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Artigo

NÃO HÁ FÉ SEM CARIDADE

 

Há uma doutrina chamada sola fide (1.530 – 1540), afirmando ser a Caridade e as boas obras totalmente dispensáveis ao plano da salvação.

 

Para os adeptos dessa "doutrina," bastaria para salvação, a “fé” apresentada apenas em seu contexto ideológico, divorciada de qualquer efeito concreto ou prático.

 

Fixava-se, assim, a teoria da DIVISÃO entre a FÉ e a OBRA DE CARIDADE, em prejuízo irreparável a Doutrina Sagrada. Divisão essa, que nem NOSSO SENHOR, e nem sua Igreja conceberam.

 

Mas tal teoria é absolutamente falsa.

 

Como ensinou o Apóstolo:

 

“... acima de tudo, REVESTI-VOS DA CARIDADE, que é o VÍNCULO DA PERFEIÇÃO.” (Col 3, 14)

 

“A CARIDADE não pratica o mal contra o próximo. Portanto, A CARIDADE É O PLENO CUMPRIMENTO DA LEI. (Rom 13. 10)”

 

“Feliz o justo, PARA ELE O BEM; ele COMERÁ O FRUTO DE SUAS OBRAS.” (Isaías 3, 10)

 

O Dom da Fé é prático, e não teórico:

 

“Tudo o que FAZEIS, FAZEI-O na caridade. (I Cor 16, 14)

 

E apesar do contágio com o pecado original, que desordenou nossa conduta, desalinhando-a da bondade e da retidão suprema, é fato que a essência1 de Deus não nos abandonou.

 

Por mais ignóbil que tenha se tornado o ser humano, ele ainda é o único que carrega a IMAGEM E SEMELHANÇA COM O CRIADOR, sendo por esta razão, capaz  de realizar atos de Amor e de Vitudes.

 

Deus não nos desistiu de nós, mesmo após a queda:

 

“É por sua Graça que estais em JESUS CRISTO, que, da parte de DEUS, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (I Cor 1, 30)

 

Mas a salvação que nos vem pelo sacrifício, não se operacionaliza apenas no impedimento ou correção dos atos maliciosos, por amor a Deus sobre todas as coisas, mas também na realização dos atos virtuosos do Bem Divino, que é amar ao próximo como a nós mesmos.

 

“amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe.” (S. Marcos 12. 30 e 31)

 

A prova visível e aparente da expressão mais sublime do amor ao próximo, só pode ser encontrada na Caridade.” (S. Marcos 12. 30 e 31)

 

A Caridade ou Ágape (ἀγάπη), é o amor de Deus que se realiza por meio do homem, imbuído de santidade por participação nos méritos de Cristo.

 

Difere na filantropia, que é o amor ao homem por causa do homem (filantropia social), e que não raras vezes se realiza para promoção religiosa, como faziam os fariseus (filantropia de prosélitos) ou para algum tipo de ganho próprio (filantropia egocêntrica)

 

Caridade é Dom do Espírito Santo, que nos capacita a renúncia própria em favor do outrem.

 

Amar é querer o Bem e a Salvação até dos inimigos. (S. Mateus 5.44) 

 

E isso, não está na capacidade humana natural.

 

A Graça que nos salva por CRISTO é o instrumento de adesão do ser humano à Bondade Suprema.

 

A Antiga Aliança nos deu os preceitos da lei.

 

Já a Nova nos deu os PRECEITOS DA FÉ.

 

Os preceitos rudes da lei, foram a circuncisão, os sábados, as normas dietéticas, o apedrejamento dos pecadores e o sacrifício sionista, dentre outros.

 

Os preceitos da Fé são apenas esses dois: - Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

 

A Fé nas Escrituras, deriva do grego koiné, pistiV (πίστις), e depois, do latim fides, conforme a Vulgata2.

 

Tais palavras3 se traduzem por adesão incondicional; confiança irrestrita; obediência firme; fidelidade completa; lealdade; servidão; submissão livre e voluntária.

 

O Catecismo4 definiu a fé, na “entrega do homem a Cristo de maneira plena e livre, buscando incessantemente FAZER A VONTADE DE DEUS.”

 

Temos então, que a Fé Legítima não pode estar apenas na ciência cognitiva sobre Deus e na vontade de ir para o céu. Antes, há de estar no ser humano, por completo, preenchendo-o desde sua alma até as suas ações concretas, passando pela vontade e pelo intelecto.

 

Se um dos Mandamentos de Cristo é amemos uns aos outros, não há como cumprir esse preceito de modo lapidar e maravilhoso, senão pela CARIDADE.

 

A Caridade é Única expressão lógica e aceitável da Verdadeira Fé, como está Escrito:

 

“para que esta TUA FÉ, que compartilhas conosco, SEJA ATUANTE "E FAÇA CONHECER TODO O BEM QUE SE REALIZA5 entre nós por causa de Cristo. (Filemôn 1.6)

 

“Somos obra sua, CRIADOS EM JESUS CRISTO PARA AS BOAS AÇÕES, QUE DEUS DE ANTEMÃO PREPAROU PARA QUE NÓS AS PRATICÁSSEMOS.” (Ef. 2, 10)

 

“Vês como o homem É JUSTIFICADO PELAS OBRAS E NÃO SOMENTE PELA FÉ? (São Tiago 2, 24)

 

Tratar a Fé num compasso ideológico, isolando-a da necessidade de qualquer contexto comportamental em favor ao próximo, ou como desejo egocêntrico e autoproclamado de vir à ser salvo, é grave perversão espiritual, implicando em risco iminente de perdição eterna.

 

A Fé não é inoperante, algo abstrato, teórico, mas algo vívido, produtor de ações reais, pelo Dom Caritativo que Cristo faz brotar em nossos corações:

 

“Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, MAS SIM A FÉ que OPERA ATRAVÉS DA CARIDADE. (Gálatas 5.6)”

 

A Caridade, que frutifica sobrenaturalmente, no ser, como extensão do Sacrifício de Amor do Cordeiro, é um dos elementos para remissão dos pecados:

 

“O ódio desperta rixas; A CARIDADE, PORÉM, SUPRE TODAS AS FALTAS. (Prov 10, 12)

 

E como instrumento da salvação, é a Fé que nos move ao cumprimento dos ensinamentos piedosos do NOSSO SENHOR JESUS Cristo:

 

Qualquer dita conversão, que não projete efeito prático da Graça na ação humana, é falsa.

 

A adesão ao Sacrifício nos salvos, corresponde a adesão ao caráter de Cristo, que desaguará nas obras do amor; renúncia; desapego material; fraternidade; bondade; respeito; paciência; misericórdia; perdão; temperança; comunhão; santidade enfim, zelo pelos Dois Mandamentos Sagrados da Nova Aliança.

 

As boas obras são testemunhas oculares da fé.

 

Inadmite-se, daquele que se diz fiel, outra coisa que não seja a caridade.

 

Nem ações estéreis e infrutíferas, nem ações maliciosas.

 

Somente na caridade, podemos ser IMITADORES DE CRISTO, porque foi Dele, o Maior Exemplo quando se entregou por nós:

 

“PROGREDI NA CARIDADE, SEGUNDO O EXEMPLO DE CRISTO, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.” (Efésios 5, 2)

 

A fé não colide com as boas obras. Antes, a esta se alinha, perfazendo a “cara” e a “coroa” da mesma moeda.

 

Onde encontramos uma, estará a outra, por serem incindíveis.

 

Impossível negar que as boas obras não se interligam à fé, porque são reflexo dos méritos do próprio Cristo semeados em nossas vidas, como Ele explica, na parábola da videira:

 

“1. Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o agricultor. 2.TODO O RAMO QUE NÃO DÁ FRUTO EM MIM, O PAI CORTA-O. OS RAMOS QUE DÃO FRUTO, PODA-OS PARA QUE DÊEM MAIS FRUTO AINDA.3.Vós já estais limpos por causa da Palavra que vos dirigi.4. FICAI UNIDOS A MIM E EU FICAREI UNIDO A VÓS. O RAMO QUE NÃO FICA UNIDO À VIDEIRA NÃO PODE DAR FRUTO. Vós também não podereis dar fruto, se não ficardes unidos a Mim.5.Eu sou a videira e vós os ramos. Quem fica unido a Mim, e Eu a ele, dará muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer nada.6. QUEM NÃO FICA UNIDO A MIM SERÁ LANÇADO FORA COMO UM RAMO, E SECARÁ. ESSES RAMOS SÃO JUNTADOS, LANÇADOS AO FOGO E QUEIMADOS.7.Se ficardes unidos a Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e ser-vos-á concedido.8.A glória de meu Pai manifesta-se quando dais muitos frutos e vos tornais meus discípulos. 9. Assim como meu Pai Me Amou, Eu também vos amei. Permanecei no meu amor. 10. Se ODEBECEIS AOS MEUS MANDAMENTOS, PERMACERECEIS NO MEU AMOR, assim como Eu Obedeci aos mandamentos do meu Pai, e permaneço no seu amor. 11. Disse-vos isto, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. 12. O meu mandamento é este: MAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI. 13. Não existe Amor maior do que dar a vida pelos amigos. 14. Sereis meus amigos, SE FIZERDES O QUE VOS MANDO. 17. O QUE VOS MANDO É QUE AMEI UNS AOS OUTROS." (São João 15)

 

Assim se crê hoje, como sempre se creu, desde a Igreja Primitiva:

 

“A obra pela qual o homem pode agradar a Deus é a lei e a obra da caridade. Ela é a boa vontade, que perfeitissimamente agrada a Deus. Cumpre-a aquele que incessantemente louva a Deus com pensamentos puros, que produzem a memória de Deus e a memória dos bens que Ele nos prometeu, e que em nós cumpriu por obras de sua grandeza. Da memória destas coisas se origina no homem aquele amor perpétuo que nos foi prescrito: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e com toda a tua força." (Santo Antão do Egito, in Os Padres do Deserto – Temas e Textos, ed. Vozes)

 

A caridade que fez Cristo descer do Céu à Terra, elevou Estevão ao Céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo, logo refulgiu no soldado. Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou perante a hostilidade dos judeus; por amor ao próximo intercedeu por aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no erro para que se emendassem; por caridade orava pelos que o apedrejavam para que não fossem punidos. Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi sempre mais no caminho da perfeição” (Sermão 3,1-3.5-6; CCL 91A,905-909) (São Fulgêncio de Ruspe, ano 533, Sermão 3,1-3.5-6; CCL 91A,905-909).

 

Sendo assim, a caridade é a prova visível da Verdadeira Fé pela qual seremos julgados.

 

Nisso ensinou o MESTRE:

 

“tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: SEMPRE QUE O FIZESTES A UM DESTES MEUS IRMÃOS, MESMO DOS MAIS PEQUENINOS, A MIM O FIZESTES. Então dirá também aos que estiverem a sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, SEMPRE QUE O DEIXASTE DE FAZER A UM DESTES MAIS PEQUENINOS, DEIXASTES DE O FAZER A MIM. E IRÃO ELES PARA O CASTIGO ETERNO, mas os justos para a vida eterna.” (São Mateus 25.31 à 46)

 

Aquele que não tem caridade não tem fé, e sem fé, não haverá salvação.

 

“Eis que VENHO EM BREVE, e a minha recompensa está comigo, PARA DAR A CADA UM CONFORME AS SUAS OBRAS." (Ap 22, 12)

 

Sem a Caridade, serão inúteis os vossos cânticos, pregações, louvores, festas,  dízimos e trabalhos apologéticos. (Amós 5.23)"

 

E como disse o Apóstolo: "sem amor, eu nada serei. (I Cor 13) "

 

1. Conforme a Profissão da Fé Protestante, as Boas Obras não servirão para qualquer prêmio ou galardão, sendo apenas necessária para exaltar Deus. (Confissão de WestMinster, Apêndice. Cap. 15, ano 1.643)

 

2. Vetus vulgata ou Ítala, são parte de textos da tradução da Bíblia em grego koiné para o latim popular, feita pela Igreja Romana Primitiva. São Jerônimo, de 393 à 406, copilou, ampliou e aperfeiçoou as traduções, incluindo a tradução do velho testamento do hebraico.

 

3. http://www.priberam.pt/dlpo/f%C3%A9

 

4. http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/f/fe.html

 

5.palavras que acompanham “fé” (pistin, pistewV), respectivamente, “atuante, conhecer” e “bem,” se traduziram de energhV (ἐνεργής, ές), cujo significado é força vital, efetividade; epignwsei (ἐπίγνωσις) discernir, perceber, se mostrar; e agaqou (ἀγαθός) o bem que se realiza concretamente.

 

Observação: Foto mostra o trabalho da ORDEM FRANCISCANA junto às vítimas viciadas em drogas.

 

Nando Gomes


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