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Artigo

Vertentes do Modernismo

 

O que é o modernismo?

O modernismo foi chamado por São Pio X de "a síntese de todas as heresias", por ser uma heresia que se caracteriza mais por um modo de pensar que por um credo definido. Enquanto as heresias anteriores tinham um credo definido, ainda que este credo pudesse ser resumido em um só ponto do qual viessem milhares de opiniões discordantes (como o protestantismo, que crê que a íntegra da Revelação está na Bíblia; a partir daí, contudo, tem-se um espectro de opiniões enorme), o modernismo caracteriza-se pela relação do homem com a Igreja, com a sociedade, com a Revelação, com a Verdade.

 

O modernismo é baseado numa incompreensão de como opera a apreensão e o juízo, resumindo as operações de compreensão da realidade (inclusive a revelada) ao foro interno. De uma certa maneira, ele é uma forma quase irracional de aplicação da noção kantiana da incognoscibilidade da coisa em si.

 

O modernista, assim, considera que o juiz da Verdade é *ele*. Ele julga, ele condena, ele aceita. Quem dá foro de verdade a uma assertiva é ele. Ao invés de a verdade ser a adequação do intelecto à coisa, para o modernista, ela é a adequação da coisa no intelecto à intelecção da coisa. Em outras palavras: para o modernista, a realidade objetiva é percebida não como algo perfeita e completamente externo e independente do homem, mas algo que é percebido *dentro da mente humana* e então julgado em sua "verdade" pela sua adequação a uma idéia, uma intelecção prévia, daquela coisa. Assim, um modernista vê a sociedade não como algo que existe e que apresenta diferenças em relação à Cidade de Deus, por exemplo, mas como primariamente uma intelecção da sociedade (como ela "deveria ser"), o que ele usa como base para fazer um juízo sobre uma sua compreensão da sociedade tal como ele a percebe (não tal como ela é na realidade).

 

Assim, um modernista de esquerda (cujos erros são mais atacados e é mais fácil perceber por não se revestir de uma roupagem tradicional) vai ver a sociedade como, primariamente, uma espécie de reunião de anjos, em que todos são bons e só querem e fazem o bem. Quando ele percebe a sociedade tal como ela é imaginada por ele a partir do influxo dos sentidos, com todos os problemas decorrentes do Pecado Original, ele vai se levantar contra tudo o que é restrição: ao homossexualismo (condenações morais), ao crime (ação da polícia), à crença nos piores absurdos (dogma), etc. Isso ocorre pq ele percebe a realidade não como ela é, mas como uma construção mental operada a partir do influxo dos sentidos, de validade *menor* que a sua intelecção prévia da sociedade, que é usada como base para juízo da construção mental. É por isso que não adianta mostrar para um modernista que a ausência de punição de crimes faz com que a criminalidade aumente: para ele, o problema não é a criminalidade, mas a repressão, e se os criminosos cometem crimes, eles o fazem sem saber o que estão fazendo, forçados externamente pelas circunstâncias sociais (pobreza, etc.). Não adianta dizer que a maior parte dos pobres não comete crimes, não adianta dizer que a formação moral é o que faz com que não se cometa crimes, servindo a ação da polícia para coibir a ação daninha dos que não tiveram, ou não se ativeram a, uma formação moral sólida. Afinal, o pressuposto é que as pessoas são boas, e as restrições sociais é que as fizeram más, e tudo será julgado a partir disso, não da realidade externa.

 

No âmbito da liturgia, isso significa que, para o modernista de esquerda, a liturgia é um "espaço celebrativo" em que se vai forçosamente inventar, criar símbolos que celebrem o homem. Afinal, é o homem a medida de todas as coisas e a inteleção humana a medida da Verdade. A liturgia do modernista de esquerda precisa forçosamente ser um reflexo externo projetado no tal "espaço celebrativo" da sua intelecção ideológica prévia da realidade, servindo como um lugar de modelagem da sua percepção interna da realidade àquela intelecção.

 

Mas também há o modernista de direita. O que significa ser de direita?

 

O termo "direita" referia-se originalmente aos que, na Assembléia revolucionária francesa, sentavam-se do lado direito e diziam "menas, menas". :)

 

A principal característica da direita é a projeção teleológica de um passado próximo supostamente idílico, fazendo uma intelecção prévia que serve de base de juízo da sociedade não a partir de uma teleologia utópica projetada para o futuro, como no caso do modernismo de esquerda (que sonha com uma sociedade *futura* sem polícia, sem classes sociais, em que as pessoas expressam livremente a bondade essencial de seu ser e todo mundo é feliz e contente), mas de uma construção mental de um passado próximo supostamente idílico. Isso faz com que o modernismo de direita seja frequentemente confundido com o conservadorismo, que é outra coisa completamente diferente.

 

O conservador verdadeiro percebe a sociedade tal como ela é (ou seja, adequa a sua intelecção da realidade à coisa em si, fora dele), e na sociedade percebe o que está ou não de acordo com a Lei Divina, *mesmo que esta coisa nunca tenha ocorrido antes, mesmo que ela seja uma novidade social*.

 

O modernista de direita não percebe nem quer perceber a realidade. Ele percebe, antes de tudo, uma sua intelecção de como a sociedade *deveria ser*, na forma de uma visão com óculos cor-de-rosa de um passado próximo. Isto faz com que o modernista de direita se apegue a uma visão utópica da sociedade que vai variar de geração para geração. De Maistre, por exemplo, usava o Antigo Regime como base de juízo da realidade da sua percepção dos fatos. Já os modernistas de direita mais recentes vão usar épocas mais recentes para tal.

 

Todos, no entanto - de esquerda e de direita -, vão se recusar a perceber a sociedade tal como ela é, independentemente do que lhes é trazido pelos sentidos, percebendo e julgando apenas uma construção mental do percebido pelos sentidos, sendo o juízo feito a partir da adequação do percebido a uma estrutura mental prévia que consiste numa intelecção utópica (em que, para o modernista de esquerda, o homem é bom e a repressão de qqr tipo é má e, para o modernista de direita atual, uma visão idílica da sociedade burguesa do auge da Modernidade - meados do Século XX - é o paraíso na terra).

 

Ambos os tipos de modernista, de esquerda e de direita, vão se recusar a se sujeitar à Igreja, por uma razão simples: eles não a vêem.

 

Para o modernista de esquerda, a Igreja (visível, una, santa, católica e apostólica) é simplesmente um mecanismo de repressão entre tantos outros, logo algo fundamentalmente *falso* por não se encaixar em sua intelecção prévia. Se ele se percebe (ou melhor, se "sente") católico, ele vai procurar fazer com que a Igreja se torne "verdadeira", ou seja,passe a ser um reflexo daquela utopia. Aí a Missa vira festa que celebra o homem (que é bom), a pregação passa a ser sobre como se sentir bem, o sacerdócio passa a ser uma representação da comunidade (não havendo razão alguma para que seja necessária a ordenação ou para que não seja aberto a mulheres, sodomitas, etc.).

 

Para o modernista de direita, a Igreja (visível, una, santa, católica e apostólica) é algo que não se coaduna com a sua visão fantasiosa de uma suposta utopia realizada na sua intelecção distorcida da sociedade burguesa do auge da Modernidade, portanto algo fundamentalmente *falso* por não se encaixar em sua intelecção prévia. Daí as acusações absurdas de haver uma "Roma criminosa", da aceitação irrefletida do delírio evidente de meia-dúzia de gatos-pingados resmungando contra o Vaticano serem "a verdadeira Igreja" (possível por ser o critério de verdade não a adequação do intelecto à coisa, mas a adequação da intelecção da coisa à intelecção utópica prévia) , quiçá do Papa não ser sequer verdadeiramente Papa, sim um "herege", tal como "comprovado" pelo juízo de uma intelecção falha do sentido de pronunciamentos papais feita à luz de uma igualmente falha intelecção prévia do que seria a ortodoxia utópica.

 

Para o modernista de direita, assim, na verdade ("verdade", mesmo, no sentido de adequação do intelecto à coisa) é impossível que a Igreja se torne "verdadeira" (ou seja, a percepção da Igreja por parte deles seja adequada à intelecção prévia do que seria a Igreja utópica). É um sonho utópico, tão utópico quanto os delírios de bons selvagens saltitantes em sua bondade primeva dos modernistas de esquerda. Para que a Igreja se tornasse "verdadeira", na visão dos modernistas de direita, seria necessário que toda a sociedade se tornasse um gigantesco filme de Frank Capra, com padres sempre santos, homens sempre de terno, jovens de cara lavada e idéias puras de heroísmo. O que, para um conservador, para um tradicionalista real, é na melhor das hipóteses uma expressão historicamente defasada de um ideal a buscar (moral, cuidado no traje, etc.; o traje burguês e moderno por excelência, o terno, não tem absolutamente nada de intrinsecamente bom, por exemplo), para o modernista de direita é premissa inicial e básica, condição sine qua non, da "verdade" da Igreja visível.

 

Assim, para o modernista de direita, a solução é construir uma "paróquia" cenográfica, em que possa projetar a sua intelecção delirante e utópica do passado próximo. Não há, na verdade, nenhuma diferença essencial entre a "paróquia" cenográfica do modernista de direita e a "comunidade" cenográfica do modernista de esquerda. Para os modernistas de esquerda aquele teatrinho (no qual muitas vezes ocorre Consagração verdadeira) é uma "realização", uma "verdadeirização" de uma "comunidade" utópica, e o fato de aquilo ocorrer (ou não) numa paróquia real, com um padre legitimamente ordenado (mesmo que celebre de ceroulas), inserido na hierarquia da Igreja, etc., é completamente irrelevante. Do mesmo modo, o modernista de direita, para quem a Igreja visível é "falsa", faz um teatrinho em que é irrelevante o fato de o padre está suspenso de ordens (o que faz da absolvição que ele tente dar sem ser in articulo mortis seja puro teatro), é irrelevante o fato de que a Tradição manda submeter-se ao Romano Pontífice, é irrelevante o fato de que a definição da validade das ordenações episcopais do Bispos acéfalos modernistas de direita depende diretamente de uma definição do CVII, é irrelevante, em suma, que a Tradição verdadeira da Igreja seja algo completamente diferente daquele delírio utópico modernista. A Tradição real é algo que perpassa eras radicalmente diferentes, algo que absorve e catoliciza novidades advindas de meios pagãos (como a aliança de casamento ou a árvore de natal) ou heréticos (como o terno e gravata da burguesia calvinista). É algo vivo, que conserva o essencial que é ignorado pelos modernistas de direita e de esquerda, e digere o acidental, expelindo o que não é aceitável, que não é catolicizável, e absorvendo o que o é.

 

Ser conservador, ser tradicional, defender a Tradição, são coisas radicalmente diversas de ser um modernista de direita, ainda que possa haver acidentes em comum. Um modernista de direita vai frequentemente *parecer* conservador, chegando a afirmar sê-lo. Do mesmo modo, ele vai se afirmar "tradicionalista", quando na verdade o que ele defende é radicalmente contrário à Tradição, é radicalmente moderno, é radicalmente contrário à Fé recebida pelos Apóstolos. A eclesiologia do modernista de direita é radicalmente errônea; basta ver, por exemplo, as acusações feitas pelos Traditioninaction da vida contra a JMJ de Madri, que podem ser resumidas em "há algum joio no meio do trigo, logo este não é o trigal do Senhor". E o mais engraçado é perceber que o que eles apontam como joio, no mais das vezes, não é nada de essencialmente errado, sim uma inadequação da percepção deles dos acidentes da juventude do Século XXI à intelecção utópica prévia de como *deveria ser* uma juventude "real" (que é algo tirado de filmes antigos, com jovens penteadinhos de cara lavada, vestidos com terninhos que nunca se sujam, sempre dispostos a atos heróicos). Mesmo a diferença absurda e gritante entre a situação deles próprios (que são, final, seres humanos tão exatamente sujeitos a falhas quanto qualquer outra pessoa) e a utopia lhes passa desapercebida. Gritam de horror ao ver jovens de calça jeans que acabaram de passar dias à base de sanduíches, dormindo ao relento por amor ao Santo Padre, mas não percebem que eles mesmos não se adequam ao ideal utópico e, para piorar a situação, não estão dormindo ao relento e se alimentando de sanduíches à espera do Vigário de Cristo, mas sim sentados confortavelmente resmungando e julgando.

 

Todos nós pecamos, todos nós somos pecadores. No meio do trigal do Senhor há joio, e todos nós o somos; se formos trigo, é por mérito de Nosso Senhor, e *através da Igreja visível, una, santa, católica e apostólica*, não nosso nem, muito menos, de uma intelecção utópica.

 

Reclamações com Adão e Eva, no balcão número um.

 

 

Prof. Carlos Ramalhete


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#0•A998•C204   2012-12-19 17:19:42 - Convidado/frandyarc@hotmail.com
Otimo texto. Mpstra que muitas vezes o dito tradicionalismo nada mais é de que uma soberba disfarçada de zelo.

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:-)