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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 345 – fevereiro 1991

A experiência norte-americana:

 

Educação Sexual

 

Em síntese. A "Educação Sexual Compreensiva" ou desligada de qualquer transmissão de valores éticos foi amplamente ministrada nos Estados Unidos das décadas de 1970 e 1980. Infelizmente, porém, comprovou-se nociva: em vez de contribuir para diminuir o número de casos de gravidez precoce e abortamentos (como se esperava), só cooperou para aumentar os casos infelizes. À vista disto, muitos educadores percebem a necessidade de rever os programas de educação sexual norte-americanos, chegando a apregoar a educação para a continência ou a abstinência total de intercâmbio genital até o matrimônio. A Dra. Dinah Richard colecionou dados estatísticos, depoimentos e reflexões de membros do Governo e professores dos Estados Unidos e publicou-os no livro Has Sex Education failed our Teenagers? A Research Report. Desta obra, muito interessante e valiosa, são extraídos os tópicos mais significativos que publicamos nas páginas seguintes.

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Em 1990 foi publicado nos Estados Unidos um relatório sobre os efeitos da Educação Sexual ministrada a adolescentes nas escolas dos últimos decênios. O trabalho se deve à Dra. Dinah Richard, Ph. D., e tem por título: "Has Sex Education failed our Teenagers? A Research Report" (1), obra editada por Focus on the Family Publishing, Pomona, CA 91799, 1990.

(1) A Educação Sexual Iludiu nossos Jovens? O Relatório de uma Pesquisa.

A autora tem seu Ph. D. em Comunicação pela Louisiania State University; foi professora desta Universidade e da do Texas em San Antonio. É casada e tem quatro filhos. Em sua atividade acadêmica interessou-se por Educação Sexual e suas conseqüências, especialmente para os Teenagers  (jovens de 13 a 19 anos); respondendo a instantes solicitações, que lhe foram feitas por professores e orientadores educacionais, a Dra. Richard pesquisou os efeitos do uso e da abstinência da genitalidade naquela faixa etária; donde resultou a obra citada, portadora de dados numéricos, gráficos, estatísticas, depoimentos. . . num total de 93 páginas.

De tal livro extrairemos os tópicos que mais possam interessar ao público brasileiro.

1. As experiências falam

1.1. Educação Sexual: solução para problemas da adolescência?

O crescente número de casos de gravidez em adolescentes não casadas e de abortamentos praticados em conseqüência levou as autoridades americanas a procurar conter a onda, que, além do mais, era causadora de moléstias genitais e de problemas psicológicos derivados. É de notar que, de acordo com a Planned Parenthood (Planejamento Familiar), mais de um milhão de meninas dos 13 aos 19 anos nos Estados Unidos ficam grávidas cada ano — o que representa a mais elevada cota em todo o mundo ocidental.

A solução aventada consistiu em ministrar programas de educação sexual no lar e na escola, inspirados pela esperança de que o conhecimento minucioso da Biologia levaria os adolescentes e jovens a evitar as conseqüências indesejadas de sua prática sexual. A instrução, porém, não foi acompanhada de qualquer proposição de valores morais; apenas se transmitiram aos educandos as informações necessárias para usarem da genitalidade, presumidamente sem correrem os riscos de gravidez e moléstias venéreas. — Os programas assim concebidos foram aplicados nas escolas norte-americanas. . . , verificando-se, porém, que em nada contribuíram para eliminar ou diminuir os males indesejados por todos; ao contrário, estes só fizeram aumentar em número.

 

A comprovação destes resultados contra-producentes moveu as autoridades governamentais norte-americanas a repensar seus programas educacionais e a recomendar a própria abstinência sexual ou a castidade:

"California, Washington, Illinois and Indiana have passed laws requiring sex education to be taught from an abstinence perspective. Other States are currently considering the adoption of similar legislation.

Abstinence education has been shown to have a positive Impact on teen's atitudes toward chastity and on their abilities to say no to sexual activity. Moreover it has effectively reduced the teenage pregnancy rate in many communities" (p. VIII da obra citada). (1)

 

Procuremos acompanhar os sucessivos aspectos da história assim compendiada.

 

1.2 A aplicação de verbas e seus resultados

1. Nas últimas décadas, ou seja, a partir de 1971, o Governo Federal norte-americano aplicou verbas sempre mais vultosas aos programas de Educação Sexual.

 

Em 1968, as despesas eram de US$ 13,5 milhões.

Em 1978, já eram de US$ 279 milhões — o que significava aumento de 2.000%.

De 1971 a 1981 os gastos do Governo Federal nessa área (não se levando em conta as despesas de cada Estado da Federação) foram de mais de US$ 2 bilhões de dólares - o que representou um aumento de 306%. Apenas em 1985 o Governo Federal gastou mais de US$ 22 milhões em programas de Educação Sexual.

 

1.3. Quais os resultados obtidos?

O dinheiro tão amplamente assim aplicado permitia prever notável baixa de gravidez e abortamento entre as adolescentes.

Ocorre, porém, que, de 1971 a 1981, a aplicação de verbas 306% maiores redundou em aumento de 48,3% de casos de gravidez e de 133% de casos de abortamento a mais entre meninas de 13 a 19 anos. Os pesquisadores Joseph Olsen e Stan Weed, impressionados por tais conseqüências, se dedicaram a exame mais preciso do assunto e em 1986 publicaram um relatório final, que declarava:

 

"Califórnia, Washington, Illinois e Indiana promulgaram leis que exigiam fosse a educação sexual ensinada em perspectiva de abstinência. Outros Estados estão, de modo geral, considerando a adoção de semelhante legislação.

A educação para a abstinência foi comprovada como tendo impacto positivo sobre as atitudes dos Jovens em relação à castidade e as suas disposições para dizer Não à atividade sexual. Mais do que tudo, ela reduziu realmente a cota de casos de gravidez em jovens de muitas comunidades".

"Em vez da esperada redução de gravidez de adolescentes, os programas de educação sexual levaram a significativo aumento do problema.

O mesmo se deu com os casos de aborto, que aumentaram surpreendentemente.

A expectativa de redução de nascimentos realizou-se, não, porém, à custa de contraceptivos, mas de abortamentos" (livro citado, p. 6).

O pesquisador Philipps Cutright, comparando as verbas aplicadas e os aumentos de casos de gravidez entre adolescentes, chegou à seguinte conclusão, que confirma as anteriores:

"Não temos evidência de que os programas de educação sexual tenham reduzido a gravidez indesejada, pois as áreas em que tais programas foram moderadamente aplicados ou de modo nenhum aplicados, demonstraram menor aumento ou maior declínio dos casos de gravidez do que as áreas fortemente atingidas pelos programas de educação sexual" (I. cit, p. 9).

O incremento de casos indesejados de gravidez se deve, em grande parte, ao fato de que as instruções referentes à contracepção excitaram nas adolescentes a vontade de ter relações sexuais "isentas de risco" mediante o uso da pílula. Ora o uso da pílula nas adolescentes é muito menos eficaz do que nas mulheres plenamente desenvolvidas:

"Os inventores das pílulas contraceptivas não tinham idéia de como esse produto contribuiria para fomentar a atividade sexual dos adolescentes. Em 1977 o Dr. Robert Kistner, da Harvard Medical School, reconheceu: 'Há cerca de dez anos eu declarei que a pílula não provocaria a promiscuidade. Eu me enganei'. Em 1981 o Dr. Min Chueh Chang disse: 'Pessoalmente vejo que a pílula iludiu os jovens.. . Ela os tornou mais permissivos' "...

 

Num inquérito junto a quatrocentas famílias escolhidas fortuitamente, médicos e psicólogos verificaram que "a oferta de pílula suscitou um aumento de promiscuidade entre os adolescentes" (I. cit. p. 11).

 

1.4. E que é a "Educação Sexual Compreensiva"?

 

Na década de 1950, a Suécia adotou uma forma de educação sexual que serviu de modelo para o mundo ocidental. Este modelo, derivado das concepções liberais da cultura sueca no tocante ao sexo, partia da premissa de que a genitalidade entre os 13 e 19 anos era inevitável; os educadores deveriam manter-se em posição moralmente neutra; as escolas deveriam ensinar aos estudantes os métodos contraceptivos.

Ora o mesmo modelo, embora não explicitamente atribuído aos suecos, foi adotado nos Estados Unidos quinze anos após implantado na Suécia. A tal método deram-se vários nomes: "Educação Sexual", "Progressiva Educação Sexual", "Educação Sexual Contemporânea", "Educação Sexual Moderna", "Educação Sexual Contraceptiva", "Educação Sexual Moralmente Neutra" e "Educação Sexual Compreensiva" (Comprehensive Sex Education). Mais recentemente adotou-se o nome "Educação para a Vida de Família", pois este soava mais suave do que "Educação Sexual".

Essa Educação Compreensiva abrangia seis pontos, dos quais ao menos quatro deviam ser obrigatoriamente aplicados:

 

1) fatos biológicos relativos à reprodução;

2)  como o adolescente deve observar e acompanhar o seu desenvolvimento sexual;

3)  informações a respeito dos diversos processos de limitação da natalidade;

4)  informações concernentes à prevenção de abusos sexuais;

5)  informações relativas ao aborto;

6)  informações sobre as Lojas que fornecem anticoncepcionais.

A Educação Sexual Compreensiva assim entendida propagou-se pelas escolas norte-americanas, todavia com resultados decepcionantes, como já atrás registrado. Aliás, isto não surpreende, pois na própria Suécia, pátria-mãe da educação sexual em larga escala, se verificou desde 1956 que os casos de gravidez e abortamento aumentaram em função da aplicação do método.

 

1.5. Educação Sexual e Problemas Emocionais

O malogro da Educação Sexual Compreensiva está, em parte, associado à provocação de problemas emocionais entre os adolescentes. Eis o depoimento do Dr. Melvin Anchell, autor de numerosos livros sobre a sexualidade humana:

 

"Os cursos típicos de Educação Sexual equivalem a receitas eficazes para produzir problemas de personalidade e até perversão de comportamento. . . Os programas de educação sexual desde o Jardim da Infância até a Escola Superior degradam, de maneira contínua, a índole afetiva e monogâmica da sexualidade humana. A educação sexual, premeditadamente ou não, tira aos estudantes a sensibilidade para os valores espirituais da sexualidade humana.

Nos últimos vinte anos ou quase, o número de adolescentes hospitalizadas por causa de depressão psíquica triplicou-se e o suicídio de adolescentes subiu 200%. Uma parte da culpa do declínio da saúde mental dos adolescentes se deve às suas atitudes carnais para com o sexo, como também a prematura atividade sexual, fomentada pela educação sexual contemporânea" (I. cit, p. 22).

A Comissão Norte-Americana relativa à Criança, à Juventude e à Família publicou também um relatório intitulado: Teen Pregnancy: What is Being Done? A State-by-State Look, onde se lê:

"Aos poucos, nos últimos vinte e cinco anos, nós, como nação, decidimos que é mais fácil dar pílulas a crianças do que ensinar-lhes o respeito pelo sexo e o casamento. Hoje estamos vendo os resultados dessa decisão não somente no crescente número de casos de gravidez, mas também no uso de drogas, nas multiplicadas doenças venéreas, nos suicídios e em outras formas de comportamento autodestrutivo" (I. cit, p. 23).

 

1.6. A Pílula e o Preservativo Convencional

1. A pílula é considerada como o mais eficiente anticoncepcional do mercado, a ponto que os educadores geralmente ensinam que somente 1% dos casos falha, quando a pílula é usada regularmente. Esta afirmação, porém, é desmentida por estudos rigorosos.

Em 1986 o estudo Family Planning Perspective revelou que, para as mulheres casadas, a média de falhas da pílula era de 2,9%, sendo, porém, que, para as mulheres casadas de menos de vinte anos de idade, a média de falhas subia a 4,7%. O mesmo estudo mostrou que as mulheres de menos de 18 anos que usam a pílula para "adiar" a gravidez estavam sujeitas a 4,5% de falhas; as mulheres de menos de 18 anos que a usam para "impedir" a gravidez, estavam sujeitas a 11% de falhas. A pílula é, sim, menos eficaz nas adolescentes e nas jovens do que nas pessoas mais maduras.

Ademais as meninas entre 13 e 19 anos são mais vulneráveis pelo uso da pílula do que as menos jovens. Entre os efeitos negativos do produto, estão: aumento de peso (22%), problemas menstruais (18%), náuseas (16%), dores de cabeça (10%), males do abdômen (10%). Outros efeitos mais graves podem ocorrer, principalmente se a usuária é fumante.

2. A partir de 1980 propagou-se nos Estados Unidos a noção de Safe Sex (sexo seguro ou isento de riscos). A camisinha foi o meio mais preconizado para se evitarem as moléstias decorrentes do uso do sexo livre. Verificou-se, porém, que a idéia de Safe Sex é um mito. O próprio médico General Koop declarou: "O país está tomado pela mania do condom. Não me sinto ufano pelo papel que desempenhei na propagação dessa idéia. O condom é o último recurso a ser aplicado" (I. cit., p. 25).

Um dos fatos mais significativos para mostrar quanto é falho o uso da camisinha (preservativo) foi divulgado pelo Journal of the American Medical Association em 1987: os pesquisadores interessados em averiguar a transmissão da AIDS acompanharam casais, dos quais um dos cônjuges estava afetado pelo vírus; averiguaram que, nos casais que usavam preservativo durante suas relações sexuais, houve transmissão do vírus na porcentagem de 17% em dezoito meses; ao contrário, nos casais que se abstiveram de relacionamento sexual, não se pôde averiguar contágio.

Os estudos posteriores levaram a concluir que o preservativo (camisinha) é falho em mais de 10% dos casos, quando é usado para impedir a gravidez. Mais falho é ainda quando utilizado como meio para evitar a AIDS, visto que o vírus da AIDS é extremamente pequeno. Entre os jovens, que nem sempre são cautelosos na aplicação de tal recurso, a porcentagem de falhas do preservativo chega a 18%.

1.7. A Educação para a Continência Sexual

Nas últimas décadas a invenção de anticoncepcionais físicos e químicos favoreceu enormemente a liberdade sexual, especialmente as relações pré-matrimoniais: a pílula e o aborto eram apregoados como garantias de "sexo seguro". Verifica-se, porém, que os resultados dessa concepção de vida são desastrosos; em vez de propiciar felicidade e bem-estar a jovens e adultos, tem sido fonte de graves desventuras. Daí o surto de uma tendência a retornar aos padrões de comportamento autocontrolado, particularmente na faixa etária pré-marital (em que as conseqüências do sexo livre são mais daninhas). São palavras da Dra. Alexandra Mark, Ph. D., e do Dr. Vernon H. Mark, M.D., no periódico Medical World News:

"A crescente evidência dos fatos condena, de modo impressionante, os mentores da revolução sexual. Prometeram alegria, libertação e boa saúde. Mas proporcionaram miséria, moléstias e até a morte. . . A resposta a estes fatos é a seguinte: temos de reconhecer que o apelo a uma mudança de comportamento responsável tem de começar pelos mentores da sociedade. . . Os grupos que agora são obrigados a sair da sua indiferença, são interpelados: compete-lhes esboçar uma imagem da juventude do futuro mais feliz e consolidada pelo senso de responsabilidade no tocante ao sexo" (I. cit, p. 43).

É de notar que os próprios meios de comunicação social começaram a alertar os jovens contra a promiscuidade sexual. Assim, por exemplo, o Dr. Art Ulene, médico comprometido com o programa To-Day Show da NBC, declarou em junho de 1987:

"Creio que é tempo de deixar de falar a respeito de safe sex (sexo seguro). . . Julgo que a total abstenção de atividades sexuais com outras pessoas é uma opção que merece séria consideração nesta era da AIDS. . . Penso que a abstenção é uma escolha muito oportuna para os jovens do nosso mundo" (I. cit, p. 4).

Ted Koppel, atuante no programa Nightline da ABC, assim se pronunciou na Duke University em 1987:

"Nós nos convencemos de que os slogans nos salvam. 'Injete, se você precisa, mas use uma agulha limpa!', 'Goze do sexo quando e com quem você queira, mas use um preservativo’. Não! A nossa resposta é Não. Não porque não seja arrojado ou inteligente ou porque você poderia ir acabar numa prisão ou morrer num hospital de AIDS, mas porque é mau, porque nós gastamos 5.000 anos como estirpe de seres racionais, tentando arrastar-nos para fora da lama primitiva, à procura da Verdade e da Moralidade absolutas. Na sua mais pura forma, a verdade não é uma educada pancadinha nos ombros. É uma censura gritante. O que Moisés trouxe do Monte Sinai para a planície, não foram simplesmente dez sugestões" (I. cit. p. 46).

Em favor de uma educação para a abstinência sexual (abstinence education), na década de 1980 moveram-se várias personalidades e associações nos Estados Unidos, a começar pelo Presidente Ronald Reagan. Este em 1981 assinou um dispositivo do Public Health Service Act (Title xx), que recomendava, entre outras coisas, a promoção da continência pré-marital. O mesmo Presidente declarou:

"O fato de que se ensina sexo como sendo apenas uma função fisiológica, sem levar em consideração os preceitos éticos que lhe dizem respeito, creio que deveria preocupar aqueles que têm o encargo da educação" (I. cit, p. 43).

Em setembro de 1988, Reagan dirigiu-se à Secretaria de Saúde e Serviços Humanos, recomendando que os programas educacionais emanados do Governo Federal incluíssem temas aptos a promover e estimular a continência sexual (I. cit., p. 43). Dispôs outrossim que essa Secretaria elaborasse uma lei segundo a qual as verbas federais não seriam utilizadas para distribuir anticoncepcionais ou receitas de anticoncepcionais nas escolas sem permissão dos pais dos educandos.

 

Um alto funcionário do Governo, William Bennett, declarou:

"A educação sexual está relacionada com a maneira como rapazes e moças, homens e mulheres hão de tratar uns aos outros e tratar a si mesmos. A educação sexual portanto está ligada ao caráter e à formação do caráter. Um curso de educação sexual no qual não haja as categorias de correto e errôneo em lugar central, é uma evasão e uma falta de responsabilidade" (I. cit.p. 44).

Outro membro do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Joann Gasper, também sustenta a importância da educação para a continência, afirmando que "a abstinência sexual é a única via segura para evitar gravidez. A mensagem a ser transmitida ensina a não ter relações sexuais antes do casamento" (I. cit., p. 44).

É de observar ainda o seguinte: nos Estados Unidos alguns educadores quiseram entender "educação para a abstinência" em sentido meramente relativo: excluiria apenas a penetração, mas admitiria sexo oral, sexo anal, masturbação a dois e contatos genitais epidérmicos. — Na base desta definição, tais educadores concluíram que a abstinência sexual não é 100% eficaz, pois o esperma ejaculado fora da vagina pode finalmente entrar dentro desta, provocando uma eventual gravidez; assim a abstinência sexual não deixaria tranqüilos os dois parceiros interessados; seria preciso substituir-lhe o safe sex (sexo seguro, mediante preservativo ou camisinha)! Ora, diante desta distorção de conceitos, é mister que se entenda corretamente a abstinência sexual: implica a recusa de qualquer atividade sexual — seja a convencional e natural, seja a anormal (sexo anal, oral, masturbação a dois, contatos sexuais excitantes. . .).

1.8. Educação para a Continência é Doutrinação Religiosa?

1. Uma das objeções que nas escolas oficiais se levantam contra a educação para a continência, consiste em dizer que esta é uma forma de religiosidade e, por isto, viola a Constituição norte-americana, que não oficializa religião alguma. Na verdade, os preceitos do Cristianismo e de outros Credos ensinam a castidade. Mas esta não é valorizada apenas pela Religião. Instâncias não religiosas como a Medicina, a Psicologia, a Sociologia também a estimam e recomendam; e é em nome das instâncias não religiosas que ela há de ser proposta nas escolas.

Ademais pondere-se que toda e qualquer escola — religiosa ou não — ensina que é mau comportamento roubar, trapacear, mentir, extorquir, matar, embriagar-se e fazer outras coisas prejudiciais ao indivíduo e à sociedade. As escolas também ensinam que são valiosos os atos de amar o próximo, agradecer, perdoar. . . Embora estes ensinamentos se encontrem também em todas as religiões, as escolas oficiais julgam que se devem transmitir em nome da própria dignidade humana, subjacente ao título de cidadão e independente de algum Credo religioso.

O conflito levantado nos Estados Unidos foi julgado pela Suprema Corte, que houve por bem legitimar a educação para a abstinência e considerá-la disciplina escolar, que não fere os princípios da Constituição norte-americana.

2. Pergunta-se ainda: Mas a Moral pode ser ensinada nas escolas públicas? Não seria isto um atentado contra a liberdade de consciência dos educandos? Os professores não deveriam apenas apresentar teorias e opções de vida, as vantagens e desvantagens de cada uma e, a seguir, deixar a decisão ao critério de cada aluno? — É assim, ao menos, que procede a educação sexual geralmente ministrada nas escolas.

Em resposta, considera-se que as escolas ensinam tranqüilamente a abstinência de drogas, a prudência no trânsito, o respeito pela saúde própria e alheia. . . o que implica sempre na transmissão de valores morais. Na verdade, os educandos da faixa dos 13 aos 19 anos precisam de orientação ética, pois ainda carecem de parâmetros e de experiência para tomar suas decisões pessoais; a tendência dos adolescentes e dos jovens imaturos é a de optar pelos alvitres mais cômodos e fáceis - o que, muitas vezes, lhes é prejudicial.([1])

 

3.  Há quem diga que os jovens de 13 a 19 anos não consideram como problema a prática de relações pré-matrimoniais nem estão interessados em valores morais. — A propósito pode-se responder:

a)  ainda que tal alegação fosse verídica, não se deveria omitir a educação para a continência, pois compete às escolas elaborar a programação dos seus estudos, e não aos alunos;

b)  na verdade, verifica-se que os jovens não consideram tão displicentemente a prática das relações pré-matrimoniais. Num inquérito realizado nos Estados Unidos entre pessoas de 13 a 19 anos, averiguou-se que o relacionamento sexual anterior ao matrimônio é o problema número 1 para os entrevistados. A tabela abaixo revela os itens que os adolescentes de 13 a 19 anos consideram problemas em escala descendente:

 

Problema %

Relações pré-matrimoniais................................................ ........ 99

Abuso de drogas................................................................ ....... 85

Alcoolismo.........................................................................            71

Suicídio.............................................................................. ....... 67

 

(Estatística publicada em McDowell's Research Digest e reproduzida pela obra citada de Dinah Richard, p. 49).

4. Também se objeta que a transmissão de valores morais na escola poderia ofender os genitores de crianças não casados; os filhos seriam levados a julgar e condenar os pais na base das normas éticas que recebessem.

 

— A resposta é formulada pelo colunista William Raspberry:

 

"Argumenta-se contra o ensinamento de normas morais na escola a partir do fato de que uma turma em sala de aula pode incluir alunos cujos pais nunca se casaram. . . Conseqüentemente dizer que as relações pré-maritais ou extra-conjugais são imorais implica em condenar os pais de tais alunos. Acontece, porém, que estamos apenas transmitindo informações de índole moral, e não proferindo condenações. Ademais posso testemunhar que mesmo os genitores não casados preferem que seus filhos adiem a sua atividade sexual, ao menos até a idade em que estejam suficientemente maduros para exercê-la. Com poucas palavras: não considero a instrução moral como ofensiva a quem quer que seja" (I. cit, p. 50).

 

1.9. Traços de autênticos programas de Educação Sexual

1. O Ex-Secretário da Educação Dr. William Bennett elaborou normas para que os currículos de Educação Sexual sejam fundamentados na Moral e em sólida Filosofia. Dessas diretrizes destacam-se as seguintes:

a)  O enfoque dado à matéria da educação sexual não deve ser moralmente neutro ou alheio a uma escala de valores. Deve mostrar aos adolescentes que a disciplina sexual é um padrão a ser mantido com firmeza.

b)  Deve-se ensinar que a prática do sexo não é simplesmente um ato físico ou mecânico. Envolve emoções e sentimentos; destes vários são nobres e enobrecedores, outros são degradantes.

c)  É preciso falar de sexo no contexto de casamento, fidelidade e compromisso. Às meninas deve-se dizer o que significa tornar-se mãe, como também o que é modéstia e castidade. Aos rapazes também é preciso explicar o que é tornar-se pai, como também o que é responsabilidade e disponibilidade.

d)  Aos cursos sejam bem-vindos os genitores, outros adultos e colaboradores.

e)  A escola deve dar atenção a quem ministra o Curso. O professor há de servir como um bom modelo.

 

2. A Dra. Wanda Franz, Professora na West Virgínia University, traçou as seguintes diretrizes de Currículo:

a)  Desenvolver temas que vão ao encontro das necessidades do auditório concreto do professor. Os programas e cada aula em particular hão de ser adaptados ao grau de evolução física e psíquica do educando, de modo a não excitar questionamentos e problemas prematuros. Tome-se consciência de que demasiadas informações podem causar mais mal do que bem.

b)  Provocar a maturidade dos alunos de modo que os adolescentes compreendam quais as finalidades do seu crescimento e desenvolvimento físico e psíquico. Os jovens de 13 a 19 anos precisam de começar a valorizar a recomendação de saber esperar. Os adolescentes não podem compreender bem o valor da espera, mas podem ser ajudados a consegui-lo.

c)  Finalmente seja ministrada uma educação sexual que ensine qual o melhor comportamento e não apresente apenas uma lista de opções.

 

3. O Family Research Council of America também formulou certas linhas básicas de sadia educação sexual:

Papel dos genitores: Os genitores são os primeiros e mais importantes educadores. Os programas deveriam estimular a participação dos genitores. Devem aplicar um método lúcido para estimular o diálogo entre pais e filhos.

Abstinência: Os programas devem estimular, de maneira clara e inequívoca, a continência pré-matrimonial. Diga-se por que a continência é a mais sábia opção.

Contracepção: Apregoar o uso de anticoncepcionais entre jovens solteiros de 13 a 19 anos numa sala de aula enfraquece a educação para a continência. As mensagens mistas, em que continência e meios contraceptivos são postos lado a lado como opções equivalentes entre si só contribuem para disseminar confusão entre os alunos.

Aborto: Os programas devem focalizar os problemas físicos, emocionais e espirituais que o abortamento suscita, e enfatizar que a continência evita o aborto.

Associar sexo e casamento: Os programas não devem simplesmente sugerir o adiamento das relações sexuais, mas hão de associar relacionamento sexual e matrimônio e ensinar que a vida sexual a dois é uma experiência bela e significativa, se compartilhada dentro do contexto matrimonial.

Homossexualismo: Os programas não devem apresentar o homossexualismo como um estilo de vida alternativo e aceitável. Da mesma maneira como o comportamento heterossexual desregrado, o homossexualismo tem conseqüências muito nocivas nos planos físico, emocional, espiritual e psicológico.

O Professor: Deve ser pessoa de elevado caráter moral. Normas registradas às pp. 50s da obra de Dinah Richard. Passemos agora a uma reflexão final.

 

2. Reflexão final

 

O livro em foco é muito rico em dados numéricos, informações e considerações de alto valor educacional.

Quem o lê, pode surpreender-se por verificar que nos Estados Unidos a própria experiência de liberdade sem freios tenha levado a uma réplica assaz severa, mas altamente sábia, como aquela que Dinah Richard documenta em sua obra. A castidade e a continência pré-matrimonial são preconizadas como valores de primeira grandeza não em nome da Moral cristã (que certamente as apregoa), mas em nome do bom senso, da lei natural e da experiência dos homens. O Brasil parece ainda estar na fase ascensional de permissividade, registrando desastres não raros, mas ainda vítima da "euforia da revolução sexual" proclamada por falsos educadores do momento. É de se esperar que também o Brasil se canse da libertinagem sexual e recupere as atitudes do bom senso que muitos pensadores e pedagogos norte-americanos vêm defendendo ultimamente.

Apenas acrescentaríamos às observações contidas no livro de Dinah Richard que a educação sexual coletiva ou em sala de aula, ainda que recatada e acompanhada de escala de valores, corre o risco de despertar problemas ainda não oportunos em mais de um educando. Daí a conclusão de que a educação sexual não de ser ministrada coletivamente, mas, sim, individualmente, de acordo com a evolução do educando, na família e no Serviço de Orientação Educacional do respectivo colégio.

Este artigo tem sua continuação na Declaração publicada às pp. 64-67 deste fascículo (artigo O Material Didático para a Educação Sexual).

Dom Estêvão Bettencourt



[1] É de notar outrossim que, abaixo das leis religiosas, nas profundezas do ser humano existe a lei natural. Esta é a mesma para todos os homens e por todos deve ser observada, independentemente do respectivo Credo religioso. A religião assume e corrobora os preceitos da lei natural, que é a lei do Criador ou de Deus; entre estes preceitos, estão o de não matar, o de não roubar, o de honrar pai e mãe, o de respeitar o próprio corpo e sua dignidade. . . É por isto que, mesmo nas escolas aconfessionais, se faz mister ensinar a Moral natural, decorrente da lei natural, que existe em todo adolescente e adulto.


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