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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 348/ Maio de1991

Sagrada Escritura

A piedade cristã e suas fontes:

Da Palavra ao Culto - Do Culto à Palavra ([1])

 

A Sagrada Escritura como elemento essencial ao culto do Antigo e do Novo Testamento

Em síntese: A Palavra bíblica no Antigo Testamento foi freqüentemente suscitada pelas diversas fases do culto sagrado e da vida do povo de Israel. Em muitos textos do Antigo Testamento encontram-se vestígios da Liturgia de Israel. No Novo Testamento Palavra e Culto continuam entrela­çados, com notas características próprias; com efeito, a Palavra (dabar) de Deus era pelos israelitas concebida como algo de eficaz, algo que comunica a vida do próprio Deus. Ora o Novo Testamento parte da premissa de que a Palavra (o Logos) de Deus se fez carne a fim de restaurar o homem ferido pelo pecado. O Verbo feito carne é o Re-criador do homem e o primeiro Cultor do Pai; Ele convoca os homens todos para uma assembléia sagrada (qahal), que mediante Cristo, realiza a adoração, por excelência, do Pai.

Na Liturgia católica, a Palavra não é mera proclamação, mas é o anún­cio de algo que o culto sagrado ou os sacramentos (especialmente, a Euca­ristia) efetuam realmente. A Liturgia concretiza o anúncio da Escritura; rea­liza e comunica de forma nova a presença agraciante do Senhor Ressusci­tado. A Escritura se completa na Liturgia e esta, por sua vez, leva a um co­nhecimento experimental da Revelação.

 

* * *

A relevância da Sagrada Escritura para o culto cristão tem sido ultima­mente, por diversas vezes e de várias formas, realçada. Embora já a simples observação do espaço ocupado pela Escritura nas celebrações litúrgicas nos fale acerca de seu valor, num plano mais profundo e propriamente teológi­co é a reflexão acerca da natureza mesma da Liturgia e da Palavra de Deus que nos dá a sua base e alcance. Por sua estrutura intrínseca, Palavra e Culto apresentam-se como intimamente relacionados e reciprocamente exigitivos. A Palavra conduz ao culto e para ele se orienta; o culto implica a Palavra. Esta concepção básica é já, por diversas vezes, posta em relevo na Constiuição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II. No parágrafo 24 assim se expressa o documento conciliar:

 

"Na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura."

 

E no parágrafo 56, referindo-se à Missa:

"As duas partes de que consta, de certa forma, a Missa, a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, estão tão estreitamente unidas que formam um único ato de culto ([2]).

Donde provém esta relação e orientação recíproca? Qual sua base e seu significado? Que implicações traz para a índole da celebração litúrgica e para a configuração da Sagrada Escritura? Que conseqüências surgem des­te fato?

 

Intentando formular uma resposta a estas questões, seguiremos em nossa reflexão três passos: procuraremos primeiramente delinear em grandes traços o conspecto histórico acerca da formação da Sagrada Escritura em sua relação com o culto; em seguida, ensaiaremos um aprofundamento dos da­dos teológicos essenciais concernentes à relação entre Palavra e Culto. Por fim, procuraremos evidenciar os aspectos principais da relação entre estas duas realidades.

 

1. Conspecto Histórico

A pesquisa bíblica atual realça com ênfase o longo processo de ela­boração da Sagrada Escritura, pondo em relevo as etapas de tradição oral e escrita que precederam a codificação do texto final, tal qual o temos hoje. Estas tradições, que se fazem presentes na Escritura Sagrada em diversas formas literárias, encontram-se relacionadas com os diversos âmbitos de vida.([3]) Dentre os diversos contextos vitais, aparece o ambiente cúltico como particularmente rico de significado, seja no Antigo, seja no Novo Testamento.

 

1.1. O Antigo Testamento

Detenhamo-nos primeiramente no Antigo Testamento, ressaltando somente alguns de seus muitos elementos. Podemos identificar textos rela­cionados diretamente com algumas solenidades litúrgicas, como, por exem­plo, os SI 96; 105,1-15; 106,47s, relacionados à colocação da arca no Tem­plo, por Davi (cf. 1Cr 16,4); o SI 30, à festa da dedicação do Templo; o SI 92, ao dia de sábado; ou ainda o SI 29, por vezes relacionado com o tér­mino da festa das Tendas.([4]) Por outro lado, diversos salmos trazem em seu início ou final a aclamação Amen ou Aleluia que, segundo 1Cr 16,36 (cf. Esd 3,11), constituía, na liturgia de Israel, a resposta do povo ao final de um hino entoado pelos levitas.([5])

 

Encontramos também textos que refletem liturgias penitenciais e se referem a dias de jejum ou à festa do Yôm Kippur (Dia da Expiação).([6]) Tomemos como exemplo o texto de Os 5,15-6,6, onde se pode perceber o convite de retorno a lave (YHWH), que deveria expressar a atitude de con­versão do povo — 6,1-3 —, seguido de uma resposta a esta palavra, dirigida por levitas em nome de lavé (YHWH) — 6,4-6 —. Outro exemplo encontra-se em Jl 2,12-17, que descreve com detalhes um dia de penitência pelo pecado cometido.

 

No conspecto do Antigo Testamento, podemos encontrar ainda textos referentes à liturgia de entrada em santuários ou no Templo, textos estes em que se expressa o desejo de encontrar a Deus em seu santuário, o gozo de estar às suas portas, e se enumeram as condições para a aproximação do lugar sagrado, para a adoração e louvor ao Senhor. Texto bastante conheci­do é o SI 15, que assim se inicia:

"Senhor, quem pode hospedar-se em tua tenda, quem pode habitar em teu monte sagrado?"

 

Ou ainda Is 33,14b-16:

"Quem dentre nós poderá permanecer junto ao fogo devorador? Quem dentre nós poderá manter-se ¡unto aos braseiros eternos?"([7])

Cantos de peregrinação e procissão são também numerosos, como Is 2,3:

"Vinde, subamos ao monte de YHWH, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos e assim andemos em suas veredas."([8])

Ou ainda outros momentos de liturgia no Templo. Vejamos alguns exemplos:

 

SI 5,3b :   "É a ti que eu suplico, YHWH\ De manhã ouves minha voz.

De manhã eu te apresento minha oferenda e espero."

 

SI 22,23:   "Vou anunciar teu nome aos meus irmãos, louvar-te no meioda assembléia."

 

SI 134,1 :  "E agora, bendizei a YHWH, servos todos de YHWHl Vósque servis na casa de YHWH todas as noites, nos átrios da casa do nosso Deus !"

 

Si 141,2:   "Suba minha prece como incenso em tua presença, minhas mãos erguidas como oferta vespertina! “

 

Sf 149,1:  "Aleluia!  Cantai a YHWH um cântico novo, seu louvor na assembléia dos fiéis."

 

SI 150,1:   "Aleluia! Louvai a Deus no seu Templo, louvai-o no excelso firmamento."

Os santuários aparecem assim como lugares privilegiados para a for­mulação de tradições escritas. O culto exigia textos litúrgicos, que eram en­tão elaborados para esta finalidade. São orações e hinos, muitos dos quais se encontram na Sagrada Escritura. Além disso, como centros da vida de Israel, os lugares de culto deviam possuir textos litúrgicos e administrativos, que serviriam de fonte também para escritos posteriores de índole histórica.([9]) Por outro lado, a própria palavra contribuía para a estruturação do culto, uma vez que este em Israel sempre esteve centrado na intervenção salvífica de Deus, a qual tinha nos escritos sagrados sua formulação mais autêntica.

Não é, porém, somente na liturgia dos santuários que encontramos a Palavra de Deus ligada ao culto. Também na liturgia familiar temos o Sitz im –Leben([10])  de muitas tradições e textos bíblicos. Tomemos como exemplo a festa da Páscoa, que no seu extenso ritual, desenvolvido ao redor da mesa familiar, constava, entre outros elementos, de uma pergunta litúrgica dirigi­da pelo membro mais novo ao chefe da família, pergunta esta que dava ense­jo à narração dos feitos salvíficos de Deus em favor do povo por ocasião da saída do Egito, e que hoje se encontra consignada por escrito em livros como o Êxodo; cf. Ex 12,25-27.

 

Também sob outro ângulo de vista podemos observar a proximidade entre Escritura e Liturgia no Antigo Testamento. É interessante notar como Moisés, que aparece nos livros sagrados como o responsável pela Torah([11]) é simultaneamente apontado como o instaurador do culto.([12]) Também não deixa de ser significativo que o livro do Deuteronômio esteja ligado a uma reforma litúrgica no tempo do rei Ezequias.([13])  Além do quê, sabe-se com segurança que a Lei codificada neste livro teve sua origem no Reino do Norte, precisamente nos santuários lá localizados. Por outro lado, parece ser sintomático que o núcleo deste livro Dt 12-26 —, descoberto no tem­po de Josias,([14]) tenha sido encontrado exatamente no Templo, então sujei­to a reformas.

Um passo importante é dado no tempo do exílio. No exílio babilóni­co (587-538 a.C.), como não existisse mais o Templo, os livros, sagrados desempenharam como que a função do santuário. Através de sua leitura e da instrução que se lhe seguia, dava-se de modo singular a união do povo com Deus, finalidade de todo o culto. A sinagoga, como casa de oração e de cultivo da Palavra de Deus, parece ter tido origem neste tempo. E não é sem surpresa que observamos que, uma vez reconstruído o Templo e restaurado o culto sacrificai em seu interior, na época pós-exílica, no entanto a institui­ção da sinagoga continuou. Por que a sinagoga não foi eliminada? Por que ela permaneceu como centro de culto da Palavra, uma vez que já fora res­taurado o culto sacrificai em Jerusalém? Também no Templo era anunciada e rezada pelo povo a Palavra. Mas será que não subsistiu a forte intuição de que a Palavra como tal tinha também uma função de culto, que ela era uma forma de expressão do culto, e que mesmo os que se encontrassem longe de Jerusalém, através dela entravam em comunhão com Deus? Neste ponto é interessante observar que a própria estrutura da sinagoga de certa forma repetia a do Templo: o lugar onde eram guardados os rolos sagrados era denominado "Santo" e, como o "Santo" do Templo de Jerusalém, era também fechado por um véu.

 

O culto sinagogal centrava-se na audição da Palavra de Deus e na res­posta do povo a esta Palavra e reproduzia, deste modo, o diálogo da Aliança do Sinai, por sua vez estreitamente ligada a um ato sacrifical.([15]) Após o início do culto com o Shema (Ouve) e orações, tinha lugar a leitura solene de um trecho da Lei e do respectivo texto profético. Seguia-se uma exor­tação dirigida ao povo, a resposta do povo em forma de preces, hinos, salmos responsoriais, e terminava-se o culto com a bênção de Nm 6,24-26. Este esquema pode ser observado ainda no tempo do Novo Testamento; cf. Lc 4,17; At 13,15.

Mais um testemunho acerca da relação entre palavra e culto no pos-exí­lio encontramos nos livros de Zacarias, capítulos 1 a 8, e Ageu. A atividade profética relatada nestes dois livros encontra-se diretamente relacionada com a reconstrução do Templo de Jerusalém.

 

1.2 O Novo Testamento

O Novo Testamento nos mostra com igual clareza a inter-relação entre palavra e culto. É notório que a redação dos escritos neo-testamentários está baseada em grande parte no Sitz im Leben cúltico. Se, por um lado, textos como Ef 5,19 e Cl 3,16 — que se referem a "salmos, hinos e cânticos espi­rituais" aludem diretamente ao ambiente cúltico, por outro, certas passa­gens podem ser provenientes da liturgia de então. Exemplos claros encontra­mos nos hinos de Fl 2,6-11 e 1Tm 3,16. Acresce a isto que a própria prega­ção, depois de codificada nos diversos escritos, encontrava no culto uma oca­sião propícia ao seu desenvolvimento; cf. At 20,7-12. Como o culto pôde influenciar a própria codificação dos textos, demonstra-o, por exemplo, uma variante de Mt 6,13, que acrescenta às palavras do "Pai nosso" a frase por nós ainda hoje aclamada na liturgia: "Porque a ti pertencem o Reino e o Poder e a Glória pelos séculos. Amém".([16])

 

Acrescente-se a este dado ter a liturgia judaica da Palavra configurado, em grande parte, a estrutura da liturgia cristã. A Igreja retomou sua estrutu­ra essencial. O Novo Testamento, porém, outorga-lhe uma significação nova e um novo desenvolvimento: o Senhor Ressuscitado é o centro. A liturgia tem agora como ponto de referência a obra salvífica realizada por e em Cris­to, celebrada em mistério, anamnesis (memória). A Palavra é então entendi­da à luz desta Revelação definitiva e a ela serve. O texto de Lc 24,13-35 — a aparição de Jesus aos discípulos a caminho para Emaús parece bem ilus­trar esta nova perspectiva. Temos aqui primeiramente o Senhor que interpre­ta as Escrituras v.27 e, em seguida, se faz reconhecer no partir o pão v.30s —. A Escritura recebe a partir de Cristo sua nova e definitiva inter­pretação e o Senhor se constitui, em seu próprio corpo, no Templo do Novo Testamento; cf. Jo 2,19-23.

 

Estas breves e seletivas considerações realçam o fato de que o culto se constituiu, tanto no Antigo Testamento como no tempo da Igreja, lugar privilegiado da Palavra.

 

2. Aprofundamento teológico

Perguntamo-nos aqui acerca do porquê desta aproximação entre pala­vra e liturgia.

Podemos partir de uma primeira constatação. A Sagrada Escritura nos mostra como Deus se revela, na história do povo eleito, através de aconteci­mentos e palavras intimamente conexos entre si (cf. Dei Verbum n92). Por acontecimento entendem-se as obras e as ações salvíficas, realizadas direta­mente por Deus ou por intermediários, dependentes imediatamente do agir humano ou manifestamente milagrosas. Por palavra entende-se aquela que o Senhor manifestou através de seus representantes autorizados. As obras de Deus confirmam suas palavras, como que representam as palavras. Pensemos, por exemplo, no relato sobre o êxodo. Deus se apresenta como o Deus San­to que ouve o povo, o protege e o guia. O feito salvífico realizado corrobora suas palavras; cf. Ex 3,7-10; c.12-14. Isto também se verifica no caso dos profetas: segundo a obra histórica deuteronomista, o critério para a distin­ção entre verdadeiro e falso profeta é exatamente a realização do que foi anunciado.([17])

Por outro lado, as palavras interpretam os acontecimentos, dão o seu significado dentro do plano de Deus, retirando a ambigüidade que neles possa haver. Retomemos nosso exemplo do êxodo: só podemos conhecer seu pleno e real significado se atentamos à sua finalidade tal qual é aponta­da pelo texto bíblico. O povo é feito livre para servir o Senhor, para entrar em comunhão com o seu Deus. Deus o retira do Egito "para junto de mim".([18])

O SI 33,4 ilustra bem estes aspectos ao colocar em paralelo a palavra e o agir de Deus:

"A palavra de Deus é reta, e a sua obra toda é verdade. "

Podemos assim melhor considerar a relevância da palavra e dos eventos na economia salvífica de Deus. A Revelação possui uma estrutura histórica e sacramental e esta sua última dimensão provém exatamente do fato da inter-relaçao entre eventos e palavra.

Mas que é esta Palavra de Deus que, estreitamente ligada aos feitos salvíficos, os eleva a um nível sacramental? Detenhamo-nos por alguns mo­mentos sobre este ponto.

a) A Palavra

O termo hebraico que aqui está em jogo é o vocábulo da bar. Sua raiz possui basicamente dois significados, um dos quais, que nos interessa no mo­mento, inclui, a um tempo, o sentido de "palavra" e de "coisa".[19] Dabar é primeiramente aquilo que é falado, a palavra. Trata-se, porém, de palavra não somente no seu aspecto lingüístico, mas ainda do próprio conteúdo do que é anunciado. A partir daí se compreende por que dabar pode signi­ficar também "coisa". Mas, no uso bíblico, "coisa" diz respeito a uma ocasião, um fato, um acontecimento concreto. É assim que podemos ler em Gn 15,1: "Depois destas coisas (isto é, acontecimentos, debarim) a palavra de YHWH foi dirigida a Abrão".([20]) Corrobora-se dessa maneira a íntima rela­ção entre gesta e verba na economia da Revelação.

Isto por sua vez tem seu fundamento, segundo o meio de expressão humana, no fato de que, para a cultura do antigo Israel, como para os povos do Oriente Próximo em geral, a palavra é não somente meio de comunicação de pensamentos e sentimentos de alguém, mas, na base desta realidade, ela comunica a própria pessoa que se expressa. A palavra não se reduz a uma manifestação do pensar ou sentir; ela possui uma existência concreta e operativa, dependente daquele que a pronuncia. E por isso traz em si a força da pessoa que a pronunciou. A palavra é um ser real. Como o hálito que, ao se pronunciar a palavra, juntamente com o som sai da boca de quem fala, assim a palavra é um ser concreto que expressa e traz à realidade a força própria do locutor. "Hálito", em hebraico, se diz ruah e, referido a Deus, significa a sua força que cria, dá e sustenta a vida, impele a agir, realiza um evento (1). Este princípio explica a ocorrência do paralelismo ruah dabar. A Palavra de Deus aparece assim como uma estrutura paralela a ruah Elohim, como o demonstra, entre outros textos, o SI 33,6:

"Por sua palavra (dabar) os céus foram feitos e pelo sopro (ruah) de sua boca todo o seu exército".

Como o ruah Elohim, a Palavra de Deus (dabar Elohim/YHWH) é também poderosa, eficaz; não só anuncia, mas realiza o que significa.(2)  Pois, se o poder da palavra depende de quem fala, do "sopro" de quem fala, a Palavra de Deus é a atualização do seu poder eficaz e salvador; cf. Is 55,10s. É portanto portadora de vida (cf. SI 119, 25.49s.107.154) e continua a agir mesmo após ser pronunciada.(3)

No Novo Testamento temos a realização plena desta concepção quan­do a Palavra, o Verbo de Deus, se torna o evento Jesus: "O Verbo se fez car­ne e habitou entre nós" (Jo 1,14a). Jesus, o Verbo de Deus encarnado, é, assim, a plenitude da revelação. Sua atuação sintetiza de modo máximo e su­blime toda a realidade dos conceitos de Palavra e Acontecimento. Jesus é o acontecimento salvífico definitivo e realiza a salvação através de suas obras e palavras, que não são senão uma única Obra e Palavra, sua Cruz e Ressurrei­ção. O Novo Testamento, de diversos modos, nos põe diante dos olhos que a palavra de Jesus tem prerrogativas divinas: é poderosa, possui autoridade, é eficaz, é portadora de vida.(4) A palavra de Jesus é a palavra dp Pai,(5) pois Ele mesmo é o Verbo do Pai. E por isto o seu culto ao Pai sua obediência, sua entrega de amor e confiança às mãos do Pai, que culmina na Cruz —, é também o único e irrevogável culto, o culto definitivo, escatológico.(6)

 

1  Cf. Gn 2,7; 6,17; 7,22; S1104,29; 146,4; Ez 37,10.15; Jo 34,14s; Jr 10,14; Ecl 3,19.

2  Cf. Os 6,5; Jr 5,14; 23,19; Is 49,2.

3  Tomemos alguns exemplos: Jeremias (4,5-31; 8,10-12; 13,15-17.18-19; 20,4-6 et passimj anuncia a destruição, que posteriormente ocorrerá; tam­bém em Gn 27J35ss:a bênção que Isaac dá a Jacó, não pode mais ser retirada.

4  Cf. Mt 7,29; Mc 1,22; Lc 4,32; Mt 8,8.16; Mc 1,25; 2,10; 4,39; Lc 7,7.14; Jo 1,4.

5  Jo 14,24; 1,18;3,11.34;82628.38; 12,49-50; 17,8.14.

 

6 Cf. Hb 9,11s; 7,26s et passim.

 

b) O Culto

Passemos agora à análise do segundo pólo da relação, o culto. A base do culto hebraico e, segundo sua proporção própria, do culto do Novo Testamento - é a celebração dos feitos salvíficos de Deus em favor do Povo eleito, feitos estes que encontram seu significado pelo entrelaçamento com a Palavra de YHWH. Próprio desta liturgia e fator que a distingue dos cultos das religiões não reveladas, é o fato de que ela não é primeiramente expres­são do homem para com Deus ou da procura humana de comunhão com a Divindade. Mas é primeira e fundamentalmente sinal da relação que Deus quer estabelecer com o homem. E isto exatamente por causa da Palavra. Pois o  culto hebraico tem sua razão de ser na convocação por Deus. Deus chama, convoca seu povo para se reunir em Assembléia de culto qahal, ekklesía. Esta assembléia não pode ser convocada por uma iniciativa popular, mas somente pelo chamado de Deus. Assim o povo convocado ao redor do Sinai para receber a Lei e celebrar a Aliança (cf. Ex 24,1-8), se reúne na autorida­de de YHWH. Quando a aliança parece destruída e o povo disperso, após o exílio, Esdras, em nome de Deus, convoca um novo qahal e é restaurado o povo, sempre por iniciativa de Deus; cf. Esd 8-10. No final do Antigo Testa­mento, há a grande esperança de que Deus queira convocar mais uma vez o seu povo, queira ratificar de novo a aliança, estabelecer sua Lei. Espera-se um grande qahal renovador e restaurador. Jesus, após o trabalho preparató­rio de João Batista, convoca o qahal dos tempos definitivos. Mas Ele o faz na nova .Lei do amor ao Pai e, no Pai, a todos os irmãos. Ele o faz na alian­ça realizada em seu próprio Corpo e Sangue, em sua morte de cruz e ressur­reição gloriosa; cf. 1Cor 11,25. E dá aos seus discípulos o seu Corpo, para integrá-los em seu ser. Eis o novo qahal!

 

O culto do Novo Testamento, é então o próprio Senhor que o realiza: Ele é o Templo, o Sacrifício e o Sacerdote único([21])  e Ele convoca e realiza a reunião dos que crêem são agora assembléia santa em torno dele e tor­nam-se participantes de seu ser Templo, Sacerdote e Sacrifício.([22]) Uma vez mais podemos perceber a interrelação entre palavra e liturgia, pois aquele que é o Logos de Deus é também o Culto do Novo Testamento. A vida de Jesus, este evento, é configuração do Logos divino. O Logos como aconte­cimento salvífico é constitutivo para o culto, que por sua vez é o próprio Verbo-Senhor em atitude de ofertório, ao Pai, por nós.

 

3. Palavra e Culto, diferentes formas de presença de uma única realidade

A partir destas considerações, vemos que a liturgia não apenas utiliza a Sagrada Escritura no seu desenrolar, mas a Sagrada Escritura é elemento essencial da liturgia. Esta como que brota do fato da Palavra de Deus. Como a palavra dabar —, pelo seu próprio conceito exige a realidade, a coisa, o evento, assim também a Escritura na ação cultual.

Tematizemos este aspecto, tendo em vista especialmente a liturgia cristã. A obra salvífica escatológica de Deus em Cristo Jesus constitui o cerne de toda a liturgia. E esta obra salvífica se encontra anunciada de modo privilegiado na Bíblia, escrita por sua vez, em grande parte, diretamente em vista deste culto. A Escritura é o anúncio da obra salvífica realizada em Cristo, que convoca a todos a dela participarem e a usufruírem'de seus efei­tos. A Liturgia realiza "in mysterio", no nível ritual e memorial, esta mesma obra salvífica anunciada na Escritura.

É nesse sentido que toda a liturgia exige a Escritura; esta é a Revelação proclamada aos que crêem, e por isso é da liturgia um elemento essencial. A liturgia, por sua vez, sendo a realização memorial, a atualização do Mistério Pascal, centro e plenitude do plano salvífico de Deus, tem em si o Cristo Senhor presente de modo real e vivo. Ele que é a Palavra encarnada. E está presente .sob diferentes formas, também e de modo singular na Palavra anunciada; cf. Sacrosanctum Concilium 7. Desse modo, no culto a Palavra da Sagrada Escritura se atualiza, ou seja, se faz ato, operando de maneira especial e única diferente de qualquer leitura particular, que possui nesse sentido um outro estatuto o poder e a força salvfficos do Senhor, que é sua fonte.

Em outras palavras, a Sagrada Escritura proclama o evento salvífico; a Liturgia o realiza "in mysterio", concretiza em forma memorial o anúncio da Escritura. A Sagrada Escritura anuncia o Cristo Senhor; a Liturgia realiza e comunica de uma forma nova a presença agraciante do Senhor Ressusci­tado. A Escritura se completa na Liturgia e esta, por sua vez, leva a um conhecimento experimental, existencial, da Revelação. É por isso, também sob este título, plena de sentido a aclamação da assembléia no cerne da própria liturgia eucarística, imediatamente após as palavras da instituição:

"Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição."

O que a Palavra diz, se realiza naquele ato litúrgico que se está desen­rolando.

A Liturgia é, assim, gesto e palavra em íntima relação. O culto se torna, portanto, a realização plena da Palavra no seu sentido, a ela inerente, de um ser concreto, de um acontecimento. É, por assim dizer, a "corporifi­cação" da Palavra, a forma ritual da Palavra. Pois é atualização da presença salvadora da Palavra de Deus Encarnada, tornada Templo e Culto únicos, o Senhor Ressuscitado.

 

Concluindo

Neste breve estudo, pudemos constatar a íntima relação existente entre Palavra ou Escritura Sagrada e Culto, no contexto da Revelação judaico-cristã. Vimos, por um lado, que muitos textos que hoje temos na Sagrada Escritura, apresentam traços cultuais. Eles estão presentes não somente em grande parte dos Salmos, mas ainda em escritos proféticos e de índole histórica, sapiencial ou didática, em textos do Antigo como do Novo Testamento.

Por outro lado, pudemos ver que a Lei e outros textos do Antigo Testamento eram lidos de modo solene na Liturgia. Muitos foram codifi­cados já em função de tal finalidade, de modo que o culto marcou sua influência não só na redação, mas também no próprio conteúdo da Sagrada Escritura. A isto acrescente-se o papel decisivo que desempenhou o culto judaico e cristão na formação do cânon das Sagradas Escrituras exatamente porque, na prática, reconhecer um escrito como aprovado para leitura litúrgica significava reconhecer o seu caráter sagrado ou, como diríamos nós hoje, a sua inspiração divina. Em contrapartida, também os textos bíblicos influenciaram o culto: as orações e os hinos a serem pronunciados possuíam uma base bíblica e a própria estrutura litúrgica era determinada em parte pela palavra as leituras e sua explicação.

Consideramos em seguida os aspectos teológicos que fundamentavam este fato. Esta relação Escritura-Culto tem suas raízes no modo escolhido por Deus para realizar a sua Revelação: obras e palavras em íntima conexão. Vimos o sentido da Palavra já para o povo hebreu sentido este que será o pano de fundo para entendermos a Palavra no Novo Testamento e o valor e significado do culto.

 

Num terceiro momento, aludimos aos pontos principais do relaciona­mento das duas realidades em questão, e pudemos constatar como ele é sin­tetizado no seu mais alto grau na Pessoa e no Mistério de Jesus Cristo.

Jesus, por ser a Palavra que se encarna, é a própria realidade da salva­ção; cf. Ef 1,9; 3,9; Cl 1,27; 1Tm 3,16. Ele é a Palavra visível, Palavra que se torna sinal, sacramento. É a partir do Senhor, Verbo e Templo, Palavra e Culto, que temos a chave para a compreensão da Liturgia do Novo Testa­mento. Ela não se constitui primeiramente num ato do ser humano que se dirige a Deus em busca de comunhão. Antes, possui um ponto de partida totalmente distinto. Ela é o ato divino de salvação em forma ritual. E, com isto, é capaz de elevar o homem a filho de Deus e este, em Cristo, pode então oferecer-se em culto ao Pai; cf. Rm 12,1. Introduzido no mistério de Cristo, nele pode oferecer a Deus a verdadeira adoração; cf. Jo 4,23-25. Assumido em amor pelo Senhor Ressuscitado, é feito, com Cristo, hóstia, templo, louvor, adoração.

A Palavra coloca-se dentro desta dinâmica dialógica pertencente a toda a Liturgia. Deus, como Esposo, dirige ao homem, em Cristo, sua Pa­lavra. Esta Palavra, que é Amor e Salvação, realiza sua obra: gera amor, torna-nos filhos; cf. Rm 8,25s. A assembléia litúrgica, como Esposa, vol­ta-se a seu Senhor em amor e, em Cristo, dá ao Pai a única resposta: unin­do-se ao Cristo, Logos do Pai, torna-se com Ele um único pneuma (cf. 1Cor 6,17), Ele que é o único a oferecer a Deus o supremo culto de adoração (cf. 1Cor 15,28).



[1] Este artigo é da autoria da Profa Maria de Lourdes Corrêa Lima, Mestra em Teologia pela PUC-RJ. Corresponde ao texto de uma conferência proferida em 17/10/90 pela professora na V Semana de Liturgia do Seminário Arqui­diocesano de São José, Rio de Janeiro. — Agradecemos cordialmente à professora a sua valiosa colaboração, que se distingue pela profundidade e luci­dez das ponderações.

[2] Sobre o tema da importância e do papel da Escritura na Liturgia, cf. tam­bém Sacrosanctum Concilium 35; 48; 91 e Dei Verbum 21.

3  Sao tradições que surgem, por exemplo, no ambiente familiar (cf. Dt 4,9s; 6,2Gs; Ex 13,8.14), nas situações cotidianas de aflição ou alegria (cf. SI 6; 7; 9; 10; 25; 30; 32), na corte real (cf. SI 2; 18; 20; 21; 45).

[4] Cf. T. BALLARINI e V. RE ALI, A Poética Hebraica e os Salmos, Petró­polis, 1985, p. 46.

[5] Cf., por exemplo. S1104-105; 106; 111-112; 113; 115-117; 135; 146-150. Isto, por sua vez, é corroborado por diversos textos que se referem a salmos entoados no culto do Templo. Cf. 1Cr 23,4s.30; 2Cr 7,6; 29J30; Esd 3,10; Ne 12,24.45; Eclo 47,9-12.

[6] Por exemplo, SI 44; 58; 60; 66; 74; 79; 80; 83; 85; 89; 90; 123; Dt 9,18; 1Rs 8,33-53; 2Cr 20,9; Est 7,21s; Is 59,9-15a; 63,7-64,11; Jr 14,2-9.10-22; Lm 5; Os 7,14; Jl 1;Jn 3J9.

[7] Cf. também SI 24J3-6; Mq 6,6s; Ez 18,5-17; tal vez também SI 100; 118,19s; 134; Is 262s; Jr 7,10.

[8] Cf. SI 46,9; 66,5; Mq 42; Jr 31,6; 51,10; Is 33,20.

[9] Cf. Ex 15,1b-18;Dt 31,30-32.43

[10] Sitz im Leben = lugar na vida, ambientação.

[11] Cf. Ex 19-24; cf. 24,4; Dt 5- / /.

[12] Cf. Ex 25-31: Moisés transmite ao povo a regulamentação acerca do culto.

[13] Cf. 2Rs 18,1-6; 2Cr 29,31. O rei Ezequias governou entre 716 e 687 aC. Outra datação o situa entre 727 e 698 aC.

[14] Precisamente em 622 Cf. 2Rs 22,1-23,30.

[15] Cf. Ex 24,3-8. Em Ne 8 se espelha, de modo esquemático, o desenrolar do culto.

[16] Hoti sou estin he bati leia kai he dynamis kai he doxa eis tous aionas amen.

[17] Cf. Dt 18,21-22; IRs 22¿8; Jr28,9;Ez 33,3.

[18] Ex 19,4; cf. 7,16.26; 8,4.16.23; 9,1.13; 10,3.24.

[19] O outro significado é "estar atrás, volver as costas": E. JENNI e C. WESTERMANN, Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento 7, Madrid, 1978, col. 614.

[20] Cf. também 1Sm 4,16; 10,16; 21,9; 2Sm 1,4; 1Rs 12,30; Rt 3,18; Est 1,13; 2,22; 8,5; Esd 10,9; Gn 22,1.20 et passim.

[21] Cf., por exemplo, Jo 2,19-23; Hb 9,11-14.

[22] Cf. Mc 3,13; Rm 12,1; 1Cor 10,16; 12,12; Cl 1,24.

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