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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 392 – janeiro 1995

"MOSTRA-ME A TUA BELEZA!" (ex 33,18)

O Céu

 

Certa vez Moisés, num gesto muito audaz, pediu a Deus que lhe mostrasse o seu kabod (cf. Ex 33,18). O termo hebraico kabod diz originariamente peso, densidade; este peso ou essa densidade é que fazem o valor, a glória e a beleza de alguém, segundo os semitas. Moisés quis ver a face bela e fulgurante de Deus. Percebia que, afinal de contas, Ele não é um Deus terrível, que afugenta, mas, sim, um Deus que atrai, porque, sendo a Suma Perfeição, há de preencher as aspirações mais profundas do ser humano. Aliás, não é raro encontrar-se nas literaturas extra-bíblicas antigas a expressão dessa procura de ver a Deus.

 

A Moisés Deus respondeu que não é possível ao homem contemplar a face gloriosa de Deus e ainda permanecer em vida (cf, Ex 33,20). Tal é a distância entre a santidade de Deus e a pequenez do homem que este morreria se visse a Deus neste mundo.

 

Todavia o anseio natural da criatura não deixará de encontrar satisfação depois que ela se tiver purificado de todo resquício de pecado. O próprio Cristo o prometeu: "Bem-aventurados os que têm um coração puro, porque verão a Deus" (Mt 5,8). São Paulo insiste nesta verdade: "Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido" (1Cor 13,12). O mesmo se lê em São João: "Nós O veremos tal como Ele é" (Jo 3,2).

 

É este encontro com Deus face-a-face que chamamos o céu; é portanto algo bem diferente do que comumente se imagina; a bem-aventurança celeste não é uma edição revista, melhorada e ampliada da vida presente; não é parque luminoso, com fontes de água, córregos, plantas e amigos, mas é algo que ultrapassa longe essas concepções materiais. O Apóstolo diz: "O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem jamais percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que O amam" (1Cor2,9).

 

Ver a face da Beleza Infinita significa ser "insaciavelmente saciado", como afirma S. Agostinho, isto é, plenamente satisfeito, sem que haja o mínimo fastio, pois Deus só não é novo para Si; Ele será sempre novo e belo para qualquer criatura.

 

No céu veremos também os familiares e amigos que estimamos, mas... em Deus e mediante Deus. Dar-se-á o contrário do que ocorre na terra; aqui conhecemos primeiramente as criaturas, e delas passamos ao conhecimento de Deus. Na vida celeste veremos Deus... e tudo mais à luz de Deus ou à luz da Verdade.

 

Com outras palavras podemos dizer: o céu é a participação da criatura no colóquio que Pai e Filho, no Espírito Santo (Amor), entretém entre si. O ritmo da vida trinitária se torna o ritmo da vida dos bem-aventurados.

 

Um novo ano se abre como nova oportunidade concedida pela benevolência do Senhor, para que os cristãos e todos os homens de boa vontade se voltem, ainda mais certeiramente, para o Grande Encontro. Seja este o referencial permanente da caminhada de todos nós em 1995!

 

Dom Estêvão Bettencourt


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