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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 381 – fevereiro 1994

Estupro da Mente:

 

LAVAGEM DE CRÂNIO E SEITAS

 

Em síntese: Os Novos Movimentos Religiosos, que invadem a sociedade no Brasil de modo especial, recorrem a táticas que se assemelham à lavagem de crânio (cerebral), praticada pelos agentes de ideologias totalitárias. O presente artigo descreve essas táticas e mostra como ocorrem, por exemplo, entre os Meninos de Deus e em denominações do protestantismo brasileiro.

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Muitos observadores do fenômeno "Novos Movimentos Religiosos" julgam que em alguns destes existe o que se chama "lavagem de crânio" ou "programação" dos novos adeptos. Com efeito; tal seria a pressão exercida pelos chefes e os ambientes respectivos que muitas pessoas — especialmente as mais jovens — acabam sendo condicionadas para dizer o que nunca teriam dito ou fazer o que nunca quiseram fazer. Estas observações parecem verídicas, embora não se apliquem a todo e qualquer dos Novos Movimentos Religiosos. — Passamos a descrever em que consiste a lavagem de crânio; após o quê compará-la-emos ao que ocorre em algumas novas denominações religiosas.

 

 

1. LAVAGEM DE CRÂNIO: COMO SE PROCESSA?

A base de tal procedimento são as experiências realizadas por Ivan P. Pavlov, famoso psicólogo russo.

 

1.1. As descobertas de Pavlov

 

Ivan Pavlov foi condecorado com o Prêmio Nobel de Fisiologia em 1904, dadas as suas valiosas pesquisas no campo da Psicologia e da Fisiologia.

Verificou que o comportamento humano consta, muitas vezes, de reflexos, que respondem a estímulos ou fatores condicionantes. As experiências mais marcantes foram efetuadas com animais irracionais; seus resultados aplicam-se também à conduta humana. Assim Pavlov verificou, em avaliações precisas, que a boca de um cão se enchia de saliva quando se lhe oferecia alimento; o alimento era o estímulo, a insalivação era o reflexo condicionado por esse estímulo. Verificou também o seguinte:

Na hora de dar a ração a um cão, toque-se uma campainha; a boca do cão se enche de saliva, como é de esperar; após uma série de operações deste tipo, o pesquisador toca a campainha, mas não apresenta a ração; não obstante, grande volume de saliva aflora à boca do animal, não por causa do alimento, mas por causa do sinal condicionante ou por causa do toque de campainha; a insalivação é despropositada por faltar o alimento, mas é uma resposta cega ao fator condicionante.

Pavlov descobriu também que é possível suscitar a inibição a um reflexo natural. O animal podia ser desorientado por uma série de alarmes contraditórios: campainha e ração ao mesmo tempo ou somente a campainha ou somente a ração. Sob a tensão assim gerada, o cão acabava perdendo o interesse pelos estímulos e pelo próprio alimento.

 

1.2. A aplicação à pessoa humana

 

Os regimes totalitários do século XX verificaram que podiam também condicionar o ser humano, aplicando-lhe estímulos sabiamente concebidos. A este processo Eduardo Hunter deu o nome de "lavagem de crânio" ou "do cérebro"; o próprio E. Hunter denunciou tal procedimento perante uma Comissão Parlamentar norte-americana nos seguintes termos:

 

"Tenho acompanhado o que ocorre sob o comunismo em outras partes do mundo, e agora vejo acontecer exatamente o mesmo aqui na América...

 

A guerra mudou de aspecto. Os comunistas descobriram que um homem morto a tiros é inútil; não extrai carvão das minas. Uma cidade destruída é inútil; suas fábricas não produzem tecidos.

O objetivo da guerra comunista é capturar intatas a mente e as propriedades de um povo, de forma a poder explorá-las" (citação extraída da p. 81 do artigo citado à p. 79 deste fascículo).

A lavagem de cérebro, também dita "estupro da mente" ou "reeducação ideológica" se processa em três etapas:

1) Colapso forçado ou "descondicionamento": trata-se de romper os laços do indivíduo com o seu passado ou de apagar tudo o que o possa prender ao seu berço e às suas origens;

2)   Submissão, identificação com o inimigo: depois do colapso, estimula-se a simpatia da vítima para com o inimigo. Este lhe aparece como o seu grande benfeitor e libertador, que a emancipa de um passado tenebroso e lhe oferece a oportunidade de levar uma vida nova e autêntica. A vítima passa a estimar o seu carrasco e dispõe-se a adotar o modo de pensar e agir do mesmo; torna-se um aparelho pronto para funcionar segundo os desejos do seu manipulador;

3)   Recondicionamento: explorando a situação, o inimigo "reconstrói" a mente da vítima segundo a ideologia que ele professa. O homem assim "reeducado" ou "robotizado" se torna incapaz de distinguir seu modo de pensar original das concepções que lhe são impostas.

A domesticação assim empreendida utiliza os estímulos positivos (recompensas) e negativos (punições), que correspondem aos afagos e torrões de açúcar ou à chibata e outros castigos usuais no adestramento de animais.

Entre os estímulos positivos, enumeram-se pequenas regalias no tratamento carcerário, refeições mais substanciosas... Entre as punições, contam-se a privação de sono, de alimentos, de agasalhos, o excesso de trabalho, os empecilhos à satisfação das necessidades mais primárias... Tais privações suscitam nos prisioneiros a imaginação de banquetes, pratos suculentos e coisas semelhantes.

 

1.3. Recursos especiais

 

A) A lavagem de crânio explora certos instintos espontâneos do psiquismo humano, canalizando-os na direção do objeto visado. Assim:

a) O instinto de conservação. A tendência inata do indivíduo a proteger sua vida e defender-se de agressões pode levá-lo a submeter-se docilmente a pressões hediondas e a afirmar o que a vítima nunca teria afirmado por si mesma.

 

A fim de conservar a sua própria existência, a vítima pode ceder a táticas totalmente estranhas à sua educação de berço: a delação e a denúncia dos amigos, a traição em relação aos familiares e conhecidos, a espionagem, a crítica de valores que lhe eram caros e até mesmo a crítica de si mesma. Os filhos entregam os pais aos inimigos, os colegas entregam os colegas...

 

b) O instinto gregário. O senso social do ser humano é um valor, já que ninguém se realiza senão na sociedade. Todavia este senso pode ser distorcido na direção da gregariedade, ou seja, de seguir o grupo incondicionalmente ou de agrupar-se de maneira cega, para não parecer diferente e não sofrer a zombaria por parte da coletividade. Os agentes da lavagem de crânio sabem despertar o desejo mórbido de conformar-se, de tornar-se aceito, mesmo que o grupo seja opressor. Para não sofrer isolamento, o indivíduo pode conceber até mesmo afeto pelo seu "doutrinador ou verdugo"

c)   Instinto de predomínio. Há no ser humano uma tendência inata a dominar e comandar em posições de prestígio. Ora essa tendência também é explorada pelos agentes da lavagem cerebral, que sabem desenvolvê-la como uma forma de condicionamento.

d)   Conflitos emocionais. O processo de "reeducação" também excita os brios do "reeducando", convencendo-o de que cometeu culpas graves... especialmente contra a sua família, o seu país ou contra os valores que ele professava. Esta convicção leva a vítima a aviltar-se, a castigar-se e a aceitar a condenação; aqueles que a condenam, vêm a ser os seus "verdadeiros amigos e mestres".

B) Além de explorar instintos naturais da pessoa humana, os agentes da lavagem de crânio recorrem a táticas que amedrontam e, a seu modo, condicionam a vítima:

a)   Isolamento. A solidão é extremamente nociva ao ser humano (a menos que preenchida por altos valores místicos ou por íntima união com Deus). Ora, para dominar suas vítimas, os "doutrinadores" podem aplicar a tática do isolamento: o indivíduo é privado de qualquer contato amigo; é obrigado a ouvir, ler e acompanhar o que lhe é imposto numa repetição propositadamente monótona e enervante. Isto desgasta o indivíduo; apaga-lhe o senso crítico e a resistência de ânimo; corta-lhe os vínculos com a existência anterior.

b)   Insegurança e terror. Um ambiente de medo e terror pode revirar a pessoa. Por isto a lavagem de crânio incentiva suas vítimas ao controle e à acusação mútua; joga pais contra filhos, e vice-versa; entre os amigos a desconfiança e o temor se instauram. Deixa de haver amizade, e existe malquerença.

O maquinismo do terror inventa acusações absurdas e pratica "expurgos colossais", que intimidam as vítimas. Estas se põem a pensar: "Se tão grave culpa ocorreu na vida de tal ou tal pessoa de destaque, como não terá ocorrido também na minha!". Em conseqüência, a passividade e o conformismo tomam conta dos "reeducandos"

c) Distorções semânticas. A tática da lavagem cerebral emprega também certos vocábulos-chaves, que impressionam profundamente os ouvintes: assim "patriotismo, nacionalismo, autodeterminação, democracia, imperialismo, soberania..." são palavras às quais se associam reminiscências, fatos e situações e que provocam reações reflexas; funcionam como estímulos condicionantes. O sentido de tais palavras é deturpado ou interpretado de tal modo que o simples enunciado de tais vocábulos desencadeia a reação desejada pelos reeducadores... O indivíduo passa então a agir segundo os interesses dos seus "domesticadores".

Os dados aqui apresentados relativos à lavagem cerebral foram extraídos do artigo "Violação das Mentes", do Tenente-coronel Alberto de Assumpção Cardoso, na "Revista Militar Brasileira", janeiro a julho de 1963, pp. 79-90.

 

2. O PROCEDIMENTO DE ALGUMAS DENOMINAÇÕES RELIGIOSAS

 

O pesquisador italiano Michele C. dei Re realizou longos e aprofundados estudos dos Novos Movimentos Religiosos, cujos resultados foram publicados na importante obra "Nuovi Idoli. Nuovi Dei. Culti e Sette Emergenti di tutto il Mondo. Guru, Santoni e Manipolatori di Anime" (Novos ídolos, Novos Deuses. Cultos e Seitas Emergentes do mundo inteiro. Gurus, Santarrões e Manipuladores de Almas), de Gremese Editores, Roma 1988.

 

Neste livro o autor percorre os principais Movimentos Religiosos de nossos tempos, pondo em evidência as suas peculiaridades. Uma nota freqüente desse percurso é o uso de táticas de coação (sob rótulos piedosos) para fazer adeptos. A sociedade de hoje talvez não tenha noção exata de quanto esse procedimento está em voga. À guisa de amostra, transcrevemos, em tradução brasileira, o que é dito a respeito dos Meninos de Deus (Children of God) às pp. 103-105:

 

"Prática Religiosa: Palavras e Fatos

 

A característica preocupante dos cultos emergentes, a que os torna novos em relação a tantos Movimentos de Salvação que houve através dos séculos... é a sua capacidade de suscitar reações ou reflexos através de manipulação ou programação, que é, sob certos aspectos, a mesma que se utiliza para domesticar um animal ou para inserir um programa na memória de um computador.

Os termos em uso — programar e desprogramar, to program e to de-program — já nos falam daquela triste realidade antropológica que é a possibilidade de manobrar mecanicamente o ser humano... Aplicar a programação biológica à psique humana é o mal que se imputa aos cultos emergentes destruidores; já com o sugar buzzing (fortes doses de açúcar a saturar o sangue) atenuam a resistência à manipulação; depois aplicam, por exemplo, a nicotina e, a seguir...

 

É verdade que alguns sociólogos chamam a atenção para os exageros, recordando que a desconfiança para com os novos cultos tem muitas analogias com a desconfiança frente aos Mórmons do século passado (falava-se dos 'crimes dos Mórmons') ou mesmo em relação ao Exército da Salvação. 'O Exército da Salvação repete sempre os mesmos brados, as mesmas frases, os mesmos slogans; tem como objetivo a irritação, o enlouquecimento, a alucinação religiosa; quer que, tornados inconscientes da sua conduta, os fiéis presentes às sessões do Culto do Exército assumam atitudes teatrais e, subindo sobre o palco, confessem os seus pecados e os dos seus familiares. O Exército procura recrutar não só os adultos, mas dirige-se de preferência aos moços...; quando encontra algum destes dotado de sistema nervoso menos sólido e de raciocínio menos agudo, realiza os seus melhores sucessos' (Jean-François Mayer).

 

Estamos de acordo em reconhecer que todo movimento religioso suscita uma oposição, que tende a exagerar e distorcer os desvios da seita, dando ocasião a condenações e represálias. Mas não esqueçamos que aquilo que é um culto efervescente e destrutivo em uma fase sua, pode, com o tempo, tornar-se uma corrente tranqüila e de bom senso. Ora os Mórmons e o Exército da Salvação (este em menor grau) tiveram tal evolução...

A programação do indivíduo incutida por esses grupos consiste em enviar sugestões à mente dos seus adeptos de maneira constante, até aniquilar a capacidade de pensar dessas pessoas; apagam em suas vítimas a faculdade de discernir, tornam-lhes impossível as livres opções e lhes ensinam a auto-hipnose, a fim de que não cesse o estado de transe. Os agentes das pseudo-religiões são acusados de empregar um excessivo espírito de amizade e confiança para seduzir a juventude,... utilizar parábolas e metáforas hipnotizadoras a ponto de provocar o horrível sintoma de uma felicidade meramente artificial e sobreposta a uma realidade totalmente diversa.

 

Reforma do Pensar

 

As técnicas desses grupos religiosos são semelhantes às da Juventude de Hitler e às dos chineses dados à 'reeducação'. O processo de reforma do pensamento pode-se dividir em quatro fases. A primeira consiste em ataques emotivos: 'A experiência começa com um pesadelo confuso de interrogatórios prolongados, acusações várias, privação de sono, pancadas, com denúncias feitas por companheiros de cela já reformados e pressões físicas com algemas e correntes. Estes ataques iniciais tendem a extinguir a identidade da pessoa, a suscitar em seu íntimo um senso veemente de culpa e a pô-la em conflito com o ambiente que a cerca e a considera um réprobo.

A segunda fase é de indulgência: o tratamento deixa de ser áspero para tornar-se gentil e mostrar que a sociedade pode aceitar uma cooperação das vítimas. Assim na terceira fase consegue-se a confissão. As acusações constantes, as exigências de expiação, de adaptação ao grupo provocam o desejo de confissão... Por último, vem a quarta fase: reeducação através de uma psicoterapia de grupo, que utiliza a crítica, a autocrítica, o exame de maus pensamentos e, por conseguinte, o reconhecimento de que a vida anterior foi cheia de culpas... Impõe-se então, mediante repetição contínua, a convicção de que as novas doutrinas são autênticas... O sujeito assim... adquire uma nova visão do mundo e um novo relacionamento com os seus semelhantes.

 

A Gaiola para os Pecadores. Os Meninos de Deus

 

No tocante aos Meninos de Deus (Children of God), as acusações versam sobre aspectos impressionantes de técnicas psicológicas que têm requintes nunca havidos na história anterior.

Durante a primeira fase de aprendizado, a pessoa, privada de toda influência proveniente de fora, formula a promessa de entrega total ao grupo e ouve a ameaça de que será castigada por Deus se deixar a seita. Um ex-Menino de Deus conta que, durante o aprendizado ou noviciado, uma das principais técnicas aplicadas pelos professores era a privação de sono. Eram obrigados a assistir a sessões que duravam até as quatro ou cinco horas da manhã; isto ocorria durante noites consecutivas, até caírem de cansaço, ao passo que os conferencistas se revezavam constantemente.

Na segunda fase de doutrinação, impunham-nos a memorização intensiva de versículos da Bíblia isolados do seu contexto.

Em algumas comunidades não somente não eram admitidos visitantes, mas, além disto, os neófitos não eram deixados a sós. Como se compreende, assim se obtém uma obediência cega em relação aos chefes... Há também um sistema deletério de sanções; recusar a obediência implica o castigo do cárcere solitário. A punição mais drástica é a excomunhão, ou seja, a expulsão com maldições, bastante temida pelos adeptos, que se sentem invadidos pelo pavor do sobrenatural.

Um dos primeiros fatos que provocaram alarme nos Estados Unidos, foi o caso da Sta. Blackburn, que foi membro da Corrente dos Meninos de Deus durante oito meses na década de 1970. Com vinte e dois anos de idade, essa estudante da Universidade do Arizona foi procurada por dois membros da Organização dos Meninos de Deus e convidada para visitar a sua comunidade. Pouco depois, ela telefonou ao seu pai a partir de Tuxon, dizendo que estava abandonando os estudos. O Dr. Blackburn respeitou e aceitou a decisão, de sua filha, de consagrar-se ao próximo, mas ficou alarmado pela tão brusca mudança de vida. Tomou então o avião para Tuxon, a fim de se informar sobre os acontecimentos, mas não conseguiu encontrar a filha. Nos sete meses seguintes, o Dr. Blackburn enviou repetidamente quantias de dinheiro à sua filha. Tais quantias eram passadas diretamente para a conta dos Meninos de Deus. Quando a jovem não quis mais pedir dinheiro aos seus pais, os Meninos de Deus decidiram mandá-la embora. A moça não aceitou a ordem de matar seus genitores, nem a de se casar com o homem que Ber, o profeta do culto, lhe havia destinado. Foi transferida para a comunidade de Filadélfia, onde ficou reclusa, atrás de grades, por ter recusado as ordens recebidas. Então a moça foi tida como 'criatura de Satanás' e submetida, na prisão, a ouvir fitas gravadas cujos dizeres tendiam a esgotar a sua resistência. Para deixar o cárcere, a jovem foi condenada a tomar uma ducha e a realizar atos imorais na presença de homens da comunidade; caso não o fizesse, sofreria o inferno e a maldição. A jovem recusou isso tudo e acabou sendo expulsa da comunidade de Filadélfia. Quando finalmente o pai chegou para levá-la, a moça recusou-se a deixar a colônia. Somente metida numa camisa de força foi possível colocá-la dentro de um carro. Foi necessário guardá-la sob vigilância durante três meses.

 

O comportamento da jovem Blackburn é característico; revela o seu grau de dependência. Ela passou a viver com medo de ser condenada; cuspia no rosto do pai, que ela odiava, a tal ponto que chamou uma corretora de imóveis para tentar vender a casa de seu pai e enviar dinheiro para os Meninos de Deus. O Dr. Blackburn finalmente submeteu a sua filha a uma desprogramação e obteve a sua cura.

 

O sistema de sanções dos Meninos de Deus é bem planejado: prevê uma lista de punições correspondentes às acusações. 'O juízo de Deus, que consiste na morte', diz Moisés David, o fundador da corrente, 'fere aqueles que recusam ou renegam o contrato de revolução ou que abandonam a cruzada'. Como se compreende, para manter a eficácia dessa ameaça, há constantes pressões no seio da comunidade, graças a uma sábia dosagem de isolamento, cansaço, tensões e ocupações extenuantes. 'Disseram-me que eu morreria por ter abandonado Jesus' ... 'Disseram-me que conheciam rapazes que haviam enlouquecido após ter deixado os Meninos de Deus', e assim por diante. Moisés David escreve:

'Os revolucionários da disciplina de Jesus devem absoluta obediência àqueles que têm o controle sobre os mais jovens. A obediência há de ser imediata e sem discussão, para o bem das almas e daqueles que hão de se salvar' ".

A obra de Michele C. del Re apresenta numerosos outros casos de lavagem de crânio e dominação exercidos nos Novos Movimentos Religiosos. Voltaremos a explorar o conteúdo de tal livro. Por ora interessa registrar as características atribuídas a muitos dos novos grupos e cultos religiosos de nossos dias, entre os quais se destacam os Meninos de Deus; para estes, aliás, a libertinagem sexual vem a ser uma das expressões de seu entusiasmo religioso.

 

3. O PROTESTANTISMO NO BRASIL

 

Distingue-se, na multidão de denominações protestantes, o conjunto das Igrejas ditas "históricas", fundadas no século XVI (luteranismo, calvinismo, anglicanismo...) e o grande número de correntes oriundas nos séculos XIX e XX (Mórmons, Testemunhas de Jeová, os Pentecostais diversos...). Aquelas são mais tranqüilas, ao passo que estas são fortemente proselitistas e mesmo fanáticas. No Brasil, porém, observa-se que o protestantismo em geral, na medida em que se vai tornando popular, se torna cada vez mais agressivo em relação à Igreja Católica. Existe até um plano de estratégias dito "Amanhecer" para tornar a América Latina um continente protestante dentro de poucos anos; já foi apresentado em PR 333/1990, pp. 78-87.

Há a tentativa de tomar de assalto as comunidades católicas e seus membros incautos; para tanto, são utilizados procedimentos semelhantes aos que caracterizam a lavagem de crânio ideológica ou política e a "doutrinação" sectária, procedimentos atrás expostos. Com efeito, registra-se:

1) forte campanha para desarraigar os católicos das suas origens religiosas, levando-os a romper os vínculos com a sua comunidade. Esta etapa compreende violentas campanhas de difamação do Catolicismo, campanhas de teor superficial, às vezes com base em mentiras,(1) calúnias, notícias imprecisas... Tem-se a impressão de que os arautos do protestantismo repetem "chavões" sem saber justificar o que dizem; chavões interessam porque são agressivos, não porque sejam verídicos. Assim o católico aprende a perder o amorà Santa Igreja Católica, a única que Cristo fundou.

1 Sabe-se que alguns "milagres" realizados em "igrejas carismáticas" não passam de cenas teatrais: uma pessoa sadia se faz de doente ou possessa e se submete às preces do pastor; quando este lhe manda, a pessoa se reergue "curada"!

 

2)   Ao mesmo tempo, os pregadores protestantes se apresentam como os autênticos mestres, os únicos que conhecem a Bíblia e a podem explicar. São os "libertadores" da população católica. As explicações da Bíblia que eles oferecem, são freqüentemente primárias, subjetivas, muito distantes do sentido do texto sagrado, que foi originariamente escrito em hebraico, aramaico ou grego, e não em português ou inglês. Assim pretendem ganhar a simpatia e a amizade dos católicos. Tocam fibras sentimentais e afetivas muito mais do que a inteligência, a lógica, a veracidade... Não raro cativam pela assistência que prestam no campo da saúde, da economia, do emprego..., atitudes estas que não raro atenuam ou apagam o senso crítico da pessoa beneficiada.

3)   Aos poucos se vai processando uma "reeducação" do crente, muito mais afetiva do que intelectual, baseada em preconceitos não fundamentados. Certas palavras assumem enorme capacidade de impressionar e marcar...: a veneração (que maldosamente é dita "adoração") de imagens, a Mariolatria, a Papolatria...

A desprogramação dos crentes fanáticos é muito difícil por causa dos preconceitos que lhes foram incutidos. Acontecem, porém, casos em que as pessoas verificam ser vítimas de abusos e manipulação e reagem, se ainda conservam um pouco de senso crítico. Às vezes, porém, o esgotamento físico e moral dos crentes é tal que se deixam subjugar indefinidamente pelos seus "pastores carismáticos"; querem "acreditar" nesses mestres, porque não sabem mais em quem ou em que acreditar.

Tal é a situação em que se vê a sociedade, no Brasil, do ponto de vista religioso. É uma alerta muito veemente aos fiéis católicos para que tomem consciência do significado das verdades da fé, estudem o seu Credo (para tanto servirá, de modo excelente, o Catecismo da Igreja Católica) e procurem viver generosamente a sua vocação cristã dentro da única Igreja que Jesus fundou e entregou a Pedro e seus sucessores.

 

Dom Estêvão Bettencourt


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