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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 392 – janeiro 1995

Reflexões e Sugestões:

 

CURSOS PARA NOIVOS: QUE DIZER?

 

Em síntese: O Dr. Hélio Begliomini, que vem trabalhando há cerca de doze anos em Cursos de Preparação de Noivos para o Casamento, fala de sua experiência pessoal. Julga que os candidatos ao matrimônio geralmente se apresentam muito despreparados para enfrentar certos aspectos da vida conjugal: desenvolvimento da gravidez, acompanhamento pré-natal, aleitamento, vacinações, doenças sexualmente transmissíveis, métodos de controle da natalidade...

Sugere que tais Cursos sejam tão dinâmicos quanto possível a fim de captar a atenção e a simpatia dos cursistas. Ofereça-se aos participantes uma lista de livros e eventualmente uma Biblioteca paroquial, capaz de lhes ministrar leituras adequadas. Visto que são de curta duração tais encontros, parece oportuno propiciar aos que o queiram, Cursos mais prolongados seja antes, seja depois do casamento.

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Apresentamos o segundo artigo do Dr. Hélio Begliomini, complementar do anterior (Relações Pré-matrimoniais). O autor é pós-graduado pela Escola Paulista de Medicina (EPM) e Médico do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo (HSPE-FMO); merece viva gratidão da Redação de PR, com a qual tem colaborado.

 

CURSOS DE NOIVOS

 

Tencionamos neste artigo analisar, de forma concisa, o trabalho realizado ao longo de aproximadamente doze anos com relação ao Curso Preparatório para o Casamento, mais conhecido como Curso de Noivos.

A experiência acumulada foi desenvolvida numa paróquia da zona Norte da cidade de São Paulo. Isto é importante, pois algumas ponderações e sugestões jamais seriam adequadas a outras cidades e regiões deste país-continente, portador de diversas peculiaridades de ordem geográfico-histórico-econômica e culturais. Entretanto, esperamos que estas sucintas e objetivas considerações fomentem a reflexão, a fim de que possam proporcionar benefícios a quem venha a lê-las.

 

REFLEXÕES

 

Objetivos do Curso

 

A designação "Curso de Noivos", embora seja a mais usual, é infeliz, pois não indica sua finalidade. Talvez a melhor expressão que refletisse o verdadeiro sentido, fosse "Curso para Noivos em Preparação ao Casamento". Todavia nomes similares a estes são muito extensos e, talvez, pouco propícios à divulgação e assimilação. Daí a consagração, na prática, da expressão "Curso de Noivos", sendo doravante mencionada como CN.

 

O CN nasceu como uma resposta da Igreja pós-conciliar ao grande incremento de separações conjugais após o casamento; ao indiferentismo referente à condição sagrada do sacramento do matrimônio, assim como às verdades religiosas reveladas.

 

Por sua vez, a excessiva massificação da população pelos meios de comunicação social tolhe e/ou usurpa a capacidade de reflexão e decisão plenamente livre das pessoas; contribui para influenciar grande parte da sociedade, sobretudo os adolescentes e adultos jovens, levando-os sutilmente a pensar e a agir de acordo com padrões estereotipados. Em conseqüência, procura-se veicular explícita ou subliminarmente (o que é pior) um sentimento de repulsa às instituições previamente estabelecidas (Igreja.., matrimônio.., família.., etc.); e disseminam-se os conceitos de que "tudo é possível", "tudo é relativo", "tudo é certo", "se não der certo, existe o divórcio"..., em detrimento de uma ordem e escala de valores lógicas, sensatas e perenes.

 

Dessa forma o CN teve que enfrentar, ao longo dos anos, grandes dissabores com vários cursistas, que simplesmente não se queriam sujeitar a tal situação. Paradoxalmente, tais pessoas eram capazes de passar horas lendo gibis ou na manicure ou nos botequins, ou em frente a uma televisão ou no completo ócio em vez de se dignarem refletir sobre alguns pontos em seu próprio favor referentes a uma vida conjugal sadia e harmônica.

 

Felizmente, tais preconceitos têm sidos minimizados, pois, hoje em dia, um dos grandes divulgadores do CN são os próprios noivos, que, ao longo de vários anos, aprenderam que o maior objetivo do evento é a própria felicidade deles embasada numa autêntica vida cristã. Outrossim, os temas e os enfoques desenvolvidos durante o CN têm-se tornado mais atraentes, pois, em muitas situações, levam os noivos a pensar, respeitando a liberdade individual, coisa ignorada pelos meios de comunicação de massa. Da mesma forma, sentem que Cristo e sua Igreja estão mais próximos do que eles erradamente supunham ou aprenderam.

 

Perfil dos Participantes

 

Constatamos que, embora nossa população de cursistas seja de classe média, há um progressivo achatamento (por baixo) do nível cultural dos participantes. A maior parte dos noivos não se interessa por leitura de bons livros e um número não surpreendente não apresenta sede pelo saber.

 

Igualmente, observamos que na maior parte dos CNs apenas uma minoria tem noções precisas e sólidas sobre educação sexual nos seus aspectos físico e moral, sobre o desenvolvimento da gravidez, o acompanhamento pré-natal, pós-natal, aleitamento, vacinações, doenças sexualmente transmissíveis, métodos de controle da natalidade, quer artificiais, quer naturais, etc.

 

É impressionante verificar que, de modo geral, 30 a 40% dos noivos próximos do casamento ainda não conversaram sobre quantos filhos pretendem ter. Quando são indagados se já se colocaram na situação de não poderem ter filhos próprios, a resposta é ainda mais desanimadora, visto que apenas 30% dos casais já se imaginaram em tal situação. Daí depreende-se que conversas sobre educação de filhos sensu lato, adoção, planejamento familiar, etc. se tornam inexistentes, ou pouco consistentes entre os futuros nubentes. Tais entraves poderão prejudicar ou mesmo comprometer o casamento, caso não sejam superados pelo diálogo e amor sincero.

 

Um fato alentador é que, hoje em dia, diferentemente de outrora, a maior parte dos participantes se apresenta ao CN com boa vontade, não prejudicando seu desenvolvimento. Outrossim, verificamos que são poucos os que ainda alimentam um preconceito negativo com relação à programação, ou se julgam pretensiosamente acima de tudo e de todos, desprezando a sua participação.

 

SUGESTÕES

 

Pedagogia do CN

 

Quanto mais dinâmico for, melhores serão o aprendizado e a assimilação. Hoje em dia é fundamental, na medida do possível, que recursos técnicos como diapositivos, retroprojetor, tapes, vídeo sejam associados aos métodos tradicionais de dinâmica de grupo. Todos favorecerão maior participação e enriquecimento do tempo em que se desenvolvem os trabalhos. Entretanto, nada terá valor se os protagonistas das palestras ou os dirigentes e colaboradores não forem cristãos que procurem viver a palavra de Deus. É certo que o testemunho de vida fala mais alto, de forma tácita, porém profícua, do que os maiores recursos tecnológicos hodiernos.

 

Incentivo à Cultura

 

A fim de combater a inércia cultural dos participantes, compete aos dirigentes oferecer e apresentar durante os trabalhos vários livros cristãos de preço módico, dos mais variados temas, a fim de estimular os noivos a desenvolverem uma biblioteca domiciliar sadia em seu futuro lar. É oportuno que alguém possa apresentar os livros em exposição com breves comentários, com a finalidade de incentivara leitura, demonstrando explicitamente assim que já os conhece.

 

Dinâmica do CN

 

É salutar que o curso seja bem dinâmico e que, para cada função, existam pelo menos três responsáveis que se possam revezar. Isto evita acertos e correrias de última hora, na tentativa de adaptar o programa acs dirigentes, e não o contrário. Ademais evita colaboradores que se julguem insubstituíveis e até imprescindíveis para o sucesso do evento. A propósito, o programa deve ser elaborado de acordo com a realidade cultural dos participantes bem como com as condições de que se dispõe.

 

A distribuição de questionários para avaliação e sugestões por ocasião do encerramento dos Cursos, perfilando todas as atividades e seus protagonistas, contribui com elementos objetivos para se aprimorar cada vez mais o trabalho, além de se estabelecer um canal direto e sincero entre os pólos de transmissão e recepção. Não raro observamos sugestões apreciáveis para a melhoria das atividades. Neste contexto é fundamental trabalhar para que se tenha uma equipe coesa, harmônica, de formação e de vivência cristã, que se possa reciclar em suas funções e em sua espiritualidade.

 

Tempo do Curso

 

O tempo destinado ao CN é exíguo em função da responsabilidade da vida matrimonial, bem como em comparação com cursos congêneres, que antecipam outros sacramentos, tais como Primeira Eucaristia e Crisma, sem falar do que se refere ao sacerdócio. Por outro lado, a sua sistematização na realidade paroquial já é uma vitória, haja vista à correria e aos atropelos de última hora, presentes nos noivos que o procuram realizar. Entretanto, para casais mais interessados, assim como para namorados que intencionam casar bem e com bastante preparo, seria interessante instituir cursos mais demorados e mais profundos, onde, ao longo de seis meses ou mesmo um ano, pudessem participar de vários temas que forçosamente seriam de grande auxílio. Entre eles, têm-se: economia doméstica, educação sexual, paternidade responsável, educação dos filhos, aspectos psicológicos do homem, da mulher, relacionamento humano, doenças sexualmente transmissíveis, educação para o belo, para o bem, educação religiosa e sua importância no lar, harmonia e dinâmica conjugal, sacramentos, Igreja e suas pastorais, etc, etc.

 

Cursos mais longos poderiam ser instituídos em nível diocesano, e serviriam como opção aos casais mais desejosos de crescimento. Ademais poderiam ser freqüentados por aqueles que já tivessem recebido o sacramento do matrimônio colaborando na sua vivência.

 

Homogeneidade dos Participantes

 

Embora seja difícil contornar este impasse na prática atual, os Cursos poderiam, na medida do possível, ser ministrados para uma platéia que estivesse num nível cultural equiparado. A verificação de desníveis acentuados contribui para que os casais em situação inferior à média se acanhem, evitando perguntas que julgariam ser inoportunas, como também arrefece a motivação de outros casais que estão num grau de conhecimento maior. Se os participantes pudessem ser previamente alocados em cursos onde se buscasse maior homogeneidade cultural, o aprendizado, a motivação e a participação seriam com certeza maiores.

 

Secretaria Versátil

 

A presença de uma Secretaria atuante e dinâmica poderia colaborar de forma marcante no Curso de preparação para o matrimônio. O envio de um cartão personalizado, externando felicitações e desejando as bênçãos de Deus em nome da equipe do CN por ocasião do matrimonio, denotaria atenção e carinho para com os nubentes.

 

A promoção de um encontro ou mesmo de palestras após uns seis meses a um ano de vida conjugal ajudaria os casais a realizarem uma reflexão dirigida, bem como lhes daria a oportunidade de reviverem e aprofundarem o Curso realizado pré-matrimonialmente. Além disso, a Secretaria poderia ser um elo de contato que facilitasse o engajamento dos casais em outras pastorais da paróquia.

 

Através da Secretaria poder-se-ia igualmente organizar uma Biblioteca para a divulgação de bons livros, assim como a realização de uma pesquisa entre os participantes por ocasião do término do evento, avaliando os temas, palestristas e dinâmica empreendida, a fim de trazer subsídios para a melhoria de cursos ulteriores.

 

Considerações Finais

 

O CN tem-se tornado uma realidade no contexto paroquial. Ele colabora não somente para oferecer um momento descontraído e, ao mesmo tempo, sério de reflexão aos futuros cônjuges à luz do Evangelho, como também, proporciona uma noção de co-responsabilidade dos leigos nas atividades pastorais da Igreja.

 

As conquistas realizadas até o presente momento não devem deter os ânimos na busca de uma estrutura mais dinâmica de trabalho, objetivando maior informação humanística e formação cristã. A crítica construtiva, assim como a troca de experiências interparoquiais entre as diversas equipes congêneres, contribuirão para seu devido aperfeiçoamento.

 

Dom Estêvão Bettencourt


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