devido à ação direta e indireta das heresias protestantes, foi-se afastando cada vez mais do ideal cristão. Os horrores genocidas do século passado na Europa e retrasado na América do Norte são consequências diretas dessa decadência. A Igreja, pregando sempre a mesma doutrinae pregando-a de modo cada vez mais definido e intelectualizado, por se ver cada vez mais enfraquecida dentro do mercado intelectual das capitaisfoi perdendo terreno para os vícios modernos (a modernidade transformou a cobiça e a luxúria em virtudes, por exemplo). Hoje a Europa pode ser dita um território pós-cristão. Os territórios periféricos inicialmente dominados pelo protestantismo (Inglaterra, Alemanha e Escandinávia) são os que têm a situação mais grave, mas a situação no coração da Cristandade europeiaEspanha, França e Itáliatambém é péssima.

E é aí que entra o Papa Francisco. Antes dele, o Papa São João Paulo II, vindo da Polônia, território em grande medida preservado da devastação moderna (apesar das décadas de dominação comunista), já havia começado a “despertar” a Igreja dos territórios não-modernos da América latina, África e Ásia, especialmente ao livrar-nos (ou começar a livrar-nos; nada é instantâneo!) da dita Teologia da Libertação, a forma “nativa” de modernismo, que dominou por algum tempo a hierarquia eclesial, sem jamais conseguir afetar a população. O Papa Francisco, contudo, é filho destas terras. Ele sabe a força que tem o cristianismo “de raiz”, das senhoras do Apostolado da Oração, dos homens do Terço, e, em suma, de todas essas outras formas de Fé vivida que se encontram presentes na América Latina, na África e na Ásia, mas feneceram na Europa e nunca existiram nos EUA. O que é para ele o cerne da vida cristã e o que ele busca incentivar é algo que simplesmente não aparece no radar dos americanos e europeus, logo (ironicamente) dos brasileiros que seguem as modas internéticas americanas e europeias e não fazem ideia da riqueza que os aguarda na paróquia ou na Folia de Reis. Na Argentina, como no Brasil, o Concílio de Trento, com sua ênfase no doutrinal (que a modernidade perverteu contra a Igreja, num golpe de judô, fazendo do Cristianismo um jogo intelectual a jogar a portas fechadas) jamais chegou. Na virada do Século XIX para o XX estávamos às voltas com questões com que a Europa lidara no Século XV; só no final do Século XX apareceu aqui a infestação de seitas protestantes que surgira na Europa no início do Século XVI, demolindo a unidade religiosa da sociedade cristã.

Assim, para o Papa Francisco, a religião não é nem poderia jamais ser uma questão intelectual de foro íntimo. A Fé é algo fundamentalmente vivido, não debatido ou esmiuçado em uma mesa de laboratório. Ele acredita que para conhecer cachorro precisamos criar os bichinhos, vê-los nascer e morrer, ir caçar com eles, passear com eles, ser defendido por eles e defendê-los. Ele não acha que matar o cachorro e abri-lo para ver o que há dentro seja uma forma de conhecê-lo. Ele quer santos, não estudiosos, e ouso dizer que é isso também o que nos manda ser Nosso Senhor.

Assim, o grande Papa que Deus nos deu em Sua infinita misericórdia simplesmente corta o nó górdio com que a modernidade vem mantendo a Igreja presa há quase 500 anos. Ele nem entra nas disputas e discussões, que sabe serem desnecessárias a esta altura do campeonato. Mais ainda: as “guerras culturais” intramodernas são uma armadilha em que ele não se deixa cair. As disputas doutrinais foram um truque, uma artimanha do Diabo para demolir a Cristandade, como se a promessa divina de que as portas do Inferno jamais prevalecerão contra a Igreja não fosse verdadeira. As definições já foram feitas, e quem quiser conhecê-las que abra um livro e as leia. A questão não é nem as definições nem as regras rígidas tridentinas com que debalde se tentou impedir o avanço devastador dos vícios modernos. O problema são os vícios. O problema é a falta de virtudes, é a falta de santidade.

Assim, o Santo Padre simplesmente ignora as briguinhas, picuinhas e disputinhas da modernidade (inclusive da modernidade intereclesial, mas não só dela) para pregar a Fé vivida, a Fé de Santa Teresa d’Ávila, de Santa Teresinha de Lisieux e de Santa Teresa de Calcutá, a Fé do Sermão da Montanha, a Fé das Bem-Aventuranças, a Fé medieval, a Fé verdadeira.

Assim como os seus colegas jesuítas que na China “batizaram” a veneração aos ancestrais confuciana (como S. Tomás “batizara” Aristóteles), o Santo Padre quer “batizar” o mundo em que vivemos, instando-nos a agir nele como cristãos, a reconhecer e sacralizar o que há de bom nele e a nele vivermos como santos, que nele vivem sem a ele pertencerem. O mundo é o lugar onde somos chamados à salvação, e é nele que devemos, no temor e no tremor, operá-la. Não somos chamados a discutir terminologias teológicas; pode perfeitamente haver quem o faça, mas tudo que nos é de valia saber já foi mais que definido, e discutir arabescos laterais não é coisa que se faça quando a casa está pegando fogo. E é esta a situação atual: temos um desrespeito à dignidade da vida humana que jamais foi visto desde o início da Cristandade, num retorno aberto ao desumanismo pagão. Temos uma sociedade que percebe os vícios mais negrosorgulho, luxúria, cobiça, ira, etc.como virtudes.

Ao mesmo tempo, temos uma transformação em muitos aspectos semelhante àquela por que passou a Europa no Século XV com a invenção da imprensa: a internetcujo potencial já fora apontado por São João Paulo IInos possibilita ainda mais que antes dizer toma, lê”. Nela é possível levar a mensagem doutrinal cristã a todas as partes com pouquíssimo esforço e dinheiro. Mas essa mensagem só interessará a quem perceber na Igreja um bem. E esse bem só será percebido se a Igreja se fizer, como mandou Nosso Senhor e como foi o caso em todo o Medievo, o hospital das almas feridas.

A Divina Providência nos mandou o Papa Francisco, como despertou vários outros grupos de jovens para apostolados nessa mesma direção desde antes de sua eleição; basta pensar, por exemplo, em quanto a vocação da Toca de Assis é “papafranciscana”, ainda mais que neofranciscana.

O nosso papel de cristãos no mundo de hoje, aponta-nos o Santo Padre, não é fazer parte de guerras culturais intramodernas, mas levar o Cristo. Por atos, e se necessário for por palavras, devemos levá-lO a toda parte. Devemos vê-lo nos mais pobres, nos mais fracos, nas vítimas. Devemos acolher cada pessoa individual como um irmão perdido, sem jamais se deixar prendê-la liminarmente em categorias desumanizantes. Devemos perdoar, e perdoar setenta vezes sete. Devemos, em suma, voltar à prática medieval, ao invés de persistir na péssima estratégia que ao longo dos últimos 500 anos fez com que a Igreja perdesse a Europa. Essa estratégia está agora surgindo no Brasil, e parecendo ser a última moda. Não é não; é o que já não deu certo lá fora, mas que se continua em muitos meios tentando fazer.

Sigamos o que nos diz o Papa que façamos. Ele sabe o que diz, nosso estupendo Papa medieval. Que Deus o guarde, e que ele reine tanto ou mais que São Pedro!

Fonte: Medium

Carlos Ramalhete


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